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Discurso de posse

DISCURSO DO SR. ADELMAR TAVARES

SR. PRESIDENTE. Srs. Acadêmicos.

Sainte-Beuve, com aquele sorriso de amável ironia, costumava dizer de Lamartine: “C’est un ignorant qui ne sait que son âme.”

Também, Srs. Acadêmicos, longe de querer comparar-me a Lamartine, a quem tão-somente invoco para ajustar-me ao capelo da frase humorada do estilista dos Portraits littéraires, asseguro-me mais do que nunca, entre vós, nesta hora em que a tocante generosidade da vossa acolhida me faz os olhos cheios d’água, que nada tenho senão minh’alma, e nada sei senão minh’alma.

Foi, porém, de toda esta alma que eu quis, desejei, sonhei a vossa Companhia. De há muito namorava essa orgulhosa e esquiva castelã que se resguardava através de altas e quase inacessíveis muralhas, procurando fazer-me visto dos seus olhos, ouvido dos seus ouvidos, pressentido por meus passos. De começo nem se apercebeu da minha anônima existência. Aprendi, porém, nos livros de psicologia amorosa, que insistir é quase sempre caminho de vencer, e enramei de cantigas, por seu amor, as cordas de uma pobre lira, que estou certo carrego por destino.

Sacudido no torvelinho da vida de hoje, abraçando uma carreira que estremeço, mas que um preconceito injustificável teima em dissociar das cogitações de pura Arte, pela incongruência de se avizinharem na mesma estante de biblioteca a Divina Comédia e o Corpus-Juris; de não ficar bem dizer vilancetes a voz que pede oficialmente pela Justiça Pública; de se enrolar uma lira numa beca, jamais neguei o meu amor pela poesia... Poesia! Visão de mulher linda e triste, entrevista pelos meus olhos atônitos de sua beleza, numa névoa doirada, desde os folgares infantis, quando com os outros meninos, lá longe, na velha fazenda de meu pai, ao cair das tardes, eu lia para que eles ouvissem, à sombra de uns velhos tamarindos melancólicos, que o sol poente cobria de oiro, “Os meus oito anos”, das Primaveras, de Casimiro; a “Enchente”, de Varela, e as “Vozes d’África”, de Castro Alves. – Poesia! Visão de mulher linda e triste, sobrevinda como sombra maternal em as minhas vigílias colegiais, e depois, aos meus passos arrebatados através da velha Faculdade de Recife, herdeira, ainda a esse tempo, da tradição coimbrã de uma estudantada trovadora, que impunha como ação passível de pena dormir com luar no céu e violões na terra!... Poesia! Visão de mulher linda e triste, enfermeira consoladora, que enxugou minhas lágrimas de exilado, quando vi sumirem-se pouco a pouco de meus olhos a ponta dos campanários e as palmas verdes dos coqueiros da terra onde nasci! Poesia! Visão de mulher linda e triste, em cujos ombros de anjo nunca deixei de inclinar a cabeça para sorrir das minhas alegrias ou chorar dos meus reveses!...

Entre a Realidade e o Sonho, debateu-se sempre a minha alma, como um canário entre os ponteiros de uma gaiola.
Quanta vez, esmagado pelo desalento, zurzido pela Megera, – a Vida, que tão pouco deixa sonhar! – atropelado nos vaivens do praticismo absorvente do momento que passa, prometi a mim mesmo esvaziar os armários de literatura, distribuir os livros literários aos amigos, sem deixar resquício sequer desses doces venenos, e abandonar os versos que me poderiam prejudicar a carreira. “Leria filosofias, leria ciências, leria Direito. Nada de versos...” E espanava a minha grande mesa de trabalho, empilhava-a dos grossos autos do Foro, superpunha os Lobões, os Demolombes e os Chironis... e respirava!

Era, porém, questão de “engano ledo e cego”. No primeiro jornal que me caía às mãos, trazendo um artigo sobre a sucessão dos colaterais e um soneto enquadrado em florões caixa-alta, eu lia o artigo sobre a sucessão dos colaterais, mas lia primeiro o soneto... Se partia pressuroso para o escritório, à hora aprazada dos clientes, e encontrava homens de letras, estava perdido... Por mais que lhes dissesse, com grande espanto deles, que me achava inteiramente entregue aos negócios, que havia quebrado a lira para sempre, que de letras somente as cambiais me interessavam, riam... Riam porque estavam certos de que só a mim mesmo procurava iludir...

E o que é verdade é que uma semana depois, sobre a vasta mesa de trabalho, com tão cuidadoso afã espanada para os autos do Foro e os graves estudos, já se insinuavam sorridentes os Coelho Neto por entre os Lobões, os Albertos de Oliveira, por entre os Demolombes, os Geraldy por entre os Pereira e Sousas.

Tinham passado os arrufos do Sonho com a Vida. Reconciliavam-se. “A visão de mulher linda e triste” sorria-me. E eu caía novamente em seus braços, justificando os decassílabos quinhentistas de Ferreyra: Não fazem dano as Musas aos Doutores. Antes ajuda às suas letras dão”...

E dava de ombros aos gritos da Realidade egoística que clamava ser o Sonho a renúncia, para cobrir-me da música invisível daquela “sombra de oiro” que se tornava a minha própria sombra...
Jamais reneguei a minha Arte, por envergar uma beca. Jamais deixei de entoar uma estrofe com a mesma voz com que reclamo pela Justiça. Jamais deixei de amar a Cigarra por temor à Formiga.
E um dia, só por isso, estou certo, a Castelã de altas ameias atentou no seu insistente enamorado. Deu-me o seu primeiro sorriso. Insisti. Deu-me o segundo. Deixou cair da altura da sua janela doirada, para as asas de umas trovas que eu lhe enviara, uma rosa dos seus cabelos... Exultei. Ela aceitaria entre os seus sábios, os seus pensadores, os seus filósofos, os seus Poetas, os seus Artistas, quem “não tinha senão sua alma”...

Com a desaparição de Vicente de Carvalho, deu-me a Academia alguns dos seus sufrágios. Com a de João Luís Alves, faz-me sentar entre vós, dando-me as boas-vindas pela palavra de Laudelino Freire, tão grata ao meu coração e aos meus ouvidos, nesta noite que assinalo a “minha noite cheia de estrelas”.

*  *  *

A Cadeira em que me dais a honra de sentar na vossa Companhia, é a de Luís Nicolau Fagundes Varela, uma das vozes mais altas e inconfundíveis do Lirismo Brasileiro.
O caráter, ou melhor, a preeminência das idéias e dos sentimentos, é o que mais interesse deve despertar no estudo de um artista ou de um escritor. Às vezes, esse caráter se harmoniza com as vicissitudes da vida real; outras, torna-se-lhe impossível essa adaptação, e a sua estesia entra em conflito com todas as conveniências de outra ordem. Esta é a hipótese mais freqüente.
O orago desta Cadeira, sensibilidade excepcional, foi em vida um predestinado. Compreendendo a sua vocação, não hesitou um momento em segui-la. A preeminência de idéias e sentimentos, a que aludi, é flagrante na sua obra, tão diversa, na forma e no fundo, da sua vida contingente.
Dificilmente se encontrará em uma mesma criatura tão viva e tocante intuição de beleza em tão violento contraste com existência tão desordenada, e não é sem um respeito quase supersticioso que eu me aventuro a fazer algumas apreciações nesse sentido.

Confrontando a tragédia quotidiana desse homem com a inesgotável disposição musical do seu estro, afigura-se-nos quase incrível resistisse a tantos embates. O certo é, porém, que resistiu com a mesma consciência inflexível de uma vocação.
O caráter predominante de um artista pode estar em conflito com o senso comum. Nem por isso, porém, diante da sua obra, seria lícito restringir a admiração a que se impõe. Que importam os desvarios pessoais do autor àquele que ajuíza da sua obra, tanto mais de admirar quando ela foi trabalhada através de todos os ódios, e de todas as invejas?!
O comum das criaturas abandona-se ao arbítrio das eventualidades, mas os grandes espíritos, ao contrário, aproveitam as contingências, e fazem dos seus precipitados a matéria psíquica das suas realizações.

Aproveitemos, pois, a vida episódica dos artistas, não para só por ela julgá-los, mas como fonte preciosa para melhor conhecimento das suas qualidades e dos seus defeitos.
A vida de Fagundes Varela foi talvez a mais tormentosa entre as dos poetas da sua geração. Como se já lhe não bastasse um fundo ingênito de tristeza, a hora em que veio ao mundo foi a mais propícia à intensificação desse sentimento. Essa era a hora do romantismo, que agitou na juventude brasileira, como nas outras, o mesmo inconformismo com as realidades pungentes da vida.
Tenho como fato certo a predestinação desse poeta, mas a época em que aflorou o seu espírito muito concorreu para a nota de constante melancolia do seu plectro, se bem que este fosse, como foi, suscetível a todas as vibrações. Tudo nele é música. Tudo nos seus versos corre em harmonia com as imagens do mundo sensível, ou com as idéias que descortina, ou com as emoções que instrumenta. E essa musicalidade é que lhe imprime à estrofe tanta despreocupação de outros efeitos meramente ornamentais.

Se tal espontaneidade facilitou a esse maravilhoso orquestrador de ritmos a censura de menos cuidoso na plasticidade verbal, deu-lhe, em compensação, a coroa indisputável de grande prestígio nas salas de recitações e nas tunas românticas dos trovadores noturnos. Ele teve essa imortalidade lá de fora. Teve a consagração popular das cordas das serenatas, de norte a sul do Brasil, e eterno viverá na alma do povo, que não deixa morrer os legítimos intérpretes e definidores dos sentimentos e segredos do coração humano:

Não te esqueças de mim quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpétuas de finado
Junto à cruz do meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia ao teu poeta.
– Não te esqueças de mim que te amo tanto!

Ainda hoje, ao luar das terras do Norte, se esfloram os motivos líricos das suas estrofes. É que todas elas são genuinamente brasileiras; – brasileiras pela sentimentalidade étnica, e pelo descritivo panorâmico das nossas selvas, mares e campos. Varela, nesse particular, não foi excedido por nenhum dos outros românticos. Possuidor de todos os recursos da sensibilidade, ninguém melhor do que ele desdobrou em painéis as coisas e os aspectos da nossa ambiência, já os descrevendo como impressões materiais, já principalmente aproveitando-os à maneira de certos pintores, como efeitos, para melhor pôr em destaque a sua impressionabilidade. Árvores, flores, céus, mares, e rios, tudo a luz do seu nome poético iluminou, e de tudo foi ao mesmo tempo um reflexo.
Amando com transporte a Natureza, e inscrevendo, como Eça, no seu escudo, que “só na Natureza devemos buscar consolações, porque o corpo de Jesus anda nas flores das laranjeiras”, o poeta do Evangelho nas Selvas fez desse amor uma religião. Mais: fez uma embriaguez divina!

A vida nas cidades me enfastia,
Enoja-me o tropel das multidões,
O sopro do egoísmo e do interesse
Mata-me n’alma a flor das ilusões...

E o coração, seteado de dores, procurava no campo, entre roceiros, para a sua alma, a paz e a verdade purificadoras, que ele julgava alheias e distantes dos homens e das mulheres das cidades:

O balanço da rede, o bom fogo
Sob um teto de humilde sapé,
A palestra, os lundus, a viola,
O cigarro, a modinha, o café;

Um robusto alazão mais ligeiro
Do que o vento que vem do sertão,
Negras crinas, olhar da tormenta,
Pés que apenas rastejam no chão!...

E depois, – um sorrir de roceira,
Meigos gestos, requebros de amor,
Seios nus, braços nus, trança solta,
Moles falas, idade de flor...

Pensava achar na Natureza, longe do rumor e das mentiras convencionais, dos enganos e artifícios da civilização – a felicidade; e candidamente o proclamava, como uma criança que, no fundo de um espelho, parece ver a companheira de brincos descuidosos.
Ferido cruelmente, implacavelmente apunhalado pela morte da esposa e do filho – o objeto mais alto de sua adoração, – procurou resistir à impiedade do seu destino pelos processos das libações românticas tão próprias daquela fase de transição histórica, ora buscando consolações bucólicas, como Virgílio, ora apelando, como veio finalmente a fazê-lo, para uma nova existência conjugal. Nada, porém, trazia paz àquele coração. No vinho, doirada mentira dos deuses da Hélade, não encontrava nem a verdade, nem o esquecimento. Mentiam-lhe também as “celestes bafagens e os lânguidos perfumes dos seus vapores”. No fundo das taças só encontrava o travo dos seus próprios infortúnios, e o engano fugidio de uma ventura que nunca lhe sorriu...

Escravo, enche essa taça!
Enche-a depressa, e canta!
– Quero espancar a nuvem da desgraça,
Que além nos ares lutulenta passa,
E meu gênio quebranta...

Há quem não tenha querido ver no cantor de Vozes da América, nem a época em que desabrochou o seu gênio (“no vinho estavam a verdade e a inspiração, e o poeta devia buscá-las, como um grego no falerno das ânforas” – era a legenda dos seus contemporâneos) nem as determinantes que o levaram a buscar por esse modo o esquecimento. Não; não quiseram ver, cegos da pior cegueira, para verem tão-somente nas suas libações motivo de inferioridade moral. Inveja ou injustiça, ainda hoje procuram carregar sempre dessas sombras a grande moldura do seu perfil.
Os golpes sucessivos do Destino davam-lhe dias de ânsia e noites de inquietude. Indormido, noctívago, assistia ao desfiar das horas mortas, tentando encontrar talvez na alma recolhida da Natureza a calma para os seus tormentos; mas, por suprema ironia, essas horas se desprendiam morosas, arrastadas, e cruéis, e lhe caíam no coração como gotas candentes. E ele clamava:
Há umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia,
Como as horas de Maria
Soluçando aos pés da cruz!...

E um doce e triste ideal de piedade mística por todos, e por tudo, veio por fim orientar-lhe o destino interior, tornando-se-lhe esta a fase culminante do seu gênio. Atentai no Diário de Lázaro, e no Evangelho nas Selvas! O primeiro é a dor, a dúvida, a esperança, e a decepção, todos os ritmos da miséria humana. O segundo, a fé, com todos os milagres do pensamento, e, dominando um e outro desses poemas, a mesma extraordinária emocionalidade criadora de imagens.
Para os espíritos irrefletidos, esse natural expressionismo é um simples dom, mas para os psicólogos, é a demonstração viva da identificação do artista com o objeto a que quis infundir o sopro da sua imaginação taumatúrgica. “Toda obra de arte es una personalidad”, diz Vargas Vila. “El artista vive en ella, despues de que ella vivió largo tiempo en él.”

E é de ver quanto foi intenso o nativismo panteísta desse escritor da terra, e quanto a sua receptividade cristã foi excepcional, e soube refletir todas as virtudes da raça. O amor às nossas selvas vibra de tal modo nos seus versos, e neles adquire tanta ductilidade, que o faz a um só tempo, como poeta, o nosso mais impressivo e expressivo cantor de paisagens e estados d’alma. Não precisou, para ser tão eloqüente, de falsificar as coisas ou desvirtuar os sentimentos. Bastou-lhe ampliar e embelezar tudo que viu.

Neste momento de renovação de valores, e volta ao primitivismo dos instintos estéticos, nenhum poeta das gerações precedentes é mais atual do que o dos Cantos Meridionais, quer pelo individualismo lírico, quer pela mobilidade rítmica da sua poética. A brasilidade em Fagundes Varela resistiu a todos os convencionalismos literários, clássicos ou românticos, e por isso o seu renome há de crescer à proporção que se for intensificando a consciência nacional. Pouco importa que outros tenham sido mais exímios na estrutura de suas estrofes patrióticas, mas verdade é que nenhuma estrofe saiu de peito brasileiro, mais ardente, nem mais efusiva, que as do cantor do Pendão Auriverde.
Diante da Natureza, dos homens e das coisas de nossa terra, a flor aberta desse coração generoso ostenta todo o esplendor e toda a riqueza virgem do nosso sangue adolescente.

Uma crítica impenitente já se deu à deplorável paciência de esmiuçar as incorreções sintáticas da obra do grande poeta fluminense, esquecendo a linda sentença de Valle Inclán de que “el verbo de los poetas, como el de los Santos, no requiere decifrarse por gramatica. Para mover las almas, su essencia es el milagre musical”, e a poesia não foi em Varela uma exibição de vaidade, mas uma divina angústia de dizer musicalmente toda a vibração da sua alma com sinceridade e alvoroço.
Em face da manhã que, descerrando a cortina da alvorada, abre a flor do dia por entre o vozeio dos pássaros, e a alegria apolínea das coisas, o Poeta, como um Deus magnífico, grita do topo da serra o seu hino de quatorze versos na sinceridade mais flagrante da lira do seu coração:

Tudo é luz e esplendor!... Tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minha alma triste, e sem um sonho,
Repete, olhando o prado, o rio, a espuma,
Oh! mundo encantador! Tu és medonho!

Nunca ele cantou, sem que lhe fechasse o canto, o arquejo de um soluço. Nunca ele riu, sem que lhe fechasse o riso, o fio de uma lágrima...
Raros homens conheceram como ele a dor, este monossílabo profundo. Por isso, ferindo com vibratilidade todas as outras notas do seu heptacórdio, foi a da elegia a que lhe coroou a Musa de estrelas e de prantos. Aí estão os brados mais altos da dor humana, transfundidos no “Cântico do Calvário”.
É ele mesmo quem no-lo diz:

Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta,
Movem-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda parte onde arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias...

Se lhe cabe a maior glória no gênero elegíaco, não é menos admirável ou sentida a nota da melancolia cristã, em cuja religião a sua alma se refugiou açoitada de todas as desilusões, e tempestades, e é nos acordes maravilhosos destes versos, a que ele chamou “Voz do poeta”, que a harpa desse coração crivado de espinhos atinge às proporções do sublime:

Perdão, Senhor meu Deus! Busco-te embalde
Na natureza inteira! O dia, a noite,
O tempo, as estações, mudos sucedem-se,
Mas eu sinto-te o sopro dentro d’alma!
.............................................................

Da natureza inteira que aviventas,
Todos os elos a teu ser se prendem,
Tudo parte de ti e a ti se volta;
Presente em toda a parte, e em parte alguma,
Íntima fibra, espírito infinito,
Moves, potente, a criação inteira!
Dás a vida e a morte, o olvido e a glória!
Se não posso adorar-te face a face,
Oh! Basta-me sentir-te sempre e sempre!

Eu creio em ti! eu sofro, e o sofrimento,
Como ligeira nuvem se esvaece
Quando murmuro o teu sagrado nome!
Eu creio em ti, e vejo além dos mundos
Minha essência imortal brilhante e leve,
Longe dos erros, perto da verdade,
Branca, dessa brancura imaculada
Que os gênios inspirados nesta vida
Em vão tentaram descobrir no mármore!
Senhores! Voz de tão alto ressôo atravessará os tempos cada vez mais viva e harmoniosa. Não morrerão jamais os ecos dessa grande lira que os dias transcorridos fazem cada vez mais bela, cada vez mais nossa, cada vez maior!
Bendito seja, pois, o Gênio tutelar desta Cadeira, esse que a pobreza dos meus pincéis mal pôde tremulamente debuxar!...

*  *  *

Preso às disposições dos vossos Estatutos e ao dever de ocupar-me, principalmente, da obra do meu antecessor, só se me dão rápidos instantes para homenagem às três grandes sombras que sob o orago de Fagundes Varela aqui passaram antes de João Luís Alves.
Com a mesma unção de quem atira, embora pressuroso, um ramo de rosas votivas ao pé de um altar, inclino-me ante essas grandes efígies que avultam em toda a sua serena e olímpica majestade: – Lúcio de Mendonça; Pedro Lessa; Eduardo Ramos. Levanto-lhes eucaristicamente o meu coração.
Lúcio de Mendonça! O poeta dos meus dias escolares, a quem li com a alma dos quinze anos, e cujas Névoas Matutinas no encanto inebriante das suas estrofes bafejaram de orvalho as minhas primaveras... Devo-lhe a minha primeira lágrima comovida e o meu primeiro êxtase.

Criador desta Cadeira, formando com Machado de Assis e Nabuco a trilogia oracular da Academia, ele se armou cavaleiro, quando dos últimos românticos; e como aqueles, chorou seus amores, cantou sua Dama, bateu-se pelo seu ideal, amou o seu sonho. E o amou com elegância, sem subterfúgios. Não negou também a sua arte por temor da sua beca de magistrado. Têmpera de combativo, sob a armadura do cruzado, batia fortemente um coração de poeta. Qualquer que fosse a etapa da sua vida, qualquer que fosse a manifestação do seu espírito, o poeta ali estava, a alma em vôo para as alturas, a cabeça voltada para as estrelas, os olhos ardentes de fé. Enrolado na sua toga, valoroso como um romano, pelejava pelo Direito com o mesmo ardor e o mesmo desassombro com que na propaganda da República vergastava na cadência das estrofes, na tribuna das praças, nas colunas da imprensa reacionária, no livro, na palavra, no jornal – “essa metralhadora esplêndida, o jornal”, como ele nos diz, – tronos e czares, púlpitos e reis.

No entanto, quem diria, exclamou Pedro Lessa quando aqui o substituiu, que esse truculento republicano tivesse levado toda a vida a lamentar, na intimidade de família, ter uma vez, por peraltice de infância, furado os olhos de um passarinho... Mas se era justamente nesse contraste que estava Lúcio, o homem, que estava Lúcio, a obra! Leia-se Vergastas. Leia-se Alvoradas. Rolam por aquelas estrofes os clangores de uma trompa de guerra e os amavios de uma avena pastoril. “Dom João do Ideal!” – poderíamos chamar-lhe, como Rodenbach a Mirbeau. Vendo-se-lhe o passo firme e duro, o porte marcial, o rosto emoldurado na barba negra, e aqueles olhos de ovelha, mansos e doces, iluminados de um clarão imaterial, a gente ao defrontá-lo hesitava, se estaria diante de um santo ou de um guerreiro.
Já se observou que se bem que levados por pendores de estudos e tendências de espírito diversos, um mais inclinado para a poesia e para a ficção, o outro para a filosofia e para a história, como na estrutura moral se confundia essa maravilhosa figura com a de Pedro Augusto Carneiro Lessa! Ambos arrebatados do mesmo ardor na defesa das idéias, no mesmo transporte de convicções, pertenciam a essa nobre estirpe de homens raros, que não sabem bater-se senão em campo aberto.

Pedro Lessa! Juiz, filósofo, beletrista, advogado, em qual das modalidades seria maior? Parece que o vejo ainda... Alto, forte, a cabeça branca encimando um busto de atleta, uns olhos vivos a luzirem através de uns vidros de grau... A primeira vez que o defrontei, foi na arena das brilhantes pugnas do seu espírito: no Supremo Tribunal. Agitava-se uma discussão de habeas corpus, na interpretação do texto constitucional em debate. A sala estava repleta de advogados e curiosos, e os jornais do dia haviam agitado a opinião para o julgamento da nossa mais alta Corte de Justiça. Ia em meio a discussão. Pedro Lessa falava, havia mais de uma hora, entrincheirado numa série de argumentos jurídicos, cada qual mais persuasivo, mais convincente, mais quente no calor da sua palavra, entre livros que abria, e notas que consultava, em meio de uma verdadeira fuzilaria de apartes de outros colegas, que procuravam, em voz alta, animadamente, aluir o monumento expositivo que erguia. E a cada instante ele parava, ouvia, e num leve sorriso – “Mas, Sr. Ministro, o que eu afirmo é tão claro que incomoda...” (Era esse sempre o seu refrão habitual). E entre a rajada de apartes e opiniões divergentes, empinava o busto magnífico, resplandecia-lhe o rosto, e nada o perturbava na linha de defesa de suas idéias, cada vez mais fortificado de novos e copiosos motivos de doutrina e jurisprudência. Inflamava-se-lhe a voz, agigantava-se, transfigurado, desferindo raios, todo ele numa só força, numa só afirmação, numa só vontade: convencer! Formidável, esse campeador da Justiça!... Depois, dado o voto, nesta, como de outras feitas em que o vi, fechava os livros que abrira, enrolava as tiras de papel anotadas, e deixava-se ficar tranqüilo na sua cadeira, quase ao fundo da sala, como um leão fatigado, olhando numa atenção religiosa o colega que tomava a palavra, e, agitando automaticamente, como de seus hábitos, um pequeno leque negro, indiferente ao rumor que os seus próprios argumentos tivessem despertado na assistência.

Se Lessa, como Lúcio, foi, como já se disse, um romano por amor do Direito e um heleno pelo amor da Beleza, um heleno e um romano o foi também esse outro vulto, igualmente admirável, que assinala esta Cadeira: Eduardo Ramos, prosador de linguagem tersa, que como um ourives paciente tantas jóias nos legou na Correspondência de Erasmo e nas Prosas de Cassandra.

Advogado, parlamentar, poeta, escritor, artista sutil como um ateniense, observa Rui que ninguém, entre nós, “meneou melhor os segredos da ironia, ninguém lhe deu mais lustre às elegâncias, ninguém lhe rendilhou com mais engenho a graça, ninguém teve mão mais hábil em aligeirar o chiste, em despedir o sarcasmo”. Riu amargamente da vida e dos homens; e foi em pleno esplendor que a morte, a suprema ironista, o levou, não concedendo que realizasse uma das suas mais afagadas aspirações – a de sentar-se na vossa Companhia.

*  *  *

O grande claro aberto com a desaparição de Pedro Lessa, que a Morte não deixou Eduardo Ramos preencher, chamastes a fazê-lo essa brilhante individualidade, tão viva ainda, entre nós – João Luís Alves.
Se há verdade na superstição de que em cada berço que balança tecem as Fadas o destino das criaturas, sobre o berço de João Luís as fiandeiras invisíveis teriam tecido: – Brilharás, e não repousarás.
Como os astros de própria luz que não repousam, assim também a marcha do seu espírito por este mundo.

Nascido numa fazenda de Juiz de Fora, passado o período de infância, aprendidas as primeiras letras, o menino João Luís já não sentia seduções para trepar as árvores e correr as montanhas. Preferia ler os jornais que vinham da Corte, cheios, àquela época, dos luminares do Império, do verbo flamejante da Abolição, e horas inteiras deixava-se ficar embevecido na contemplação dos retratos e na leitura dos Nabucos e dos Patrocínios, que fascinavam sua mente infantil, como se fossem seres sobrenaturais. Franzino, os grandes olhos negros e curiosos, avizinhava-se sempre das rodas dos que palestravam política, bebendo-lhes as palavras. Então, se os comentários descreviam as lutas do Parlamento, os choques de liberais e conservadores, as fulgurações dos Saraivas, dos Cotegipes, dos João Alfredos – o menino transfigurava-se.

Precária a situação financeira de seu pai; não obstante isso, traçou a pulso firme a sua rota: – estudar! Viria à Corte fazer os preparatórios, custasse esse ideal todos os sacrifícios. E um dia, viu-se sozinho no Rio, para fazer exames, com doze anos apenas, uma bolsa quase em penúria e uns sapatos cujas solas se escancaravam, rindo, talvez, da aventura do jovem Quixote. Mas se os pontos estavam sabidos à ponta da língua, tudo o mais lhe seria secundário.

Aos 14 anos, concluído o curso de humanidades, batia às portas da Faculdade de Direito de São Paulo. Aquele rapazelho, que lá se ia num grande alvoroço de estudar e de vencer, não levava, porém, uma certidão de Registro Civil capaz de abrir-lhe as portas da matrícula: a lei exigia a idade de 16 anos, e ele ainda não os tinha. Foi preciso que, em 1884, outra lei viesse em seu auxílio e o levasse pela mão aos bancos acadêmicos onde se alvoroçava, a esse tempo, uma colméia alvissareira: Edmundo Lins, Herculano de Freitas, Carlos Peixoto Filho, Afonso Arinos, Machado Guimarães, Henrique Borges, Edmundo Veiga, e tantos outros, que atingiram depois, com ele, as cumeadas da carreira pública, na magistratura, na política, nas letras.

São Paulo era então província pacata; e quase sumido na sobrecasaca estudantina, o acadêmico João Luís ouvia atento as lições e, se bem que fosse o orientador da corrente conservadora entre seus colegas, bem pressentia os passos altos do advento da República. Ele mesmo nos conta ao envergar a beca de ministro do Supremo Tribunal:

Recebi grau no dia do baile histórico da Ilha Fiscal. Não sou, pois, um republicano da propaganda. Não me seria lícito dizer, porém, que “esta não é a República dos meus sonhos”, embora possa sempre afirmar que é a “Pátria muito minha amada”. Saí, pois, da Academia, ao inaugurar-se o regime republicano. Não trazia paixões, e obedeci à orientação dos grandes homens da política mineira que aceitaram nobremente o novo estado de coisas.

Aos 20 anos, incompletos, sobraçando a sua carta de bacharel, deixava a Academia de São Paulo e iniciava a jornada de uma vida nova: órfão, só e pobre. “Eu era órfão, só e pobre”, dizia na oração de 25 de janeiro de 25. E foi, decerto, à sombra dessa trindade, que presidira o limiar do seu caminho, que fora buscar aquela força formidável de combatividade para vencer. Viu que, “órfão, só e pobre”, só lhe restava aceitar as armas que seriam as suas: – as da luta, as do trabalho, as da ação.
Radiava a República na sua esplêndida alvorada, e nas quebradas das montanhas mineiras reboavam as fanfarras do novo regime, despertando as energias daquele povo e daquela terra que já havia bebido o sangue do martírio das novas idéias políticas agora dominantes. Cesário Alvim vinha de ser nomeado pelo Governo Provisório, presidente de Minas, e seguindo caminho de Ouro Preto, ao passar em Juiz de Fora, viu entrar-lhe pelo vagão um moço pálido e magro, que lhe apertou a mão respeitoso, pedindo duas palavras.

O presidente de Minas anuiu com bondade, e João Luís solicitou uma promotoria, dizendo-se só, desacompanhado de qualquer empenho, mas confiado nas tradições de caráter e generosidade do grande mineiro. Cesário Alvim gostou da atitude do rapaz, e dias depois chegava a Rio Verde o seu novo promotor. Alea jacta erat. Daí, começou a sua ascensão para a vida pública. De 1890 a 93, promotor, juiz municipal, juiz substituto; de 93 a 98, advogado de larga clientela no sul de Minas; de 99 a 902, deputado ao Congresso Mineiro, professor da Faculdade de Direito de Belo Horizonte; de 903 a 908, deputado federal pela sua terra; de 908 a 918, senador federal pelo Estado do Espírito Santo; de 918 a 922, Secretário das Finanças de Minas Gerais; de 1922 a 1924, ministro da Justiça da República, sendo ainda em 1924 e 1925 eleito para vossa Companhia, e nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, últimos postos que ocupou.

De promotor de Rio Verde a ministro do Supremo Tribunal, vai de 1890 a 1925 todo um transcurso de trinta e cinco anos de intensa luta, de incansável mourejar. Se a carreira judiciária abriu e cerrou as portas de sua vida pública, não pôde resistir, porém, aos amavios e feitiços da Política; e em 1925, agradecendo a manifestação que lhe faziam os seus amigos, por assumir a pasta dos Negócios Interiores da República, pela palavra arrebatadora e cintilante de James Darcy, e evocando a figura desse parlamentar de inconfundível relevo, dizia:

Só quem viveu aquele período, poderia sentir, então, e reviver a grande mágoa causada pela falta que ia fazer ao país o jovem lutador que, com a sua linha de ateniense e altivez de espartano, interrompia bruscamente, por sentimento de retidão política, e de afetuosa e rara solidariedade, a sua já brilhante e fecunda vida de parlamento. Pondo de parte, porém, o egoísmo de nossa mágoa, bem o fizeste, amigo. Tua atividade, exercida em atmosfera mais serena, permitiu a revelação do teu onímodo talento, e o pretório ganhou no jurisconsulto o parlamentar que a política perdeu. Bem desejei eu imitar-te em tempo, porque não me abandonam as nobres seduções da vida do Jurista, que é, na verdade, o substratum da minha vida pública.

Do desconsolo dessas palavras se vê que a sua alma de batalhador já se sentia um tanto abalada dos embates sofridos na trepidante e agitada carreira política que foi a sua. Observando-se, porém, o desdobrar do seu caminho, vemos que o jurista não deixa o político. Sempre o direito a empolgá-lo; e pode dizer-se que no parlamento, durante esse período de duas décadas e meia de vida republicana, nenhuma lei veio à discussão que ele não tomasse parte nos seus debates, não procurasse trazer-lhe o seu concurso, não lhe oferecesse apoio ou ataque, autoria ou emenda, ora ferindo de frente as questões com os recursos de uma cultura variada, poliforme, rica, realmente invejável, ora contornando-as, como hábil esgrimista, sem ceder flanco ao adversário. Destemeroso, calmo, e culto, sentia-se senhor da tribuna parlamentar, sendo um discutidor temível das causas que defendia, e um arrojado aparteador das que combatia. Discutisse com a figura ciclópica de Rui, ou enfrentasse guerrilheiros terríveis e amestrados, da estofa de Barbosa Lima, Carlos Peixoto, Darcy, Moacir, Esmeraldino, não lhe fugiam os atributos que o armavam para a luta.

No seu volume Trabalhos Parlamentares, podemos bem aferi-los. Acicatava a frase, dardejava a ironia, construía o argumento, alicerçando-o nos autores em voga, nas revistas jurídicas da semana, nos livros os mais recentes. Não se lhe apanhava em descuido. Cada aparte tinha sua resposta; cada alegação sua contra-alegação; cada ataque, o seu revide. Assim o vemos nos trabalhos da Constituição do Rio Grande do Sul, da Intervenção de Mato Grosso em 1906; da Intervenção em Sergipe, da Intervenção no Estado do Rio em 1910; da Intervenção no Amazonas em 1913; na questão da “competência do Poder Judiciário”, na das Comissões do Poder Executivo ao Poder Judiciário, na da lei sobre a letra de câmbio, na da lei sobre o cheque, na discussão do Código Civil, nos Projetos dos Códigos Comercial e Penal, na Extradição de Criminosos, na Abolição das Loterias, no Recurso da decisão de habeas corpus, na Reorganização da Justiça Militar, que tantos são os capítulos aí compendiados.
Questão de direito penal, processual, constitucional, cível ou comercial, econômica, financeira ou administrativa que viesse a campo, qualquer que ela fosse, o seu espírito ágil, inquieto, percuciente, analítico, dava-lhe o brilho da sua acuidade e as luzes da sua cultura.
Das palavras de saudade que no Supremo Tribunal foram dirigidas à sua memória, na sessão de registro de sua morte, destaco alguns períodos de Edmundo Lins, nome que só por si é um dos brasões de orgulho e cultura deste país:

Matriculamo-nos na Faculdade de São Paulo, em 1885. Éramos perto de 200 calouros. Um dos mais moços era João Luís Alves. Tinha apenas 15 anos. Pertenciam a essa turma estudantes distintíssimos: Carlos Peixoto Filho, Mendes Pimentel, Afonso Arinos, e Herculano de Freitas. Apesar de criança, João Luís se distinguiu logo pelo talento e pelo estudo, pairando no primeiro plano, e chegando até o fim do curso (apenas 74), como das suas primeiras mentalidades, e de toda a Academia.

E mais adiante, referindo-se ao professor que deixava um “monumento oere perennius: o Código Civil Comentado”, voltou a olhar o Parlamentar, dizendo:

Estreou-se na Câmara dos Deputados em condições especialíssimas. Um dos nossos mais pranteados professores, Augusto de Freitas, analisava da tribuna, apaixonada e desapiedadamente, o diploma de um deputado mineiro, chegando a declarar que viera armado de ponto em branco, pronto a esmagar a quem quer que ousasse defender aquelas eleições. Mal acabava de pronunciar essa frase, e da bancada mineira irrompia um grito: “Pois não esmaga, não!... Peço a palavra.” Para lá se dirigiram todos os olhares, e divisaram estupefatos, de pé, um moço pálido, de olhos grandes, muito brilhantes. Era João Luís Alves, que vinha de ser reconhecido. Na sessão seguinte, respondeu com inexcedível brilhantismo ao grande tribuno baiano, que foi o primeiro a abraçá-la, ao terminar, debaixo de uma salva de palmas, a sua empolgante oração.

Essa página evocativa bem fotografa, no colorido das suas palavras, esse pendor de combatividade, de energia, de bravura, que foi um dos traços mais vivos da personalidade de João Luís.
Trabalhador, não conhecia a fadiga. Como Beaumarchais, que dizia: “Je sais bien que vivre c’est combattre, et je m’en désolerais peut-être si je ne sentais que combattre c’est vivre”, ele também não compreendia viver sem lutar, e nunca uma vitória, ou um revés sofrido, fez abater as suas armas.
Esse monumento oere perennius, a que se refere o nosso grande Juiz, o Código Civil Comentado, que tem merecido os maiores louvores dos competentes, foi obra ininterrupta de dias a fio. Muitas vezes, as madrugadas surpreenderam-no curvo à sua mesa de estudo. Cooperador dos mais eficientes do Código Civil no Legislativo, tornou-se depois um dos seus mais seguros comentadores.
Ministro, o seu biênio na pasta do Interior foi uma faina contínua de agitação, de empreendimentos, e reformas, ressaltando entre outras: – a Assistência aos Menores, as Reformas da Justiça, do Ensino, os Códigos dos Processos Civil e Penal da Justiça,  Local, a Lei do Sursis, o Livramento Condicional, e a Proteção à Inteligência ou a Lei dos Direitos Autorais.

Espírito voltado para os assuntos intelectuais do seu país, votou a essa última Lei a mais desvelada assistência, uma vez que a mesma procurava preencher as lacunas que a de agosto de 1898 e o Código Civil, nos seus vários artigos, haviam deixado em relação aos direitos de Autor, na salvaguarda dos legítimos interesses dos intelectuais brasileiros, pugnados, agitados e defendidos, no Congresso, com tanto brilho, pelo nosso Xavier Marques.

Hoje, relações de autores e editores estão reguladas pelo Decreto 4.790, de 2 de janeiro de 1924. Legem habemus. E esquecido de que me encontro numa Academia de Letras, quase me deixo arrastar (oh! a força do hábito!) à sedução dos comentários dos arts. 4.o e 5.o da referida Lei, analisando se atentam ou não contra a liberdade do comércio, se são ou não draconianas, cotejando-os com os artigos de edição do Código Civil, e as explanações dos Lardeurs, Huard, e Macks, Clóvis, Mendonças, e Espínolas, em confronto com as do Acadêmico a quem sucedo. Certo de que a moldura deste discurso não comporta digressões de tal natureza, delas me dispenso, como das de expor-vos suas opiniões sobre as substituições fideicomissárias e as obrigações por declaração unilateral da vontade, os laços jurídicos que prendem avalistas, emitentes e endossantes nos títulos creditórios; se o seu espírito de penólogo e jurista aceitava ou repelia as escolas clássicas de Carrara, antropológica de Lombroso, ou positiva de Ferri.

Se ele, dentro da sua esfera de ação, foi um absorvido pela política e pelos estudos jurídicos, não o era, porém, como aquele viandante de Edmond Picard, de quem nos fala Pedro Lessa, que diante de um cair de tarde, no mais emocional dos espetáculos, em face do indeciso da luz quase sombra sobre a floresta, luz indecisa que tudo coloria e espiritualizava, mergulha em profunda contemplação, e quando o seu companheiro de jornada, um pintor, pergunta, convicto de estar diante de um poeta:
– Amigo, que vêem teus olhos de tudo isso?...

– Tão-somente contratos e direitos, – respondeu. Era um jurista: – tão-só, organicamente um jurista, que na beleza da paisagem crepuscular via exclusivamente a realidade da vida constante do direito, “vastíssima teia de fios materialmente invisíveis, tudo penetrando, insinuando-se por toda parte, adaptando-se a todos os elementos que compunham o extraordinário painel que ali se desdobrava”.
O espírito de João Luís via a vida também com olhos de artista. Não o digo – com olhos de poeta, porque Augusto de Lima, ao dar-lhe as boas-vindas nesta Casa, citando vários trechos seus, revela dores de sentimento de verdadeira arte, afirmou ter procedido e meticuloso exame e chegado á conclusão de que o autor dos Trabalhos Parlamentares nunca fizera um verso... Embora de difícil credibilidade, a existência de um brasileiro letrado sem o seu soneto, não me quis dar à investigação dessa raridade, e aceitei como sentença em julgado a afirmação do grande poeta das Contemporâneas.
Enamorado das belas-letras, e especialmente da poesia, parlamentar vigoroso e brilhante, inteligência ágil e viva, jurisconsulto de ampla e variada cultura, trabalhador infatigável e metódico, coroavam a têmpera desse lutador duas qualidades evidentes: o humour, que lhe derivava da bravura pessoal, e a desvaidade que lhe advinha de um fundo ingênito de bondade. A maneira de um discípulo mardeniano, tinha para a vida sempre uma grande dose de otimismo, de alegria, de confiança. Uma frase feliz por entre duas fumaradas de cigarro, um pouco de bom humor nos momentos difíceis, uma pilhéria leve, um dito chistoso, um sorriso... e disfarçava, em face de olhos estranhos, as mais graves apreensões que o ensombrassem.

Um dos nossos jornais chegou a registrar um fato que bem demonstra essa modalidade de João Luís. Foi por ocasião da revolta de um dos nossos navios de guerra, vai para dois anos. Um dia, a cidade despertou com disparos de canhão na Guanabara; e uma flâmula vermelha no topo de um mastro denunciava sedição em certa parte da Marinha. Espalhou-se imediatamente o terror. Batalhões fiéis à legalidade desceram dos subúrbios, saíram dos quartéis, equipados, armados, municiados, tomando ruas, fortificando pontos, estendendo-se ao longo da praia que circunda a baía. Os boatos esfuziavam. O São Paulo encabeçava a revolta contando já com o apoio do Minas, dos scouts, e dos torpedeiros ancorados. A Revolução estava às portas, sussurrava-se.

Cavalarianos policiavam as praças, fustigando os animais que batiam os cascos em tropel, dando à cidade espantada o aspecto de que o motim poderia tomar feições mais graves. Jornais afixavam placards recomendando à população que se tranqüilizasse, porque o governo estava forte e inteiramente apto para dominar o movimento. As ruas, porém, estavam quase desertas, e as casas comerciais da Avenida começavam cautelosas a bater as portas, quando o Ministro do Interior foi visto descer calmamente de seu automóvel.

Prosseguiu na mais absoluta tranqüilidade, caminhando até um dos cafés próximos à Rua do Ouvidor, – um maço de jornais debaixo do braço, fraque negro, chapéu de feltro, longa piteira fumegante ao canto da boca. Entrou, abancou-se, serviu-se rapidamente, deitou olhos em calma aos jornais, e saiu. Os raros transeuntes da manhã agitada olhavam, admirados, aquele homem aparentemente desprendido do momento. Viram-no depois demandar o seu automóvel, o cigarro sempre a queimar espetado à piteira, – e quando, passos adiante, um dos seus amigos se lhe atirou aos braços, aterrorizado:
– Então, seu João Luís! Coisa horrível! O São Paulo!
– Nada, meu caro. Venho de lá... Agora mesmo... Nada de anormal... Tomei café... Em paz...
– Que diz?! – clamou o outro. – Graças a Deus!... Já dominada, então? Tomou café? Vem de lá?!...
– Sim, – afirmou sorridente, os olhos alegres, o ministro. – Venho de lá... do Café São Paulo...
Esse singelo fato de bom humor bem nos revela essa superioridade de espírito, e essa bravura pessoal que tão características lhe eram. Que era também um desvaidoso, um desempavonado, uma criatura simples, afável, tratando por igual a ricos e pobres, ministros e operários, grandes e humildes, – é notório.

Os pequenos servidores que com ele trabalharam no Congresso, e na pasta da Justiça, guardam de sua pessoa a mais amável recordação. De uma feita, um dos seus íntimos, após vê-lo assumir um alto cargo de confiança, oportunidade em que fez questão de abraçar do mais obscuro ao mais alto dos funcionários, observou:
– O que mais me admira, é essa sua simplicidade... Eu, talvez, não fosse assim, como você, tão popular...
– Ah! meu velho, – respondeu: – Vaidades!... Que adiantam?!... Tenho medo que o ministro da Pérsia, de Voltaire, me mande a orquestra de Irax... E quebrando com o dedo mínimo a cinza do cigarro, sorria, recitando o refrão dos rabequistas:

Que son mérite est extrême
Que de grâces! Que de grandeur!

Referia-se sempre àquela narrativa sobre Irax, o vaidoso, que só respirava falsas glórias e falsos prazeres, aborrecendo-se dentro da sua fatuidade, até se alguém lhe dirigia a palavra. Zadig, ministro da Pérsia, e herói do romance de Voltaire, sabedor da existência de tão orgulhosa criatura, prometera corrigi-la, e um belo dia, “de mandado d’El-Rei, (na tradução de Filinto Elísio), lhe remeteu um mestre de música acompanhado de doze vozes, e vinte e quatro rabecas, um Mordomo com seis cozinheiros, e quatro Camaristas que o não tivessem de largar de si”, em zumbaias e cerimônias.
No primeiro dia, assim que despertou o voluptuoso Irax, o mestre de música fez soarem as vozes e as rabecas, cantando por duas horas uma canção cujo estribilho, de três em três minutos, era:

Que son mérite est extrême!
Que de grâces! Que de grandeur!
Ah! combien, Monseigneur,
Doit être content de lui-même!

E após esse coro, diariamente, um camarista lhe fazia uma fala de três quartos de hora, exaltando-lhe os méritos, e finda a oração, levavam-no à mesa ao som dos instrumentos. Durante o jantar, que se arrastava por três longas horas, assim que abria a boca para brindar o Rei, o primeiro Camarista dizia: Il aura raison! – e apenas pronunciava quatro palavras, o segundo clamava: Il a raison! – e todos: – Il a raison! Il a raison! E após a refeição, clama o estribilho:

Que son mérite est extrême!
No primeiro dia, Irax exultou. “O Rei homenageava os seus méritos!”... No segundo, já não sentiu tanto agrado. No terceiro, achou desagradável. No quarto, insuportável. No quinto, supliciante, com aquelas vozes em coro:

Ah! combien, Monseigneur,
Doit être content de lui-même!

o discurso da mesa, a voz roufenha dos Camaristas, “il aura raison, il a raison”, a arenga do panegírico, o espoucar das louvaminhas, atiraram o pobre Irax quase à loucura, fazendo-o correr a pedir a El-Rei que lhe retirasse todo aquele aulicismo, – mestre de música, mordomos, e cavaleiros, e camaristas, e rabecas, e cantores, e lhe desse um pouco de paz, compreendendo assim que tudo vinha da sua vaidade, jurando de então por diante ser menos vão e mais aplicado. El-Rei sorriu, fez-lhe a vontade, e Irax, depois, foi feliz...
Eis porque, na sua encantadora simplicidade, dizia João Luís, “receava as rabecas do ministro da Pérsia, de Voltaire”.

O brilho da inteligência, uma cultura sem ostentação, a vontade firme, o trabalho sem desfalecimentos, a alegria de viver, a desvaidade das posições, tudo isso formava a construção da sua individualidade, em contornos cada qual mais admirável.
Da sua obra, podemos dizer que foi a de um político, disfarçando o pendor de um homem de letras. Já se disse que a sua Musa, em vez de ser uma das nove, variava entre Têmis e Minerva. Como a obra de todo político, entre nós, foi a sua: – vária, dispersiva, fragmentária, sem unidade.
Oh, a implacabilidade da Política que não dá que as inteligências a seu serviço repousem, creiam, construam! Como Saturno, vive do sangue dos seus próprios filhos. Qual o político que nos tenha deixado uma obra de unidade, de criação?! Joaquim Nabuco só pôde trabalhar quando, vitorioso o seu sonho abolicionista, quebrou as próprias cadeias que o prendiam à Política. Só do feitiço da sereia liberto, pôde entregar-se a sua finalidade literária. Vêm de aí Minha Formação, Um Estadista do Império, Pensées détachées.

Dele o mesmo se poderia esperar. Vendo realidade o seu mais alto desejo – uma toga de Juiz na Alta Corte, – prometia consagrar-se à Justiça e às Letras, com serenidade. “Fecho um livro da minha vida pública, e abro outro”, – dizia na tarde de 25 de janeiro de 1925, ao sentar-se na cadeira do Supremo Tribunal: e em traçando o seu elevado programa, – a despaixão, o estudo acurado das questões que lhe fossem destinadas, o amor à carreira que abraçava, a dedicação, o estrito cumprimento do dever ao seu cargo – terminava: “Que Deus, o Supremo Juiz, me ampare e inspire!...”
Mal traçava, porém, nervosamente, as primeiras linhas, – e que tão belas já se desenhavam! – desse outro livro que vinha de abrir, caiu-lhe a pena da mão fatigada... Pendeu a cabeça... Tinha sono o lutador! Adormeceu...

Contam que a seu lado se achava aberto um livro de versos de Rostand, o último que lera... Desse sono, ninguém o pôde despertar. Nem mesmo o grito angustiado do coração daquele anjo de esposa que não o abandonou um só momento, nos dias de sol, ou nos dias escuros da sua vida. Havia anoitecido para sempre. Não mais amanheceu para aquele ceifeiro infatigável, a quem a Justiça e a Poesia – as mais altas expressões da Beleza – velavam os momentos derradeiros. E foi para elas o seu último olhar...

Que durma, no seio de Deus, o lidador!...