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Morre Roberto Campos

Folha de São Paulo (10.10.2001)

 

O ex-ministro do Planejamento Roberto Campos, 84, morreu nesta terça-feira, pouco depois das 20h, em sua casa, em Copacabana, na zona sul do Rio. Estavam com ele a mulher, Estela, e o filho, Roberto Campos Júnior.

De acordo com o médico Roberto Zani, da equipe médica que atendia Campos, a causa da morte foi infarto agudo do miocárdio, ocorrido quando Campos estava dormindo.

Segundo o neurologista Sergio Novis, outro integrante da equipe médica, a morte foi inesperada, já que o ex-ministro vinha se recuperando bem dos problemas de saúde que o levaram a ser internado na clínica São Vicente, na Gávea (zona sul), no final de julho. "Ele estava lúcido e com a diabetes sob controle", disse.

Roberto Campos passou 29 dias na clínica, em consequência de uma pneumonia e de distúrbios gastrointestinais. Nesse período, foi submetido a uma tomografia computadorizada, na qual os médicos constataram que ele não teve nenhum dano neurológico posterior à isquemia (redução ou suspensão do fluxo sanguíneo) cerebral que sofreu em fevereiro do ano passado.

Campos era economista e diplomata e também assinava a coluna "Lanterna na Popa", na Folha de S.Paulo. Ocupava a cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras, que havia sido ocupada pelo dramaturgo Dias Gomes.

Na vida política, Campos foi senador pelo PDS-MT, deputado federal pelo PPB-RJ e ministro do Planejamento durante o governo Castello Branco.

Era casado com Stella, e pai de três filhos: Sandra, Roberto e Luís Fernando. O economista nasceu em Cuiabá no dia 17 de abril de 1917. Era filho do professor Waldomiro de Campos e Honorina de Campos.

O estado de saúde de Campos vinha se deteriorando desde que ele sofreu uma isquemia (redução ou suspensão do fluxo sanguíneo) cerebral, em fevereiro do ano passado.

Por causa da isquemia, ele se comunicava com dificuldades e só conseguia dizer palavras soltas, sem articular frases. De acordo com médicos e familiares, o ex-ministro sempre manteve-se lúcido e com compreensão do que ocorria ao seu redor.

Segundo seu assessor, Olavo Luiz, o ex-ministro vinha realizando sessões diárias de fonoaudiologia para tentar recuperar a fala antes de ser internado novamente, em 28 de julho deste ano, na clínica São Vicente (zona sul do Rio), desta vez com um quadro de insuficiência respiratória.

Segundo Luiz, antes da segunda internação ele estava levando uma vida normal, só tomando remédios para diabetes, detectada havia mais de 50 anos. A isquemia não chegou a afetar sua capacidade motora nem a memória.

O quadro de isquemia foi detectado na internação ocorrida em 26 de fevereiro de 2000. Ele chegou ao hospital depois de sentir-se mal, com crises de hipoglicemia e hipertensão. Ele foi internado na clínica Prontocor (zona norte do Rio) e depois foi transferido para a clínica São Vicente.

Três dias depois, o paciente piorou e desenvolveu um edema cerebral (acúmulo anormal de líquido). Os neurologistas passaram a ministrar diuréticos para diminuir o edema e o paciente respondeu bem. Após duas semanas de internação, Campos conseguiu se recuperar e recebeu alta médica.

Para o neurologista particular de Campos, Sérgio Novis, o ex-ministro estava conseguindo se recuperar "lenta e progressivamente" da isquemia. Segundo o médico, Campos lia normalmente em sua casa, na praia de Ipanema (zona sul), usava raras vezes o computador e falava poucas palavras, sem fluência. Roberto Campos não estava mais escrevendo.

Campos já havia sofrido uma cirurgia para colocar pontes de safena e de mamária, em 1986. Ele apresentava também problemas renais crônicos e cardiopatia dilatada. Há cerca de seis anos, o ex-ministro havia passado a usar um marcapasso no coração.

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O economista Roberto de Oliveira Campos, que morreu nesta terça-feira no Rio de Janeiro, era tido por admiradores como intelectual notável e por adversários como ícone da direita e sempre despertava reações. "Sou um homem controverso, não sou homem de unanimidades", costumava dizer.

Escreveu mais de 20 livros. Em 1994, lançou "Lanterna na Popa", livro de memórias, e, em 1996, "Antologia do Bom Senso", obra que lhe valeu o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não-Ficção (1997). Era colunista da Folha desde dezembro de 1994.

Campos nasceu em Cuiabá (MT), em 17 de abril de 1917. Aos nove anos, entrou para um seminário em Guaxupé (MG), de onde saiu em 1937, por não ter dinheiro e idade para continuar a carreira eclesiástica.

No mesmo ano, mudou-se para Batatais (SP), onde conheceu Estela, com quem se casaria três anos depois e teria três filhos.

É a partir de 1939 que a vida de Roberto Campos começa a se misturar com a história do Brasil.

Após ser rejeitado para um emprego de escriturário no Ministério do Trabalho e para inspetor de ensino, prestou concurso para o Itamaraty e passou em primeiro.

Como adido comercial da embaixada em Washington, em 1942, Campos tomou gosto pela economia, concluindo seu doutorado pela Universidade de Columbia, em Nova York, em 1949.

Na doutrina econômica, adotou como guru - assim como a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher - o austríaco Friedrich von Hayek (1899-1992), ultraliberal e ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1974.

Campos começou sua participação mais efetiva na política na década de 50. No governo Getúlio Vargas (1951-1954), participou da criação da Petrobras - seu projeto original previa uma empresa mista sob controle majoritário do Estado, não uma estatal.

Depois de um ano como presidente do BNDE, foi nomeado, em 1959, embaixador nos EUA.

Em abril de 1964, após a instauração do regime militar, tornou-se ministro do Planejamento do governo Castello Branco.

Em 1992, notabilizou-se por ter dado o primeiro voto - favorável - na sessão que definiu a abertura de processo de impeachment de Fernando Collor. Campos foi a Brasília especialmente para a sessão, preso a uma cadeira de rodas devido a uma septicemia (infecção generalizada).

Em outubro de 1999, causou nova polêmica ao se candidatar à vaga de Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras. A mulher do dramaturgo, Bernadeth Lyzio, ameaçou transferir o corpo do marido do mausoléu da ABL por causa da candidatura, e um grupo, entre eles Barbosa Lima Sobrinho, Celso Furtado e João Ubaldo Ribeiro, se opôs ao nome de Campos. Sobre a polêmica, Campos falou: "As esquerdas queriam criar uma reserva de mercado" para as vagas que surgissem na academia. Foi eleito.

 

14/06/2006 - Atualizada em 13/06/2006