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Uma recolta exemplar

Recoltas de ensaios sobre os pontos altos da literatura de várias origens estão entre os melhores e mais adequados meios de promover cultura num país. Cito o exemplo de alto nível que me chega às mãos agora, vindo da Academia Cearense de Letras, de Fortaleza. Trata-se de um volume intitulado "Literatura universal", que reúne estudos sobre 27 escritores de vários tempos e idiomas.


 


Os textos foram conferências subordinadas exatamente ao título geral de Literatura universal, constantes de um ciclo promovido pela Academia nos meses de maio, junho, julho e agosto de 2004. Regina Pamplona Fiúza, em prefácio ao livro, registra que 415 pessoas se inscreveram no ciclo, a maioria sendo de estudantes. Era então presidente da Academia o poeta Artur Eduardo Benevides, auxiliado no caso por Murilo Martins, que o sucedeu na presidência, e pela professora e acadêmica Ângela Maria Rossas Mota de Gutiérrez, diretora do Instituto de Cultura e Arte da universidade local.


 


O resultado foi um precioso conjunto de análises literárias que formam a base da cultura universal. Os escritores estudados, com os conferencistas de cada um, foram Shakespeare (Artur Eduardo Benevides), Virginia Woolf (Odalice de Castro Silva), Eça de Queirós (Carlos D'Alge), Camões (Elizabeth Dias Martins), Fernando Pessoa e Tolstói (Vera Lúcia Albuquerque de Moraes), Florbela Espanca (Maria de Lourdes Dias Leite Barbosa), José Saramago (Linhares Filho), Cervantes e Garcia Lorca (Pedro Paulo Montenegro), Victor Hugo (Sânzio de Azevedo), Baudelaire (Martine Kunz), Flaubert (Fernanda Coutinho), Dostoievski e Octávio Paz (Solange Kate Araújo Vieira), Franz Kafka (Sara Diva Ipiranga), Goethe (Miguel Leocádio Araújo Neto), Proust (Beatriz Alcântara), Dante (Luciano Maia), Umberto Eco (Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes), Ezra Pound (Pedro Henrique Saraiva Leão), Hemingway (Arminda Serpa), Garcia Márquez (Cleudene Aragão), Vargas Llosa (Ângela Maria Rossas Mota de Gutiérrez), Pablo Neruda (Maria Inês Cardoso Salles), Jorge Luis Borges (Douglas de Paula), Mia Couto (Vânia Vasconcelos) e Pedro Malasartes (Eduardo Campos).


 


A mesma universidade prepara um ciclo parecido, para breve, exclusivamente sobre literatura brasileira, que também será, em seguida, publicado em livro. Na luta, em que todos nos empenhamos, de transformar o Brasil num país de leitores, destaca-se o que têm feito às feiras de livros que hoje se realizam em vários estados. Representando a Academia Brasileira de Letras, estivemos em Fortaleza, para a VII Bienal Internacional do Livro ali realizada há duas semanas, Nélida Piñon, José Mindlin e o autor deste.


 


Foi das melhores bienais de que participei, em muitos anos. Público entusiasmado, conferências, participação da assistência, tudo no mais alto grau. José Mindlin falou sobre a importância e a beleza do livro, o mesmo fiz eu sob um ângulo diferente, Nélida Piñon discorreu sobre a narrativa e seus aspectos.


 


Em Fortaleza, conheci a biblioteca rara, que foi a que mais me impressionou até hoje (e conheço muitas, em várias partes do mundo). Foi a de José Augusto Bezerra, em que a primeira edição de "Os Lusíadas" (de 1572) não é a mais rara das peças.


 


Além dos livros, dispõe a biblioteca de José Augusto Bezerra bilhetes e cartas de praticamente todas as figuras históricas e literárias de importância no Brasil. Tudo cuidado com perfeição, na cor branca: paredes, estantes, mesas, objetos das mesas, cobertas de pano para mesas - tudo branco.


 


Impressionante é, acima de tudo, o conhecimento de Bezerra da história do livro em si, dos caminhos da impressão brasileira internacional de livros, dos livros que outros colecionadores do mundo possuem.


 


Além do mais, Fortaleza lembra, acima de tudo, literatura. Lembranças de José de Alencar estão por todo a parte, inclusive na casa em que nasceu, que fica no âmbito da cidade perto de onde o monumento a Iracema se ergue das águas e toma conta dos arredores.


 


Fortaleza é também de Rachel de Queiroz, a começar pelo Colégio da Imaculada Conceição onde estudou: lá estive com José Luís Lira, autor do livro "Candidatos ao altar" e conversei com as irmãs. Depois dessa permanência em Fortaleza, convenci-me de que é nela que a memória das letras brasileiras se conserva com mais força.


 


"Literatura universal" é uma edição da Academia Cearense de Letras. Impressa na Expressão Gráfica, tem capa e diagramação de Saul Ferreira e organização de Regina Pamplona Fiúza.


 


Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro) 19/09/2006

Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), 19/09/2006