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Tobias Barreto: Sergipe e Pernambuco

 

Quando experimentei, em Aracaju, as emoções reunidas dos aniversários de casamento e natalício, da outorga num só dia de duas condecorações, a Medalha Silvio Romero (da Academia de Letras) e Tobias Barreto (do Governo do Estado) senti que tinha que retribuir falando de Gilberto Amado e do fundador da Escola do Recife. Pelo menos, desses. O primeiro, meu antecessor na Cadeira que ocupo na Academia Brasileira; o outro que é nome da Faculdade onde estudei e da qual me fiz professor.


A síntese de tudo, a inspiração de reflexões sobre o liberalismo.


Muito já se disse do liberalismo brasileiro, não talvez ainda o suficiente no que toca a relacioná-lo a Pernambuco. No começo, um seu tanto profeticamente, com 1817 e 1824; fronteiriço do Socialismo, em 1848; tumultuado por crises, mais tarde.


São essas datas marcadamente pernambucanas, revolucionariamente pernambucanas, quando a libertação de mártires foi feita pela imortalidade, nos caminhos da história.


Datas que provocam a lembrança de Tobias Barreto, da obra de crítica filosófica, religiosa, social e política desse que foi um dos nossos maiores agitadores intelectuais.


Tobias Barreto integra a linha libertária, de “observação participante”, descapitalizada, de Nabuco e Pedro Ivo, de Antonio Pedro de Figueiredo e Frei Caneca, de Nunes Machado e José Mariano, com os discursos mais veementes no apelo à transformação política e às reformas revolucionariamente sociais e econômicas.


Transformações e reformas que emocionaram a brasileiros do tipo de um Sales Torres Homem, o da primeira fase, de um Tavares Bastos, de um Rodrigo Otávio, de um Hermes Lima – este, a quem devemos a primeira divulgação efetiva da obra clássica de Tobias, Um Discurso em Mangas de Camisa e um ensaio definitivo sobre o “teuto sergipano”, da ironia de Carlos de Laet.


Reformas e transformações que igualmente sensibilizariam Alberto Torres. Chegando ao Recife, em 1885, na companhia de Raul Pompéia, encontra o Recife febril. A “febre” resultava tanto da febre amarela, quando do clima conflitivo do certamente histórico concurso de Tobias, na Faculdade de Direito, anos antes.


A pernambucanidade – como é muito própria dela – fez Tobias sofrer, mesmo depois de ter sido deputado em eleição memorável da qual sairia derrotado o grande Sylvio Romero; mesmo depois de consagrações no Teatro de Santa Isabel; mesmo depois de ver o Príncipe Heinrich, da Prússia, neto de Guilherme, chegar a Escada, cidade da zona canavieira do estado onde viveu, para visitá-lo. Com o Príncipe, toda a oficialidade da corveta “Olga”, fundeada no porto do Recife. O Príncipe andou léguas a fim de conhecer o “alemão” de Sergipe.


Mendigou, nos últimos tempos de vida, o mulato de “dentes podres” e da esposa “sem jóias”, para quem se apelou inclusive pela desconfortável via da subscrição popular. Tobias não abandonou a boêmia, nem o gosto pela sátira, nem o violão, como também, até morrer, não se entusiasmara com a República.


Deixou-nos a “Escola do Recife”, que Hélio Jaguaribe diz ter sido um dos três únicos exemplos de movimento intelectual no Brasil, a formar escola e sobreviver à geração dos fundadores.


Legou ao pensamento brasileiro um germanismo, como ensina Nilo Pereira, que era a libertação da francofilia e que lhe permitia a “boutade”:


“Sou pouco afeiçoado ao cancã”.


O Brasil deve-se voltar, com mais atenção, para Tobias Barreto de Menezes (foi ele o primeiro brasileiro a citar Marx e a editar jornal interiorano em língua alemã). Recordar-lhe as lições cidadãs de solidariedade e compromisso contidas em Um Discurso em Mangas de Camisa, as de modernidade nos planos da filosofia e da ciência jurídica; examinar-lhe a prática anti clerical sem ser anti-religiosa.


Graça Aranha traçou dele um perfil definitivo, que pode ser legenda do louvor Tobiático:


“Seu apostolado era o de emancipar; por ele me tornei um homem livre”.


4/9/2006