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A raça da Nuvem

O especialista Carlos Quesada, diretor dos Direitos Humanos, de Washington, afirma que “o debate racial nos Estados Unidos piorou. E há uma preocupação excessiva no assunto”. E as supremacias brancas recorrem a testes de DNA para determinar “pureza”. 

Isso causou muita estranheza para Letícia, a Nuvem. “Por que os humanos precisam comprovar se são brancos, negros ou amarelos? O que tem a ver a cor do corpo com a da alma? Ou é a cor que os muda de condição?

Não quis, de início, responder à Nuvem.
Porque o nazismo é que cuidava da pureza das raças. Ou estamos repetindo essa trajetória trágica, separando as pessoas, condenando as de pele diferente para o desterro social?

Mas Letícia estava sériae me pediu para tirar o seu DNA, com a verificação de que raça pertence. Deve ser branca, porque se mostra transparente, mas não teria nela partes escuras, advindas de alguma misteriosa tempestade?

“Ora , eu existo!”, a Nuvem insistiu. “Respiro, já percebi que meu sangue é igual ao de todos. Mas o que tenho que confirmar? Peço que me toquem, constatem como sou de matéria nuvente e fraterna!”

Não repliquei, nem discuti. Porque sei que as minorias ganham importância e não há distinção entre etnias, mesmo que alguns o queiram, classificando ou rotulando para perseguir.

Mas tanto Letícia solicitou, que atendi e seu DNA não deu em epiderme branca ou obscura, ou soturna. Curiosamente somente revelou que possuía a difícil e soluçante condição humana.

Ela sorriu satisfeita. Não se angustiava com isso. Tinha coisas mais preciosas em cogitar. Completando: “Os dias não existem sem as noites e essas não se aperfeiçoam sem os dias. O que nos distingue não é a aparência física, mas a energia e o vigor do espírito. Que sobrevive. E não tem raça.

A Tribuna (ES), 03/09/2017