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Os currais do Rio

 

Quando a gente ouve tanto falar dos currais eleitorais do tráfico, no Rio, sempre faz uma associação àqueles outros do coronelismo do Nordeste. De fato, parecem uns com os outros, mas só parecem.


O Padre Feijó, em 1831, patrocinou a criação da Guarda Nacional, substituindo as antigas milícias, ordenanças coloniais, de origem ibérica. O Império era mais generoso que a Coroa portuguesa na distribuição de nobiliarquias, mesmo assim os de menor prestígio social ou econômico se valeram das titulações da Guarda Nacional.


Dois grupos se distinguiram. Havia na zona dos engenhos, os coronéis doces, do açúcar e no sertão, os coronéis do boi, encoletados em couro.


É muito visível o contraponto entre o coronel do seco e o coronel do úmido, o coronel doce e o coronel salgado, o coronel do barroco e o coronel da arquitetura vernacular, o coronel do fofo e o coronel ressequido.


Do mesmo modo, é distinto o curral eleitoral do sertão e o da periferia metropolitana.


No sertão os coronéis tornaram-se veículos de transformações que acabaram por destruir as suas próprias bases de sustentação. Na região do açúcar o conservadorismo os fez mais resistentes.


Os coronéis reaparecem nas últimas décadas do século passado compostos em lideranças protegidas por aparelhamento de comunicação, de púlpitos evangélicos e, finalmente, do crime organizado. Este, o do crime, nada igual ao coronelismo sertanejo e diferentes são os seus currais. Há um lado lícito naqueles, mas inexiste nas formas de domínio suburbano, ainda que reproduzam com violência, audácia “a personagem ambígua de chefe temido e o benfeitor generoso do coronel, seu protótipo rival”, como fala  Roberto Cavalcanti de Albuquerque na sua costumeira precisão.


Os coronéis do Nordeste minguaram quando os seus núcleos foram brechados por meios e modos ditos civilizatórios do tipo motorista de caminhão no binário com as estradas, melhores escolas, força da imprensa, convívio com universitários filhos da terra que se acostumaram aos modelos da capital, empresários que de algum modo se atualizavam, padres menos subservientes, crédito rural, enfim do que se convencionou chamar de o progresso.


O coronel nordestino prosperou no paternalismo que em economia se desejou fechado, meio auto-suficiente, um seu tanto sóbrio (o luxo não é sertanejo), tendo como medida patrimonial o latifúndio. Socialmente, observa com toda razão Alberto da Costa e Silva, no prefácio à última edição de Coronel, Coronéis, assentado em família extensa compreendida em filhos de sangue e numa variedade de agregados, sob um comando incontrastável, protetor dos seus e perseguidor de adversários ou de desobedientes.


Daí passou-se para o voto mercadoria, para a indiferença dos generais presidentes e o clientelismo mudou o traje.


Não se desconheça que muita gente que compõe a periferia onde viceja o curral urbano veio tangido do interior nordestino, correndo na busca de emprego, renda, vida nova. Naufragou na exclusão, foi seduzido pelas formas aliciadoras, em várias intensidades, do tráfico exercido pelos chefetes ou chefões, a povoar os currais metropolitanos. Sujeição na origem, sujeição no destino. Se as sujeições não se parecem, podem parecer próximos os tipos de curral. Próximos, não iguais.


Os coronéis das milícias só desaparecerão se forem oferecidos aos componentes dessa heterogeneidade suburbana, educação, saúde, emprego, renda. Enfim, o tal progresso apoiado em constante crescimento econômico e em progressivo desenvolvimento social.


Presença da polícia, claro que é necessária, contudo não basta. Mas há jeito.


Mario de Andrade versejou:

“Nós somos na terra o grande milagre do amor!

E embora tão diversa a nossa vida

Dançamos juntos no carnaval das gentes

Bloco Pachola do Custa mas vai”


É isso aí. Custa, mas vai.


O Globo (RJ) 2/8/2008