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O bem contra o mal

Talvez você ande horrorizada(o) com os últimos acontecimentos políticos do Brasil. Talvez esteja achando que nasceu no país errado, ou até pensando em se mudar para Portugal ou para a Cochinchina. No entanto, como este almanaque dominical pretende trazer alegria ao coração das leitoras e dos leitores, afirmo que os males que nos afligem poderiam ser piores. Duvida? Pois vou lhe contar uma pequena fábula.

Certa vez, estava eu na casa de meu amigo João Ubaldo Ribeiro e, numa pausa entre nossos afazeres profissionais, decidimos, por distração, escalar a Seleção do Mal.

No gol, escalamos Torquemada, o Grande Inquisidor espanhol, terror de judeus e muçulmanos. Dizem que, na dúvida, torturava e queimava também cristãos, na certeza de que Deus, lá em cima, havia de fazer a triagem. Felizmente, não me lembro quem era o lateral direito, mas sei que, para a lateral esquerda, Ubaldo sugeriu Mao Tsé Tung. Discordei: “Mas o Mao é nosso!” O João, peremptório, argumentou: “Dezenas de milhões de mortos.” E restabeleceu-se a concórdia: Mao tornou-se titular absoluto.

No meio de campo, só escalamos volantes botinudos: Bokassa, Pol Pot e Idi Amin Dada, todos genocidas. E, para completar o time, armamos o ataque com Josef Stálin na esquerda, Calígula no meio, e Adolf Hitler na ponta-direita. Só faltava o número 10, o gênio, o Zinedine Zidane, que fosse o cérebro do time. Não me lembro qual de nós dois sugeriu o nome terrível: o Marquês de Sade.

Quando acabamos de escalar a Seleção do Mal, trememos nas bases, assombrados com o poder de fogo dessa reunião de criaturas malévolas. Nossa sorte foi a chegada da dona da casa, Berenice Batella Ribeiro, musa e patroa do João Ubaldo. Ao nos ver com a aparência lamentável que ostentávamos, ela nos perguntou: “Que cara é essa, meninos?” Explicamos que havíamos acabado de escalar a Seleção do Mal.

E ela, com a sabedoria que lhe é peculiar, recomendou: “Pois escalem a Seleção do Bem.”

Esperançosos, escalamos Jesus Cristo no gol, de braços abertos. São Francisco de Assis na lateral direita, Buda na lateral esquerda, tirando proveito de seu porte físico para barrar os atacantes do Mal.

Não me lembro qual era o meio de campo, mas tinha craques como José de Anchieta, volante moderno, capaz de catequizar, apoiar o ataque e ainda marcar gol. Se não me falha a memória, o time tinha Gandhi, Zoroastro e Tomás de Aquino. Só faltava o gênio, o camisa 10. Quando nos ocorreu o nome de William Shakespeare, ficamos aliviados. Aleluia.

Moral da fábula: apesar das vicissitudes do presente, podemos nos consolar com a ideia de que nossos vilões, graças aos céus, são de terceira categoria. Não servem nem para a reserva da Seleção do Mal. Em breve ficaremos livres deles. Ou será que me engano?

O Globo, 19/11/2017