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Meio século em ouro

 

Eu disse em discuso que o ato encerrava para mim emoções diferentes e roupagem especial. Estavam a protagonizá-lo dois nordestinos dos agrestes pernambucanos. Do agreste meridional, o presidente da República, de Caetés, vizinho de Lajedo onde nasceu o meu pai - o velho Vilaça, filho de um lavrador de fumo. Caetés em língua indígena significa mato verdadeiro, daí também se explicar ser terra de homens verdadeiros. Do agreste setentrional, eu, o homenageado, varzeano do Tracunhaém e do Capibaribe, nascido em Nazaré da Mata, terra da cana-de-açúcar, criado em Lomoeiro, do boi e do algodão.


Essas são as chancelas geográficas.


O nordestino de Pernambuco só se curva se for para agradecer. Por isso, estava curvado, agradecendo ao presidente da República, para glória minha, um conterrâneo.


Presidente, disse, estou honrado e honorado com a Medalha de Ouro do serviço Público que me outorgava, na forma de lei. Forma perigosa.


Saí dali com provisão de sol e sal, ciente de que não devo tolerar as ameaças de certo tipo de saudade. Neruda falou que saudade é amar um passado que ainda não passou. Por isso, sigo a lição do Padre Vieira: tenho é saudade do futuro. Guardo a fé, mas não encerro a carreira. Expulso sombras. Vou em frente. Para tanto, há de servir a imortalidade acadêmica.


Vivi o meio século de servidor público compreendendo paixões, testado por provocações, enlouquecido por fazer. Tenho horror à indiferença, do mesmo modo que me recuso a tolerar radicalismos de qualquer tipo. Aposto em convergências.


Portei-me assim na Assembleia Legislativa de Pernambuco - o primeiro emprego - na Fundação João Nabuco, na Faculdade de Direito do Recife, no Ipea, na Caixa Econômica Federal, no Gabinete da Presidência da República, na LBA e no TCU, onde completei os 50 anos de serviço, orgulhoso de estar ali pela indicação do presidente José Sarney, meu confrade, meu compadre, meu amigo. Registro, em especial, o tempo da Secretaria da Cultura do MEC, pois lá vivi os melhores momentos de servidor. Aprendi muito. Aprendi menos do que deveria, mas aprendi muito. Em todo esse conjunto do espaço público fui servidor responsável.


No trabalho para o Brasil, segui a legenda de Goethe: não se vem ao mundo para fazer coisas grandes ou pequenas, mas para fazer coisas honestas. Não digo isto para dar-me títulos, pois é obrigação de todos, mas é o que tenho para deixar aos filhos e aos netos: coisas honestas. Entre elas, os vários livros que escrevi.


O tempo espichou-se sobre mim, mas a alma porosa esteve sempre inclinada aos afetos, pelos que me comandaram, pelos que comandei. Com isto quero dizer que não armazenei mágoas, todavia não deixei de registrar o que me feriu.


Apostei no semelhante e acertei. Nélida Piñon tem razão: é preciso ter apetite de almas.


Não cuido da arqueologia das cavernas. Saio é em busca da luz. Ela sempre me chegou com a graça de Deus e de Maria do Carmo, e em razão deles, completarei em breve 50 anos de casado. Maria do Carmo, ressalto, é medianeira de tudo de bom que recebi, de que são exemplos exponenciais os meus filhos e os meus netos. Luz que se completa com o entorno de bons amigos, da cumplicidade de confrades, de colegas generosos, da mãe nonagenária e muito lúcida.


Estou pronto para um novo depois. o Brasil pautou-me a conduta, Pernambuco é origem e destino. A condição de filho único não me deu tréguas, mas o bom casamento compensou.


Aguardo o futuro de pé. Não há esperança sentada. A Deus não pedirei mais nada, além de continuadas saúde e paz de espírito. Talvez ainda peça que reduza o temperamento ansioso. Deus escutou meu coração e meu deu tudo, até uma neta. Afora esses episódios de eterno sangramento, recebi Dele mais do que merecia.


Duzentos e tantos anos atrás, Domingos Caldas Barbosa, em Lisboa, ao voltar da campanha do Rousillon, versejava:


"Sou soldado, sentei praça / Na gentil tropa do amor / Jurei as suas bandeiras / Nunca serei desertor"


Eu também digo ao Brasil, nunca serei desertor.


Diário de Pernambuco, 31/5/2009