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Machado de Assis em Londres

 

Entre os dias 18 e 22 de junho passado, o maior dos escritores brasileiros - cujo humor de estilo britânico tem sido, aliás, sempre recordado - esteve em evidência em Londres. Com a impecável organização da embaixada do Brasil, a Semana Machado de Assis abriu a série de manifestações - especialmente da Academia Brasileira de Letras - a celebrar, até o final de 2008, o centenário de seu falecimento.


Quando me tocou falar, na abertura da semana, cuidei de ressaltar alguns tópicos machadianos. Cito alguns deles de forma resumida:


- Machado de Assis viveu e foi protagonista de importante momento da vida do Brasil, aquele que marca a passagem da Monarquia para a República;


- Machado é um tríbio. Temos que vê-lo no que antecede a essa transição, na própria transição e no que a ela se sucedeu;


- Tudo tinha seu estuário no Rio de Janeiro, capital do país, onde viveu Machado de Assis sem de lá sair, exceção de brevíssimos períodos em que se deslocou para Nova Friburgo, na região serrana a poucos quilômetros;


- Viveu no Rio e foi o melhor intérprete da sociedade de então;


- Nesse período fundou, sob a idealização, entre outros, de Lúcio de Mendonça, a Academia Brasileira de Letras. É um tempo muito curioso. Começa a moda da galocha, do paletó jaquetão, do soneto, do chopp, do chuveiro, da Gillete, da Kodak, da injeção - sobretudo contra a sífilis - da substituição do carneirinho pelo velocípede como brinquedo de criança e do presépio pelo Papai Noel, da governanta inglesa, do futebol, do habeas corpus, da caricatura política alongada em caricatura social veiculada na imprensa que contava com a constante e prestigiosa presença de Machado de Assis;


- Esaú e Jacó certamente é a melhor investigação romanceada do período em que saímos da Monarquia para a República. Os tipos que nele se encontram desdobram as paixões e o contraditório, expondo certa suavidade da mudança. Mais que mudança, uma transformação;


- Tornou-se consensual que Machado de Assis não se apaixona pela política. Inegavelmente nunca a ignorou como cronista ou romancista. Por isso mesmo, participou também da acesa discussão sobre a transferência da capital do país;


- Falava-se em instalar o governo da República em cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, mas Cruls já batia pernas pelo Planalto Central, cuidando dos instantes seminais do que mais tarde viria a ser Brasília. E Machado opinava: "Não há dúvida que uma capital é obra dos tempos, filha da História. As novas devemos esperar que serão habitadas logo que sejam habitáveis. O resto virá com os anos";


- O desfile de perfis políticos está mesmo nas crônicas de A Semana, entre elas o texto clássico "O Velho Senado", mas há nos romances políticos como Lobo Neves, supersticioso e fátuo; Camacho, cabo eleitoral típico; Teófilo, ansioso por se tornar ministro; Brotero, o das aventuras amorosas e não podemos esquecer o brasileiro Tristão, a naturalizar-se português para se eleger deputado por lá. Também o deputado Clodovil a viajar pela Europa.


O entorno de amigos de Machado estava farto de políticos: Alencar, Francisco Otaviano, Bocaiúva, Joaquim Serra e o maior deles: Joaquim Nabuco.


Quando o Império enfardelou os trapos e a República chegou, é aconselhado a retirar da parede da repartição onde trabalhava o retrato do Imperador. Machado, solenemente esclarece: "O retrato chegou aqui com uma portaria e só sai com outra portaria".


Em certa crônica na Gazeta de Notícias, numa fase de altas turbulências, apelou à esperança dizendo: "Supunha o mundo perdido em meio de tantas guerras e calamidades, quando respirei aliviado: encerravam-se em Londres, com grande brilho, as festas de Shakespeare".


Pois bem, brilharam em Londres as festas de Machado.


Jornal do Brasil (RJ) 4/8/2007