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Indústria e cultura

Carlos Drummond de Andrade ensinou que:

“Qualquer tempo é tempo

A hora mesmo da morte

É hora de nascer"

Marcantonio vive. Depois de quinze anos de sua partida para a viagem sem volta, o Prêmio de Artes Plásticas que leva o seu nome também dá-lhe permanência. Reconhece a obra que realizou com tanta obstinação pelo primado da beleza, que é Verdade, sem esquecer que a Verdade é a Verdade. Foi homem de antenas, sem desprezar as raízes. 

Nunca será demasiado insistir na louvação desse enlace lúcido da indústria com a cultura. A indústria é necessariamente uma realidade dinâmica, tal e qual o patrimônio cultural, a envolver momentos, tradição, criação, como sugere e faz o Prêmio Marcantonio Vilaça. 

A cultura da paz, necessária à indústria, e o respeito das diferenças obrigam, no fundo, a compreender. E a cultura é compreender o outro, respeitar o diferente. Essa diversidade cultural é fator de coesão, a afastar os prejuízos da fragmentação. O Brasil, tão heterogêneo, é uma virtuosa unidade, na estupenda integração de diferentes. 

Do lado da cultura acompanha-se a carência de tanta coisa que afeta a indústria, como a barbaridade da pletórica tributação, ou a carência tecnológica a atrapalhar a competitividade internacional, por conta de uma burocracia patológica. Do lado da cultura sabe-se disso. Sabe-se que o crédito é escasso, que só há desenvolvimento social com crescimento econômico. Sabe-se disso. Sabe-se do prejuízo que a indústria sofre com a desregulamentação em vez de ter uma regulamentação tempestiva. 

Já se foi o tempo de mundos partidos, sem que os sorrisos e as mágoas se interligassem. Não pode ser assim. Não é assim. 

Em função desta realidade os enlaces da cultura e da indústria têm que se aprofundar. O Banco Mundial vem insistindo em dizer que os países e as pessoas pobres diferem dos ricos não apenas pelo fato de que têm menos capital, mas porque têm menos conhecimento. O novo olhar sobre os problemas do desenvolvimento parte da perspectiva do conhecimento. Conhecimento é a informação organizada. 

Quem sabe não chegou a hora de uma nova postura para o homem, de que falou Edgar Morin, contestando a segmentação dos saberes, rompendo fronteiras cristalizadas? 

Acredito que à Confederação Nacional da Indústria compete participar do humanismo compatível com este século, o do conhecimento, apta 

a interagir com uma ciência do homem que seja compreensiva e definidora de sínteses. Para isso, a CNI deve trabalhar por um sistema básico de referência para a compreensão e valorização do Brasil e dos brasileiros. 

Deixem que recorde aqui versos de Paulo Leminski, quando disse assim: 

"Meus amigos 

Quando me dão a mão 

Sempre deixam outra coisa 

Presença 

Olhar 

Lembrança, calor 

Meus amigos quando me dão 

Deixam na minha

A sua mão". 

Repito os versos para dizer ao Presidente Robson Andrade e também aos seus colegas de Diretoria e aos servidores da CNI (lembrando entre esses últimos a dedicada Cláudia Ramalho) o quanto a família Vilaça, Maria do Carmo à frente, agradece o carinho com a memória de Marcantonio. Na mesma trilha de Armando Monteiro Neto, o presidente ao tempo da criação deste Prêmio, Robson Andrade, tem sido, com o companheirismo de dona Cristiane, insuperável. Constantemente a aquecer os parâmetros da CNI em favor desse certame de expressão cultural do Brasil. 

Foi isto que disse, em São Paulo, quando se abria no Museu de Arte Contemporânea, mais uma etapa do Prêmio, de renome nacional. 

Jornal do Commercio (PE), 02/05/2015