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Erros e acertos

Certas filosofias orientais, de cunho religioso ou não, incentivam a meditação. Outras, incluindo a tradição cristã, valorizam o recolhimento para pensar, e até propõem o exame de consciência.

Correntes leigas de pensamento reconhecem a importância de uma autoanálise individual ou em grupo. Algumas consagraram a prática da autocrítica pública como forma de rever posições antes defendidas com afinco e depois ultrapassadas pelos acontecimentos. 

Na política internacional, volta e meia um líder vem a público, constrangido, admite que cometeu erros irreparáveis e se desculpa — com direito a suicídio de vergonha, em sociedades de valores éticos mais exigentes.

Com tantos exemplos respeitáveis, não deveria parecer chocante que nestes tempos escandalosos que vivemos alguém se disponha a quebrar a hipocrisia reinante e reconhecer que errou.

Com toda certeza, esse reconhecimento arrependido poderia servir de ponto de partida para consertar o mecanismo viciado que nos fez chegar a este ponto vexaminoso e indigno, de tanta desonestidade, a corroer a política e a vida social do país, enquanto são traídos os eleitores que levaram ao poder quem os enganou e cometeu erros em seu nome, fingindo representá-los.

No entanto, num momento em que, horrorizados, descobrimos tão graves erros, são raríssimos os gestos que se aproximam de qualquer vestígio de autocrítica, ainda que tímida, por parte dos políticos.

Exceção feita a alguns gaúchos, petistas ou peemedebistas históricos, que tiveram a coragem de assumir uma postura desse tipo e até de levantar débeis sugestões de refundação partidária.

Também o ex-prefeito Fernando Haddad publicou um arrazoado em que detectou pontos de equívocos petistas, precários e parciais, mas um oásis no deserto de reconhecimento de erros por parte dos seus “infalíveis” correligionários — ainda que fizesse questão de poupar Lula e mirar em Dilma, no que pode ser grave distorção dos fatos ou cegueira deliberada, exacerbada pela sua insistência em atacar a imprensa.

Mas fez bem em fazer esse balanço, que merece respeito. Mostrou coragem e levantou uma discussão, brilhantemente enfrentada em número posterior da mesma revista, numa resposta antológica de Marcos Lisboa, que elevou o nível do debate, contestou com fatos e não versões, e instaurou um processo de análise que a sociedade precisa travar.

Em seu caso, com a autoridade moral de quem foi secretário de Política Econômica do primeiro governo Lula e viveu de dentro o tempo da social-democracia petista, combinando as conquistas que vinham do governo anterior — retomada do crescimento com programas de inclusão social — enquanto ajudava a expandi-las e era xingado de neoliberal.

Citando nomes, datas e documentos, Lisboa relembra o que aconteceu realmente, divergindo de análises tendenciosas que preferem negar as evidências e desqualificar as divergências. Um debate salutar e necessário.

Nesse contexto, foi oportuna a propaganda tucana reconhecendo que o PSDB errou. Espantosa foi a reação a ela, por parte de setores do partido. Ofendidinhos por causa de quatro letras... Ou cinco. As que transformam coALIZão em coOPTAÇão, ao se referir a nosso presidencialismo. Causaram melindres em quem andou vestindo a carapuça até os pés.

Vamos clarear? Não foi só o PT que deixou órfãos seus seguidores bem intencionados.

O PSDB errou, sim, e muito. E não apenas agora, por políticos que discordam sobre ficar ou não ficar ministro. Vem errando há muito tempo, quando amarelou e não se dispôs a defender as conquistas econômicas e sociais de seu governo.

Quando deixou de lado pontos programáticos de sua identidade. Quando abandonou os princípios que levaram a sua fundação.

Quando escolheu o muro como poleiro e não teve garra para fazer oposição, só para não ficar mal na foto (apenas um retrato em sépia, cheirando a álbum da Une de mais de meio século).

Quando deixou que outros se apropriassem de seus avanços na área social, na educação, na saúde. Quando afrouxou na reforma da Previdência. Quando, em todas as campanhas eleitorais, se encolheu com medo e não mostrou as vantagens das privatizações que fez.

Quando não discutiu com os eleitores o papel do Estado, não explicou as vantagens da abertura da economia, não combateu com veemência os privilégios.

Quando se deixou enredar em alianças espúrias e fisiológicas.

Quando fez vista grossa para o Aécio.

E em muitos outros pontos mais circunstanciais, brilhantemente elencados por Elena Landau em texto que circula na internet. Ou evocados por Cora Rónai há poucos dias neste jornal, em aguda análise da amnésia dos tucanos, que só agora parecem lembrar quem deviam ser. E com isso melindrariam frágeis próceres de cristal.

Que os grão-tucanos não se enganem. Não é o momento de fazer biquinho resmungão. Melhor celebrar o centenário de Dalva de Oliveira e cantar com ela “Errei, sim, manchei o teu nome.” E agir de acordo, se quiserem levantar voo. Se ainda der.

O Globo, 02/09/2017