Com a casa lotada e fila que dava volta no quarteirão, a Academia Brasileira de Letras abriu seu calendário cultural de 2026 na tarde da última terça-feira, dia 3 de março. O evento que deu início à programação extensa do ano foi o monólogo “O céu da língua”, de Gregório Duvivier.

O espetáculo, que teve apoio da Prefeitura do Rio, como parte da programação do Rio Capital Mundial do Livro, explora a evolução da linguagem, mudanças linguísticas, métrica poética como o decassílabo e referências a autores como Camões, Fernando Pessoa e Caetano Veloso e dialoga diretamente com o propósito da ABL, de defesa e preservação da língua portuguesa e da difusão da literatura, ponto ressaltado pelo presidente da ABL, Merval Pereira, em sua fala na abertura da programação cultural da ABL.

Já o Secretário de Cultura do Rio, Lucas Padilha, destacou que a peça é fundamental, pois revela a importância da leitura e do livro como “denominador comum” do conhecimento. Essa premissa também dialoga com um dos intuitos da peça, da língua como ferramenta de pertencimento e união. Na peça, Duvivier transita por funções da linguagem, acordo ortográfico e expressões populares cariocas. O público, atento, reagia a cada expressão com entusiasmo e muitas risadas.

Na próxima terça-feira, a ABL dá início ao ciclo de conferências, “Vida de Artista”. Na terça-feira, dia 10, Ruy Castro falará sobre Carmen Miranda pré-Broadway e pré-Hollywood, quase esquecida pelo Brasil.
O espetáculo
Dirigido por Luciana Paes, o espetáculo é uma comédia poética sobre a presença quase invisível da poesia no nosso cotidiano. A peça estreou em Lisboa, em 2024, no contexto das comemorações do aniversário de 500 anos de Luís Vaz de Camões. No palco com poucos elementos cenográficos, o instrumentista Pedro Aune cria ambientação musical com o seu contrabaixo, enquanto a designer Theodora Duvivier manipula as projeções exibidas ao fundo da cena.

As reformas ortográficas que tiram letras de circulação e derrubam acentos capazes de alterar o sentido das palavras inspiram o artista em tiradas bem-humoradas. O mesmo acontece quando ele comenta a ressurreição de palavras esquecidas, como “irado”, “sinistro” e “brutal”, que voltaram ressignificadas ao vocabulário dos jovens. Com humor, Gregório nos lembra que, apesar de todas as diferenças, temos uma língua em comum que nos irmana. E também pode nos fazer gargalhar.
04/03/2026