Escrever a biografia de um vulto das letras já é difícil. Agora, imagine escrever sobre a vida daquele que é um dos autores mais lidos e admirados do Brasil, cujo nome se confunde com a própria ideia da literatura brasileira. C.S. Soares não hesitou. No primeiro volume de Machado: o filho do inverno, o escritor, pesquisador e editor carioca busca revelar um Machado de Assis relegado pela historiografia oficial. Se o escritor é celebrado país adentro, com pompa e circunstância, por leitores e até por não leitores, o Machado de C.S. Soares é aquele que ainda precisa ser descoberto. É o personagem que permanece oculto, seja pela onipresença do lugar-comum, seja pela insistência em não se destacarem os traços da sua origem. A proposta é ousada; exatamente por esse motivo merece atenção redobrada.
C.S. Soares não é o primeiro biógrafo de Machado de Assis. Antes dele, outros tentaram escalar esse Everest das letras brasileiras. Para citar dois exemplos: nos anos 80, Raimundo Magalhães Júnior publicou os quatros volumes de Vida e obra de Machado de Assis (Record), que se aproxima do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas a partir dos registros históricos disponíveis à época. Já na primeira década dos anos 2000, o jornalista Daniel Piza escreveu Machado de Assis: um gênio brasileiro (Imprensa Oficial), que conta a trajetória do escritor levando em consideração os dados registrados e a obra machadiana.
Se é assim, por que mais uma biografia de Machado de Assis deveria merecer atenção? Uma resposta possível à pergunta aparece na advertência de Machado: o filho do inverno:
Uma vida, sobretudo quando atravessada por silêncios e borrões históricos, exige escavação. Machado de Assis, mais do que qualquer outro escritor brasileiro, reclama esse tipo de leitura: conduzida como quem realiza uma arqueologia paciente do que foi ocultado. Sua trajetória foi silenciada; sua imagem foi esculpida por uma crítica que, ao longo do tempo, apagou-lhe a cor, a origem e a materialidade. Fabricou-se um mito etéreo, quase sem passado.
Mais do que uma admoestação, o fragmento, e o restante da parte inicial do livro, oferece uma carta de princípios. O Machado de Assis que C.S. Soares vai apresentar não é o mesmo de outras biografias. Nesse sentido, embora cite autores que investigaram a trajetória de Machado, seu texto se lança em uma leitura cultural distinta desses outros biógrafos. E essa iniciativa envolve um exercício de interpretação que segue o fio da navalha.
Pistas
Um exemplo da maneira pela qual o biógrafo trata a história de Machado de forma peculiar está no capítulo “As três Marias”. Nele, C.S. Soares aponta a importância da perda da irmã, da madrinha e da mãe para a formação da personalidade do escritor. Mas não é o conteúdo que provoca mais espécie. É a forma pela qual o biógrafo articula esse dado, como se fosse parte inescapável da construção de Machado de Assis, o que, no limite, não se trata de um registro objetivo, mas de uma análise que, de uma só vez, revisita os primeiros escritos do autor e as demais pistas que deixou ao longo de sua obra.
Nesse sentido, é notável o uso que C.S. Soares faz dos recursos da crítica literária para investigar o que está oculto na vida de Machado de Assis. O exercício de leitura é relevante não apenas pelas fontes consultadas, mas também pelas outras trajetórias apresentadas ao longo da biografia. Ainda que os leitores mais atentos tivessem conhecimento de que Machado manteve amplas relações com outros autores e intelectuais ao longo do século 19, o modo como C.S. Soares reconstrói esses momentos decisivos permite ao leitor absorver uma perspectiva diferente daquela que convencionalmente é contada acerca do autor de Dom Casmurro — a trajetória de um escritor que se fez em meio a todas as adversidades. C.S. Soares não rejeita essa versão; no entanto, observa que há algo além que foi deixado de lado, porque os documentos não revelam tudo.
Soares recupera a trajetória de Júlia de Almeida e Silva, a quem eleva à condição de musa do escritor
E o que falta ser contado? No capítulo “A primeira Capitu”, C.S. Soares recupera a trajetória de Júlia de Almeida e Silva, a quem o biógrafo eleva à condição de musa de Machado de Assis quando jovem poeta. Soares registra esse afeto a partir das pistas deixadas pelo escritor, ora na dedicatória de um poema, ora nos versos, que, na percepção de Soares, sugerem uma renúncia. O motivo para tanto se deve à diferença de cor, classe e destino. Embora Machado fosse um nome promissor à época, aquele amor ainda era impossível. Em trechos como o que vai a seguir, o crítico toma conta da biografia:
Essa renúncia aparece, em forma velada, em cada estrofe do poema. A imagem inaugural é um paradoxo: “Meu destino é um rio do deserto”. Um curso de água que atravessa a aridez, que murmura, mas não sacia, que corre sem levar à fertilidade. O eu lírico se reconhece como arrastado por uma torrente estéril. O leito é de lodo e rochedos; suas margens, traiçoeiras. À beira desse abismo há flores que nascem do pranto. E é sobre elas que Ofélia se debruça, sem compreender o risco. O poeta, que a vê ali, tão próxima de seu próprio naufrágio, adverte: não toque, não ceda. Salve-se de mim.
Para além da história em si, o que chama a atenção é o modo pelo qual C.S. Soares encapsula esse episódio enquanto aspecto decisivo tanto da história pessoal de Machado de Assis quanto de sua obra. Ainda nesse mesmo capítulo, o biógrafo destaca a forma como Júlia de Almeida e Silva permaneceu na imaginação do escritor a ponto de aparecer depois na condição de uma das personagens mais emblemáticas da literatura machadiana. A propósito, o trecho a seguir é revelador:
Ele nunca dissera isso em voz alta. Nunca precisou. Era uma linha interna, subterrânea, que ligava a lembrança de Júlia, viva, concreta, inalcançável, à personagem que surgiria mais tarde, já moldada pelo artifício, pela experiência, pela literatura. Capitu não teria existido sem aquele primeiro assombro. Sem aquele bilhete dobrado às pressas, com versos ainda em formação, que ele nunca soube se ela lera. Talvez sim. Talvez o tenha guardado num caderno. Talvez tenha mostrado a alguma amiga e rido baixinho. Talvez tenha rasgado em silêncio. Ou, e esse pensamento que mais o inquietava, talvez ela tivesse entendido tudo, e preferido não dizer nada.
A presença desse nível demasiadamente especulativo em uma biografia só é possível porque C.S. Soares constrói as bases para esse tipo de abordagem ao longo de todo o livro. Em um movimento que oscila entre a vida do autor e a leitura da obra machadiana, o biógrafo investe em uma interpretação cujo objetivo é reposicionar o autor de Dom Casmurro como um escritor ainda não compreendido na sua totalidade, a despeito do que já foi dito nas biografias anteriores. C.S. Soares apresenta uma abordagem repleta de novos repertórios para compreender as motivações de Machado. O problema é que essa leitura fica no campo da subjetividade.
Em determinadas passagens, por exemplo, a interpretação de C.S. Soares sugere que a sua leitura acerca da trajetória e da obra de Machado de Assis supera a relevância dos acontecimentos. Os fatos parecem subordinados à perspectiva que o biógrafo tem do biografado, o que revela um esforço em projetar uma visão ajustada do escritor para os seus leitores — Soares chega a escrever, inclusive, que “biografar Machado não é, pois, reconstruí-lo, mas saber habitá-lo”.
Confraria
Quando está concentrado em reconstituir os acontecimentos da vida do personagem, um dos pontos altos do livro está no capítulo “Maçons negros”, no qual Soares explora a relação de Machado de Assis e de outros nomes da política e das letras que atuavam como “cúmplices silenciosos”, que, nessa confraria, ofereciam abrigo ao escritor em formação. A Sociedade Petalógica, fundada por Francisco de Paula Brito, era o espaço onde Machado aprendeu que “escrever, antes de ser um ato de fala, é um modo de escutar não apenas o que se dizia, mas o que não se ousava dizer”.
Em contrapartida, também nessa passagem, ao destacar a constelação de personalidades que ocupavam espaço de relevo na Sociedade Petalógica, C.S. Soares apela para uma escrita que recorre ao lírico para construir o cenário que envolvia o ambiente cultural daquela época.
O biógrafo sugere que sua leitura da vida e obra do autor supera a relevância dos acontecimentos
Dentro, o frescor tinha algo de cerimonial. A penumbra repousava sobre a mesa oval, ladeada por homens que pareciam esculpidos no tempo. Médicos, barbeiros, tipógrafos, caixeiros, sapateiros. Homens de cor. Homens livres. Ou quase. Eram irmãos. E isso, mais do que qualquer outra alforria, era um tipo raro de liberdade.
Não deixa de ser interessante o fato de C.S. Soares mencionar, a certa altura, o trabalho de autores que ousaram subir verdadeiras montanhas literárias, como Vladimir Nabokov, que escreveu sobre Gógol, e Jean-Paul Sartre, que investigou a vida e a obra de Flaubert em O idiota da família. O biógrafo de Machado de Assis cita, de quebra, a passagem irresistível de Susan Sontag: “a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte”.
Ocorre que, a despeito do estilo e da erudição literária — sendo capaz de traçar paralelos com outros autores e citar referências de um leitor experimentado —, C.S. Soares não é Nabokov ou Sartre. Para o bem e para o mal, sua visão é de um biógrafo que quer salvar seu personagem de alguns dos seus leitores.
O primeiro volume de Machado: o filho do inverno revisita a história do maior escritor brasileiro a partir de uma chave interpretativa, articulando elementos que nem sequer faziam parte da imaginação de biógrafos anteriores. Mas também é correto assinalar que o trabalho de C.S. Soares dilui a trajetória do escritor em uma abordagem com uma dose extra de abstração e condescendência, o que contamina a biografia.
Matéria na íntegra: https://quatrocincoum.com.br/resenhas/biografia/um-outro-machado/
09/04/2026