Zuenir Ventura cobriu alguns dos mais importantes eventos do país dos últimos 60 anos. Da ditadura militar à contracultura nos anos 1960 e 1970, passando pela redemocratização, por chacinas que marcaram o Rio nos anos 1990 e pelo assassinato de Chico Mendes em 1998. Faltava ao jornalista ser tema de filme. O documentário “Mestre Zu”, que será exibido neste sábado (11) às 18h30, no Estação Net Rio, no festival É Tudo Verdade, preenche essa lacuna.
No filme, o diretor Zelito Viana reuniu em sua casa amigos e parentes de Zuenir para lembrar histórias e reconstruir a trajetória do repórter, editor, cronista e escritor de 94 anos. O documentário alterna uma roda de conversa informal com imagens e entrevistas de arquivo, além de depoimentos de Flávio Pinheiro, Arthur Dapieve, Guguta Brandão, Paulinho da Viola, Tina Correia, os filhos do homenageado, Mauro e Elisa Ventura, e os colunistas do GLOBO Ancelmo Gois, Joaquim Ferreira dos Santos e Míriam Leitão. Zuenir, também entrevistado, aparece em diferentes momentos da vida.
— Cheguei numa época da vida em que me dedico a filmes que só eu posso fazer — diz Zelito, de 87 anos e amigo de longa data do tema do doc. — Qualquer um poderia fazer um filme sobre Zuenir, mas só eu poderia fazer este filme, que passa pela minha amizade com ele.
O projeto não partiu do biografado. A semente foi plantada pela filha Elisa Ventura, e inicialmente conduzida pelo cineasta Marcos Vinicius, que morreu durante a pandemia. O bastão foi passado a Zelito após uma conversa casual de Elisa com sua esposa, a produtora Vera de Paula.
— A ideia era mostrar a onipresença de Zuenir nas últimas décadas — conta Elisa. — Ao pesquisar mais percebi como ele estava em todos os acontecimentos importantes, sempre de forma muito atuante, extrapolando o papel de observador. A sensibilidade de Zelito foi essencial para unir esse peso histórico com os relatos hilários que os dois compartilham.
O doc revisita as dificuldades econômicas da família em Nova Friburgo, na Região Serrana. Estudioso desde sempre, o menino Zuenir cresceu sem livros nem jornais em casa. Só conseguiu fazer o primário numa escola de padres porque a mãe lavava batinas em troca de uma bolsa. Enquanto pensava em ser padre, começou a trabalhar com o pai, pintor de paredes, aos 11 anos.
Zuenir foi contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Na faculdade, trabalhou como arquivista noturno na Tribuna de Imprensa, jornal de Carlos Lacerda. Em 1956, o futuro governador da Guanabara procurou alguém para escrever um artigo sobre o escritor francês Albert Camus. Como o autor era seu ídolo, Zuenir se candidatou. Com o sucesso do artigo, surgiu a lenda de que o contínuo do arquivo era um gênio.
“Não era verdade: eu não era nem contínuo, nem gênio”, relembra Zuenir numa entrevista dos anos 1980 resgatada pelo documentário. O convite para trabalhar na redação da Tribuna veio em seguida. Vieram depois passagens por veículos como o Correio da Manhã e as revistas Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão (onde trabalhou com Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura em 1975) e IstoÉ.
Em 1985, Zuenir foi convidado para reformular o caderno de cultura do Jornal do Brasil e, de quebra, ajudou a criar o caderno literário Ideias. Como lembra Heloísa Teixeira (1939-2025) no filme, ele se tornou o grande jornalista cultural do Rio. Uma de suas revoluções foi publicar, todo ano, balanços da cena cultural. A produtora Guguta Brandão conta que no Jornal do Brasil ele foi responsável por falar de nomes que até então ninguém conhecia no país, como a ensaísta Susan Sontag e o filósofo Edgard Morin.
Reinventando a pauta de comportamento, o jornalista lançou termos que se popularizaram, como “vazio cultural”, para definir o ataque à expressão artística após o AI-5, e “amizade colorida”, para relações amorosas sem compromisso afetivo.
— Zuenir é um raro mestre capaz da arte de equilibrar o homem culto e sofisticado com um eterno jovem de muito humor e irreverência — diz Joaquim Ferreira dos Santos, com quem trabalhou na Veja e no Jornal do Brasil. — Aprendi e me diverti muito com ele. Profissionalmente, mesmo sendo um dos medalhões do jornalismo, ele sempre preferiu as áreas de cultura e comportamento às editorias de mais status, como política. A capacidade de criar pautas, de encontrar assuntos nas miudezas da cidade, me marcou muito. Além da enorme dedicação ao ofício, sempre generoso, querendo se renovar e incentivando quem estivesse com ele.
O documentário mostra como Zuenir identificou fraturas sociais e políticas do país. No livro “1968: o ano que não terminou”, ele documenta o auge da repressão da ditadura militar, assim como os movimentos de resistência e rebeldia que moldaram uma geração. Em “Cidade partida”, analisa a violência na favela de Vigário Geral após a chacina de 21 pessoas, assim como a consolidação do funk carioca como expressão cultural e os movimentos pela paz como o Viva Rio.
Zelito Viana cita o comentário final do jornalista Gerson Camarotti, que aponta o trabalho de Zuenir como uma inspiração de coragem para momentos atuais, em que a democracia segue sob ataque.
— As novas gerações precisam conhecer o trabalho de Zuenir, entender tudo que o jornalismo pode ser — diz Zelito.
Matéria na íntegra: https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2026/04/12/mestre-zu-documentario-dirigido-por-zelito-viana-revisita-trajetoria-de-zuenir-ventura.ghtml
13/04/2026