O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, morto em 2018, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, será homenageado neste mês na Biblioteca do Sesc Faiçalville, em Goiânia. Imortal pela Academia Brasileira de Letras (ABL), ele completaria 100 anos no próximo sábado (14/3).
Cony terá sua obra discutida por leitores no projeto Clube do Livro, que ocorrerá no dia 29. O evento celebrará o centenário do autor, conhecido pelas crônicas líricas e por romances nos quais colocava a individualidade de seus personagens como tema central das narrativas.
Nascido no Rio, o escritor estreou na literatura com “O Ventre”, de 1958. Com “A Verdade de Cada Dia” e “Tijolo de Segurança”, de 1959 e 1960, obteve o Prêmio Manuel Antônio de Almeida — cuja láurea lhe abriria uma série de distinções, como Jabuti e Machado de Assis.
Embora ficcionista premiado, Cony foi jornalista até o fim. Sua última crônica saiu em 31 de dezembro de 2017 no jornal “Folha de S. Paulo”, onde redigira meses antes o epitáfio “Se Eu Morrer Amanhã”. Publicado em março daquele ano, o texto trazia uma ironia sofisticada.
“Se eu morrer amanhã, não levarei saudade de Trump. Também não levarei saudade da operação Lava Jato nem do mensalão”, escreveu, renunciando aos fracassos e às dívidas. “Não levarei saudade dos programas do Ratinho, do Chaves, do Big Brother em geral.”
A trajetória no jornalismo se iniciou em 1952, quando entrara para o “Jornal do Brasil”. Tempos depois, seria redator do “Correio da Manhã”. Nessa gazeta, então uma das mais prestigiadas do país, revelou-se contra a “quartelada”, como se referia ao golpe de 1964.
Avesso a dogmas ideológicos, o escritor fez os textos políticos mais impactantes da época. Polia-os com a arte do cronista, em especial a ironia, que atingia o regime recém-instaurado naquilo que ele mais temia: a ridicularidade. Não se tratava de um polemista nato nem um ensaísta empolado, e sim um jornalista-romancista. Que nunca foi de esquerda, diga-se.
No prefácio de “O Ato e o Fato”, o cronista Luis Fernando Veríssimo conta que, em pouco tempo, ler Cony se tornou “um exercício vital de oxigenação para muita gente”. “‘Leu o Cony hoje? passou a ser a senha de uma conspiração tácita de inconformados passivos”, sublinhou Veríssimo, na obra que reúne “o som e a fúria” das crônicas contra a ditadura.
Em meados dos anos 60, Cony havia lançado oito livros. Suas obras foram publicadas pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, ligado ao Partido Comunista. Mas o autor, apesar de tudo, causava certa antipatia entre a esquerda, retratada em “Pessach, a Travessia”, de 1967.
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Eis a premissa de “Pessach, a Travessia”: um escritor, em meio à ditadura militar, evita um posicionamento radical, bem como renuncia à origem familiar judaica. Ao chegar aos 40 anos, porém, o sujeito se vê comprometido, à sua revelia, com questões políticas.
Segundo Cony, os intelectuais boicotaram o romance, algo jamais admitido pelo poeta Ferreira Gullar, dirigente comunista naquele período. Ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o romancista disse que não aderira à literatura engajada surgida após a “revolução de 1964”.
“Nessa época, escrevi ‘Antes, o Verão’, um romance completamente alienado, sem nenhuma referência política, assim como ‘Balé Branco’, que veio em seguida”, afirmou, em entrevista de 2008. “[Até] mesmo [em] ‘Pilatos’, que saiu em 1974, quando a situação seguia difícil.”
Cony ainda dizia ser curioso o fato de que alguns críticos entenderam ao contrário. Eles identificavam o homem castrado do romance como uma alusão ao que viviam os cidadãos, “alijados politicamente”. “Mas não era nenhuma metáfora para mim. Minha crítica aberta estava nos textos que escrevia para os jornais, especialmente o Correio da Manhã”, explicou.
Nos anos 70, trabalhou no grupo editorial de Adolpho Bloch. Para fazer as reportagens, muitas das quais editadas em livro, vestiu-se de médico para perfilar o Monstro de Ipanema. Pulou o muro de casas para entrevistar Roberto Medina, que havia pouco fora liberado de um sequestro. Cobriu o julgamento de Doca Street, assassino da socialite Ângela Diniz.
Autor de “JK e a Ditadura”, Cony declarou à Comissão Municipal da Verdade de SP que “a máquina para matar JK na estrada já estava pronta”. Ele colaborou com o ex-presidente na redação de suas memórias, interrompidas por sua morte, na Dutra, em 1976, aos 73 anos.
Além da homenagem a Carlos Heitor Cony, as Bibliotecas Sesc em Goiânia (Centro, Campinas e Faiçalville), Itumbiara e Jataí anunciam programação especial ao longo deste mês. A instituição celebra o dia do bibliotecário (12) e o dia mundial da poesia (21/3).
Matéria na íntegra: https://www.dm.com.br/entretenimento/carlos-heitor-cony-100-foi-cronista-lirico-e-romancista-focado-no-individuo/
16/03/2026