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Sinos, panos e ovo a prestações: A minha Páscoa de 80 anos atrás

Nos meus quase 90 anos, falta um momento de poder, que talvez eu já tenha contado. Mas deve fazer tanto tempo, que boa parte não vai se lembrar. Porque a história aconteceu exatamente em um domingo como este de hoje, da Paixão e ressurreição de Cristo, quando eu tinha 9 anos e era coroinha da matriz de São Bento, em Araraquara.

Era outra liturgia, em latim e português. O sacerdote entrava cercado por dois coroinhas. O da esquerda fazia pouco, quase nada. O outro era fundamental. Trazia as galhetas de vinho para os rituais e tocava a campainha nos momento essenciais.

Durante toda a Semana Santa não se tocava a campainha, apenas a matraca, pedaço de ferro a soar lúgubre contra a madeira. O padre iniciava a missa. No momento em que ele dizia: “Gloria in excelsis Deo” eu fazia soar a campainha.

Momento simbólico, excitante. Caía o pano negro que escondia o altar-mor. Acendiam todas as luzes da igreja. Tocavam os sinos, os automóveis buzinavam, as locomotivas apitavam e bimbalhavam os sinos. Nas casas, os panos pretos descobriam as imagens e quadros de santos. Sinos das igrejas tocavam. Cristo tinha ressuscitado.

As crianças malhavam bonecos de pano representando Judas. Luzes brilhavam. As mulheres preparavam almoços especiais. Era o dia em que as crianças recebiam ovos de Páscoa, que deviam ter ganho uma semana atrás, escondidos pelos jardins, quintais, arvores, moitas de flores. Somente aos 12 anos ganhei um ovo, comprado pelo meu pai, a prestações, na Confeitaria Lauand, que tinha de tudo. Ela também vendia balas Fruna, que trazia figurinhas de artistas de cinema, disputadas por mim e pelo Zé Celso, que fundaria o Grupo Oficina no futuro. Depois, íamos aos mercados de figurinha, onde arrematávamos artistas por quantias amenas. Difíceis eram Tyrone Power, Olivia de Havilland, Charles Starrett, Roy Rogers e seu cavalo Trigger, Esther Williams, que dançava e nadava.

Mas todo esse intenso movimento só aconteceria depois de Jesus ressuscitar. E ele só ressuscitaria quando eu tocasse a campainha, E eu esperava as palavras chaves: “Gloria in excelsis Deo”. Tudo aconteceria depois de meu toque. Era meu instante de poder. Sem eu, nada aconteceria na cidade e região. Eram segundos de silêncio, segundos de expectativa em que eu segurava a campainha, impacientando o vigário. Eu era o senhor do tempo. Breve silêncio absoluto, que parecia demorar horas, irritando clérigos e congregados marianos. Por anos, por instantes, tudo dependeu de mim, do meu toque. Aquele momento, a angústia que Hitchcock usava em cinema, esteve por anos na minha mão.

Estadão, 05/04/2026