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Nos mais inesperados pulsos

Dizem-me que a geração Z, a dos nascidos a partir de 2000, está desenvolvendo um surpreendente interesse pelos relógios de ponteiros. Surpreendente porque poucos objetos serão hoje tão inúteis, ainda mais para uma turma que nunca viu uma caneta-tinteiro, um par de abotoaduras ou um urinol, e, se apresentada a eles, não saberá para que servem. Além disso, se se trata de ver as horas, estamos cercados de relógios digitais, na rua, no computador, no celular. Com isso, o relógio de pulso, que substituiu o antigo cebolão de bolso, parecia estar mais aposentado até do que o de cuco. E, de repente, ei-lo nos mais inesperados pulsos.

O curioso é que não o usam para ver as horas. Esta continua a ser função do celular, que não se limita a dar as horas, mas também a quantos dias estamos da Copa do Mundo ou do próximo eclipse de Júpiter. Usam-no como símbolo de status, já que há relógios de seis dígitos em dólares, como o Patek Philippe e o Rolex, e seus fabricantes os produzem tendo em mente o exibicionismo nouveau riche de seus portadores. Servem também para lavar dinheiro e, nesse caso, os corruptos mais respeitáveis preferem os Breguets ou os Fabergé Eggs, que chegam a sete ou oito dígitos.

Para não se arriscar a usar sem querer o relógio a fim de saber as horas, a geração Z cuida de não aprender a fazer isto. Habituada aos números digitais, para que serve saber que, no mundo analógico, 10 para as duas equivale a uma e 50? E como decifrar aqueles exóticos IV, VIII ou XI, extintos na vida real?

Embora para fins amadorísticos, eu próprio tenho certa fixação por relógios. Pelas últimas contas, disponho em casa de dois de pulso, daqueles movidos a bateria de camelô, dois de parede (um deles parado há anos), um rádio-relógio e dois de mesa, um dos quais, que bate a clássica melodia do Big Ben, pertenceu a meu pai, donde já passou de centenário.

Por algum motivo, cada qual marca uma hora diferente. Mas tudo bem. Para saber as horas, somo a de todos eles e tiro a média. Nunca erro.

 

Folha de São Paulo, 03/05/2026