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Minha redação era boa, mas a professora não pôde lê-la para a classe

Não digam que é mania de velho, porque colecionar cadernetinhas vem da infância, quando a professora Lourdes recomendava que saíssemos pelas ruas com os bloquinhos que ela tinha nos dado, em busca de histórias. Anotando. Aquela foi uma professora adiantada, via longe. Nós mesmos íamos “caçar”, como nos disse, o assunto para as composições. “Olhem e descubram as ideias. É sobre a vida que vocês vão escrever. A vida, vocês têm de olhar para ela e copiar.” Ela mesma, a professora, tinha comprado do próprio bolso 35 cadernetinhas, capa preta lustrosa e um lápis, entregando a cada um de nós na classe. Canetas Bic não existiam. Um dia, inventei uma história. Tirei de minha cabeça que tinha visto uma girafa com um pescoço de 200 metros que escapou do circo e andava pela cidade causando a maior confusão, enroscando-se nos ramos das árvores, arrebentando fios dos postes.

Gostava mais do trecho em que a girafa parava diante da janela do quarto da Nena, filha da dona Alzira, uma vizinha, e ficava olhando pela janela do sobradinho, a moça pelada trocando de roupa. Nunca vi. Era meu maior sonho olhar por aquela janela. Nena era linda. A vida inteira imaginei que se tivesse visto a Nena pelada, alta, coxuda, morena, nunca mais esqueceria. Ia pensar nela como um poema.

A professora me chamou no fim do dia e disse que a minha redação era muito boa, mas não podia lê-la para a classe, havia coisas que existiam, mas não deviam ser expostas. Entenderíamos isso ao crescermos. Estranho mundo esse dos adultos, gente grande se calava, quando conversava e um de nós atravessava a sala. Mas o Fenerich, o neto de um alemão que vendia bacalhau seco, roubou da mesa dela meu texto, leu, passou para todo mundo, levou uma suspensão daquelas. Uma aluna reclamou: “E a senhora disse que isso é redação? Ele não viu a Nena, ele inventou, mentiu, merece zero”. A professora foi calma: “Ele não mentiu. Inventou. A vida fica mais interessante e gostosa com fantasias. Mais gostosa e engraçada”.

Feliz com minha defesa, ainda ouvi a professora acrescentar: “Você vai perceber um dia que a invenção e a fantasia ajudam a melhorar a vida”. Nunca mais esqueci. Talvez por isso eu minta, invente, crie coisas malucas, me divirto. Quem não se diverte, sofre. A vida mesmo é um conjunto de mentiras, falsidades, doidices, guerras, mortes, suicídios. É chata, difícil. Nem sei se quero continuar vivo. Mas que quero, quero! Muito. Se eu tivesse visto Nena pelada, nunca mais na vida ia esquecer, teria vivido iluminado. Estará viva?

Estadão, 08/03/2026