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A melancolia da Arte

Falavam de Drummond aos berros. Os dois alunos da UFRJ pareciam brigar enquanto mastigavam enormes pedaços de pão de queijo. Um se referia ao poeta dos primeiros livros, mais envolvido com causas sociais, o outro elegia o Drummond dos temas amorosos e eróticos, da alforria sentimental. Falavam do desconforto existencial contemporâneo. Havia um denominador comum perceptível nas duas análises: vive-se num mundo caótico, caos potencializado pelo modelo de sociedade em vigor. Os jovens pediam harmonia, a restauração de um paraíso perdido, como a Era do Ouro dos mitos presentes em Hesíodo e Virgílio. Paz, abundância e justiça. Os versos de Drummond podiam ajudar? A literatura haure a sua magia nas narrativas mitológicas. A harmonia entre deuses e homens ou a utopia de uma cidade ideal a estruturam, os estudantes estavam certos. Pensei em ponderar que a literatura tenta, tá b em, explicar o sentido dos mitos, mas ela existe porque sabe que não terá êxito nessa empreitada. Essa é a melancolia da arte. Não falei porque já era hora de entrar em sala, me lembrando de como , em épocas eleitorais, surgem propostas de restauração de paraísos perdidos.

Rede Social, 14/04/2026