Esta guerra Donald Trump já perdeu. Qualquer que seja o desdobramento das conversações diplomáticas. No melhor cenário, o de um acordo de paz, ele estará apenas fazendo contenção de danos. Tem alguns mortos ilustres como trunfo, entre eles o então líder supremo Ali Khamenei, mas fracassou no objetivo de derrubar o regime dos aiatolás. O Irã provou que tem uma arma econômica poderosa que afeta o mundo inteiro. Já o presidente americano desagradou os países da região atingidos pelos bombardeios do Irã, entrou em conflito com aliados europeus, inclusive os governados pela direita e brigou com o Papa. A bronca maior enfrenta em casa com a queda da popularidade, pela inflação em alta.
O mundo inteiro também está perdendo, como mostrou o cenário econômico do Fundo Monetário Internacional (FMI), que apontou o risco de o confronto provocar uma recessão global. A maioria dos países tem queda da previsão de crescimento, agora ou no ano que vem, ou ambos. A Arábia Saudita melhora em 2027, mas, em 2026, sua previsão de crescimento cai de 4,5% para 3,1%. No caso do Brasil, a previsão este ano subiu, mas do próximo ano, caiu. Alemanha, França, Itália, Reino Unido tiveram projeções reduzidas.
O Brasil está sendo atingido num ponto crucial, a inflação. O IGP-10, divulgado ontem pela Fundação Getúlio Vargas, mostrou o tamanho do estrago. O índice deu um salto. Saiu de deflação em março para uma alta espantosa de 2,94%. Os dados da FGV são mais voláteis porque têm o preço por atacado na composição e o IPA subiu 3,81% no mês.
O salto não será transferido na mesma intensidade para os preços ao consumidor, mas acende um alerta importante. Há uma escalada: a inflação do mês é de 2,94%; a do ano, de 2,57%, menor do que a do mês; e a de 12 meses é ainda mais baixa, de 0,56%. Estamos saindo de um cenário de deflação para um número equivalente à meta do ano num único mês. No IPCA, a alimentação no domicílio subiu 1,94% em março. E continua subindo em abril.
O governo faz manobras desesperadas para tentar conter a alta dos combustíveis, com subsídios ao diesel e ao querosene de aviação, mas o avanço do petróleo se espalha por vários outros preços da economia. O dólar tem caído e está abaixo de R$ 5. A valorização do real atenua o choque nos custos da energia, mas o conflito mudou o cenário econômico.
Os Estados Unidos têm na exportação de petróleo um dos poucos ganhos da crise. Segundo o Financial Times, os EUA acabam de bater seu recorde de exportação de petróleo. Os consumidores da Ásia e Europa compraram mais produto norte-americano, porque tiveram que reduzir as compras no Oriente Médio. A exportação americana de petróleo bruto subiu 1 milhão de barris por dia, atingindo 5,2 milhões de barris, além dos 7,5 milhões de barris que exporta de produtos refinados.
Esse ganho financeiro com a exportação de petróleo não compensa as perdas reais e imateriais. Em editorial, o jornal The New York Times lista as várias derrotas, e diz que o dano mais duradouro é o que atingiu a relação dos Estados Unidos com seus aliados. Países como Japão, Coreia do Sul, Canadá e a maior parte da Europa discordam da guerra e disseram não ao pedido de ajuda de Donald Trump para reabrir o Estreito de Ormuz.
O jornal repete o que tem sido dito por muitos analistas neste embate: que ela permitiu ao Irã comprovar que tem mesmo o controle de Ormuz e que custa pouco mantê-lo fechado. Bastam as ameaças e alguns drones para demover as grandes empresas de navegação de tentar atravessá-lo. Reabri-lo, no entanto, tem um custo altíssimo.
Trump, esta semana, ameaçou bloquear o entorno do Estreito de Ormuz numa estratégia sem sentido, como se dois fechamentos resultassem numa abertura. O problema continua sendo o fechamento da passagem marítima e a disparada nos preços do petróleo.
O NYT termina um editorial desta semana dizendo que pode parecer ingênuo propor isso, mas a maior chance de solução seria Trump “reconhecer a inépcia da sua abordagem solitária e impulsiva” e envolver o Congresso e os aliados na busca de uma solução “que diminua os danos desta guerra”. O governo norte-americano contudo, prefere continuar atirando para todos os lados. Ontem, Trump voltou a criticar a Otan e o Papa. Já o vice-presidente J.D.Vance disse que o Papa Leão XIV deveria ter “cuidado ao falar de teologia”. Quer, vejam vocês, ensinar o Pai-Nosso ao Papa.