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Como foi uma sessão de autógrafos de Carolina Maria de Jesus há 60 anos

Um e-mail de Tom Farias, a quem devo um voto para a ABL, fez o tempo recuar e me conduziu a 66 anos atrás, quando eu era repórter da Última Hora, jornal fundado por Samuel Wainer, que muito me ensinou. A UH morreu, depois de revolucionar o jornalismo brasileiro com suas primeiras páginas cobertas de fotos e chamadas para as matérias.

A foto da página que Tom me enviou faz parte de um momento que abalou a literatura brasileira: o lançamento de Quarto de Despejo, livro de Carolina Maria de Jesus, negra favelada, marco na literatura brasileira, que hoje tem Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Ana Maria Gonçalves, Sueli Carneiro e Jarid Arraes, entre muitas escritoras negras de gabarito.

O recorte traz matéria assinada por mim, naquele 1966, contando como foi aquela tarde de autógrafos de uma Carolina deslumbrada com o que acontecia ao seu redor. E também trechos do relato dela. Como este: “Eu era o alvo dos olhares. O doutor Lélio de Castro Andrade, meu ilustre editor, conduziu-me ao lugar apropriado para eu autografar. Não fiquei nervosa quando vi a afluência – fiquei alegre... Os meus filhos percorriam a livraria. Eram tantos livros para eu autografar que não vi as horas passarem. Os repórteres estavam presentes, fotografando-me. A Última Hora foi buscar alguns favelados para fazer uma reportagem na livraria. Os favelados estavam abismados, vendo-me, eu, preta, entre os brancos, tratada como se fosse uma imperatriz.

Às 16 horas, chegou o dr. João Batista Ramos, ministro do Trabalho. Que homem bonito! Que voz! Audálio fez uma alocução que o ministro ia doar-me uma casa... A Vera nos empurrava para olhar o rosto do ministro e dizia: ‘Que homem bonito! Quero casar com um homem assim!’. O ministro sorriu. Repreendi a Vera para não empurrar o senhor ministro.

 – Que senhor ministro nada, eu sou João Batista e está acabado. 

Escrevi um autógrafo para o ministro. Entreguei-o e agradeci a gentileza de ele ser padrinho do meu livro. Ele saiu com dificuldade, devido à afluência do povo... Continuei autografando livros para a multidão. O povo foi se retirando, o Audálio despediu-se e pediu-me um abraço. Quis mover-me, mas os meus pés estavam adormecidos... Às nove e 15 fechamos a livraria. O Aldo pagou meu automóvel até a favela. Parei no ponto do bonde, para comprar pão e peixe para os filhos. O motorista era japonês, ficou horrorizado quando viu a favela: ‘A senhora com a fama que tem mora aqui!? Credo! Eh, Brasil!’. Sorri, achando graça do japonês. Deitamos vestidos porque estávamos cansados”.

Estadão, 19/04/2026