Deu no New York Times. Em 1975, Barbara Gordon, 40 anos, aclamada roteirista de documentários para a CBS em Nova York e ganhadora de um Emmy, foi autorizada por seu psiquiatra a tomar 30 miligramas diários de Valium para "acalmar sua ansiedade". Talvez escrever documentários premiados para a CBS provoque ansiedade, mas, segundo a literatura médica, um especialista sério só receitará essa jumenta dose de diazepam em casos agudos e, mesmo assim, por poucas semanas –que já incluirão o desmame lento e seguro da substância.
Alguns dos efeitos adversos do uso normal do Valium são tonteira, confusão, lapsos, sonolência diurna e falta de coordenação motora. Barbara começou a passar por isso e muito mais. Disse ao médico que estava assustada e queria interromper o tratamento. Ele a autorizou a parar de uma vez, a frio, "sem os riscos da abstinência" porque o Valium "não provocava dependência".
Barbara teve todas as consequências da retirada abrupta. O sintoma original, a ansiedade, teve efeito rebote e voltou com intensidade ainda maior. Seguiram-se pânico, sudorese, diarréia, vômitos, depressão, tremores, taquicardia, insônia extrema e possibilidade de alucinações e convulsões. Sem poder trabalhar, passou por duas internações de meses e foi afastada pela CBS.
De volta ao mercado, sem conseguir emprego, Barbara foi a quase 20 psiquiatras, que a subdiagnosticaram com esquizofrenia, agitação maníaco-depressiva e histeria, quase sempre com conotações sexistas. Daí Barbara retirou-se em seu apartamento, passou pelo terror que ainda tinha de passar e se recuperou. Lúcida, levou um ano escrevendo sua história com o Valium. Em 1977, publicou o livro, "I’m Dancing as Fast as I Can", que vendeu dois milhões de exemplares e denunciou o risco que se corre com profissionais dogmáticos e despreparados.
Barbara morreu há dias em Nova York, aos 90 anos. Seu livro não saiu no Brasil. Se você o procurar na Estante Virtual pelo nome da autora, só vai encontrar os de outra Barbara Gordon: a Batgirl.