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Um caso de superação

Quinze dias depois que O GLOBO publicou duas páginas sobre a “guinada de Nova Friburgo”, que acelerou seu crescimento como nenhuma outra do Estado do Rio, voltei à cidade onde passei minha adolescência. Pude assim observar de perto esse exemplo de superação econômica, que em 2011 sofreu o pior desastre ambiental de sua história, provocado por chuvas, enchentes e deslizamentos que causaram mais de 200 vítimas e devastaram a Região Serrana.

Hoje, mal se notam os efeitos da catástrofe. Visíveis são os sinais positivos das atividades baseadas na indústria, principalmente nos setores metal-mecânico e têxtil, responsáveis por 40% do PIB do município e pelas centenas de empregos com carteiras assinadas. Ele também tornou-se um importante polo de moda íntima, com mais de 1,3 mil confecções e cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos. Não por acaso, é a “Capital da lingerie”. Isso sem falar na floricultura, que situa o setor como o segundo maior produtor de flores de corte, depois de Holambra, em SP, e o maior criador de trutas do estado. A novidade, pelo menos para mim, é a fabricação de cerveja, cuja capacidade já é de 120 mil litros por mês. Nunca pensei que um dia iria beber cerveja friburguense.

Mas, no item surpresas, o que realmente me impressionou foi a atividade cultural. Sou de uma época em que a cidade era um deserto de ideias. Havia apenas uma biblioteca pública, que praticamente não funcionava, e livraria, nem pensar. Minha primeira leitura não foi de livro, mas do jornal “A Voz da Serra”. Fui ter acesso a Machado de Assis e Proust quando a professora Leticia Pinto, vinda de Campos, emprestou-me seus exemplares. 

Pois bem. Sábado e domingo passados realizou-se a Festa Literária de Nova Friburgo, tendo este ano como homenageados Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna. A Flinf reuniu mais de 60 convidados, que participaram de debates, bate-papos, shows, lançamentos de livros, roda de poesia, contação de histórias, na Academia Friburguense de Letras, Fundação D. João VI, livrarias, shopping Cadima. O incrível é que muitos desses encontros ocorreram ao mesmo tempo em lugares diferentes e todos lotados. Me perguntava de onde tinha saído tanta gente interessada em livros. A curadora do evento, a jornalista Maria Fernanda Macedo, depois da tensão dos preparativos, era só felicidade. Mas já estava pensando na próxima Flinf, em 2018, quando se irá comemorar o bicentenário da Suíça Brasileira, que, segundo cantou num arroubo de amante o poeta J.G. de Araújo Jorge, “é o céu mais perto da terra/que a gente pode encontrar”.

O Globo, 01/11/2017