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Se gritar pega ladrão...

Quando querem se consolar de suas mazelas, os cariocas alegam que é assim em todo lugar, como se houvesse uma capital que acumulasse tantas crises ao mesmo tempo — guerra entre traficantes, disputas com milicianos, caos urbano, falência financeira, decadência moral, tragédia na saúde, desastre na segurança, assaltos, balas perdidas, desemprego, salário de servidores atrasado, lojas fechadas.

Alguém conhece outra em que o ex-governador, preso há um ano, está condenado a mais de 40 por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e comando de uma organização criminosa agindo em quase todos os setores do estado?

E em que o atual acaba de ser acusado por um delator de ter recebido quase R$ 5 milhões de propina da Festranspor, a federação famosa por seu poder corruptor, denunciada como tendo comprado do governo e de deputados mais de R$ 130 bilhões só de isenções fiscais, sem falar nas comissões sempre que havia aumento das tarifas de transporte público?

E que outro Tribunal de Contas do Estado roubava nas contas, em vez de fiscalizá-las, segundo denúncia do seu próprio ex-presidente, presos ele mesmo e outros quatro conselheiros por recebimento de R$ 6 milhões em propinas?

Pois bem. Quando se acreditava não haver mais do que se envergonhar no Rio, eis que surge o mais novo escândalo: a prisão do presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, e dos deputados Paulo Melo e Edson Albertassi por lavagem de dinheiro.

Presos, na verdade, por 24 horas, os três integrantes do grupo político do PMDB que comanda o estado há 20 anos, só tiveram tempo de ir até a cadeia onde está o chefe, Sérgio Cabral.

Em rápida manobra, seus aliados conseguiram soltá-los por meio de uma votação de 39 a 19 na Alerj, afrontando não só o público, que foi impedido com truculência de assistir à sessão, como os desembargadores, que decretaram a prisão por unanimidade.

Ontem à tarde, os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) determinaram mais uma vez a prisão dos três e o afastamento do mandato.

De qualquer maneira, vale a afirmação do juiz Marcelo Bretas, da Lava-Jato do Rio, que se confessou assustado pela extensão da corrupção, diagnosticando-a como uma “metástase: parece que tem mais gente envolvida do que não envolvida”.

De fato, a impressão é essa, quem não está preso é porque já foi ou vai ser. Ou então, como prefere o ambulante-cronista, cantarolando no calçadão de Ipanema o velho samba: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”.

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O novo chefe de polícia já disse a que veio. A Lava-Jato que se cuide.

O Globo, 22/11/2017