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As praias do futuro

Se fôssemos escrever a crônica das praias do Rio, o relato podia começar com um piquenique dos tupis, adorando o deus Tupã, depois tomando cauim com os franceses, e em seguida enfrentando a invasão portuguesa, comandada por Estácio de Sá, em que as praias se encheram de flechas perdidas.

Faríamos um corte para o princípio do século XIX, quando Dom João VI tomou seu banho de mar terapêutico, talvez um dos poucos de sua vida — porque, ao contrário dos nossos indígenas, que tinham o hábito de se banhar muitas vezes por dia, os europeus nunca foram exemplo de higiene para as futuras gerações.

Novo corte para o poeta Manuel Bandeira, ex-tuberculoso, passeando pelas antigas praias do Centro, sonhando em ir embora pra Pasárgada, onde poderia fazer ginástica e tomar banho de mar. Corte para o poeta Vinicius de Moraes conhecendo sua primeira namorada, na Praia de Cocotá.

Dois capítulos fundamentais para a nossa crônica seriam a invenção do frescobol, em Copacabana, tendo entre seus criadores o pensador Millôr Fernandes, e a introdução do biquíni e do surfe, no Arpoador dos anos 50 e 60. Sem frescobol e biquíni, o que seria do Rio de Janeiro?

Se me pedissem um depoimento, eu poderia me recordar das praias da infância, nas quais me fingia de afogado para o terror de minha mãe, que era mineira e não sabia nadar. Em compensação, um de meus esportes favoritos era salvar do afogamento as primas, também mineiras, que não acreditavam no perigo das praias desertas da Barra da Tijuca.

Seria divino, maravilhoso consultar Gal Costa e Evandro Mesquita sobre as Dunas do Barato, em Ipanema, onde se reunia a fina flor da contracultura. Não posso depor a respeito, porque, nessa época, eu já era metido a intelectual. E, como pregava o profeta Jaguar, intelectual não vai à praia: intelectual bebe.

Felizmente mudei de hábitos e usufruí dos privilégios da beira-mar, embora cada vez mais raramente. Tanto que meu filho pequeno foi outro dia à Praia de Ipanema e, depois de entrar e sair da água, se lambuzar todo de areia, lamentou: “Pena que não tem praia lá no Rio de Janeiro.”

Mal sabia ele que o Paraíso é aqui, mas o Inferno também. A praia, que já foi descrita por Carlos Drummond de Andrade como o lugar do encontro democrático de todos os cariocas, adotivos ou natos, é hoje espaço dos confrontos sociais. Arrastão não é mais aquela música de Edu Lobo e Vinicius, com Elis como intérprete, fazendo a coreografia que lhe valeu o apelido de Hélice Regina.

Contudo, como sou otimista patológico, creio que um dia a praia será de todos, e que nascerá nela alguma espécie de neossocialismo moreno — ao menos aqui, no Rio de Janeiro. Seja qual for a praia desse improvável futuro, espero que todos tenhamos o nosso lugar ao sol.

O Globo, 24/09/2017