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A onda de hipocrinismo

Você pode não conhecer o termo, que é um neologismo, mas, se acompanha o noticiário político, está enojado de saber que se trata da combinação vocabular de hipocrisia e cinismo. Os dois sempre existiram, mas separadamente, não assim juntos e na frequência que a Lava-Jato trouxe à tona. Se a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, o hipocrinismo é a dupla homenagem. Até o advento do instituto da delação premiada, o exemplo mais lembrado do fenômeno era Paulo Maluf, capaz de negar sorrindo, e sem qualquer constrangimento, o óbvio. Condenado à prisão na França e nos EUA por lavagem de dinheiro, procurado pela Interpol durante anos, sem poder sair do país, ele garantia e garante não ter conta no exterior e se considera “um homem honesto, probo, correto e decente”. Era o inquestionável campeão dessa categoria chamada pelo povo de “cara de pau”.

Hoje, porém, são incontáveis os concorrentes ao título, tendo como principais fornecedores de candidatos o Senado e a Câmara dos Deputados. Os desfiles na televisão dos acusados pelos investigadores da Lava-Jato são apenas uma mostra. Respeitando o direito de resposta, a imprensa tem o cuidado de apresentar a acusação e logo em seguida de ceder a palavra aos acusados para que deem a sua versão. Só que, em vez de defesa, o mais comum é o ataque — ao eventual delator, ao Ministério Público, à polícia, à imprensa. Os denunciados são todos inocentes, claro, e vítimas de perseguição política.

As alegações são pouco originais e muito parecidas, irritando o telespectador pelo tempo que tomam do noticiário. Não sei se é permitido, talvez não, mas o ideal seria juntar todas as defesas num bloco só: “fulano (ou seu advogado), fulano e fulano dizem que vão provar na Justiça sua inocência. E todos têm a consciência tranquila”, como se não houvesse má consciência. O Papa Francisco e eu temos esperança de que surja um denunciado que diga: “Estou com a consciência intranquila”.

Tudo bem que, em obediência à presunção de inocência, não se possa fazer afirmações que impliquem condenação antecipada ou prejulgamento de alguém. É preciso usar sempre o condicional e um hipotético “suposto”, às vezes exageradamente: “O suposto traficante Nem, da Rocinha, teria comandado da prisão...”. Parece exagero. E é. Mas se justifica. Jorge Bastos Moreno, por exemplo, foi processado umas seis vezes por teimar em se referir a um deputado pelo apelido de “Coisa Ruim”. O nosso saudoso colunista preferia a punição da Justiça ao ridículo de usar algo como o “suposto Coisa Ruim”.

Que falta faz o Moreno. Ninguém combateu com mais graça e picardia essa onda de hipocrinismo.

O Globo, 18/10/2017