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O nome dele é Ai Weiwei

São Paulo. O cartaz da 41ª Mostra Internacional de Cinema é um aperto de mãos. A imagem vertical sugere que alguém está socorrendo alguém. Segundo Renata de Almeida, curadora do evento, “é simbólico que nesse mundo louco de ódio e pouco diálogo, o pôster proponha estender as mãos”. A propósito, esse “mundo louco” está refletido nos mais de 300 títulos da competição.

O autor do cartaz é o dissidente e ativista social chinês Ai Weiwei, diretor de “Human Flow — não existe lar se não há para onde ir”, um longa-metragem sobre um dos mais perversos flagelos da atualidade: o dos refugiados. O documentário, de 140 minutos, que estreia em novembro, acompanhou a tragédia em campos de abrigo de 40 países de todos os continentes, compondo um painel de imagens chocantes, apocalípticas, uma espécie de retrato de Exodus moderno. Uma das cenas mais impressionantes, filmada por drone, mostra as pessoas lá embaixo como formigas, sem que a comparação precisasse de palavras 

Nas “cidades” improvisadas, sem as mais elementares condições de vida, como higiene e saúde, famílias inteiras com suas crianças e seus idosos vivem em precárias barracas de lona sujeitas às intempéries. Depois de uma tempestade, elas não têm nem como secar as roupas encharcadas de água e lama. Dali elas saem como manadas humanas caminhando a pé por intermináveis estradas até fronteiras que, não raro, impedem o tão sonhado asilo. 

Weiwei conclui que o mundo está definitivamente dividido “por raças, religião, nacionalidade”. Ele é hoje uma celebridade mundial por sua obra e por sua vida de perseguido político que não pode voltar a seu país (vive na Alemanha), onde já esteve preso e será de novo, se tentar entrar. Designer arquitetônico, pintor e artista plástico, ele foi premiado em 2015 pela Anistia Internacional por sua “liderança excepcional na luta pelos direitos humanos”.

Suas razões de pessimismo não são apenas pessoais. Estão por toda parte. Até os budistas, históricos defensores da não violência, foram contaminados pelo ódio. Em Mianmar, país quase que exclusivamente budista, os rohingyas, da minoria muçulmana, tiveram que fugir para a miserável Bangladesh, onde sobrevivem como indigentes.

A triste realidade é que não há saída à vista para o impasse que opõe de um lado mais de 60 milhões de pessoas fugindo das guerras, da fome e da miséria, e de outro um mundo que, por falta de vontade ou de solução, não consegue absorvê-los.

A crise é agravada pela “inflexão à direita” verificada no mundo todo. Weiwei acredita que a situação que retratou tende a piorar. Quando lhe perguntaram sobre o Brasil, ele não o livrou da “guinada”, cujo “primeiro sinal é calar a arte”.

O Globo, 21/10/2017