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O garoto da última fila

Foi uma escolha acertada do nosso inesquecível José Wilker quando decidiu traduzir o original de Juan Mayorga para o teatro: 'O garoto da última fila' reúne pérolas de arte e ética, movimentos magnificamente interpretados por um elenco de primeira ordem, no Teatro das Artes (Gávea).

Há muito o que pensar sobre o espetáculo. Detenho-me na troca de tapas na cara entre professor (Isio Ghelman) e aluno (Gabriel Lara) e o que isso significa. Depois, em dois tempos distintos, na fala de que "a Matemática não serve pra nada" e a declaração do jovem de que deseja ser professor de Matemática. Não é uma contradição?

Na plateia, a presença da juíza Andréia Pachá, que elogiou a corajosa produtora Cristina Lara Resende, e depois comentou o confronto com as grandes questões contemporâneas da arte da humanidade e da filosofia. Saiu encantada com a fina ironia dessa história instigante e muito bem contada.

A direção é de Victor Garcia Peralta. Ele mostra em alguns momentos como se trabalha com falhas de caráter e promove reflexões sobre o ato da escrita, a ficção literária, o ensino, a cultura burguesa e a arte contemporânea, portanto um vasto cardápio, na verdade para todos os gostos. A peça, de ritmo de tirar o fôlego, tem personagens que manipulam e são manipulados, num jogo espetacular do fazer teatral.

O objetivo da direção foi mostrar que a arte é útil, sempre ensina alguma coisa, e isso acontece plenamente em "O garoto da última fila". O seu sucesso se justifica pela mescla de um belo texto com uma admirável interpretação.

O Dia, 07/09/2017