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O ar que respiramos

Quando o ódio e a violência falam mais alto que o argumento, a defesa da democracia se torna imperativa.

Não me lembro de um mal-estar semelhante ao que percebo hoje na sociedade brasileira. Paira um temor difuso sobre o pano de fundo das notícias falsas que dissolvem a realidade em ritmo demencial, como num pesadelo em que o extraordinário se mistura ao cotidiano banal, criando histórias incompreensíveis.

Nas sete eleições que sucederam à redemocratização, apesar das divergências entre os candidatos, não havia medo de que o resultado viesse a pôr em risco a democracia.

Os candidatos ao segundo turno falam em democracia pronunciando essa palavra como um exorcismo dos demônios que sabem que a ameaçam. Para que seja mais que uma palavra usada em vão, é na espessura dos grandes e pequenos gestos do cotidiano que a democracia se afirma ou infirma.

Fatos intoleráveis,como o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê por ódio político, justificam os fantasmas de uma violência que pode se alastrar como a peste. Caetano Veloso, rompendo o silêncio, gravou em vídeo um alerta emocionado:“O Brasil não pode ser reduzido a essa coisa bárbara.” Essas agressões têm que ser repudiadas e punidas. Já.

Eleições são em si mesmas uma afirmação da democracia. O eleito tem legitimidade para governar, mas não tem um poder absoluto. Os contrapoderes se enraízam nas instituições e na sociedade. A Constituição e o Judiciário independente garantem os direitos individuais e coletivos. Asseguram a liberdade de expressão na mídia que denuncia tentativas de violação ou negação desses direitos. Protegem a liberdade de pensamento e escolhas no cotidiano de cada um.

A democracia foi obra de gerações. Combater quem a ameaça é preciso. Não importa de onde venha a ameaça.

A democracia não convive com a barbárie que agride minorias e ofende as mulheres. Não aceita que nos dividam como inimigos. Nosso futuro como nação depende da preservação das liberdades. O ar que respiramos.

O Globo, 15/10/2018