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Nada mais espanta

Não só não espanta como sequer surpreende. Se o Brasil é a terra dos contrastes e contradições, como já foi classificado, o Rio de Janeiro é a sua capital, onde o absurdo e o paradoxo são lugares-comuns. Aqui, o desvio é norma, o crime, uma rotina e o caos urbano, o pão nosso de cada dia. Em cinco meses, a intervenção federal, que veio para resolver a questão da segurança, não só não conseguiu, como permitiu que casos graves tenham aumentado. Também no Rio, um assassinato que chocou a população e mobilizou até a ONU, exigindo sua elucidação, torna-se, 120 dias depois, apenas um refrão inútil e sem resposta das autoridades: “Quem matou Marielle?”

Problemas sempre houve, é verdade, mas um de cada vez, digamos. Acho que nunca tivemos tantas crises juntas e misturadas: política, econômica, moral, ambiental, de saúde, de segurança e educação. Jamais tivemos presos ao mesmo tempo um ex-governador e um ex-secretário de Saúde, respondendo por roubos de milhões (ou bilhões), uma prática que ainda é comandada por detrás das grades.

Enquanto isso, num dia você fica sabendo que mais da metade das escolas do Rio está em más condições e, no outro, que o estado tem um professor ameaçado fisicamente a cada três dias e que as maiores vítimas, 75%, são mulheres.

As histórias recolhidas pelo repórter Rafael Soares e publicadas domingo são de estarrecer, se o verbo já não estivesse em desuso. Foram contabilizadas 624 intimidações registradas por docentes em delegacias de 2014 a 2017. Há casos como o da jovem que foi aterrorizada com uma tesoura por ter repreendido uma menina de, acredite, 10 anos. A mesma vítima teve a mão esmagada na porta de um armário por um outro aluno. A consequência foi uma licença psiquiátrica.

É possível imaginar até que ponto vai a promíscua convivência que se estabelece ali com o crime, diante do que contou para o jornalista uma professora de inglês: “As crianças diziam que iam pedir aos traficantes que me matassem!”.

Não tive como não comparar com uma experiência vivida por mim em 1993, quando, a trabalho, frequentei uma favela por dez meses. Chamou minha atenção na época o respeito que os traficantes tinham para com os mais velhos, principalmente quando se tratava de “mestras”. Assisti a uma delas repreendendo com rigor um antigo aluno que, respeitoso, ouvia de cabeça baixa. Ele era ninguém menos que o perverso e todo-poderoso chefe da facção que mandava na comunidade. Manter a distância entre os dois mundos era natural.

Alguma coisa mudou para pior.

O Globo, 18/07/2018