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A morte da bezerra

A melhor solução quando um cronista não tem assunto é escrever sobre a morte da bezerra. No entanto, se fosse seguir a regra, eu matava todas as bezerras do mundo. Felizmente tenho bezerras preferenciais. São duas fotos e dois fatos que frequentam minha necessidade de pelo menos matar duas delas.

A primeira é a foto do presidente Clinton, Arafat (líder palestino) e Yitzhak Rabin (primeiro ministro de Israel). Os três apertam as mãos selando uma paz que nunca houve. Lembro da delicadeza de Clinton com a mão no ombro de Arafat, convidando-o a entrar primeiro na sala da reunião que parecia o fim de uma guerra que ainda não acabou.

Rabin foi assassinado por um judeu, Arafat pode ter sido envenenado e Clinton ficou desmoralizado pelo boquete mais famoso da história. Pulo no tempo e vejo Donald Trump e Putin de mãos dadas tentando resolver o problema da Coreia do Norte, que pode se transformar num abacaxi atômico.

Ao longo da história, Brutus apunhalou César pelas costas, tentando moralizar o império mais imoral da história. Como se vê, não faltam bezerras para qualquer cronista sem assunto. Acredito que há bezerras suficientes para o cronista sobreviver no duro ofício de comentar atos e fatos -que foram, aliás, o título de um livro que escrevi em 1964, que me rendeu seis prisões consecutivas, um autoexílio em Cuba e, como sobraram algumas bezerras, consegui comprar uma casa em Teresópolis.

Sou pessimista desde o dia em que o dr. Heitor Machado Silva ajudou a me botar neste mundo. Sempre disse que o otimista era um cara mal informado. O que há de bezerras dando sopa, desde que Noé colocou duas numa arca que devia até hoje estar no fundo do mar, em situação pior do que a do Titanic! Que as bezerras me perdoem, à custa delas pretendo comprar um carro novo. 

Folha de São Paulo (RJ), 08/10/2017