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Fontes do desassossego

A intervenção federal ainda requer muita explicação, mas já se pode afirmar que uma das maiores dificuldades que a medida vai enfrentar é a existência no Rio dos dois principais agentes da desordem: o crime organizado e o crime desorganizado, o que age no atacado e o que atua no varejo. O primeiro se dedica preferencialmente a grandes ações, como tráfico de drogas, contrabando, assaltos a caminhões de carga, explosão de caixas eletrônicos e rebelião nos presídios.

Tão ou mais bem armados do que a polícia, os traficantes são os donos das favelas, exercendo sobre elas domínio absoluto — territorial, político, econômico e militar. Antes, ainda tinham que disputar a hegemonia com a milícia, mas hoje são parceiros, e a força do terror duplicou.

Eles formaram um Estado paralelo tirânico, que impõe suas leis seja por meio da extorsão — pedágios e tributos sobre serviços como luz e gás —, seja por meio da execução dos que desobedecem ou transgridem. Seus “tribunais” julgam, condenam e aplicam sentenças de morte.

Tudo isso é sabido, mas, como ocorre do “outro lado” da cidade, não chega a assustar tanto quanto o crime desorganizado, que neste verão, principalmente no carnaval, aterrorizou os moradores do asfalto, com grupos de menores agindo em conjunto e praticando pequenos furtos e roubos a pé ou de bicicleta, às vezes usando facas. Eles têm promovido arrastões não só na praia, mas também em lojas, onde entram em bandos, saqueiam rapidamente e saem, como fizeram no supermercado Pão de Açúcar no Leblon.

Com mais frequência, porém, eles agem nos calçadões e nas ruas da Zona Sul. Só na segunda-feira de carnaval, a Delegacia de Atendimento ao Turista registrou 26 ocorrências. Dois italianos foram feridos na cabeça; uma chinesa e uma alemã levaram socos no rosto, além de chutes; uma argentina que passeava com um bebê foi jogada no chão.

Um vídeo flagrou a cena de uma senhora de 58 anos em Ipanema. Ela chegava ao trabalho às 7h30m num condomínio, quando foi atacada pelas costas por quatro bandidos. “Foi uma covardia o que fizeram comigo”, ela contou, inconformada com a violência gratuita. “Por que não me pediram para passar a bolsa? Eu entregaria. Não precisava ser agredida”.

Nos ataques a transeuntes, é essa a característica: o requinte de crueldade. Os jovens bandidos não se contentam mais em roubar. O prazer maior é proporcionado pelo sadismo com que agridem, espancam e até matam sem qualquer motivação. É muito difícil prendê-los porque se dispersam rapidamente após cada ação.

Não têm chefes, agem de modo anárquico em bandos e por conta própria, numa espécie de versão tupiniquim dos “lobos solitários”. Será que a intervenção federal tem algum plano para secar essas fontes de nosso desassossego?

O Globo, 21/02/2018