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Canudos se não rendeu. Teve que ser destruída

Em comentário que fiz comemorando o centenário de Os sertões, em 1998, concluí com uma citação de Euclides da Cunha: ''Canudos não se rendeu . Teve que ser destruída''. E arrematei com a pergunta: como evitar na atualidade que nossa miopia ideológica nos conduza à repetição de crimes como os que testemunhou esse autor de rara coragem intelectual? Sem lugar a dúvida, ele continua a ser muito lido. Mais que isso: recentes sondagens de opinião indicam que ele é ainda o autor mais influente em todo o século no que concerne ao entendimento do processo de formação de nossa sociedade. A razão disso certamente não é seu gongorismo nem seu cientificismo positivista, superados pelos avanços das ciências sociais.


Cabe, portanto, indagar: como se explica o interesse crescente em Euclides (1866-1909), se de todos os pontos de vista sua obra é reconhecidamente datada?


É que ele, diante do drama - do crime, em suas palavras -, do massacre de Canudos, teve uma percepção lúcida da profundidade dos conflitos imanentes à cultura brasileira e que se expressam nas enormes disparidades sociais que persistem até hoje.


Euclides da Cunha exerceu um papel fundador na cultura brasileira, comparável ao de Cervantes na cultura espanhola. Trata-se de uma influência difícil de delimitar, mas decisiva, que se foi metamorfoseando no correr de todo o século 20, assumindo formas novas por vezes contraditórias.


O primeiro deslumbramento provocado pela leitura de Os sertões foi com respeito ao seu embasamento científico. Pela primeira vez entre nós alguém se empenhava em penetrar nas nossas contradições fundando-se em um Gunplovicz, um Maudesley e outras doutas celebridades. Mas não se passou nem um quarto de século para que o suposto rigor do cientificismo caísse em desuso ao embate dos avanços de uma antropologia social que permitiu desmascarar o substrato ideológico das doutrinas que passavam por ciência na época de Euclides.


Ficava de pé, contudo, o belo edifício literário que ele construíra. Ouso afirmar que nenhuma obra mereceu entre nós mais atenção dos especialistas do que Os sertões. E que se retém de toda essa pesquisa? Nas palavras do professor Alfredo Bosi: ''O estilo da obra organiza-se mediante uns poucos processos retóricos: em primeiro plano, a intensificação e a antinomia''. Vê-se assim o quanto a mediação literária se compôs para figurar a ideologia do implacável.


O gongorismo verbal era predominante na época e teve entre nós seus pontífices máximos em Ruy Barbosa e Coelho Neto. A semântica da percepção exagerada e o proselitismo implícito já haviam sido objeto da crítica sutil de Machado de Assis, cuja influência literária irá prevalecer em nossa cultura do século 20.


Vejamos outro ponto que ajuda a compreender a atualidade de Euclides da Cunha. A visão que no fim do século 19 se descortinava de nosso país como processo histórico era de grande ambigüidade. A criação do Estado fora precoce mas incompleta, pois sua presença era quase inexistente em grande parte do vasto território. O centralismo do período imperial reduzia a muito pouco a atividade política, abrindo espaço ao mandonismo local.


Tampouco havia uma idéia clara de nação pois o exercício da cidadania era extremamente limitado pela escravidão e pelo analfabetismo. O progresso era visto como totalmente dependente da importação de bens materiais ou modismos de uma elite.


A grande intuição de Euclides residiu em, contrariando sua bagagem de conhecimentos supostamente científicos, ter ele percebido que existia um povo autenticamente brasileiro, o qual ele imaginou ser a resultante do caldeamento trissecular de raças diversas. Esse caldeamento ter-se-ia efetuado na região interiorana devido ao isolamento de suas populações. O gênio intuitivo de Euclides liberou-o para ter uma percepção global da realidade social com que se deparava. O apelo desbridado à imaginação substituía o suposto rigorismo científico.


Referindo-se ao sertanejo cujas virtudes comprovara em Canudos, afirma, peremptório: ''A sua evolução psíquica, por mais demorada que esteja destinada a ser, tem, agora, a garantia de um tipo fisicamente constituído e forte. Aquela raça cruzada surge autônoma e, de alguma forma, original'' (Os sertões).


Dado esse passo, Euclides já não recua, pois encara como algo positivo o abandono a que o mundo litorâneo, que seria inautêntico, condenou o mundo sertanejo. Mas sua intuição permanece vigilante quando afirma: ''Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social''.


O autor de Os sertões é hoje reconhecido como o pensador brasileiro que melhor captou a resistência à mudança em nosso país. A importância da obra de Euclides está em que ela nos permite reconhecer que o Brasil é um país em construção no qual o fundamental é transformar em cidadãos a massa popular amorfa. O sertanejo euclidiano surge assim como prefiguração do cidadão consciente de seus direitos. Não admira, pois, que os trabalhadores rurais do Movimento dos Sem-Terra reivindiquem a figura de Euclides da Cunha como um precursor.




Jornal do Brasil (Rio de Janeiro - RJ) 16/06/2004

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro - RJ), 16/06/2004