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Discurso de posse

Introdução

A luz se insinuava por baixo da porta. Resguardado, nas noites insones, um leitor voraz se deleitava, tendo ao lado a mesa de cabeceira repleta de livros. Este quadro me despertou para a cultura. O personagem era meu pai, que nos lia, nos saraus literários, Eça de Queirós e Machado de Assis. No fim da puberdade, Dostoievski, Tolstoi, Shakespeare, Cervantes vieram me fazer companhia, alargando o meu horizonte e me transportando para o mundo do imaginário, o verdadeiro universo humano. Consciente de que o homem é um animal symbolicum, na esteira de Ernst Cassirer, cuidei que a palavra seria inevitavelmente o centro gravitacional de meu caminhar. A pergunta de Heidegger “Quando é que as palavras nos conduzirão à palavra?” passou a ser também a minha indagação, na certeza de que a riqueza do real nos fala bem mais do inefável do que dos limites de sua transparência conceitual.

A cultura brasileira vicejou neste espaço privilegiado da palavra ao longo de cem anos. Aqui medrou como em terra nativa, o que explica o fascínio sobre mim exercido pelos que se devotam à missão de escrever como resultado da imperiosa necessidade de comunicar pela palavra o sumo de suas vivências. Ao transpor os umbrais deste salão nobre impossível é permanecer álgido ante o peso que dele emana, a evocar os que timbraram em modelar a cultura maior do País. É fácil justificar o quanto se impõe penetre neste augusto recinto dominado por uma emoção nimiamente forte. Os sentimentos que me acodem em nada obstruem o anseio de me adentrar em seu regaço acolhedor, como uma forma de me reconhecer a mim mesmo como um ser que, ao se identificar com o seu núcleo cultural, nele sempre pretendeu fazer a morada habitual do espírito.

Como não agradecer aos ilustres pares me haverem distinguido com sua escolha respondendo ao meu aceno com o sim da confiança fraterna? Cabe, pois, esta palavra intacta e intocada de responsabilidade – em seu sentido etimológico – como única forma de dar curso à gratidão que experimento neste instante marcado por um tocante sinete ontológico.

À honra de ingressar nesta Casa de elevado porte cultural acresço a alegria de ser recebido por um amigo dileto e brilhante educador, o acadêmico Arnaldo Niskier. A ele ficaremos todos para sempre devedores da contribuição lúcida no domínio educacional e ao seu talento de homem de ação, que vem sistematicamente unindo a teoria à práxis.

A Casa de Machado de Assis atinge o patamar do centenário. A Lúcio de Mendonça juntou-se o autor de Dom Casmurro para edificar o cerne da Academia Brasileira. Transmitiu-lhe a herança de sua incomparável obra literária, que nos deve balizar o esforço continuado de perfilhar sempre em favor da língua de que ele foi inquestionável expoente. Um século decorreu desde aquele então em que poucos pavimentaram a estrada real que chegaria até este ano memorável, quando a majestosa instituição de nossas letras, sintonizada com a modernidade, docemente e porejando sabedoria, reconhece que mãos femininas melhor lhe poderiam festejar a efeméride. Cabe repisar a oportuna observação do filósofo Abelardo Lobato: “A característica de nossa era é a emergência do feminino no horizonte do humano.”

Parece não mais admitir-se que o País, com uma literatura de repercussão mundial, ainda não detenha o merecido título conferido pela Academia Sueca de Letras. E se, por esta Academia Brasileira, desfilaram duas centenas e meia de escritores dentre os que mais preluziram em nossa cultura, com predomínio marcadamente literário, é da Casa de Machado de Assis que deverá brotar aquele que, representando as letras, ostentará o honroso Prêmio Nobel de Literatura.

Um cultor da filosofia se pergunta em seu limiar qual é o grau de complexidade dominante na esfera especulativa e no domínio das letras, por onde trafego, como bandeirante, desde a mais tenra idade. A literatura, por sua natureza, se abre espontaneamente para a contradição e densidade da condição humana. Eros e Thanatos. Vida e morte. Amor e ódio. Imersos numa permanente e desafiadora tensão dialética. Nela não se encontram referenciais a lhe delimitar a área de abrangência. O romancista, o contista, o poeta, o dramaturgo partem a rigor do nada na esfera dos princípios e dos valores. Tudo deles se exige na tessitura da trama ficcionista. É como se exaurissem o âmago do próprio eu, transplantando para a limpidez original das folhas em branco a riqueza das experiências que sua alma sensível conseguiu amealhar. É desafio paroxístico, e quem se dedica à filosofia se admira ante a grandeza da criação literária e está persuadido de que a sua meditação se enriquecerá ao contato com as letras. A menção traduz o respeito que a filosofia, por nosso intermédio, tributa à literatura.

Permiti, senhores Acadêmicos, que vos apresente uma expressão que me atrevi a criar. É o neologismo onto-ética, visceralmente relevante em meu itinerário filosófico. Onto-ética sublinha a consciência de que o ser pessoal não nos é ofertado como uma edificação acabada, senão que flui do encontro entre obstáculo e valor. É a superação do primeiro que enseja a criação gradativa do segundo, enquanto categoria ao mesmo tempo teórica e prática, representativa da dinâmica que preside pari passu à vida consciente e livre. Esta manifesta o ser que somos em suas modulações prenhes de afirmação a atestar que é permanentemente balizado pelo primado do espírito nas oscilações do tempo.

Há tempo para tudo, para nascer, para sorver a vida da infância inconsciente de seu próprio potencial. Tempo para mergulhar no mistério existencial e partir para a grande aventura do viver teleologicamente, respondendo ao apelo de ser-mais. Tempo de consolidação do ideal que, qual luz a alumiar nossos caminhos, nos impele para a busca da harmonia que uma certa sabedoria permite se vá insinuando nos refolhos da alma. Tempo da doce ou amarga solidão do repassar as cenas vividas com intensidade, os momentos privilegiados em que pusemos todas as nossas complacências. Tempo de mirar os altiplanos que nos aguardam, olvidando a planície que nos ocupou quase que permanentemente a atenção prioritária do espírito.

A espessa floresta com que principiei o itinerário não me permitia olhar frequentemente para o alto. Já agora, as folhas cederam ao imperativo do tempo biológico e histórico e abriram uma clareira para a visão superior que os filósofos e teólogos denominam transcendência. É certo que a experiência direta e imediata nos segrega na horizontalidade do cotidiano. Momentos há em que os episódios singelos e rotineiros escapam do espectro pessoal e desdobram ante nosso olhar perquiridor a viga mestra que tudo sustém, que é mesmo a razão de ser da historicidade de cada um de nós. Em que os seres parecem ganhar brilho novo. Secretam uma luz antes insuspeitada.

Reconhecemos no desdobramento existencial o privilégio ontológico do instante. A construção do ser se tece em unidades fugidias de tempo, em instantes privilegiados. São aqueles em que queremos o nosso destino como se nós mesmos o houvéssemos previamente delineado, em que se aproximam a vocação e o destino, nesta perfectibilidade a que tendemos. Nesta busca que jamais alcança o ápice do Tabor.

Inútil imaginar que os grandes eventos, com todo o cortejo de pirotecnia que lhes possamos adicionar, retratam o ser pessoal. Trazem aqui e ali alegrias passageiras. Somente nos deixando envolver pela magnitude do nosso próprio mistério é que a nossa vida ganha seu significado e as marcas e cicatrizes epidérmicas evidenciam seu valor meramente relativo.

Cabe aqui uma palavra de saudade a Henri Gouhier, membro da Académie Française e professor da Sorbonne, a quem devo a crença que comecei a admitir em minhas possibilidades na intricada área de minha eleição prioritária: a filosofia. Até o nosso encontro, circulava em meu labor especulativo sem um aval, na solidão amarga do desconforto em cotejar a grandeza da empreitada e o vazio, o silêncio reinante à volta no relativo às minhas preocupações obsedantes. Foram momentos de sofrimento intelectual. Aí emerge a figura do mestre e amigo, e me confirma na fé filosófica. Assegura-me que o caminho percorrido não resultaria em pura perda. É a razão deste preito de gratidão a quem, como poucos pensadores dentre os numerosos com os quais convivi, soube conciliar a profundidade especulativa com a clareza das ideias, a capacidade de pesquisar com uma espécie de sabedoria que lhe permitiu ser um dos mais competentes professores de filosofia moderna, além de arguto crítico teatral.

O tomismo já não me satisfazia. Adentrei-me nos páramos do pensamento moderno e contemporâneo, quando o pós-guerra  gerou uma renovação agonística da filosofia. A vida, que jamais se havia entremostrado em sua alegria infantil, em virtude da precoce orfandade materna, me ofereceu a face dolorosa do convite à seriedade existencial, sem concessões à mocidade biológica que então experimentava. Anos de meditação se passaram, e o jovem estudioso da filosofia prosseguiu em sua caminhada e no esforço diuturno de submeter os seus atos às convicções onto-éticas que já havia bosquejado.

O patrono: Álvares de Azevedo

 A Cadeira 2 – de que hoje me aproximo com a firme determinação de procurar honrar-lhe as tradições – teve como patrono o jovem e sofrido poeta Álvares de Azevedo.

Sua curta passagem pela literatura, que nele se confundiu com a própria vida, jamais pôde dissociar-se da morte sempre à espreita.

O encontro de Álvares de Azevedo com a morte se deu quando ele ainda emergia para a vida, nos seus quatro anos. Ao contemplar, no leito, o irmãozinho inerte com o selo da morte, tentou falar-lhe. A morte, que tão cedo se instalou na alma infantil, ali resolvera fazer para sempre o seu ninho.

Sua formação humanística forneceu-lhe os instrumentos para a grande empreitada literária a encetar. Registre-se uma forte pitada humorística que lhe cinzelou o perfil, expresso frequentemente em caricaturas que certamente não lhe granjearam popularidade. Vicente de Azevedo afiança: “É sabido que foi ele o introdutor do humor na literatura nacional.”

Álvares de Azevedo mergulhou na leitura dos clássicos, sinuosamente folheando os livros sagrados, a dramaturgia de Shakespeare, as obras de Goethe e, sobretudo, os poemas de Byron. Lamartine, Tasso e Leopardi foram também seus companheiros nas noites de insônia donde decolava para as arremetidas da poesia com que pavimentou o seu definitivo lugar na galeria dos grandes nomes de nossa literatura.

Dedilhando sua lira, escreveu o poeta:

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

No leito de morte, vemos sua mãe acompanhá-lo durante 45 dias. No supremo momento do viver-morrer, o jovem delicadamente afasta sua mãe, poupando-a do instante derradeiro, como que a lhe dizer que, dela havendo recebido a vida, só ela não poderia viver-lhe a morte. É um desfecho de sabor assinaladamente romântico.

O ultrarromantismo de Álvares de Azevedo revela um manifesto pendor para o subjetivismo, uma espécie de evasão metafísica, em que o sonho, a  rêverie ocupam os espaços de seu versejar. No fundo, a morte desempenha o papel principal, pela indefinição de seus contornos. Isso porque somente detectamos a morte do outro. A morte em si rompe os grilhões da racionalidade, altera todas as sistemáticas e tudo cria nesta transição especial em que se esvaem todas as possibilidades de antevisão do que ela possa ser ou do que cuidamos que ela venha a ser. É o desconhecido que atormenta a inteligência brilhante do poeta, cuja fragilidade física prenuncia o desenlace precoce.

A antropologia filosófica se debate permanentemente com a questão atinente à natureza do homem, esse ser de contradição que mescla a imperfeição de sua conduta com aspirações e anseios de plenitude. Em parte, o óbice maior à compreensão da morte promana de uma concepção que parece confundir os dois sentidos de que se reveste a ideia de corpo, que em alemão encontrou a distinção especulativamente necessária entre Leib e Körper. Da identificação, ou, pelo menos, da falta de clareza na delimitação conceitual, surgiu uma espécie de imortalidade biológica, que obstrui o canal de compreensão da finitude do ser humano e instiga a recusa da morte.

A morte é uma tragédia metaempírica, frisou VIadimir Jankélevitch. Transcende os parâmetros da vida sensorial e animal, alçando-se ao plano de sua superação, como destino calçado na vocação de cada ser humano. Daí se segue a ruptura da crítica que usualmente cerca aqueles que morrem. Desapareceu o antagonismo e remanesce o retrato, agora sem retoques, que fixa em definitivo a feição ontológica de cada um de nós.

Foi na morte vivida conscientemente que Álvares de Azevedo melhor espelhou a sua obra literária. Deu-lhe plena substância, uma vez que o seu ser se reconheceu na obra encetada. O que ratifica o sentir de Octavio Paz, para quem “os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia”.

O fluir da vida deu consistência aos versos pungentes que nos legou. Nele a existência não pode ser mensurada pelos anos vividos, mas pela intensidade do viver, do sorver cada minuto com voracidade, prenunciando a redução do tempo como imperativo do ritmo vital que se impôs. Há uma tensão dialética entre a vida que fremia em seu peito e a morte que ao longe, inexorável, clamava nas sombras por seus direitos. Dante o explicita em seu opus magnum, ao sentenciar: “Do viver que é um correr em direção à morte.”

A afetividade peculiar de Álvares de Azevedo, ao que tudo indica, sempre o inibiu de se realizar no amor que ele, tão romanticamente, enalteceu. Confirma-se a tese de que o ultrarromantismo padece das vicissitudes oriundas da nebulosidade dos sentimentos, da impossibilidade de serem os mesmos encarados e, no caso de Álvares de Azevedo, vividos. La Rochefoucauld o reconheceu: “Nem o sol, nem a morte podem ser olhados fixamente”. Há que se falar em um certo descompasso entre a elevação de sentimentos e um prosaísmo que se insinua na obra do jovem romântico. De um lado, pululam confissões do poeta repassadas de transparente pureza, páginas que destoam dessa harmonia afetiva e até incidem na vulgaridade e, finalmente, o permanente aceno de sua companheira inseparável, a morte.

A passagem meteórica de Álvares de Azevedo pela terra dos homens robusteceu o romantismo de sua obra. Isso porque a morte jovem já é por si mesma romântica. Parece que sua breve vida representou um prefácio da obra que geraria caso a sorte lhe houvesse alongado os anos.

O fundador: Coelho Neto

A Cadeira 2 teve a fundá-la Coelho Neto. Foi um polígrafo que sugou o ofício da pena à exaustão. Sua opera omnia equivale a uma enciclopédia. Parece um Plutão redivivo, como “personificação divina da fecundidade da terra e garantia da abundância das colheitas”. São mais de 120 títulos, afora cerca de 8 mil artigos para periódicos.

Coelho Neto viveu da pena e versou vários gêneros literários, notabilizando-se pelo seu esmero na construção de seus textos, muitos deles repassados de helenismo. Suas obras ganharam o mundo. Versões em idiomas estrangeiros transportaram sua poesia e sua prosa para a Europa. Esta Academia, que o teve como presidente, indicou-o em sua sessão de 7 de dezembro de 1932 para candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.

Talvez se possa configurar o seu perfil assinalando o papel da palavra erudita e até arcaica de que habitualmente se valia. O fervor em privilegiar a expressão gongórica contribuiu, em alguns casos, para a crítica acerba de quantos avistaram no vocabulário enxundioso de Coelho Neto um jacá sem fundo.

Sua energia inesgotável se distribuiu por tarefas múltiplas, atestando seu ímpeto participativo. É relevante assinalar o seu empenho em estar sempre presente na vida do País e em sua cultura. O que elucida a dispersão que o levou a percorrer todos os gêneros literários e a exercer as mais diversas funções. É conhecido o juízo de valor de Alceu Amoroso Lima a respeito do fértil escritor. De um lado, o crítico lhe reconhece as virtudes “porque ele nos dá o exemplo de uma longa vida dedicada às letras, de um político que levou ao Parlamento um espírito de poeta, uma palavra ornada de cultor da língua, um alto carinho artístico e literário”. Mas o mesmo Alceu lhe exprobra o que denomina sensualismo verbal, considerando que “Coelho Neto é vencido pela seiva das palavras que o assaltam e lhe ofuscam a emoção”. O reparo tem em mira a nimiedade de texto em detrimento da consistência das ideias. Haveria uma adiposidade verbal em visível desproporção ao conteúdo ideológico dos textos de Coelho Neto. Mais tarde, Alceu irá mitigar a limites mais toleráveis as reservas iniciais. No fundo, persiste na memória cultural a inclusão do escritor maranhense entre os chamados passadistas ao tempo da eclosão do modernismo.

Até o aparecimento do modernismo, Coelho Neto pontificava no meio cultural. A partir dos discursos de Graça Aranha, das críticas de Oswald de Andrade, foi definhando o seu prestígio. Mais tarde, assentada a poeira da crítica, Coelho Neto começou a ser reabilitado aos poucos, e Octavio de Faria contribuiu para que tal ocorresse. José Guilherme Merquior volta, porém, à carga, ao falar da revalorização do kitsch acadêmico. Ironicamente, mas sem feridade, escreveu: “Espera-se para breve a reentronização de Coelho Neto”. O que revela o caráter controverso da obra do fundador da Cadeira 2.

É imperioso acentuar a presença de Coelho Neto ao lado de José do Patrocínio na luta tenaz pela abolição. Seu mutuamente rico convívio com Euclides da Cunha. Sua tendência francamente republicana, sua pobreza honrada e a profusão de cargos em que se empenhou, sem prejuízo de uma obra tão extensa quanto diversificada. Sua pobreza era quase que um imperativo de seu existir. Indagado certa feita se morava em casa própria, retrucou: “Casa própria tenho no cemitério... Não sou tão pobre assim: tenho, pelo menos, onde cair morto.”

Seu vocabulário era tão rico que, num sarau em casa de Coelho Neto, Martins Fontes anotou 218 palavras a merecerem registro. Seu sucessor nesta Casa, João Neves da Fontoura, no elogio de Coelho Neto, disse bem do especial acervo vocabular do escritor e tribuno: “No manejo da palavra tem... um rival, mas a simples menção do seu nome vale pelo mais alto louvor. É Rui Barbosa.”

Filho de um comerciante português e de uma índia, Coelho Neto trazia no sangue a riqueza da miscigenação, o que nos aclara a sua versatilidade e improvisação. Mas o apego ao tradicionalismo irá sofrear a evolução de Coelho Neto em direção à modernidade. Sua moldura permaneceu intacta nas vertentes do passado.

Classificam-no como eclético, por força dos passeios pelos gêneros literários que cultivou, bem como por acentos românticos mesclados a um realismo que não encobre traços do barroco. Talvez melhor se poderia entender o ecletismo do escritor como uma maneira de não optar filosoficamente por uma corrente de pensamento, quem sabe mesclando os afluentes de uma caudal indefinida?

O ecletismo em nossa cultura promana, de preferência, do vezo de assentir e pugnar por teses na sua individualidade, sem atentar devidamente para a sua adequação a um sistema de ideias metodologicamente estruturado numa inequívoca travação lógica. Razão assiste a Sérgio Buarque de Holanda quando sustenta que, entre nós, a maioria dos homens de grande talento incorre em contradições de que não têm consciência. Não há que estranhar-se a sinuosidade da obra de Coelho Neto no relativo à falta de nitescência na opção propriamente literária e à dispersão no campo das ideias.

A presença de Coelho Neto na literatura será sempre associada à sua paixão pela palavra, pelo vocábulo, nomeadamente pelas expressões arrancadas ao definitivo ostracismo. A ressurreição da língua consumida pelo tempo foi obra a que dedicou o seu insuperável vigor. Increpações se sucederam a este pendor natural, sem que ele arredasse pé de revolver a língua, como quem revolve a terra, cuidando que os arcaísmos têm vida longa, mesmo que a inteligentzia lhes haja assinado atestado de óbito. Afrânio Coutinho visualiza nessa incoercível inclinação responsabilidade não pequena pelo divórcio entre a língua falada e a escrita, o que, segundo ele, “atravancou o processo da expressão brasileira”.

Foi prosador, poeta, jornalista, professor, político, orador, amante dos desportos, exemplar chefe de família, dominado por um acendrado espírito cívico, consoante a visão analítica que Paulo Coelho Neto nos oferece da vida e da obra de seu pai.

Coelho Neto tem lugar cativo em nossas letras, cabendo destacar-se as obras Rei negro, A conquista, Inverno em flor, Miragem, O sertão, Fogo fátuo, O polvo, este escrito em apenas 15 dias.

Para atestar o reconhecimento de seus méritos, Coelho Neto foi agraciado com 71 condecorações e títulos honoríficos. Sua atuação como jornalista fê-lo escrever para 57 jornais. Ocupou 26 diferentes cargos de relevo. Peças de teatro, às vezes escritas em dois dias, traduções de seus escritos em sete idiomas, incluindo-se o esperanto, revelam o quanto penetrou, mesmo em terras estrangeiras, a obra ciclópica do maior polígrafo de que há registro nos fastos da literatura brasileira.

Nada melhor, porém, do que deixar falar o próprio escritor. Pinçamos aqui e ali algumas sentenças que caracterizam o seu estilo e o espírito que presidiu à sua elaboração. Em A bico de pena: “A alma  rumina - no fim da vida ela apenas se alimenta de saudades”; “A eternidade é um oceano sem praias”; “Que é a ideia sem a palavra? uma alma errante”; “A velhice é a caricatura da infância”. Em Lanterna mágica: “Foi a poesia que pôs os deuses no céu, foi a lenda que pôs os deuses na terra”. Em Fogo fátuo: “Discursos lidos são pássaros de gaiola. O improviso é o pássaro livre, de voo largo, cantando no espaço, ao sol.”

A ansiada participação cultural, política, desportiva do País desabrochou em Coelho Neto o grande orador. Amante da cultura grega, por vezes ele nos relembra a eloquência ática. No concernente ao apuro da forma, é uma espécie de Isócrates redivivo, para quem o conteúdo importava menos do que a beleza estética do discurso. É oportuno recordar que a retórica demorou a se impor entre os gregos. Aristóteles assinala que isso se deveu à abolição da tirania.

Os eventos cívicos se prestaram especialmente para que Coelho Neto externasse os seus invulgares dotes oratórios. Ao lado de Joaquim Nabuco, de Teixeira Mendes, de Tobias Barreto, de Rui Barbosa, Coelho Neto figura entre os grandes de nossa eloquência. Seu desmedido arco vocabular, seu empenho de ordenar ritmicamente as frases, ensejando uma musicalidade que a sua dicção favorecia, garantiram ao polígrafo sua inclusão entre os mais prodigiosos oradores de nossa história. Ele próprio chegou a calcular em mais de 3 mil os discursos que proferiu de improviso. O que daria para acrescentar mais de cem títulos à sua coleção ímpar de publicações.

João Neves da Fontoura 

João Neves da Fontoura foi, antes de tudo, um tribuno. E um tribuno político, parlamentar. A retórica haveria de modelar-lhe a alma e marcar sua passagem pela vida pública e pelas letras.

O campo retórico não pode ser visualizado univocamente. Após o dealbar da retórica na Sicília, com Corax e Tisia à frente, procedeu-se a uma fratura na unidade de forma e conteúdo, por obra e graça de Trasímano e Górgias. É certo que Platão reagiu contra o corte transversal entre a verdade e a beleza e reuniu-as num patamar superior. Mas foi com Aristóteles que a bene dicendi scientia de Quintiliano logrará a abordagem simples e escorreita, sem os acidentes de rota de uma concepção mais abrangente e ambiciosa. Rezou o Estagirita que a retórica é singelamente a arte de “persuadir tudo que um caso determinado comporta de persuasivo”. A oposição entre o formalismo e a unidade retórica encontrou a necessária conciliação na pena do Philosophus, como por antonomásia lhe chamavam na era medieval.

Ao talentoso tribuno gaúcho bem caberiam as encomiásticas menções que ele, com justiça, endereçou à figura tutelar de Rui Barbosa. Como, por exemplo: “A oratória era cor predominante entre os matizes do espectro solar de sua inteligência.” E em outra passagem: “Em Rui, o orador é talvez tudo, porque tudo ou quase tudo versou através da palavra falada.”

Além do diplomata, do orador político, Neves da Fontoura deve figurar como historiador, particularmente pelos dois alentados volumes de suas Memórias contendo estudo quiçá definitivo sobre Borges de Medeiros. Quem quiser conhecer os pródromos da Revolução de 30, as peculiaridades da política gaúcha, ou ver de perto o rosto dos pró-homens daquele período de nossa história não poderá passar ao largo das Memórias de João Neves da Fontoura.

À sua arguta observação não transitaram incolumemente os fatos que tisnaram a devastadora Segunda Guerra Mundial e seus reflexos em nossa civilização. A transposição de acordos bilaterais para a multilateralidade foi por ele judiciosamente analisada, abrindo novos horizontes para a apreciação em bloco da política internacional. Por igual, não escapou ao seu olhar inquiridor a diferença estrutural entre a nossa e a federação norte-americana, em que se abalança a atribuir à nossa foros de cidadania.

João Guimarães Rosa 

A menção ao nome de Guimarães Rosa nos transporta para os píncaros de nossas letras. A literatura desempenhou em sua vida o papel de Hera, a única deusa do Olimpo efetivamente casada. Criador de um estilo próprio haurido do linguajar do sertão, o escritor nele descobriu a riqueza de um vocabulário em que as palavras e as expressões ganharam um elastério inédito. À primeira vista, a obra ficcionista de Rosa nos remeteria ao regionalismo. O linguajar francamente dominado por estruturas arrancadas ao ostracismo dos baús linguísticos, com manifesta presença de arcaísmos, compôs um quadro referencial que ensejou o aparente paradoxo de uma obra de cunho regional aberta à universalidade. Josué Montello andou bem avisado quando distinguiu o provinciano do provincial. Para o provinciano, “só existirá a província”; para o provincial, “a província conterá também o universo, na complexidade da condição humana”.

Numa abordagem perfunctória, não se detecta na obra rosiana a visão abrangente que lhe apontamos. Um exame mais atento evidencia a temática do homem como tal encoberto pela caligem momentânea e extrínseca do viver localizado. É certo que a narrativa transcorre sempre no sertão, mas este é o palco da condição humana e não o elo intrínseco do viver cotidiano, o horizonte limitado pela singela aparência dos seres que percorrem os espaços geográficos privilegiados nos textos do escritor mineiro.

Outro dado que considero relevante na prosa rosiana é o que chamaria a categoria do surpreendente. Sucedem-se as curvas fechadas no itinerário estilístico do autor de Sagarana, que geram um tênue desconforto pela forma abrupta com que irrompem no espírito do leitor. Logo, ele irá acomodar-se com a finura do artifício que, no fundo, irradia a complexidade do real fugidio pelo qual transitamos nesta arena de contradições em que se tece o destino humano. Eis um exemplo do surpreendente: “... E ele estava com raiva tanta, que tudo quanto falava ficava sendo verdade.” E mais: “... O espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meia-noite às nove horas.” Adiante, lê-se: “Mas, então foi que eu fiquei sabendo que tem também anjo da guarda de onça!...” Outro trecho: “Um cachorro soletrava, longe, um mesmo nome, sem sentido. E ia, no alto do mato, a lentidão da lua.” “Peso de dias tão compridos – dezembro foi, parou no meio.” Há expressões curiosas, como: “aquilo foi um buracão de tempo”, ”aquele dia era uma véspera”; “... Não sabia que a vida era do tamanhinho só menos do que um minuto...”; “só achamos o nada dele”; “o amor só mente para dizer maior verdade”; “Riobaldo, hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e o que soubesse, deixei de saber o que sabia...”

Provérbios respeitáveis pela sua durabilidade, pela resistência à corrosão do tempo, esfarinham-se na pena do mineiro ilustre, abrindo-nos de par em par uma nova perspectiva na trilha do paradoxo, que nos lembra os escritos de Chesterton. E o curioso é que temas havidos como transcendentes espocam a cada passo e deitam suas raízes nos contos e romances de Rosa, sem que o escritor os revista das galas inerentes à sua jerarquia. Deus, o homem, o diabo percorrem as páginas plenas de originalidade de nosso autor, sem sentirmos o coração bater mais rápido, até porque a referência é passageira, às vezes diáfana, sempre surpreendente. Esta categoria irá acompanhar os passos do grande romancista que hoje podemos incluir, sem hesitação, na galeria dos clássicos de nossas letras. Não me causou qualquer surpresa quando, em 1965, li com orgulho que Guimarães Rosa figurou entre os cinco escritores estrangeiros mais celebrados na Alemanha.

Já em seu discurso de posse, Rosa, com chispas de remoque, pôs em realce a transitoriedade da vida e da glória. Em seu momento pleno de sentido como coroamento de uma vida de escritor, o genial mineiro nos brinda com a sentença: “A gente morre é para provar que viveu.” A morte não é alçada à condição de dona da festa da historicidade de cada ser humano. A prioridade é a vida, é o sorver até o último alento o ar em que Anaxímenes identificou o estofo do ser. Rosa poderia subscrever a conhecida sentença de Montaigne: “Meu ofício, minha arte, é viver.” Conquanto viver seja muito perigoso, Rosa nos convida ao banquete da vida que, se já traz em seu bojo o decreto da morte - “a morte de cada um já está em edital” -, nem por isso deixa de assinalar que “a morte é para os que morrem”. E com um quê de malícia, “só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta...” E em outra passagem: “...O diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro!... Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei de mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

A atividade humana desenhada pelo viver consubstancia patente risco para Rosa. Apreendeu o singular escritor a lição de Kierkegaard de que “a vida é uma aventura que todo homem deve arrostar se não quiser perder-se”. Mas a vida não se adstringe a um viver racionalmente, ao explicitar no cotidiano uma espécie de equação limitadora. É de libertação que se trata, corroborando a forte palavra de Nietzsche: “O segredo para colher a maior fecundidade, a maior fruição da existência, consiste em viver perigosamente.” Guimarães Rosa estava a meio caminho da teoria do risco existencial de Peter Wust. Para o filósofo de Münster, a busca da segurança na humana condição encontra no limite a insegurança essencial. Inspirado em Santo Agostinho, o autor de Ungewissheit und Wagnis (Incerteza e Risco) vai ao extremo de sustentar que somente nos é dado sorver a temporalidade afrontando todos os riscos e bosquejando os contornos da securitas insecuritatis.

O escritor joga com as palavras, enriquece-as com expressões exógenas. Onomatopéias, aliterações pululam a evidenciar um apuro da técnica estilística raras vezes encontradiço na língua de Eça de Queirós. Sua obra ratifica a assertiva de Ludwig Wittgenstein: “Os limites de minha linguagem são os limites de meu próprio mundo.”

Poucas vezes nos defrontamos com um escritor que recobrisse a relevância dos temas com recurso constante no linguajar regional.  Muitos outros há que percorreram esta difícil empreitada e tiveram êxito. O chamado romance regional vicejou entre nós num arco extremamente rico e variado. Em Guimarães Rosa, a articulação do romance regional com a universalidade toca as franjas da perfeição e nos convida a meditar sobre os desafios da existência, a partir da espontaneidade do caboclo, que expressa o mistério e o desafio da suposta singeleza do cotidiano.

Decididamente, Rosa leu Plotino. Não apenas porque o cita como epígrafe. É que dele promana a aragem de uma teologia negativa que foi gestada nas oficinas do grande filósofo neoplatônico. Como não perceber que o Deus retratado por Rosa carece de traços definidos? Como não captar a mensagem de que Deus não é cognoscível com as armas de que dispomos? A racionalidade não é rejeitada, mas circunscrita às suas fronteiras naturais, sem a amplitude desmedida dos racionalistas. Há uma imbricação metafísica entre a criatura e o Criador, e é somente nesta mescla de cunho apenas aparentemente panteístico que se apresenta o Deus de Rosa, no meio dos paradoxos que ele manejou com mestria. Julgo que o panteísmo se assimila a uma forma elegante de nos descartarmos de Deus. Afinal, não é mais adequado dizer de Deus o que Ele não é do que aquilo que Ele efetivamente é? Assim terá pensado Rosa, e sentimos que o mistério do Ser recebe tratamento consentâneo com a sua transcendência, conquanto as expressões usadas não nos ofereçam de pronto tal impressão. É preciso saber ler e entreler os escritos do romancista, penetrar no âmago da aparente simplicidade com que aqui e ali nos desvela o Ser no qual, em que pesem aparências em contrário, revelou a sua interioridade objetiva, para me servir de uma expressão cara a Michele Federico Sciacca. Parece que Rosa deu as mãos ao teólogo protestante Karl Barth, para o qual “só Deus fala de Deus”. Não se trata da presença ignorada de Deus, sobre a qual versou com proficiência Viktor FrankI, mas da confissão lapidar de nosso acanhado horizonte na abordagem temática da transcendência. Por detrás de uma linguagem rica e criativa, permeia nas obras de Rosa a nítida consciência de que, como frisou Schopenhauer, “o homem é um animal metafísico”.

A obra portentosa de Guimarães Rosa dificilmente encontrará quem lhe possa captar o universo de beleza artística e de profundidade humana. Talvez sua vida tenha sido demasiada; mente curta - sem falar na fulminante passagem por esta Casa -, permitindo-nos prever novos desdobramentos de sua criatividade hors concours. O tempo que mediou entre sua eleição e a posse nesta Casa se explicou pelo seu pressentimento de que o começo e o fim da vida nesta Academia deveriam quase se superpor.

Quase ouso afiançar que o viver sempre presente em seus escritos acenou-nos com a ânsia de um viver alegre e espontâneo. Quem sabe Rosa, anos mais tarde, não se encontraria com Paul Claudel ao privilegiar a categoria da alegria? Já Charles du Bos, que nos legou radioso exemplo de devoção à cultura e à fé, com clarividência assentiu ser a alegria “a primeira e última palavra de Claudel”. A meu ver, o solitário romancista mineiro, que viveu inteiramente voltado para a meditação e elaboração de suas obras, vinculando-se à vida e buscando sorver-lhe os instantes fugidios, aplainou as arestas para o advento de um período feito de aurora, de luz, de alegria. Em abono desta assertiva falam alto as cartas trocadas com Edoardo Bizzarri, o tradutor de seus livros para o italiano. Henri Bergson apontou o critério basilar da autorrealização ao sentenciar: a natureza “nos avisa por um sinal preciso que nosso destino foi alcançado. Este final é a alegria”. Mas a alegria é irmã gêmea da beleza, como sublinhou Keats: “Uma realidade plena de beleza é uma alegria para sempre.”

No centenário desta Academia, os deuses acordaram que não poderia faltar uma palavra sobre João Guimarães Rosa, que, tangenciando a genialidade, modelou uma nova linguagem, plasmou formas ricas e inéditas de expressar o humano pulsar e transitou pela vida contando estórias que falam bem alto do valor universal de sua obra.

Mário Palmério 

O ofício de escrever usualmente se nos impõe de modo imperativo desde os albores da mocidade, vincando o nosso espírito a ponto de aprisioná-lo de modo definitivo. E, à medida que o tempo passa, a sensibilidade vai apurando o dizer. O aprimoramento resgata uma espécie de sabedoria congênita que proveio da vocação. É excepcional o caso dos que amadureceram para as letras na absoluta solidão, sem a experiência de transpor para o papel sedutor as palavras com que transferiram a outrem as suas vivências.

Como Pedro Nava, Mário Palmério principiou pelo fim. Nasceu feito. Acabado. O noviciado sequer começou e a ordenação a todos surpreendeu. O primeiro livro já surgiu com o reconhecimento de seu valor. Como obra-prima, e ainda com a novidade do romance eleitoral, na avaliação de Wilson Martins.

Mineiro do Triângulo, Palmério se adentrou no Brasil real, que insistiu em conhecer como poucos. Sua aventura amazônica tem sabor ciclópico. É tentativa de ver pelo avesso e conferir a grandeza do desafio que teima em se afirmar ante indesejável pressão externa. Como não perceber em Palmério, como antes em Euclides da Cunha, na ânsia de penetrar na profundidade geográfica do mistério, o desejo de confrontar a pequenez humana com as águas e as terras que nos falam dos espaços sem limites? Pascal sentenciou: “O silêncio dos espaços infinitos me aterroriza.” Em Mário Palmério, o efeito do comércio fraterno com o espaço grandioso foi inverso: sentiu-se atraído e não temeroso de arrostar o mundo ignoto e misterioso.

Dois mineiros, Guimarães Rosa e Mário Palmério. O primeiro é escritor pela graça de Deus. Simplesmente não lhe sobejava um palmo decisório na contracorrente de seu múnus natural. Daí o isolamento e aprofundamento de seu ser. Mário Palmério revela pendor marcante para o convívio e para a ação. Guimarães Rosa vislumbra no conhecimento uma forma de ação, a ação da inteligência. Isso porque não se sentia atraído por qualquer forma de dispersão. Mário Palmério se lança com ímpeto quase juvenil a empreendimentos concretos a serem implantados na terra dos homens.

Palmério se afirmava nas suas realizações. Sorveu a vida mais na concretude do agir do que na penumbra do pensar. As cores berrantes do real lhe falavam mais diretamente ao espírito do que o lusco-fusco em que se detêm e, por vezes, se enredam as inteligências e sensibilidades sequiosas do silêncio interior. Do silêncio que opera o milagre da criação.

As duas vertentes da mineiridade literária reafirmam a fecundidade da alma dos patrícios que, das Alterosas, ganharam o País com a riqueza de seu legado. E, hoje, alegra-nos o ensejo de entremostrar nos dois exemplos o quanto o Brasil deve aos seus irmãos mineiros.

Não são muito frequentes os casos de intelectuais que participam da vida pública. A convivência entre o intelectual e o homem público nos remete à questão de fundo entre o saber e o poder. Eduardo Portella situa a difícil relação ao salientar que “O intelectual... vem a ser aquele que aprende - aprende perguntando, duvidando. O ser destituído de dúvidas é puro poder. E quando o saber incerto se faz o poder certo, inadiável se torna reinventar o saber”.

Mário Palmério soube dosar os reclamos da literatura com as exigências do poder, por força de sua especial capacidade de conviver, de abrir portas com a espontaneidade do homem do interior, que sabe o quanto a simplicidade, no balanço final das relações humanas, surpreende os especialistas na enganadora arte de ocultar suas ambições.

Foi deputado federal em três mandatos sucessivos, até que entendeu chegado o momento de rasgar outra janela para o mundo. O que atestou uma certa inapetência política que muito o impeliu a viver uma multiplicidade de papéis, o que seria inviável num político profissional. Como deputado, exerceu a vice-presidência da Comissão de Educação da Câmara Federal e a liderança do Partido Trabalhista Brasileiro, ocasião em que fez aprovar medidas que traduziram sua preocupação com os excedentes dos vestibulares. Revelou sensibilidade antecipando uma solução para a crise educacional dos anos de 1960, que iria deflagrar no terceiro grau. Seu radar educacional indicou picadas no sentido da democratização de oportunidades educacionais que se iria impor à consciência nacional. Anos após o seu afastamento do Congresso, Mário Palmério assistirá à eclosão de escolas superiores em todo o País, a confirmar a necessidade que ele já sabia imperiosa de uma abertura das universidades e escolas de terceiro grau à juventude até então em grande parte marginalizada do processo educacional.

Sua luta mais aguerrida irá ferir-se na defesa da emancipação do Triângulo Mineiro, que Palmério em nenhum momento compreendeu como movimento separatista. Das vezes em que assomou à tribuna da Câmara dos Deputados, a maioria de seus discursos revelou uma preocupação centrada na defesa dos interesses da região que representava. Reagindo contra severo editorial de O Correio da Manhã, o então parlamentar sustentou a necessidade inadiável de se processar a emancipação do Triângulo, em obediência aos estudos do IBGE, que recomendavam uma nova redistribuição do território nacional.

Sua atuação na Câmara dos Deputados levou-o a profligar com veemência o anticomunismo cego e discriminador que, em seu entender, grassava nas Minas Gerais.

Afastando-se definitivamente da vida político-partidária, imergiu na vida diplomática como embaixador no Paraguai. Sua virtude congênita para o comércio com os semelhantes persistiu a lhe dar dividendos na nova carreira. As relações diplomáticas, especialmente as culturais, entre o Brasil e o Paraguai sofreram ponderável incremento nos dois anos em que permaneceu à frente da legação do Brasil em Assunção. Nesta curta estada em terras guaranis, o romancista reformou a sede da embaixada e concluiu o Colégio Experimental a ser doado ao Paraguai. A ponte internacional que une os dois países foi ultimada durante a gestão de irrequieto embaixador em Assunção.

Contam amigos paraguaios que Palmério, com invulgar facilidade, transformava meros conhecidos de ontem em velhos amigos. Sua informalidade e sua jovialidade geraram um grupo de intelectuais e artistas à sua volta. Rodeado deles, compunha músicas que ainda hoje são tocadas em solo paraguaio, revelando o quanto sua atuação diplomática foi facilitada pelo seu valor e pela invulgar capacidade de se relacionar com pessoas. Palmério compôs letras e músicas de várias guarânias e polcas. “Saudade” é o título da guarânia que marcou para sempre a presença do escritor-boêmio e que foi considerada uma das 20 mais famosas de todos os tempos. Eis a letra de “Saudade”:

Si insistes en saber lo que es saudade,
Tendrás que antes de todo conocer,
Sentir lo que es querer, lo que es ternura,
Tener por bien un puro amor, vivir!
Después comprenderás lo que es saudade
Después que hayas perdido aquel amor
Saudade es soledad, melancolía,
Es lejanía, es recordar, sufrir!

Como tocava de ouvido, Palmério recorria ao músico Neneco Norton, que transpunha para a partitura a criação musical do embaixador. Ouvido a respeito de Palmério - que chegava a acordá-lo de madrugada para acompanhá-lo em suas refregas musicais -, assim se pronunciou o maestro paraguaio: “Fue un excelente amigo,... Pasé unos momentos muy lindos con él, pero me cansé mucho porque era un bohemio que a veces no paraba.”

Palmério tinha um indomável espírito de aventura. Ao ensejo de curta permanência em Lisboa, o romancista manifestou o desejo de viajar pelas províncias ultramarinas. Medidas oficiais foram tomadas e o escritor seguiu para Angola. Chegado a São Paulo de Luanda, o romancista resolveu se adentrar em território angolano, para visitar algumas tribos, sem disso dar ciência a quem quer que fosse. A família, não sabendo do paradeiro do escritor, recorreu à embaixada em Lisboa, que buscou por todas as formas localizá-lo. O que, afinal, ocorreu. Eis que, num certo dia, Palmério telefonou da capital angolana, alegre e fagueiro, como se nada de extraordinário houvesse no fato de simplesmente desaparecer sem deixar indicações de seu destino. No telefonema, o encapelado viajante não só manifestou sua inebriante alegria com a empreitada, como resolveu voltar de Luanda para o Rio, num cargueiro da Petrobras, deixando estupefatos os diplomatas brasileiros que o esperavam em Portugal.

Em Manaus, fez construir um barco, aparelhou-o com piano, TV, serviço de radiofonia, um punhado de livros e demais apetrechos da civilização e ganhou mundo, percorrendo a Amazônia com o mesmo ímpeto aventureiro que revelara em Angola. E também se repetiram os desaparecimentos súbitos!

Viveu a virtude pioneira do filosofar consoante Platão nos ensinou: a admiração, esta capacidade de se surpreender com o mundo à volta, como se ele fosse um espectador-criador, como se a visão da realidade se superpusesse ao ato de lhe repassar a vida e o seu colorido.

Essa convivência com o real e mais uma permanente curiosidade levaram Palmério a solicitar a elaboração de um dicionário de termos bizarros utilizados pelos portugueses. Foi atendido e a ele o romancista recorria com frequência.

É conhecida sua fascinação pela Amazônia. Considerava-a  fantástica, mas nunca escreveu nada sobre ela. Sua condição de boêmio certamente muito contribuiu para que a sua rica passagem pela Amazônia não viesse a ser transplantada para o papel. O período sabático de Palmério na Amazônia passou in albis pelos fastos de nossa literatura, o que é de lamentar-se, dado o fulgor da pena do romancista e seu agudo senso de observação, fonte segura de que o fruto de sua experiência teria constituído importante repositório de dados e de análises sobre a região dos mil rios caudalosos.

Gostava de adjetivar muito suas frases. Era um vezo que derivava de sua extroversão e da exuberância de um temperamento irrequieto.

No plano do saber, Mário Palmério se adentrou na órbita educacional, realizando o prodígio de implantar uma universidade, em Uberaba, a partir de um pequeno colégio. Em 1947, foi autorizada a funcionar a Faculdade de Odontologia, que seria seguida pela de Direito e pelo curso de Medicina. Aos poucos, outras unidades universitárias se vão anexando ao arbusto por maneira a que o conglomerado educacional ascenda da condição de faculdades integradas para o nível máximo de universidade. Universidade fala de arejamento, de abertura à pesquisa, de criatividade. E aqui se afirma de corpo inteiro esta capacidade de realizar que bem caracteriza o autor de Vila dos Confins. Mário Palmério, de modo mais discreto, nos recorda Darcy Ribeiro, para quem o fazimento constituía uma exigência de seu ímpeto interior de transportar para o real suas concepções ousadas no campo da educação.

Mário Palmério foi, antes de tudo, um escritor. Legou-nos dois títulos, Vila dos Confins e Chapadão do Bugre. O primeiro veio a lume em 1956, ano em que Guimarães Rosa, já célebre, lançava seu importante romance Grande sertão: veredas. A acolhida da crítica à obra de Guimarães Rosa não deixou espaço para uma avaliação adequada do primeiro romance de Mário Palmério. Não obstante se tratar de uma obra original, somente aos poucos é que se volveram as atenções para o desconhecido autor do Triângulo Mineiro. O ano de 1956 propiciou assim, consoante o juízo de Wilson Martins, a superestimação do novo livro de Guimarães Rosa, em prejuízo do reconhecimento da obra inicial de Palmério.

Numa entrevista, Palmério revelou suas preferências literárias, destacando-se os nomes de Jack London, Hemingway, Monteiro Lobato e Aquilino Ribeiro.

Era um ser telúrico, e seus romances o comprovam. RacheI de Queiroz, com razão, assentiu: “A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o seu livro traz, tão autêntico.” Se, de um lado, assinala-se o caráter sertanista de Palmério, de outro, a primeira dama de nossa literatura timbra em reconhecer no romancista mineiro a condição de escritor. É que Vila dos Confins emergiu para nossas letras após um processo de decantação, em que passou da condição de documentário político para obra de ficção. Daí decorreu a ausência das emoções fortes, da dramaticidade presente na obra literária, a percorrer os escaninhos da alma humana e sua feição agonística. Esta nos parece a razão do pitoresco sobrelevar na narrativa os arremedos da configuração dramática do texto.

Vila dos Confins retrata a efervescência de um novo município às vésperas de seu primeiro pleito eleitoral. Longe do cosmopolitismo das grandes cidades, nele se revela de corpo inteiro o hinterland do País, com as limitações e os hábitos arraigados de um povoado em que um fato corriqueiro assume as proporções de um acontecimento. Como autêntico romance regional, Vila dos Confins põe a nu o homem simples e mesmo primitivo do interior, com seus sonhos e decepções nas curvas de uma estória profundamente humana. Seus personagens nos transmitem o realismo dos rostos delineados pelo autor. A natureza é descrita com rara competência e precisão. As árvores, as folhagens, os rios e seus meneios perigosos, a boa constrictor e sua arte de bem escolher a presa são descritos com mestria e nos transportam para o sertão longínquo do Brasil real, espontâneo, com suas dores e suas alegrias, suas alianças políticas espúrias e as traições inevitáveis. A política é o centro do romance, e a política como paixão, como jogo em que muitos arriscam todas as fichas. Assim, o deputado federal, já acostumado às benesses do Rio de Janeiro, retorna à sua fonte eleitoral para comandar o processo político local e manter a sua base. Conta com aliados fiéis e outros nem tanto. O personagem Pé de Meia é o artífice do alistamento eleitoral. Pacientemente, ensina os eleitores, quase sempre analfabetos, a preencher formulários e desenhar o nome. As reações são autênticas. A mão pesada que treme, os comentários ante cada curva das letras: “Este é o tal do gê? Gostei dele: uma simpatia de letra.” A narração de Pé de Meia orientando os caboclos a garrunchar o nome é uma faísca de realismo do sertão com o seu linguajar, seu ritmo. “Pé de Meia não deixa afrouxar o embalo.” É então que pega “no mãozão cascudo... Vai chofreando a bicha, para cima e para baixo, caminhando com ela sobre o papel... primeiro a foice espigada do jota; depois, a laçada bamba do ó; em seguida, mais duas voltas grandes, repassadas e atreladas uma à outra. Mas ainda falta o remate: o urubuzinho do til”.

A região “é um mundão largado de não acabar mais”. É “o Sertão dos Confins magro de boas terras”. Daí o desenvolvimento da caça e da pesca. 

É genuinamente espontâneo o relato da caminhada interminável de Xixi Piriá que, de casa em casa, traz as encomendas e vende suas quinquilharias pelas fazendas e pelos lugarejos, sempre a revelar sua fina psicologia.

O rio Urucanã desempenha papel saliente. Cenas importantes se passam em suas águas ou em suas margens. É lá que Paulo Santos, o deputado federal, se abre com o padre alemão que funciona como a consciência moral daquele espaço perdido da civilização. Parece que o rio centraliza os mistérios que suas águas profundas escondem e, assim, se presta à revelação do recesso das almas dos personagens.

O fluir das águas, seus rumores, sua profundidade nos recordam o rio Moldávia de Smetana. É como se Palmério transplantasse para o romance a música do compositor tcheco. O escritor pinta com cores vivas a luta da sucuri com o boi que ela irá vencer. É página antológica do romance, em que à competência específica do escritor se adiciona a arte de dizer, de nos fazer reviver a cena feroz. Suponho que a luta entre a cobra grande e a sua vítima simboliza a tentação e a fragilidade, esta espécie de tensão que acompanha inevitavelmente os passos do ser humano em sua esperança na superação das circunstâncias negativas que lhe obstruem o caminho em direção à sua afirmação.

O rio nos lembra o fragmento de Heráclito segundo o qual não podemos tomar banho duas vezes no mesmo rio, pois as águas rolam sem interrupção de seu fluxo. É o dinamismo do ser, é o símbolo da ação que permeia a alma trepidante de Palmério, nada afeito ao imobilismo do ser de Parmênides.

Vila dos Confins é o documento fidedigno da atividade política do interior, com todos os ingredientes das confabulações, dos pequenos interesses em jogo, numa atmosfera feita de radicalismos, de fidelidades raras e de infidelidades originadas no imediatismo dos que nada possuem e tudo jogam na cartada eleitoral que, por primeira vez, lhes bate às portas. De um lado, o deputado Santos; do outro, Chico Bento, apoiado no centro do poder político. E a vida rural vê o seu rumo ser arrastado para a aventura de um futuro incerto, com a exacerbação das paixões e as armações forjadas, buscando a vitória a qualquer preço, e em que os eleitores são simples massa de manobra dos grupos em conflito.

Tudo se passa no âmbito municipal, cabendo a respeito pinçar uma passagem da curta e lúcida crônica de Rubem Braga sobre Vila dos Confins: “Quando ouço dizer essa beleza de coisa - que o município é a célula mater da Nação - sempre temos a vontade de chamar a Nação para ver a cara de sua progenitora.”

Palmério não se insinua nas dobras de seus romances. Deixa fluir a narrativa, por maneira a lhe assegurar a necessária autonomia. A inserção do romancista na trama ficcional constitui em geral uma indébita invasão, a menos que a obra vise a uma dupla finalidade, a de expressar a imaginação do autor no encontro com o imaginário e a floração de uma ética reparadora, como foi o caso da ciclópica série de romances que compuseram a Tragédia burguesa de Octavio de Faria.

Chapadão do Bugre recompõe o tecido vocabular de nosso interior, de que constituem exemplos frisantes expressões como: “O caminho que eu cortei tava sem sintoma”, “Ia deixando que o Zé Calixto espalhasse o fiz-e-aconteci particular lá dele”, “Era como se fosse um descuidoso caminho aberto de recém”, “...O bom gênio da polícia - acomodada e pouca”, “Viagem de boca não faz despesa”.

Em seu segundo romance Palmério alonga a narrativa, multiplicando os pormenores sem perder o prumo do rico linguajar colhido em suas andanças costumeiras pelo nosso hinterland. Os matizes consuetudinários emergem nitidamente e o viés político também comparece sem a ênfase de Vila dos Confins. A distinção entre os dois romances parece situar-se na síntese maior do primeiro e no teor analítico do segundo, em que tem inequívoco realce o sentimento de vingança. Frise-se, porém, que a obsessão de José de Arimateia, em seu itinerário fatal a caminho da desforra e da recuperação de sua honra, não foi cinzelado em brasa viva. Aqui e ali percebe-se em Palmério o quanto a natureza disputa com o homem lugar de destaque em seus romances. Em Chapadão do Bugre, a mula Camurça, que carrega no lombo a vindita potencial de seu dono, constitui personagem de relevo na trama romanceada, chegando ao extremo de externar afeição por José de Arimateia e repúdio por Seu Persilva. Em Vila dos Confins a presença da natureza é patente, mas se diversifica. Em Chapadão do Bugre, parece concentrar-se no animal que livrou da morte o personagem principal em mais de uma oportunidade, mas não pode evitar o desfecho dramático do romance.

A variedade de facetas do escritor mineiro expressou sua riqueza humana e a capacidade de acolher o outro por reconhecer que a sociedade é uma communio personarum.

Espírito aventureiro, parlamentar, diplomata, educador, homem de letras, Mário Palmério conquistou lugar de destaque em nossa cultura, e esta Casa lhe registra com orgulho a contribuição literária.

Conclusão

Senhora Presidente Nélida Piñon,
Senhores Acadêmicos,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Percorremos juntos o itinerário dos que abrilhantaram a Cadeira 2, a ser hoje preenchida. Com estilos, temperamentos, culturas díspares, cada qual, o patrono, o fundador e seus demais ocupantes, trouxe relevante contribuição à literatura brasileira. Nos limites de minhas possibilidades, forcejarei por sempre lhes honrar a tradição.

Num mundo por vezes sulcado por dogmatismos e fanatismos, plenos de esterilidade, impende ampliar espaço para uma atitude libertária capaz de acolher a diferença e conviver com a dissensão.

Como casa da cultura, esta Academia é o ponto de encontro de todos os desencontros, o topos adequado ao debate entre correntes de pensamento e o recanto privilegiado do apuro literário.

Jamais nos seria lícito temer o advento da dúvida metódica, sinal inequívoco da presença do espírito na riqueza da multiplicidade possível de enfoques e de opções várias no plano intelectual. Acima das ideias está o pensar, tarefa própria do homem intrinsecamente considerado. Foi a lição de Unamuno: “Não tenhais ideias. As ideias vos impedem de pensar.” Pensar a realidade e não prefabricála nas oficinas dos fundamentalismos constitui seguramente um dos compromissos prioritários da era atual, em particular dos intelectuais de todos os matizes. Caso as ideias espelhem a apreensão do ser, desempenharão elas o papel de fase embrionária do saber articulado até atingir o seu clímax num sistema coerente apto a desnudar o real em clima de inequívoca logicidade. Se porventura as ideias compuserem o mosaico dos ideários, configurando um pensamento cristalizado e pretensamente autônomo, será a hora de bradar o alerta dos que intentam proteger a sociedade de iniciativas liberticidas e cuidam sempre relevante deixar as portas livres para o pensar que flui da criatividade.

A promoção do diálogo intersubjetivo é condição de possibilidade da explicitação da liberdade e fator condicionante da vigência democrática.

O Brasil engatinha em seu itinerário democrático, por força da quase total carência de uma consciente e atuante cidadania, com garantia objetiva dos direitos humanos. Muito há que caminhar em direção à plenitude do sistema que mais de perto consulta as necessidades de afirmação da pessoa humana em suas variegadas dimensões. Acaso ainda não somos prisioneiros da trahison des clercs? Parece-nos que perdura o alheamento das elites relativamente ao dever inadiável de estender as benesses da democracia à multidão de deserdados, que clamam, sem forças e a mendigar representação política, pelos mais elementares direitos da cidadania.

Não há como adiar-se mais a implantação da justiça social a cujo respeito todos estão teoricamente de acordo, mas alguns parece entenderem que ainda dispomos da eternidade para a implantação das reformas inadiáveis e indispensáveis ao nivelamento de todos numa cidadania comum. Sem discriminação, sem privilégios.

É chegado o momento de encerrarmos esta fala com uma mensagem de irrestrita fé no ser humano, em suas possibilidades de explicitar a riqueza potencial que promana do generoso ato criador. O mal, o sofrimento, a injustiça integram, é certo, a condição humana. Mas cremos que a força imponderável do amor alui as estruturas negativas e gera uma atmosfera feita de contiguidade com a plenitude, desviando-se da rota do niilismo convidativo. Cumpre desenvolver um esforço continuado por submeter nossos atos “à parte superior da alma que não se nutre, a não ser de fome”, no sentir de Simone Weil.

Muitas vezes não nos falta a fé. Nem o amor, tão presente em nossas vidas. Mas, ao longe, obstruímos o caminho para o advento da esperança, a virtude mais difícil. Ela é tecido do nosso ser, cerne de  nossa identidade. Fala-nos da transtemporalidade de nosso destino. Acena para o nosso ser-mais. É ela a garantia da consistência do nosso viver no cotidiano dos atos rotineiros com que tecemos a urdidura de nosso perfil existencial. Há que nela depositar toda a nossa energia espiritual, conduzindo-nos maviosamente aos umbrais de nossa identidade ontológica, para aí encontrar o outro, sem cuja visão profunda permaneceremos pobres e isolados, formando com os demais seres sem alma um imenso arquipélago de solidões.

Para ultrapassar os óbices que se antepõem ao nosso caminhar, a esperança é a virtude peregrina capaz de nos assegurar, por antecipação, a crença num porvir em que os anseios de hoje amanhecerão como radiosa realidade.