Início > Acadêmicos > Ramiz Galvão (Barão de Ramiz Galvão) > Ramiz Galvão (Barão de Ramiz Galvão)

Ramiz Galvão (Barão de Ramiz Galvão)

PRIMÓRDIOS DA ORATÓRIA SACRA NO BRASIL

                                                          [...]

O padre Antônio de Sá é, pois, ainda junto de Antônio Vieira, um luminoso vulto da tribuna sagrada no século décimo sétimo.

Assim começou no Brasil a tribuna evangélica, que desde tão cedo ergueu voos de condor altivo; assim começou com oradores de primeira ordem em nosso país o púlpito, que tão grandes triunfos alcançou desde seu berço. Costumam as primeiras composições ser fracas e quase tentames dos talentos, que se esforçam por subir a regiões mais elevadas, quais aves implumes que experimentam o voo temerosas; e quase sempre desencontrados e confusos são os prelúdios de harpa dedilhada por mãos novéis. Como Palas, porém, que saiu armada do cérebro de Júpiter, a Eloquência sagrada levantou-se de seu berço, ostentando brilho e grandeza; compensou o gênio à novidade, e o engenho fez por si, apesar da falta de modelos, o que o tempo com sua escola de aperfeiçoamento não promovera; assim Vieira fez-se ouvir claro, erudito e eloquente; assim Antônio de Sá mostrou-se elegante, pomposo, animado e grande. Que mais pudéramos desejar no meado do século XVII, século de mau gosto em Portugal, idade de ferro da literatura portuguesa? Quando a linguagem estava corrompida, as ideias amesquinhadas, entronizado o gongorismo e escurecido o céu das letras, pudéramos esperar maiores padrões de glória do que os que nos deixaram esses dois grandes oradores? Apresentam porventura os estrangeiros nesse tempo melhores trabalhos deste gênero de composições? A França, lugar onde mais tem brilhado a oratória, apresentará talvez Bossuet; mas quem poderá estabelecer paralelo razoável entre a literatura francesa e a nossa no século XVII? A águia de Meaux formou-se no meio duma sociedade que se distinguiu pelo esplendor das letras, no meio do século de Luís XIV, brilhante e sublime como jamais nunca possuiu, nem talvez mais possua a História literária da França; um século em que à porfia tudo se ostentou pomposo, e em que quase por encanto não houve ramo de literatura que não atingisse à perfeição. A literatura portuguesa, entretanto, em que fase se achava? Ah! a literatura portuguesa então dormia o letargo da decadência, o sono pesado da indiferença e do marasmo. Como não serão por conseguinte realmente admiráveis esses dois grandes atletas do púlpito, que, para assim dizer, tiram do nada a Eloquência Sagrada, ramo que entre nós permanecia sem cultivo, para colocá-la em tão elevado grau? Como não serão dignos de admiração os arquitetos que levantam os capitéis dum edifício majestoso no meio de ruínas e de destroços?

Infelizmente, porém, em todo o quadro há luz e sombras; tanto mais caliginosas e medonhas são as trevas da noite, quanto mais brilhante e animadora fora a claridade do dia; e os castelos não se erguem mais senão para cair mais estrepitosamente, como já disse o grande lírico.

A tribuna concionatória, depois de tanto sol, eclipsa-se; o céu da Eloquência evangélica, depois de tanto dia, escureceu-se; e, pois, durante a idade de ferro só de espaço a espaço veremos um ou outro raio de luz buscando passagem por entre as nuvens dessa atmosfera pesada, que toldou nossa literatura por tantos e tão malfadados anos, um ou outro clarão, pálido reflexo dum sol que já mergulhou no poente, mas que ainda luta com a escuridão trazida nas fuscas asas da noite!

Chegamos à segunda época.

 

                                         SEGUNDA ÉPOCA

Entramos agora na segunda época da Eloquência Sagrada entre nós. A primeira foi de pompas, a segunda será de luto; a oração evangélica terá o destino da epopeia, a poesia sagrada acompanhará a poesia profana. Não mais saberão agora os pregadores inspirar-se nas grandezas sublimes da Religião, nem mais o Santuário ressoará com aquelas vozes de entusiasmo e santo arroubo de outrora.

A peste chegou até à casa do Senhor; o pregoeiro da verdade caminhará também jungido ao carro do mau gosto, e queimará também incenso aos ídolos do tempo. É que as missões sublimadas só pertencem aos grandes engenhos, e, quando estes desaparecem para dar lugar às mediocridades, tudo se nivela pela mesma rasoura. Só podem resistir aos rigores da ventania e da tormenta as árvores robustas do prado; quando jazem aquelas por terra, fica este deserto, e apenas aqui ou ali coberto de mirrada e desconhecida planta.

Foi sempre assim; na própria Literatura portuguesa, já se enevoava a idade de ouro, e o reinado dos sucessores de D. João III já divisava os clarões do dia que passara; Camões, entretanto, levantou-se ainda; seu gênio deu o último, embora sublime, canto do século de D. Manuel: mas, logo que expirou o poeta, como a lâmpada que bruxuleia e morre, também caiu a musa da Poesia nesse sono profundo, em que, quase se pode dizer, dormitou dois séculos. Só Camões, porque era um gênio, tinha podido levantar tão alto a voz da tuba épica, quando já declinava o sol da literatura para o seu ocaso; sem Camões, tudo ficou sepultado nos horrores da idade de ferro.

Na Eloquência Sagrada, não sucedeu de diverso modo. A Literatura jazia amortecida desde que as cadeiras do cativeiro agrilhoaram os pulsos da pátria, e o mau gosto bebido em fontes impuras revestia, à guisa de Marini e Góngora, as poucas ideias que podiam soltar lábios de escravo; apareceram, entretanto, esses dois grandes vultos que puderam levar a um ponto de glória a tribuna evangélica pela força de seu talento; mas quem os continuou na esteira luminosa que deixaram? Infelizmente para nós, não foram aquelas vitórias devidas senão à força de seu talento; quando este se extinguiu, quando a estrela tombou no Poente e os lábios do gênio emudeceram, tudo continuou no amortecimento primeiro; e a esteira de luz apagou-se, porque nem todos são iguais engenhos.

Sem veia, e sem inspiração, não pode haver nem Poesia nem Eloquência; é por isto que agora não veremos senão oradores medíocres e discursos imperfeitos, em que a linguagem, por afetada, se faz enfadonha, e o pensamento, por arguto, se torna fastidioso; é por isto que não mais veremos orações que arrastem pelos voos da imaginação, que convençam pelo rigor do raciocínio, que comovam pela expansão de sensibilidade. São todos discursos frios, sem calor e sem vida, inçados de argumentação fina e repetida, abafados por metáforas extravagantes, apóstrofos contínuas, ideias grotescas, e arrebiques de dicção; são todos discursos, em que nada se vê de saliente, de novo e de patético, escritos com secura horrível, e em que só um ou outro raio fora de frouxa luz divisa a Crítica.

Ah! fora, entretanto, só o defeito da linguagem, ainda bem fora.

Tertuliano escreveu em linguagem bárbara, porém, dele disse Balzac: “Tertuliano tem estilo de ferro, mas com ferro forjou excelentes armas.” Envenenaram, porém, até o pensamento, tudo foi vítima da peste; tudo foi inficionado pelo mau gosto; as ideias se amesquinharam, as comparações não serviram senão para mostrar conhecimentos alheios ao assunto; o argumento não fez senão patentear a argúcia do espírito, enfim tudo subiu ao requinte do alambicado e do esquisito. Chegou este período literário ao ponto de bem podermos a respeito de seus escritores dizer o que a Itália, lembrada desse século que para ela também foi de decadência, diz quando quer mostrar o mau gosto de um autor: ha del seicento!

No meio de tanto luto, entretanto, sirva-nos de consolação e regozijo, alguns poucos houve que souberam, uma ou outra vez, recordar as galas de eloquência de Vieira e Antônio de Sá, e a esses poucos cabe a nosso país a glória de os ter dado à literatura.

                                                                  (O púlpito no Brasil, 1867)

 

      DICIONÁRIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA NO SÉCULO XIX

Durante os séculos XV, XVI e XVII poliu-se e aperfeiçoou-se o idioma vernáculo nas mãos de exímios escritores, que ainda hoje são modelos de bem dizer: todavia mui pouco de proveitoso se fez em relação a esta parte essencialíssima da língua, que trata de daguerreotipar à luz de preceitos uniformes e bem estabelecidos os elementos da palavra.

São riquíssimo tesouro os livros clássicos de João de Barros, Bernardes, Fr. Luís de Sousa e Vieira, ninguém o contesta; mas, no que respeita à ortografia, sua incerteza e imperfeição são enormíssimas, nem há crítico amador destes estudos que não o confesse. Sem regras sistemáticas, sem código por onde houvessem de dirigir-se, escreviam eles diferentemente a mesma palavra: ora seguindo o uso, ora a etimologia, ora o som, não curavam das inúmeras corruptelas, por que no falar comum das inúmeras corruptelas, por que no falar comum passam os vocábulos, e, o que é mais, não atendiam sequer aos preceitos de analogia que devem presidir à formação das palavras, eles, os escritores que de fato se constituíam por seu excepcional merecimento os legisladores da língua.

A necessária consequência deste procedimento foi que, em pontos de ortografia, o testemunho dos clássicos portugueses, por contraditório e irracional, se não pode hoje invocar como autoridade. É bastante abrir qualquer de suas obras, tais como apareceram nas edições originais, para ter-se a demonstração cabal deste asserto.

Com o andar dos tempos, é verdade, um ou outro gramático pretendeu legislar nesta matéria, estabelecendo preceitos que servissem de norma ao correto escrever dos vocábulos portugueses. “Foram outras tantas icárias quedas, disse com muita razão José Feliciano de Castilho. A uns faltou o método, a outros a coragem.”

Hoje, ao alvorecer do século XX, que vemos neste particular?

Em matéria de ortografia e prosódia acaso satisfazem os dicionários portugueses, que a mocidade diariamente maneia? São porventura exemplares uniformes os escritos mais bem acabados das hábeis penas contemporâneas d’aquém e d’além-mar?

Longe disto, cada qual grafa como entende, e os próprios glotólogos discutem sem resultado prático as vantagens dos sistemas fonético, etimológico e eclético, que correspondem às três correntes de opinião nesta matéria.

Os dicionários da língua portuguesa, esses em verdade melhorar sensivelmente no último quartel de 1800, corrigindo em parte as inúmeras antinomias e os desacertos inqualificáveis, que infestavam as obras de Bluteau, Moraes, Constâncio, Roquete, Faria e Lacerda.

Os léxicos de Vieira, Caldas Aulete, Adolfo Coelho e C. de Figueiredo significam um melhoramento real, que estamos longe de desconhecer.

Muito mais copiosos, porque aceitaram o bom alvitre de registrar quase toda a tecnologia científica que nestes últimos 50 anos cresceu desmesuradamente; muito mais lógicos, porque obedeceram a princípios preestabelecidos, senão com todo o rigor, ao menos com regular orientação; muito mais exatos nas definições dos vocábulos e incomparavelmente mais bem avisados na etimologia deles, esses livros merecem apreço e devem ser destacados da primeira coorte de dicionaristas.

Mas ainda assim, como estão longe de haver completado a obra meritória de regularizar de vez a ortografia e a ortoépia da língua portuguesa, qual convém a uma língua culta!

Não insistiremos nos erros e nas contradições de Bluteau, Moraes, Constâncio, Roquette, Faria e Lacerda, porque isso nos levaria demasiado longe, e em parte foi feito esse trabalho de crítica na introdução do Dicionário de Aulete. Lancemos simplesmente rápido olhar sobre a obra lexicológica dos mais modernos, e ver-se-á a toda a luz que o problema não ficou resolvido, apesar da séria e reconhecida competência que os distingue. Segue-se a análise do Dicionário de Fr. Domingos Vieira; do Dicionário contemporâneo da língua portuguesa, de F. J. Caldas Aulete, publicado em 1881, do Dicionário manual etimológico da língua portuguesa contendo a significação e prosódia, de F. Adolfo Coelho, e do Novo dicionário da língua portuguesa, de Cândido de Figueiredo, publicado em 1899.]

(Vocabulário etimológico, ortográfico e prosódico das palavras portuguesas derivadas da língua grega, 1909)

 

                              GRATAS REMINISCÊNCIAS

Tendo tido na vida, desde a minha meninice até os últimos dias do reinado de D. Pedro II, oportunidades várias de o ver e apreciar, já em atos públicos, já na intimidade do Palácio, porque afinal, de 1822 a 1889, fui professor de seus netos, posso trazer o meu testemunho individual sobre os predicados singulares desse grande vulto da nossa História, desse Brasileiro benemérito, cuja memória agora se celebra a propósito do seu centenário natalício, sem o menor vislumbre político aliás, e sem o menor desar para a República.

Ainda há infelizmente quem nas atuais demonstrações de apreço, dadas à pessoa do imperador, descubra “saudosismo doentio e arreganhos sebastianistas”. É lastimável que homens de real valor se inspirem neste sentimento de ódio ao passado, quando esse mesmo passado foi que preparou o advento da República, à qual ninguém hostiliza e servimos todos com solicitude e desejo de a ver cada dia mais sólida, mais próspera e mais brilhante.

Diga-se uma vez por todas: não se trata de endeusar o regímens do Império: pretende-se apenas fazer justiça histórica a um Brasileiro de grande coração, que trabalhou sem trégua a bem a Pátria. Nada mais nobre, nada mais digno de espíritos ponderados e esclarecidos.

Vi o imperador pela primeira vez em princípios de 1855, quando eu contava oito anos e meio de idade. Minha boa avó conduziu-me então à Quinta de S. Cristóvão para pedir a D. Pedro II a minha admissão como aluno gratuito no Colégio Pedro II, atenta a nossa situação de pobreza.

O Imperador, que a todos sem exceção recebia diariamente, com lhaneza e cordura, na varanda interna do Palácio, ouviu o pedido e só replicou:

- Mas este menino já fez a sua instrução primária?

- Já está pronto, meu Senhor, respondeu minha avó. Ele já recebeu o diploma do Colégio Amante da Instrução, onde estudou.

- Mas, deveras pronto?

- Não posso duvidar, porque o professor, Sr. Inocêncio Drummond, começou até a ensinar-lhe particularmente rudimentos de francês e latim.

- Está bem, está bem, concluiu o imperador. Traga-me os papéis, e eu os passarei ao ministro.

- E fez-me afagos, que nunca esqueci.

Tal foi o meu primeiro encontro com o Imperador do Brasil.

Fiz gratuitamente toda a minha instrução secundária no Colégio Pedro II, bacharelando-me em 1861, após os sete anos do curso. Ali o Imperador assistiu a todos os meus exames finais.

Esta circunstância prende-se a outra, que me causou a maior sensação e que demonstra não só a fenomenal memória como a delicadeza de sentimentos de D. Pedro II. Eis o fato.

Passados anos, e tendo eu concluído em 1868 os meus estudos superiores na Escola de Medicina, defendi teses em presença do imperador e nesse ano recebi o respectivo grau, cabendo-me a honra de ser o orador da turma, por escolha dos meus distintos colegas. Finda esta cerimônia, como era então da pragmática, dirigi-me ao Imperador para beijar-lhe a mão. Nesse momento perguntou-me ele:

- E sua avó já não vive?

- É falecida, Senhor.

- Que prazer seria o dela, se presenciasse este ato!

Tais palavras foram-me ao coração, escusado é dizer, e por isso também não as esqueci jamais.

O interesse de D. Pedro II pelos moços estudiosos era assaz conhecido. Tive disso outra prova.

Em 1869, pouco depois da minha formatura, funcionava eu como cirurgião contratado no Hospital Militar da Ponta da Armação, quando o imperador ali apareceu. Tínhamos doentes vindos da campanha do Paraguai.

Com grande admiração das autoridades presentes, prendeu-me ele em palestra por algum tempo, indagando dos meus estudos e trabalhos literários.

- Que faz neste momento?

- Senhor, respondi-lhe, preparo-me para escrever uma Memória sobre o Mosteiro de São Bento, ao qual sou muito grato; ali encontrei informações preciosas e documentos, que contradizem os assertos injustos e apaixonados de Baltasar da Silva Lisboa.

- Está bem, continue. E quando tiver pronta a Memória, apresente-a ao Instituto Histórico: ali se trabalha, disse-me ele.

De fato concluí pouco depois a Memória e, segundo me fora graciosamente recomendado, levei-a ao Instituto como título à admissão de sócio.

Passou-se mais de um ano, talvez, e nenhuma solução aparecia.

Encontrando-me casualmente com o Imperador, não me recordo onde, perguntou-me ele:

- E o seu trabalho sobre o Mosteiro de S. Bento? Não o levou avante?

- Sim, Senhor, respondi-lhe; há longos meses, conforme V. Majestade teve a bondade de me recomendar, está na Secretaria do Instituto.

- Como? Não tenho notícia disto. Vou indagar.

O que é fato é que essa indagação deu logo o seu fruto.

A Memória, que se achava dormitando na Secretaria (não preciso declarar donde partira a má vontade ou o despeito), a Memória apareceu, foi distribuída a um relator, e eu tive a honra de ser admitido como sócio do Instituto Histórico na sessão de 16 de agosto de 1872. Quem é hoje o decano da nobre Companhia foi naquela data, há 53 anos, o benjamin da tribo veneranda.

Estes fatos, consigno-os sem a menor ufania. Mas eles significam a preocupação demonstrada pelo Imperador Dom Pedro II em animar a todos os que amavam o estudo e podiam talvez prestar algum serviço ao seu dileto Brasil.

O que comigo se passou, deu-se decerto com muitos outros brasileiros, que confirmaram melhor as esperanças e os desejos patrióticos do insigne Imperador.

                                         (Jornal do Brasil, 2 de dezembro de 1925)