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Discurso de posse

DISCURSO DO SR. FERNANDO MAGALHÃES

PARA o admirável dicionário que será o perpétuo florão desta confraria, no momento em que exprimo, respeitoso e dignificado, o voto de graças à vossa excelsa bizarria, requeiro, Ex.mos Confrades, a entrada urgente do vocábulo, usado e mofino, com que se empavesa a crítica iterativa nas oportunidades mais ou menos ruidosas dos pleitos acadêmicos.

Já tem animado repetidamente o vosso aceso debate esse atributo exponencial, rude na interdição ou no estigma, espavorindo com crueldade a timidez súplice dos aspirantes à honra da vossa companhia. Os léxicos não resolvem o valor do termo, de modo a ajustar a fórmula à hostilidade costumeira, e porque não pude evitar o favor da impugnação recalcitrante, ainda não sei, com o selo dos expoentes, se a palavra vale por um adorno ou por um labéu. No afã, porém, da conformidade irrepreensível a que me obriga o propósito da cortesia convicta, não atino como me aplaudir em função de sinal algébrico ou de flexão gramatical.

O expoente sofre o doesto por erro lamentável da sinonímia injusta impondo o banimento severo. O expoente não é servidor das letras, porque não é delas vivedor e, se as servir, delas não vivendo, o desinteresse não atenua o peso da sentença. Da difícil contingência criada pelo rigor da designação, há recurso porém para a tecnologia dos auditórios, onde o expoente se humilha na requisição e confia, apagado, no julgamento do seu desejo. Invisto-me preferencialmente desse significado e, expoente, dentro da lei, peço licença para justificar o vosso favor.

A medicina curte resignada uma desafeição imerecida. Protestam por vê-la ao vosso lado, ela que só anseia pelo vosso aconchego. Por que tanta intransigência, quando a tradicional comunhão entre poetas, talvez doentes, e médicos, talvez rimadores, abrigou sob o mesmo teto, e dentro das mesmas aspirações, homens de pulso e de sentimento, firmes igualmente na posologia dos remédios, no trato das doenças, na cadência da métrica, na pureza dos vocábulos, nos surtos da imaginação e no polimento dos conceitos?

O academicismo colonial brasileiro não desprezou o convívio dos curadores contemporâneos: Mateus Saraiva, cirurgião-mor de presídio, criador e presidente da Academia dos Felizes, concorre com sete sonetos para a coletânea da Academia dos Seletos. Na dos Renascidos, quarenta como nós, havia o físico-mor Luís Chaves e o médico do partido imperial Félix de Morais. Na Sociedade Literária, os cirurgiões Costa Abreu e Vicente Gomes, o médico Jacinto Silva competem com o poeta Silva Alvarenga e com o Marquês de Maricá. O presidente da Sociedade Baiense de Homens de Letras, Oliveira Mendes, disserta em 1810 sobre as moléstias dos pretos vindos da costa d’África. Na Academia Fluminense, ao lado de Ledo e Cunha Barbosa sentou-se sem constrangimento Amaro Batista, professor da Academia Médico-Cirúrgica de 1821. E na galeria dos vossos patronos, além de Macedo e Laurindo, pelo voto eloqüente de um dos fundadores desta Casa, o magnífico Joaquim Nabuco, fulgura Maciel Monteiro, poeta cristalino, orador perfeito, homem donairoso, diplomata fidalgo, médico entendido, afanado e prestante.

Vezo secular, pois, no Brasil, esse de consorciar musas e males. Pudera não, se ambos vêm do mesmo tronco. De Febo, cumulativamente vistoso capitão das nove divindades e ufano genitor dos méritos esculapinos, cantou Eurípides a sagacidade médica e lembrou Calímaco os modos de retardar a morte.
Nem os Quevedos mordazes, nem os Gracians críticos, nem outros picantes desenfadados e sabidos, desonram a prestância dos escritores médicos do seu tempo. Quase nem resta recordação da maldade satírica que não respeitava magistrados e príncipes. E se fosse razoável reeditar contra a cultura dos médicos as facécias dos letrados, àqueles conviria o consolo dos clássicos, sabendo em Suetônio que Roma expulsara os gramáticos como supérfluos e ocupados em coisas de pouco momento; em Isócrates que a retórica não é arte nem ciência, mas engano e astúcia; em São Jerônimo que os lógicos são aborrecidos, sofistas, equívocos e orgulhosos; em Tácito que a doce música da voz de Nero, bem como o seu tanger, acanhavam a dignidade imperial; em Licurgo que a aritmética era vedada aos Lacedemônios como coisa de inútil disputa; em Ovídio – vivitur ex rapto non hospes ab hospite tutus – que a geometria causou a ambição e a rapina na demarcação das terras e na divisão dos homens. E não faltará mais malícia para os outros engenhos.

Entretanto, curar tem sido ofício de muita preeminência. Os inspirados e taumaturgos dominam melhor a ignorância da turba indecisa pelo milagre da desenvoltura dos paralíticos, da visão dos cegos, da frescura dos lázaros, do viço dos hécticos, do que pela elegância das parábolas ou a finura das alegorias. Curaram arcanjos: a história tripartida afirma que São Miguel curou o febricitante às portas do templo.

Santos foram médicos: Elizeu, Isaías e Esdras têm fórmulas e prescrições próprias. No antidotário de Vilanova figura o famoso xarope do pregador das gentes, do Vaso de Eleição. Lucas, o Lucas medicus carissimus, de São Paulo, era pintor por curiosidade e médico por profissão. Codrato de Corinto, Alexandre de Lion, Pantaleão de Nicomédia e outros que, no dizer de Braz Luiz de Abreu, “a pena cala porque a fama conta”, são portentosos na arte de Hipócrates.

Eusébio, Nicolau Quinto, João XXII, todos papas, praticaram e ensinaram a medicina. Imperadores e reis aliviaram os males do mundo. Tibério manipulou pastilhas eficazes, Aurélio colírios procurados. Os reis gregos, os de Pérgamo, do Ponto e da Mauritânia, herbolários de vasto prestígio, são corifeus da medicina. Filósofos e poetas medicaram também: Galeano reverencia Orfeu e Homero; Virgílio, contando a cura da ferida de Enéas, é profundo conhecedor das virtudes das ervas; Plínio realça a medicina de Ovídio; Petrônio e Demócrates poetavam e curavam. E Túlio, e Teofrasto, e Sílio, e Plutarco, valiosos nos conhecimentos médicos... No rol também há deusas e rainhas, desde Diana até Cleópatra. Assim revive o conceito epistolar de Cassiodoro: “Doctrina facile exornat generosumque etiam ex ignobili nobilem facili.”

Fico na era remota, porque a história do pensamento criador emaranha-se na era nova com o estudo das ciências médicas. Nos paradoxos de Panúrgio e nas teorias de Pantagruel, Rabelais, a rir, professa a medicina. O precursor de Descartes e do cartesianismo, Mersenne, trabalhou na descoberta dos vasos quilíferos; Denis, médico filósofo, notabilizou-se no estudo da transfusão sanguínea; Bossuet praticou a anatomia com Verney; Taine, grande ledor da fisiologia e da patologia, definiu o autor da Comédia Humana – museu de Dupuytren, cogumelo de hospital, Molière médico. No íntimo da personalidade de Sainte-Beuve estavam, confessadamente, Lamarck e a fisiologia.

Por tudo isso, e sem maior escândalo para o desconchavo da grita, poderá dizer agora o expoente, no seu arrazoado, que se a medicina foi entretenimento de deuses, distração de santos, trabalho de reis, ofício de sacerdotes, encargo de filósofos e cogitação de poetas, por que estranhar que médicos rotulados sejam letrados anônimos, tanto quanto vates olímpicos possam ser mezinheiros ocultos? E se essa medicina já pompeia nas cortes celestes, já ornou sólios pontifícios e tronos imperiais, permita-se-lhe também o direito de um dia sonhar com o aplauso das assembléias, o esplendor dos concílios e a glória das academias.

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Desta glória, com a precocidade dos predestinados, provou cedo, mal lhe despontava a adolescência penosa e rude, o vosso fino e culto companheiro que, no apuro da sua mentalidade e na fidalguia dos seus propósitos, nascendo humilde e morrendo ilustre, traçou uma vida fúlgida, alçando-a, pelo esforço feliz e recompensado, de uma infância anônima e aldeã a uma maturidade ornamentada e famosa.
Glória prematura, na perpetuidade presidencial que o destacou aos 18 anos, dentre os vinte conjurados do Grêmio Jardim de Academus, solenes afirmadores da existência de uma literatura nacional. Esse Grêmio, encafuado no recanto estreito de um velho segundo andar, nem pôde vagir, mas da sua janela única descobria-se o atraente espetáculo das salas da Gazeta de Notícias, para onde insensivelmente, da perpetuidade morta, transportou-se o escritor estreante, de pronto adestrado na crônica vivaz, na história palpitante, na narração evocativa, trechos de vida escrita em que o desejo é vago, o sentimento é íntimo, a ambição é dúbia.

A continuidade inflexível é a feição principal da carreira próspera de Domício da Gama. Do peitoril do Grêmio Jardim de Academus debruçou-se sobre a Gazeta de Notícias, de cujas colunas divisou e alcançou aquela permanência lustral em Paris, onde o esperava o amparo prestigioso de Rio Branco que o agasalhou, paternalmente, para a partilha da celebridade e para a conquista da culminância.
Certamente, o germe da excelência legítima amadureceu ao calor do destino propício. A iniciação jornalística na Gazeta é o primeiro afago da sorte bafejante: um espírito novo e ávido tinha de florescer naquele círculo ruidoso de intelectualidade idealista e militante que primou nos últimos dias do Império.
Ferreira de Araújo organizara o sistema das cerebrações privilegiadas. No centro da constelação ele, destemido folicurário generoso, abalava crenças políticas e, sóbrio comentador elegante, zombava das parvidades humanas. Em redor, flamejava uma gravitação: o aticismo harmonioso e casto, a perplexidade magistral e profunda de Machado de Assis; a boêmia feliz e transbordante de Ferreira de Meneses; o ardor opulento, sagrado, torrencial de José do Patrocínio; o humorismo lépido e sadio de Artur Azevedo; o realismo sincero e másculo de Aluísio; as cintilações rápidas e agitadas de Valentim Magalhães; a graça caseira e pacata de França Júnior; a arte misteriosa, na ternura e na truculência, na ficção e na sátira, na evocação e na crítica, arte sombria e criadora, dando vida às cousas e dando forma aos sonhos, arte do maravilhoso Pompéia, padroeiro da apetecida imortalidade com que, na aquiescência do meu desejo, favorecestes a alegria da minha faina.

Estes homens de relevo foram também filhos de um tempo afortunado. Incitava-os o grande apóstolo da abolição; a campanha redentora animava e lapidava o pensamento nacional. Os ecos daquela luta não se apagaram, antes reboam eterna e fragorosamente: há lábios mudos que ainda falam, há cabeças formosas que, do outro lado da vida, continuam a pensar, há mortos que simbolizam vivamente a abnegação arrojada e vencedora. Lindos dias de combate e de triunfo pela causa da abolição... Da abolição e da República. Com esta conjugação histórica a fatalidade: iludiu, lastimavelmente, a esperança delirante de uma geração, deixando-a supor-se capaz da tarefa ciclópica de engendrar duas grandezas.

Domício acendrou a sua mocidade e facetou o seu engenho no convívio dessas idéias e na intimidade dessa gente. Em breve, outro ambiente intelectual concorria também para a sua formação artística. A sina fagueira, amparando-lhe o destino, favoreceu-lhe a primeira viagem, por conta do seu ofício. Em Paris, acolhe-o a casa de Eduardo Prado, aberta aos brasileiros, viajantes e emigrantes, com a hospitalidade do coração e do espírito. Aí, o culto da forma graciosa obrigava a lidar no imprevisto original e sagaz, mas da técnica do chiste derivava a idéia oportuna, luzida e moça; todos os temas desdobravam-se em frases multicores; os grandes assuntos e os pequenos motivos provocavam o conceito sutil e o dito prazenteiro. Andava o espírito pelo ar. Domício, fiel àquela camaradagem lustrosa, mas pouco afeito à bulha esfuziante, era mais companheiro dos livros de bom quilate e de melhor trato, onde começou a trilhar, curvado sobre os preciosos documentos geográficos, o largo caminho que o levaria ao termo de merecida consagração.

Aparece o cronista. Dele é boa parte da colaboração européia da Gazeta de Notícias, e os assuntos parisienses vinham ao leitor carioca já naquele estilo reverente e cauteloso, dizendo menos e sugerindo mais, piedoso na maldade, sereno na surpresa, recatado no sofrimento e singelo na emoção. Nos seus primeiros ensaios jornalísticos, como os do “Alfinete” escritos aos vinte anos, esboça-se o narrador sintético que, mais tarde, traçará as linhas aristocráticas dos Contos a Meia-tinta e das Histórias Curtas.
Estes dois volumes, os publicados, pois há manuscritos para outros tomos, e a erudita colaboração na “Grande Enciclopédia” não são a sua única obra literária. A produção epistolar abundante e variada merece público, pelo tom vivo das suas linhas imprevistas comentando, com graça e até filosofando com profundidade. Vê-se assim como sobre o escritor influi a condição do leitor amigo, para quem corriam espontaneamente impressões rápidas e perfis momentâneos, traçados pela sua pena despreocupada. Domício escrevia certo de ser pouco lido; na sua autocrítica, lembra a lenda do passarinho que só contava até sete e, crente de falar a muito poucos, embora sete lhe parecesse quase nada, consolava-se com a esperança de, na vida das emoções, já não ser solidão número tão restrito.

Não será solidão, mas é retraimento. Na sua linguagem exata e disciplinada, melancólica e enternecida, a concisão domina a idéia, gerada numa reflexão intensa, servindo à verdade e ao sentimento, mas receando o leitor que “nas páginas falhas descobre o que quisemos exprimir”.
A concisão explica o título das histórias curtas, o receio confirma os contos a meia-tinta. Traços leves, entrechos ligeiros, sensações instantâneas, estendem-se tanto quanto as psicologias complicadas. É a largueza dentro da brevidade: um panorama em poucas linhas, um caráter em duas réplicas. Escreveu como falou: homem de educação esmerada, falava baixinho; baixinho também escreveu, e, na prosa como na conversação, sussurrou deliciosamente, no encanto e na suavidade. Criador imparcial, sente a figura que imagina e o caso que compõe, mas não os carrega nem os deforma com o acessório, por lhe bastar a alusão branda e para não melindrar a argúcia de quem o lê.

Como divergem na estrutura íntima e no feitio literário Domício e o amigo querido cujo nome, por sua escolha, protege a Cadeira que só a sua recordação ainda ilustra! Pompéia, um afirmativo vigoroso e firme, Domício, um impressionista, delicado e tímido; no primeiro a imaginação alada e vertiginosa, no segundo a descrição sincera e correntia; um arrebatando para a fantasia, outro pendendo para a reflexão. Pompéia inovador privilegiado e tumultuário. Domício narrador exato e tranqüilo; num toda a força da natureza esplendorosa e cataclísmica, noutro a sombra da paisagem florida onde se escuta o silêncio. Na vida, Domício, o disciplinado, singrando à feição de sua sorte dadivosa; Pompéia, o revoltado, sacudido pela inclemência do seu destino tempestuoso. E até na morte: um buscando-a num dia de alegria, o outro esperando-a em horas de tristeza.

Há em Domício, porém, uma realidade palpitante: as narrativas devem ser folhas destacadas do caderno do noticiarista, anotando episódios vividos com cuidado nas regras dos clássicos modernos. “O Cônsul”, “que ficou à meia viagem da celebridade e da glória” e cuja vida “de cativo desejo, multiplica-se pelas decepções”, existiu e existe por aí, mortificado na pretensão desesperada e infeliz. “Só” é talvez a confissão íntima e a justificativa ressentida do celibatário tão tardiamente arrependido e que não devia comprometer a vida única “num jogo perigoso de ventura”. A “Possessão” é um incidente bulhento de vizinhança sossegada, história triste de amor feminino inesgotável, acompanhando, martirizado e escravo, a degradação e a miséria. Na “Canção do rei de Tule” há uma cena de meninice fixada pela gratidão no perfil da criatura branda que, falando do passado, pulava por cima da mocidade sepultada nas ruínas de uma afeição mentida e contava histórias “nas tardes torvas em que chora uma saudade dentro de nós como se já tivéssemos vivido este dia noutra vida e fosse de sua memória a melancolia que nos aflige”.

Mesmo a ficção tem no fundo um vago e esquecido já visto. O tipo da “obsessão”, debatendo-se na dúvida da responsabilidade da culpa, é comum nos cárceres. No convívio alegre e airado do vício feminino, o “Moleque Tobias” costuma ter o prestígio sexual das extravagâncias. “Miss Epaminondas” pode bem ser a réplica delicada, sentimental, irônica, talvez vingativa, à indiferença cortês de uma mulher desejada. “João Chinchila” vale quase por uma autobiografia, pelas coincidências frisantes na paisagem da terra natal, na obscuridade das horas infantis, na docilidade da juventude trabalhosa, no surto da carreira feliz, na solidão contemplativa desse drama onde toda a gente imagina que “chega tarde e donde sai cedo demais”, e até no inesperado descanso em que aguardou, tranqüilo mas dolorido, que o viessem buscar “num carro de gala, com cavalos empenachados, cantos em latim e gente respeitosa, acompanhando o triunfo do homem a quem foi dado viver sem pensão nem cuidados”. “Ponta Negra”, inédito precioso, admirável evocação da terra risonha que lhe maravilhou a primeira mirada, é um voto de afeto à pátria distante, resumida naquela beirada interminável de praia branca e langorosa, onde o rude pescador resignado aponta o rumo da vida útil, avisando com voz displicente que “sozinho num barco ninguém vai longe”.

E como não seguiu sozinho no seu barco venturoso, Domício foi muito longe. Revolvendo a rica coleção de mapas da biblioteca de Prado, conheceu Rio Branco, o pacífico e invencível conquistador do Brasil litigioso. Firmou-se logo essa união que nunca mais desmereceu; uma identidade de sentimentos, de ideais e de inclinações irmanava os dois homens, lidando tanto um para a fama imortal do outro que na apoteose do maior o menor também refulge. Longas horas passaram eles de inspirada contemplação, adivinhando e definindo a grandeza da pátria. Enamoraram-se da forma maravilhosa da nossa terra. Na carta brasileira, onde repousavam as suas cogitações e as suas ansiedades, as linhas fronteiriças esfumavam-se na contenda ameaçadora, perdidas na incerteza dos pressentimentos. Brasil imenso, mas incompleto na perspectiva sinistra das mutilações; robusto, mas inquieto na visão sanguinolenta da derrocada; opulento, mas penando no temor enervante do infortúnio; abençoado, mas sofrendo a ameaça torva da iniqüidade. Assim os dois sentiram, e, por isso mesmo, ainda mais amaram, embora de longe, o Brasil estremecido.

Rio Branco é o épico bandeirante dos novos tempos, maior do que os violadores dos sertões, arrastados pela miragem das serras resplandecentes. Demarcador da pátria, herói da fraternidade continental, ele só basta para afiançar a raça adolescente, responsável pelos destinos comuns. No seu rumo à celebridade, teve em Domício o companheiro mais diligente e mais dedicado; ambos olharam longa e amorosamente a terra vasta e querida para depois poderem jurar pela sua grandeza definitiva.
Em Washington, em Berna, em Petrópolis, Domício da Gama foi o organizador da vitória; também nunca o insigne defensor do nosso patrimônio territorial deixou de distribuir com ele homenagens e honrarias. Era dos do tempo de Rio Branco, e o tempo de Rio Branco marca o trecho mais viçoso da história republicana, o primeiro dentre os preferidos. Esta condição consagra. Tantos anos longe do Brasil, Rio Branco, investido vitaliciamente na direção da política internacional, foi acima de tudo o hábil movimentador da intelectualidade brasileira. Jurisconsultos, jornalistas, diplomatas, homens de letras, com o exemplo empolgante da sua atividade fremente, sentiam a estranha vibração de amor ao passado e ao futuro da nação.

Em torno do glorioso dirigente, formavam os tipos de eleição e, dentre eles, destacava-se Domício da Gama, respeitado e senhoril, companheiro dos grandes dias e das horas árduas. A sua colaboração afincada deixou traço indelével na integração do país, terminadas as lides confinais. Então, Ministro e Embaixador, partiu para representar com vantagem a nossa cultura e a nossa cordialidade. No Peru, rápida e honrosamente, desfez ressentimentos e cimentou concórdias. Em Buenos Aires, no momento talvez mais grave destes últimos cinqüenta anos, atuou desassombrado com a serena energia da sua doçura e a límpida verdade da sua razão, dentro da própria divisa – afirmar sem afrontar – dissipando o ambiente tempestuoso de hostilidade em que perigou a paz sul-americana, e conduzindo seguro o dissídio ameaçador à galhardia do seu remate generoso. Em Washington, pregando e praticando a diplomacia desembuçada, substituto de Joaquim Nabuco, fez do peso da sucessão o estímulo do êxito e alcançou aplauso largo, prêmio excepcional na função de juiz acatado em tribunal de estranhos e notáveis. Nesse cargo, adquiriu a melhor deferência para si próprio e toda a estima para o seu país; da atenção afetuosa que lhe dispensava Wilson resultou a excepcional situação do Brasil na assembléia de Versalhes onde, por intermédio do Presidente americano, foi possível ao interesse brasileiro penetrar um pouco na vontade encastelada dos Big Four. Depois, Rodrigues Alves, o iniciador de Rio Branco na gestão dos negócios exteriores, de novo chamado ao Governo, deu-lhe a direção do Itamaraty, honrando, assim, o benemérito descobridor de capacidades, no discípulo dileto, a memória do seu maior Ministro. Por fim, em Londres, guardou a linhagem dos antigos e famosos serventuários daquele posto e professou cousas brasileiras nas universidades inglesas.

O julgamento de Domício da Gama, como homem e servidor público, está firmado na carta que a Hélio Lobo escreveu John Bassett Moore: “Sua inteligência apreendia tudo muito rapidamente, suas conclusões eram seguras e firmes. Tinha um excelente discernimento e um caráter que equivale aos seus predicados. Nunca conheci ninguém mais reto e mais honrado, em todos os seus atos. A duplicidade ou o artifício jamais entraram em seus hábitos de pensamento e de ação. Aqueles que tinham de privar com Domício da Gama logo verificavam que podiam depositar inteira confiança em sua palavra; ele conseguiu assim para o seu país o que a outros seria impossível alcançar.”
Ficou lavrado o juízo dos contemporâneos de outras plagas. Gente estranha, conhecendo-lhe a morte, lamentou-se no mesmo tom, porque, por onde ia, Domício deixava recordação de uma nobreza pura e de uma bondade refinada. Mas entre os seus tentaram diminuí-lo pela maledicência, pela inveja e até pelo remoque.

“Cada vez mais me apego a esta terra bendita de beleza e doçura; todo o resto para mim agora é exílio”, escreveu Domício, em uma das suas últimas despedidas, a Mário de Alencar. Quem assim se doía de não entreter continuamente o olhar, magoado de recordações, no encantamento do céu infinito e na graça das paragens desabrochadas, sofreu suspeição de indiferença e de esquivança, como um desarraigado do seu torrão. No entanto, essa sensibilidade tão elevada em uma criatura tão nítida jamais destoou da exultação amorosa pelo Brasil afortunado. A sua existência é disso uma lição, porque é inçada de grandes encargos e de maiores cuidados pelo Brasil completo, pelo Brasil culto, pelo Brasil engrandecido, pelo Brasil respeitado. Basta ler a sua afirmação de fé patriótica e confiante no futuro do país, a formosa oração tão cheia de desprendimento, dita, sendo ele chanceler, aos estudantes de São Paulo. É uma exortação vigorosa ao gênio da mocidade tensa, de cuja seara brotarão os cidadãos conscientes. Falou como um homem de responsabilidade, destes que não mentem ao seu tempo nem iludem a sua gente. Na indecisão do presente nebuloso, é preciso despertar as aptidões adormecidas com as apóstrofes clarinadas pela verdade intimorata. Só assim acordarão as quebradas da nossa terra que desafia todas as energias com o ermo das suas maravilhas, a penúria dos seus viventes, a narrativa dos seus males, a tristeza dos seus hábitos, a displicência dos seus usos, o tédio dos seus labores e a indiferença do seu futuro. O momento histórico universal pede este rebate de ressurgimento; por toda a parte, o liberalismo inscrito nas leis foge dos costumes, decretado pela razão não penetra no sentimento e, por isso, anda por toda a parte o exemplo doloroso da democracia sem fé, sem alma, sem virtude, democracia de embuste, entrosada na engrenagem das velhas servidões.

Na sua tarefa de trinta anos, a personalidade de Domício ganhou em brandura, atributo do seu coração, benefício do seu convívio, recompensa do seu afeto, condição do seu mister, alegria do seu viver. Os privantes mais fraternais desconheciam-lhe um arrebatamento, e só dias antes da morte a sua companheira de doze anos de vida conjugal ouviu-lhe a primeira rudeza amargurada contra o descaso dos homens. Por fim, molesto, menos de doenças do que de dissabores, declinou em rápido crepúsculo, passado de desenganos, esmorecido de humilhação, desconsolado de melancolia, sofrido de mágoas, desamparado de justiça, compondo intimamente em seu mote final, essa ansiosa interrogativa – “Por que me maltratam?” – queixume suave de uma atribulação provada na renúncia e de uma tristeza amaciada na ternura. E tal como fora nos anos de fortuna, airoso e plácido, nos dias de pesar mais se aperfeiçoou pela resignação e pela virtude, encerrando em morte austera as agruras de uma vida edificante.

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Não vos direi jamais bastante do realce que me empresta a vossa companhia, onde até posso conversar com os mais graduados na minha arte. Encantam-me o ritual da festa e o adorno da investidura, ao ter de protestar a minha gratidão, desconhecendo-me na gala desta roupagem e no simbolismo desta recompensa. Relevai a simplicidade do agradecimento; não me informaram, Excelentíssimos Confrades, se a praxe na cerimônia da recepção impõe juras e prometimentos. De qualquer modo não o farei guardando a ignorância libertadora da contingência difícil, embora do iniciado se espere o voto de um compromisso solene.

Valho-me e alegro-me do livramento desta obrigação, porque a promessa é uma atividade transferida, um dever adiado, um trabalho distante. De que serve marcar hoje uma tarefa afastada? Deixai-me dispensado momentaneamente de interrogar o que há de vir, na sedução do que já é. Mesmo deslumbrado pela alta mercê da vossa preferência, tenho presente, da elegante correspondência do primeiro e ainda hoje único ocupante da Cadeira de Raul Pompéia, esta sábia e oportuna advertência: “Para que querer ver mais longe, se se pode perder o gosto do que está perto?”