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Discurso de posse

Senhores acadêmicos,

Chego a esta culminância deslumbrado ante a paisagem com que nunca ousara sonhar. Fecho os olhos atônito e não encontraria explicação satisfatória se não pudera buscar na vossa generosidade justificativa para o gesto hospitaleiro, abrindo-me as portas da vossa ilustre Companhia, nesta acolhida de boa sombra ao caminheiro de tão longa e penosa jornada. Curvo-me confuso diante da vossa consagração para receber, na festa desta noite, a dádiva do vosso agasalho incomparável.

Por certo não me ofusca o raciocínio a magnitude da vossa bondade, a ponto de não discernir o que me toca a mim na expressão simbólica do vosso julgamento. Haveis com justiça premiado, naquele que elevastes vosso confrade, tantos outros valores de uma obra construída no labor efêmero dos dias que passam, mas cujo sentido se perpetua na seqüência de uma tarefa duradoura. Não vai, pois, a mim só a glória de subir tão alto, nem o fastígio de desfrutar, ao vosso lado, as galas da inteligência e da cultura, nesta Casa exalçadas pela constante do vosso culto.

Ao penetrar o pórtico da vossa imortalidade, às vezes motejada mas sempre ambicionada, sinto que me acompanham sombras veneráveis, privadas pelo destino do galardão hoje a mim conferido. A esses que aqui não chegaram, quando tanto o mereciam, revertem os esplendores da magna vitória.

Na debilidade da minha voz, encontrareis a ressonância do seu reconhecimento, impondo-me o compromisso de tudo fazer para não desmerecer dos seus exemplos e de honrar sempre a vossa inaudita confiança. Se não vos garanto ficar à altura da vossa fidalguia, não me perco na desesperança de traí-la, porque será meu empenho preservar a vossa boa intenção. Peço de empréstimo ao D. Quixote a fórmula precisa para a sinceridade do meu compromisso: Si no puedo pagar las buenas obras que me hacen con otras obras, pongo en su lugar los deseos de hacerlas, y cuando estos no bastan, las publico, porque quien dice y publica las buenas obras que recibe, tambien las recompensara con otras si pudiera.

Coube-me, com vossa escolha, a honra de suceder a uma plêiade incomparável de historiadores, que mantiveram a uniformidade de um esforço superior na narrativa e na compreensão dos fatos da vida pátria. Teríeis quebrado a linha de continuidade traçada na memória da cadeira de Francisco. Adolfo de Varnhagem se não pudesse o seu atual ocupante dizer-vos, para tranqüilizar-vos de críticas porventura feitas, que, se em rigor não traz nada de seu, todavia, se ufana de ser o guardião da arca veneranda a que se acolhem cento e vinte e três anos da História do Brasil, escrita com a fidelidade severa e consciente de compor serenamente e dia a dia os anais da nacionalidade, desde os albores da independência. Assumindo o encargo de caminhar na esteira do passado, claviculário de tantas tradições, faz.-se hoje, qual os seus antecessores, o portador do facho sagrado, o continuador de uma rota que não poderia alterar, renunciando à tentação de desviá-la para a vaidade de uma orientação própria, pois faltaria com isso à missão que o destino lhe reservou.

Não vale, no entanto, dizer que não muda, porque conservar não é sinônimo de estagnar, antes melhor se preserva o que se adapta e se atualiza, para a certeza da evolução criadora.

Nem a História poderia coadunar-se com a realidade e ser dela um repositório se a desviassem para o arbitrário as tentações de inovar na sistemática dos seus princípios. Mais do que outro ramo do conhecimento humano tem ela de ser conservadora nos seus métodos, para ser duradoura na sua finalidade. Romanceá-la com os artifícios da imaginação, fugindo às regras da sua estrutura, seria construir no vago um edifício aberto a todas as incursões e sujeito a utilidades de capricho ou fantasia. A História seria assim Arte e não Ciência. E nunca daria a essência para a filosofia que Voltaire foi o primeiro a qualificar.

Essa realidade que é o fiat da História está contida no subsídio quotidiano do jornal. O fato, alimento diário da imprensa, constitui, depurado das suas emoções, a substância da História. Encadeado na seqüência de suas relações, fixa-se nas cores prismáticas que marcam a tonalidade de um momento na transição do efêmero para o duradouro. Quando o historiador o encontra assim estratificado pelo tempo, tem ao seu dispor a matéria-prima para a interpretação de uma época ou para a determinação de um ciclo na evolução da humanidade.

Tal evolução deve hoje à imprensa muito mais do que a qualquer outra fonte de conhecimento, como registro da verdade através das ocorrências e opiniões estereotipadas no evolver do tempo. Do jornal muito se há dito de bem e de mal. E nesta Casa em que as letras primam na sublimação estética da sua pureza, fácil seria encontrar na improvisação dos diários justificativa para as opiniões que lhes atribuem antes malefícios que benefícios pesando nas grandes criações do espírito. Como a do escritor francês que viu no jornal o ogre devorador da carne tenra dos jovens escritores, muitas outras invectivas atingiram cruelmente uma influência que lhes parecia corruptora e nociva. Mas nem todos os julgamentos têm sido tão absolutos, e muitos escritores, que subiram à glória pela escada estreita do jornal, não se furtaram a reconhecer haver sido ali, no trato obrigatório com a escrita, que se lhes aprimorou o estilo, trabalhado na forja de uma labuta apressada e imperativa. Entre nós, encontrareis os dois pólos divergentes em Nabuco, que malsinava o jornal pelo horror de escrever sob medida e com hora certa, e em Félix Pacheco, que revertia à profissão, por ele tão dignificada, os lavores da obra primorosa de muitos escritores nossos.

Num ponto, no entanto, não poderia haver discordância e é esse o alvo que firo, a fim de reivindicar para o jornal a condição precípua marcada por sua ajuda inestimável. A História tem no jornal a sua fonte viva e perene e se hoje ela estancasse não seria mais possível marcar-se o ritmo da evolução humana nem lhe positivar a síntese filosófica. Porque se o jornal contribui para fazer a História, é principalmente o agente que fixa com minúcia a História que se faz. Desde o fim do século XVIII, nenhum historiador pôde mais dispensar o jornal, como fonte documental do seu labor. Do campo objetivo da informação, cedo passaram eles a encontrar na imprensa periódica o elemento subjetivo para orientação de seu espírito interpretativo.

Na babel da documentação que o jornal lhe oferece, não se perde o historiador, porque paira num ângulo superior para a análise que seu espírito crítico lhe permite, armado de métodos científicos seguramente estabelecidos e que lhe dão os meios precisos de determinar a causalidade histórica, na depuração dos fatos registrados pela imprensa e na compreensão dos juízos que os comentam.

Para comprovar a tese, basta o exemplo da colaboração do Moniteur na obra de Michelet, de Taine e de todos os historiadores da Revolução Francesa e do período napoleônico. Se, mergulhando nos arquivos municipais e policiais do tempo, Michelet pôde reconstituir a crônica horripilante da era que precedeu à maior transformação operada da humanidade, se Taine buscou nas confissões e memórias da época o sentido da revolução que se ia verificar, foi no Moniteur que ambos encontraram, à luz do dia, o registro dos fatos para nortear-lhes o gênio na compreensão e decifração do acontecimento que deu ao mundo uma fisionomia nova.

O exemplo colhido no cenário francês pode encontrar-se repetido pelo mundo afora, e no Brasil impossível seria fazer-se a história de um século e tanto de vida independente sem o recurso às coleções do Jornal do Commercio. Ainda está, por assim dizer, a explorar esse manancial precioso, porque o período iniciado com o advento da folha centenária, dos mais característicos na contextura variada dos fenômenos que influíram na evolução nacional, riscando as linhas mestras da nossa civilização, sugere estudos parciais e pede competências especializadas. Vários deles, é verdade, já existem e entre vós se contam muitos dos seus doutos autores, oferecendo elemento valioso para uma obra de síntese, igual à sugerida em 1922 por Levi Carneiro, quando num Congresso reunido nesta Capital se cogitou de uma História Geral da América. Aplicado, no campo nacional, esse plano de análise dos vários episódios históricos que influíram na formação do continente, ter-se-ia uma coordenação de fatores essenciais à síntese final, inspirada por um alto pensamento filosófico, dando unidade critica à obra coletiva realizada.

O Brasil encontrou em Varnhagen o cronista exímio para recompor-lhe as origens, estudá-lo na formação da nacionalidade, seguir-lhe a evolução através da colônia, até às portas da Independência.

A década que antecedeu ao Grito do Ipiranga teve em Oliveira Lima, com o D. João VI e o Brasil, o exegeta arguto e minucioso, documentado com exatidão e orientado por alto senso crítico.

O primeiro império foi fiel e superiormente estudado por Tobias Monteiro, compilando e revelando uma valiosa messe de documentos para fixar o sentido do magno período da nossa História, porque nele se forjou a emancipação da Pátria, rumo dos seus altos destinos.

A História do Segundo Reinado aguarda o estudo de conjunto que componha a sua fisionomia política, jurídica, administrativa e social, com o substrato da sua interpretação. Disporá para isso historiador do futuro de farta cópia de documentos, observações, juízos e comentários, em obras que se vão acumulando para a grande construção arquitetônica, com alguns marcos já fincados pelos trabalhos de Oliveira Viana, Taunay, Pedro Calmon e outros mestres da historiografia brasileira. E depois virá a República, ainda muito perto de nós para que dela se possa falar com isenção e serenidade.

E quem tiver de fazê-la, seja o historiador do Segundo Reinado, seja o da República, não poderá prescindir das coleções do Jornal do Commercio, que, desde 1.° de outubro de 1827, passou a ser a crônica diária, documentada e analisada, da vida brasileira.

Essa será, não só a contribuição anedótica do fato, trazida pela imprensa à cronologia de uma época, como também a substância contida nos comentários para a compreensão dos fenômenos políticos e sociais, que dão sentido aos conhecimentos a fim de serem estudados com seguro critério histórico.

Talvez seja, no entanto, cedo para essa obra de conjunto, pois ainda ouvimos o tropel das cavalhadas separatistas no Sul e as sangrentas dissensões do Norte, a ameaçar a unidade nacional que Caxias soube preservar. Ainda nos parecem vivos os próceres da revolução liberal de 1842, porque seus nomes andam por aí em descendência ilustre e vigilante. Ainda estão perpetuados na primeira e na segunda geração os estadistas que fizeram a grandeza de cinqüenta anos da realeza de Pedro II. E o próprio imperador nós o temos por demais presente no pensamento e no coração, como se o víssemos ainda passeando suas barbas brancas pelas ruas de Petrópolis, subindo ao trono em dias de gala, com seu manto de papo de tucano, riscando José de Alencar da lista de senadores, vivendo conosco na contingência humana de contrariar e agradar, de ser louvado ou censurado.

E da República, embora ande tão depressa que em meio século já vai pela terceira ou quarta, seria mais arriscado falar, porque não sabemos ainda quem a fundou, se o soldado perpetuado na tela e no bronze, se o professor consagrado pela primeira Constituição: divergimos em dar a primazia na sua consolidação ao general que, defendendo a ilegitimidade do seu mandato, garantiu o poder constituído, ou ao civil que pacificou o país e restaurou a legalidade.

A História não se destrinça no fervor da ebulição. Pede tempo, meditação, frieza. Exige distância para equilíbrio e harmonia da perspectiva. Requer julgamento imparcial dos homens, compreensão lógica dos fatos, crítica esclarecida, penetrante, racional.

Nas crises cíclicas da humanidade, não se pode escrever a História. Para Berdiaeff são essas as épocas propícias à meditação. Dias de abstração, para recolhimento e depuração dos mitos, para a deflagração da centelha que iluminará o porvir. Momentos eternos para Santo Agostinho, J. de Maistre, Saint-Simon, Augusto Comte, Spengler, Maritain, Keyserling, Valery, Duhamel.

Fazem-se então os livros que serão os roteiros do pensamento para os historiadores. Escrever a História antes que esses livros tenham sido compostos, não esperar pelos gênios divinatórios da cidade, será construir um monumento inconsistente e perecível. Os ocupantes da cadeira de Varnhagen, numa sucessão fiel à Musa que a vem presidindo, foram todos eles historiadores, mas nenhum teve o espírito conturbado por inquietações profundas, nenhum se preocupou com a filosofia da História. Foram todos narradores de acontecimentos e expurgadores das fantasias e inverdades que os deturpavam. Leram todos pela cartilha do escritor inglês, a que Rodolfo Garcia se referiu ao tratar do seu antecessor nesta Casa:

Há um tanto ou quanto de verdadeiro no que disse um escritor inglês, citado pelo Conde de Ficalho, que o tempo da História passou e estamos em tempo de documentos, cuja leitura é mil vezes mais interessante e mais instintiva que a de todas as histórias. Descontado algum exagero dessa afirmação, o certo é que a consulta às fontes conduziria por força o vosso companheiro à apuração de fatos que aparecem deturpados nos autores em quem fiou; uns tantos pormenores teriam de ser avisados em seu debuxo primitivo, um panorama mais exato do passado brasileiro desdobrar-se-ia aos nossos olhos.

A influência do patrono Varnhagen marcaria o sentido da obra de seus sucessores, todos eles presos à idéia do documento como fonte da verdade histórica. Inspirados no conselho de Montaigne, a investigação os conduz ao sistema da prova judiciária, para o processo que sirva à crítica histórica. Escrevendo sobre o passado apenas, a nenhum foi dado o recurso ao testemunho oral, que só serve à História contemporânea. Os depoentes, no processo instituído pelos seguidores de Porto Seguro, falam através de manuscritos, cartas, relatórios, devassas e arquivos.

E por isso discorrem com serenidade, pausadamente, convictos do que dizem. Não se contentou nenhum deles com o que outros asseveraram, para repeti-lo em confiança. Sabiam estar repleta a História de afirmações duvidosas senão falsas, que se transmitem de geração a geração, como verdades assentadas. Por isso, com o fim de corrigir o mal, um escritor francês aconselha um processo rescisório para a revisão de conclusões positivas tiradas de fatos incertos. O historiador que as repete é uma testemunha falsa, cujo depoimento serve de base para sentenças iníquas, erradas ou injustas.

Da increpação de haver feito História fiado em outros não se culpa o pai da nossa História, porque foi ele quem instituiu na metodologia dos seus trabalhos o recurso imprescindível ao documento para a autenticidade da sua narrativa e certeza da verdade procurada.

Foi Oliveira Lima quem trouxe para a Academia a memória de Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, e não teve dificuldade em fazê-lo seu padroeiro, na Cadeira 39, porque a ninguém até então ocorrera a lembrança de tão alta expressão da cultura brasileira. Varnhagen foi aceito sem concorrência e de acordo com o fundador da Cadeira, o que não aconteceu a outros nomes, vencidos na imortalidade patronímica por preferências de amizade ou de inclinações ideológicas ou literárias. Se, graças a Oliveira Lima, Varnhagen, não foi excluído do panteão simbólico, outros astros de tal grandeza foram esquecidos. Com eles se poderiam apadrinhar os que, cheios de títulos e mercês, aqui não logram entrar.

Razões de sobra tinha Oliveira Lima para advogar a escolha de Varnhagen, além da coincidência de inclinação intelectual e das afinidades de carreira, que invocara, pois Varnhagen não estava no caso por ele referido, quando criticava a intrusão no cenáculo dos patronos de certos mortos qu’il faut qu’on tue.

Brasileiro por sentimento e por adoção, em vez de o ser apenas por haver aqui nascido, o Visconde de Porto Seguro foi uma das mais altas expressões da inteligência pátria, orientando a sua cultura num sentido nacional, quando seu espírito se formara em meio estranho e sua vida a viveria quase toda em terras distantes, levado pelas suas funções diplomáticas a peregrinar de terra em terra e a viver em meios diferentes. Mas seu amor ao Brasil haveria de fecundar, estremecer e persistir por força dos estudos históricos, revelados desde os 23 anos, com Reflexões Críticas sobre o Escrito do Século XVI, impresso com o título Notícia do Brasil no tomo terceiro da Coleção de Notícias Ultramarinas. Acompanhadas de interessantes notícias bibliográficas e importantes investigações históricas (Lisboa, 1839). Provando, com convincente documentação, que tal escrito era de autoria de Gabriel Soares de Sousa, impunha-se Varnhagen desde logo como o historiador que Oliveira Lima classificou de pragmático, preocupado com as fontes que colam nos fatos o selo da verdade. Esse pragmatismo o teria levado para fora da preocupação filosófica, que já então dava um sentido científico à História. Não se deteve a interpretar os acontecimentos, para fixar com eles as leis que influem na sociedade humana, embora não houvesse sido um narrador frio, impassível e quiçá imparcial, pois muitas das suas reflexões são opinativas e outras envolvem considerações de ordem sociológica.

Varnhagen tomou partido na História e haveria por isso de desencadear a fúria dos opositores. Foi o primeiro, que, avesso à idéia do acaso, levantou sobre o episódio da descoberta do Brasil a dúvida quanto às intenções de D. Manuel, o Venturoso, insistindo na busca de terras que ficariam no caminho das Índias. Tomou-se de amores por Américo Vespúcio, cuja figura engrandeceu com entusiasmo. Não gostava de José Bonifácio e dos seus irmãos, influxo talvez do seu conhecimento pessoal de Pedro I, de quem se fizera soldado na luta miguelista. Foi amigo de Vidal de Negreiros e antipático a José Fernandes Vieira, ao estudar a luta contra os holandeses no Brasil. Era inimigo declarado dos índios e, embora abolicionista para com os negros, preconizava a servidão dos silvícolas, cuja língua, no entanto, desejava resguardar, com a criação de cadeiras dos idiomas indígenas nas escolas brasileiras e a fundação de uma Seção de Etnografia Indígena no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Incoerência? Não. Realismo na solução de um problema étnico. Idealismo, no anseio talvez de fixar, no recuo do tempo, uma tradição nacional, com a lingüística americana, e de encontrar quem sabe? – na filosofia as razões para a sua tese absurda da origem turana, ou antes, cário-egípcia dos índios americanos, o que levaria Bartolomeu Mitre a julgar sua obra como pouco criteriosa, constituída com um espírito sistemático e sem equilíbrio.

Não diminuem a grandeza da produção de Porto Seguro as restrições que se lhe fazem, nem no ardor das polêmicas que suscitou com o seu espírito destemido jamais foi negado o seu merecimento, o brilho da sua inteligência, a força da sua cultura. Oliveira Lima, ao fazer-lhe o elogio na Academia, “salpica das reservas indispensáveis em todo estudo” a sua admiração pelo patrono da sua cadeira. Seus ilustres biógrafos, José Carlos Rodrigues, Capistrano de Abreu, Pedro Lessa, Max Fleiuss, Celso Vieira, Basílio de Magalhães, Rodolfo Garcia, haviam de encontrar, nos seus trabalhos e no feitio do escritor, motivos de discordância ou de oposição.

Ninguém, no entanto, nem os que contra ele em vida se levantaram, como os brasileiros Abreu Lima e João Francisco Lisboa, o português Teófilo Braga, o inglês Henry Major, ou o francês d’Avezac, ninguém deixou de reconhecer a altura em que Varnhagen se situa na cultura brasileira, e de criador da História pátria, de pai da História do Brasil, de seu fundador, talvez só Sílvio Homero tenha discordado, quando lhe dá o segundo lugar entre os nossos historiadores.

Mesmo Afrânio Peixoto, enamorado da memória de Southey, ao castigar Varnhagen por haver criticado o poeta-historiador, não deixa de enaltecer o seu valor na nossa historiografia.

Na evolução do nume tutelar da Cadeira que venho aqui ocupar, relembro apenas a sua posição sideral na constelação dos valores consagrados pela Academia para honrar-lhe o apadrinhamento. Francisco Adolpho de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, não tirou a sua grandeza do título com que D. Pedro II lhe recompensou os serviços à Pátria e consagrou o seu talento de escritor. Ele a teve e terá eternamente porque construiu, com o seu gênio, uma obra perene de patriotismo, de erudição, de pensamento.

A síntese da administração geral que no Brasil lhe é sem favor consagrada está contida no elogio que lhe fez nesta casa a palavra de Oliveira Lima, reconhecendo-o “conspícuo para a posteridade e relembrando sua Pátria, da qual foi o historiador até hoje sem rival”.

Ao incorporar-se aos fundadores da Academia, Oliveira Lima, que invocava o patrocínio de Varnhagen, certamente não foi lembrado apenas por haver norteado a sua vocação literária para os assuntos históricos. Quando aqui o recebeu, com o seu estilo sóbrio e puro, Salvador de Mendonça viu nele a marca do escritor que se batizara historiador com os Aspectos da Literatura Colonial, frisando que em O Secretário d’EI-Rei estava a sua obra mais literária, com o perfil magnífico de Alexandre de Gusmão, cuja visão de estadista, como demonstrou José Carlos de Macedo Soares, fez passar o uti possidets para a órbita do Direito Público, facilitando ao Brasil a solução futura de todas as suas questões de fronteira.

Mas a Academia nascera para as Letras apenas. O critério exponencial, que Nabuco defendera desde a primeira hora, ainda não se havia consagrado. E a palavra de Renan, ao empossar-se na Academia Francesa, em 1879 – tout devient littérature, quand on le fait avec talent – não chegara até à sala escura da Revista Brasileira, onde se gerava esta preclara instituição.

Oliveira Lima podia ter sido dos vossos, como foi, desde a primeira hora, porque em 1894, com os dois livros que publicara, se afirmara escritor de bom estilo, o que era então imprescindível. A sua compreensão, pessoal não destoava da interpretação acadêmica: “O historiador moderno”, disse ele, “carece de ser, além de um erudito, um artista; de descobrir ele próprio as fontes, analisar-lhes o valor, saber aproveitar o manancial que delas brota quando ainda livre de impurezas e arrecadá-lo em vasos do mais puro cristal por ele mesmo facetado.”

Não parece fácil escrever-se boa história com bom estilo. Pela prisão à narrativa, em que os fatos não permitem divagação e muitas das palavras, por menos sonantes ou mais rebarbativas, nela se intrometem com insistência, está o escritor obrigado a usar um material que não escolheu e a construir sem liberdade de concepção. Poucos são os Michelet, cuja pena mágica fez da História um instrumento dúctil para a pureza do seu estilo. Poucos são os Alexandre Herculano, iluminando a História de Portugal com os raios de luz de sua prosa admirável. Poucos são os Macaulay, “a inteligência que se fez ritmo, a complexidade que se fez harmonia”, como tão bem o julgou Celso Vieira. Poucos são como João Francisco Lisboa, que trouxe para os episódios da História do Brasil, no dizer de Sílvio Romero, “a beleza do estilo, claro, conciso, correto, vibrante, por vezes”.

Se raros são os que narram e interpretam a História primando no estilo, alguns, para fazê-la, incorrem na censura de Seignobos, discordante do processo de desprezar a mediocridade da forma, com a preocupação de elevar a dignidade da História, embora dissimulando ou mesmo deformando a realidade do passado.

A invectiva do historiador francês ia sobretudo aos escritores da primeira metade do século XIX, porque reconhece que depois já o respeito ao documento, uma crítica mais prudente e um espírito mais científico influíram para uma idéia mais exata do passado.

Oliveira Lima provou que a História pode escrever-se com elegância e que no narrá-la e compreendê-la é essencial a busca à fonte legítima para a fidelidade na recomposição dos acontecimentos. Sem documento, sem testemunho, sem prova, toda narrativa é suspeita; toda interpretação, arbitrária.

A história feita por Oliveira Lima é positiva nos dados que a compõem. Em seu D. João VI no Brasil, que não há exagero em classificar de excepcional, a preocupação da minúcia domina o espírito do escritor, montado sempre no documento que o ponha a salvo da dúvida e o mantenha senhor da verdade. Assim, com esse grande livro se desenha, se constrói, se aviva todo um período, dos mais assinalados da nossa evolução política.

A obra copiosa de Oliveira Lima assenta na pesquisa, e a paixão da investigação histórica, que ele considerava o traço dominante de Varnhagen, também foi a sua obsessão de escritor, o seu pragmatismo de historiador. Como Varnhagen, tentou um dia igualmente romancear a História, num pecadilho da mocidade, não, certo, porque achasse, como o autor da Chronica da Descoberta do Brasil “que a forma de romance era o melhor meio de adaptar ao gosto de todos a História do país”. Mas não faz romance histórico quem quer e não se exime da culpa consciente de fazê-lo mal quem o tenta já distante da juventude, para o atentado impensado às boas Letras, que Pedro Lessa não quis perdoar a Porto Seguro.

Não vale a pena, por certo, adornar a História. Em todos os seus episódios há beleza, há poesia, há sonho, para a fascinação do espírito e deslumbramento do senso estético. Da tentativa de evadir-se da narrativa para a cena teatral, trazendo à ribalta com O Secretário d’El-Rei o vulto histórico de Alexandre de Gusmão, patriarca dos diplomatas do Brasil, Oliveira Lima logo se curou e se de algum modo voltou à fantasia foi deliberadamente para as alfinetadas e os lançaços que distribuiria, sem ceremônia nem subtilezas, nas páginas azedas, mais por vezes divertidas, das suas memórias (Estas Minhas Reminiscências...).

Aí, sim, aparece um Oliveira Lima com estilo diferente, fluido, fácil, ferino. Estilo de corredeira vertiginosa, para que pudesse envolver no turbilhão da maledicência o maior número possível. É um livro atraente para os que se deliciam em ouvir falar mal dos outros. É o romance de uma vida feliz, que o dono fez amarga. É uma sucessão de episódios vividos nos quatro cantos da terra, em que deve ter entrado o propósito de uma tomada de contas com todos aqueles que acotovelaram o autor, deixando-lhe ressentimentos e má vontade. Nele, Oliveira Lima mostra-se um satírico, um Juvenal da nova têmpera, de imaginação fértil, mordaz e cruel, a inventar episódios grotescos para certas personagens, mesmo de sua simpatia: um ministro brasileiro, que, apesar do corpanzil, ao desvendar do trem um pedaço encantado da paisagem suíça, pulava como uma criança... Um outro, em Washington, fazendo de bicicleta as visitas de cortesia diplomática...

Pura fantasia de um espírito que nunca levantara os olhos para divagar, mas se mostrou capaz, no fim da vida, de fazê-lo, no menos nobre dos gêneros literários.

Com Alberto de Faria, que elegestes sucessor de Oliveira Lima, ficou mantida a linha de continuidade na Cadeira de Varnhagen, preservada com os dois outros historiadores vindos depois.

O autor de Mauá tem a sua personalidade de escritor assinalada por uma obra de gênero diferente, porque contando a vida de um dos maiores brasileiros nascidos nesta terra fixou um aspecto raro do panorama social e político do Brasil. A biografia do grande pioneiro do progresso pátrio não é apenas o retrato de um homem e a análise de uma vontade construtora, não acompanha somente do berço ao túmulo a trajetória de uma vida, que o gênio realizador fez grande e a adversidade sublimou na revelação de um caráter à Carlyle. Situa o homem no meio, para o estudo de uma época, que foi das maiores na vida brasileira, e fez com que, ao lado de vultos de tanto porte se erga a figura homérica do admirável criador.

Tirou, assim, Alberto de Faria, com um livro de entusiasmo, mas sobretudo de justiça, a memória de Mauá do olvido em que desaparecia, para projetá-la na consagração da posteridade e engrandecê-la na gratidão que a Pátria hoje não lhe regateia. Resumindo a obra do gênio construtor de Mauá, escreve:

O Amazonas, ele a criara rompendo o deserto das águas, rasgando mares de florestas à civilização, com uma linha de navegação de 3.200 milhas que assombrou, em 1865, o sábio Agassiz e sua mulher, pela ordem, pela disciplina, pelo asseio dos vapores, fazendo-lhe lembrar o conforto do seu Museu de Cambridge; o Rio Grande do Sul, gloriosa terra do seu nascimento, ele o franqueara também à navegação transatlântica, incentivando o comércio direto com a Europa, vazando-lhe a barra, cortando-lhe as areias em 1847 com os seus fortes rebocadores; no centro do país, as primeiras linhas de caminho de ferro, as primeiras cinco estradas de trilhos, para o lado do Norte, as duas que das capitais de Pernambuco e da Bahia buscaram o São Francisco, para o lado do Sul as três que transpuseram a Serra do Mar, umas como a de Petrópolis e a de Santos a Jundiaí, obras exclusivamente suas, a outra obra tão sua como dos que por ela mais fizeram – a E. F. D. Pedro II. Por toda a parte, os melhoramentos materiais, o progresso, o gás do Rio de Janeiro e de outras cidades, o Canal do Mangue, os curtumes modernos, as fábricas de tecidos, a fundição e a construção naval em Niterói; os engenhos aperfeiçoados de açúcar, as indústrias que podiam medrar sem grandes auxílios, os transportes urbanos e marítimos, a colonização estrangeira, a nossa civilização industrial, enfim.

Com o livro de Alberto de Faria, o culto por Mauá domina o espírito do leitor e os fatos, narrados com simplicidade e comprovados por documentos, afastam a idéia de que o autor pudesse ter sido contaminado pela doença da admiração, contra a qual Macaulay alerta os historiadores a lues boswilliana, que o biógrafo emérito de Mauá mostra não haver influído na sua obra de justiça e reparação.

Com seu grande estudo, podia Alberto de Faria bater à vossa porta, bem-vindo no seio da ilustre Companhia, mas outros títulos lhe sobrariam para ser, aqui, uma flor do espírito a desabrochar em cultura, em fidalguia, em graça, numa vida bem vivida, rica de ensinamentos e cavalheirismo, ardendo sempre nos anseios estuantes do patriotismo.

A sucessão de Alberto de Faria trouxe à Academia um valor bem diferente, senão na grandeza moral e intelectual, que se lhe equiparava, mas no destino caprichoso, obstinado em não permitir o vôo às alturas merecidas pela sua inteligência, pelo sonho estético de sua vida, pela tenacidade honesta do seu labor. José Francisco da Rocha Pombo vagou pelas Letras, chocando-se com o meio e consigo próprio, modesto e simples, no esforço quotidiano de construir a sua vida em luta com a adversidade. Fez literatura de ficção, escrevendo romances, libertou sua alma sonhadora em versos de inspiração romântica, expôs idéias em colunas de jornal e ensaios sobre problemas brasileiros, difundiu cultura com seu Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa, e afinal ancorou no vasto estuário da História pátria, cheio de revelações para os pesquisadores pacientes, e aí construiu a sua obra capital, escrevendo os dez tomos maciços que constituem precioso repositório de dados e informações. Foram doze anos de fecundo esforço concatenador, compensado com a publicação dessa obra que, no gênero, como declarou Rodolfo Garcia, é “a mais vasta, a mais considerável da nossa Literatura, pela superfície imensa que cobriu, das origens do Brasil aos dias presentes”.

Fez Rocha Pombo deliberadamente um itinerário para sua narrativa dos acontecimentos relativos à vida nacional. Adotando o conceito de Buckle sobre a História, o escritor paranaense não se propôs, no entanto, a fixar no seu trabalho o sentido da civilização brasileira, mas a “consubstanciar elementos para o historiador futuro e portanto fazer apenas um pouco mais do que a simples crônica”, condensando tudo aquilo que tivesse de ser o estofo histórico da obra de amanhã.

Ao afirmar que o presente se explica pelo passado, como o futuro se explicará pelo presente, Rocha Pombo antecipava-se a Paul Valéry, que escreveu depois: Le passé, plus ou moins fantastique, ou plus ou moins organizé après coup, agit sur le futur avec une puissance comparable à celle du présent même. Em verdade, o futuro não facilitaria um esboço imaginativo se não pudesse ser perscrutado pela ação de fatores ligados a um determinismo histórico.

Não foi, porém, com essa preocupação, mas sim apenas com a de concatenar os fatos, de ordená-los, sistematizá-los, depurá-los, que Rocha Pombo escreveu conscientemente a sua opulenta História do Brasil.

A Rodolfo Garcia, sucessor de Rocha Pombo, caberia retomar na Academia a tradição de Porto Seguro e Oliveira Lima, herdeiro legítimo de Capistrano, que não quis ser dos vossos, certamente para não ter de sacudir a poeira dos alfarrábios e vir, como mariposa tonta, queimar-se nas luzes ofuscantes de uma noite como esta.

Rodolfo Augusto de Amorim Garcia nasceu no Ceará-Mirim, na então Província do Rio Grande do Norte, a 25 de maio de 1873. Da cidade natal saiu com destino à carreira militar, da qual logo desistiria, para estudar Direito e ser bacharel como toda a gente. Nunca, no entanto, exerceria a profissão liberal para a qual se diplomara, preferindo ser professor, jornalista, funcionário público. Na vida administrativa, atraía-o o livro. Desejou em 1914 o cargo de bibliotecário do Museu Nacional e escreveu para isso uma tese sobre “Sistemas de classificação bibliográfica. Da classificação decimal e suas vantagens”. Não conseguiu o posto e teve, no Rio, que votar ao professorado, exercido antes no Recife, onde lecionou História, Geografia, Francês e Português. As lições, o emprego que tinha no Instituto Arqueológico, Geográfico e Histórico de Pernambuco, as pesquisas de brasileirismos para o dicionário que preparava, o encontro com o passado o levaram a fixar-se na pesquisa histórica, a fazer-se o profundo conhecedor das nossas origens e da nossa evolução, para poder, afinal, realizar, com a modéstia do seu desprendimento, a grande obra legada às Letras pátrias.

Em 8 de dezembro de 1930 assumia a direção do Museu Histórico Nacional, de onde passaria para a Biblioteca Nacional, em 17 de novembro de 1912. Aí, culminou, em obra administrativa de inegável merecimento, o valor do sábio, do bibliófilo, do rebuscador de fatos, do reanimador de épocas, conhecedor e amigo daquele milhão de volumes que demoram nas estantes da grande casa dos estudiosos.

Da sua gestão na Biblioteca Nacional falou publicamente, com eloqüência e justiça, o ilustre escritor Senhor Josué Montello, que recebeu a sucessão honrosa e a dignifica com o pensamento sempre voltado para a obra de cultura que Rodolfo Garcia ali realizou.

Na Biblioteca, o diretor era então o centro para que convergiam os curiosos do saber, confrades e discípulos, todas as tardes reunidos no seu gabinete, a fim de ouvi-lo, conversando e aprendendo. Esse cenáculo ficou batizado de “Academia Garciana”. Nela, como em todas as Academias, houve permanentes e esporádicos, palradores e silenciosos, agitadores e contemplativos; os que ali iam diariamente e outros, roubados de seus afazeres, buscando de vez em vez, num momento de convívio cultural, o prazer de ouvir a lição sorridente e despretensiosa de Garcia.

A “Academia Garciana” não pedia discurso de posse, nem fardão de gala. Era simples, como o patrono, acolhedora e amável, e a ela seriam sempre bem-vindos os que levassem consigo uma côdea de espírito para a tertúlia de uma hora de inteligência, entre livros, idéias e recordações.

Uma figura sobressaía – pequeno de estatura, fulgurante de saber e inteligência: a de Afrânio Peixoto. Conversador admirável, o autor de Fruta do Mato todas as tardes ali comparecia e sua palavra fluía, cintilante, erudita, harmoniosa, a lembrar aquele canto do Uirapuru, a que aludiu Humberto de Campos em belíssimo soneto:

Dizem que o Uirapuru, quando desata
A voz – Orfeu do seringal tranqüilo –
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Tímido e silencioso, às voltas com os livros antigos e os papéis que o tempo amarelecera, Rodolfo Garcia, no seu recolhimento, dir-se-ia um contraste vivo de Afrânio Peixoto. No entanto, os dois mestres se completavam, irmanados por uma paixão comum: o passado brasileiro. E foi Afrânio, pelo reconhecimento pessoal dos altos méritos do discípulo de Capistrano, quem se animou a vencer a sua timidez, incitando-o a vir bater, para ser fidalgamente recebido, às portas desta Casa. E ainda foi o ensaísta de “Ramos de Louro” quem escreveu, no Jornal do Commercio, a “Vária” merecida com que a veneranda tribuna da opinião brasileira se associou ao coro de vozes que lá fora clamavam pela acolhida de Rodolfo Garcia na imortalidade acadêmica.

Na senda dos três desbravadores, Porto Seguro, Oliveira Lima e Capistrano, Rodolfo Garcia fez também a história erudita, em que os fatos, sabiamente pesquisados, superam a filosofia neles contida. Não se preocupou com o sentido dos acontecimentos, mas apenas com a sua realidade, para, situando-os na verdade oriunda do documento, colocar a narrativa a coberto de qualquer controvérsia e fornecer ao exegeta o manancial para a interpretação. Haurida no exemplo de Varnhagen, sua obra o situa na seqüência de Oliveira Lima e Rocha Pombo, para formar na coerência de vocações da Cadeira 39.

Trouxe Garcia para a História a preocupação do fato, que talvez lhe ficara do jornal, da mesa de redação dos diários pernambucanos, onde, para auferir alguns proventos mais, enchia o tempo que lhe sobrava do curso da Faculdade de Direito do Recife e das aulas do magistério particular, na luta para realizar a vida que tanto dignificou.

Não deixaria o jornal, como quase sempre acontece, de marcar-lhe a personalidade, com a influência que não só no escritor, mas em outros aspectos de suas características psicológicas, havia de aparecer, para a explicação do seu caráter e da sua formação intelectual.

Vós, que o conhecestes tão bem, no comércio constante com o seu espírito admirável, haveis notado, na sua timidez e na sua discrição, a veia irônica que lhe pontilhava a conversa e não raro o fundo sarcástico das suas observações. Ressurgia então o crítico que fora com o pseudônimo de Sargento da Guarda, nas colunas do Diário de Pernambuco, um comentador de livros e um julgador de méritos literários. Poderia Rodolfo Garcia, com dotes assinalados para a tarefa ingrata, ter sido um dos expoentes da crítica no Brasil, tão carente de vocações nesse difícil setor da cultura. Não se deteve, porém, nessa experiência, como não se demoraria no mister jornalístico, do qual as circunstâncias teriam de excluí-lo com amargas decepções. Foi um egresso da imprensa, como egresso fora da vida militar, por efeito da Política, sem que, no entanto, nunca se deixasse seduzir pelas suas enganadoras tentações.

Vira-se, na mocidade, envolvido em uma das muitas agitações que na República desviavam os cadetes militares para longe dos deveres da disciplina. Desligado da Escola da Praia Vermelha, para onde viera transferido da Escola Militar do Ceará, poderia haver a ela voltado no refluxo de uma das muitas anistias que permitiriam aos indisciplinados de um momento vibrante de mocidade ser depois ótimos chefes militares. Mas Rodolfo Garcia não quis persistir na carreira que tentara sem vocação.

Da imprensa, sairia também por injunções políticas, embora sem responsabilidade direta nos acontecimentos da época, quando, sacudido pelas salvações de uma era tumultuária, o País assistiria, mais uma vez, à troca de homens num simples ôte toi de là, que je m’y mette, sem variações de tema e sem mutações de ideal.

Foi então a retirada para a metrópole, a abençoada evasão que lhe abriria mais tarde os horizontes à verdadeira sedução da sua inteligência.

Mas foi, antes disso, a luta inglória em busca da subsistência diária para si e para os seus, o mesmo Calvário em que tantos se extenuam, se arrastam e se perdem. Dessa página dolorosa dos intelectuais que fracassam, incompreendidos no meio indiferente ou hostil, ainda não se escreveu aqui o drama pungente. Que mundo de sentimentos está ao alcance de um romancista de gênio no amargor de tantos sonhos desfeitos, de tanta quimera, de tantas lágrimas!

Como deve a saudade, nas horas sombrias do desânimo, volver para a doçura da província abandonada o pensamento arrependido de quem, querendo ser profeta em terra alheia, não logrou ser ouvido, nem notado!

Garcia, ele próprio, registrou esse momento triste da sua vida, no discurso de posse nesta Academia, referindo-se a Rocha Pombo: “Não vos direi, senhores, de sua tragédia, que foi também a minha e de tantos outros brasileiros, que, tangidos pela necessidade de ganhar a vida, são forçados a abandonar os Estados para este grande centro que é o Rio de Janeiro.”

Todos aqui chegam inebriados de esperança e para a maioria o que resta afinal é a città dolente dos desenganos e das ilusões perdidas.

Rodolfo Garcia venceu a cidade e dominou o meio. Mas o que lhe custou de resignação, de angústia, de sacrifício para libertar-se do anonimato e ascender à glória compensadora da vossa Companhia!

Vemo-lo na humildade de funções menores, a encher boletins na secretaria da Faculdade de Direito, a catalogar livros na Biblioteca do Instituto dos Advogados, a servir pacientemente aos que buscavam informes nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Foi aí, em meio de latas abertas e de documentos esparsos, que, pela mão de Vieira Fazenda, ele conheceu Capistrano de Abreu, cuja amizade o acompanharia até à madrugada aziaga de 13 de agosto de 1927, quando, morreu o grande pesquisador da nossa História.

Dois temperamentos, dois caracteres, duas almas diferentes. Mas duas culturas que se encontraram, duas compreensões unidas para o mesmo objetivo, duas abnegações feitas uma só. O signo – a História, o anseio – a verdade, o amor – o Brasil.

Tinham ambos o mesmo culto por Varnhagen, que João Francisco Lisboa considerou o “pai da nossa História”. Diferente, porém, seria entre eles o amor votado ao patrono augusto da cadeira criada por Oliveira Lima, porque emanava tal sentimento de dois feitios mui diversos.

O entusiasmo de Garcia ele o confessou desta tribuna, ao referir-se à História Geral do Brasil: “Li-a, e a impressão resultante foi que era diferente das outras histórias; mais fatos, mais pormenores, mais crítica, mais lúcida interpretação, mais Ciência, mais História, em suma.”

A Oliveira Lima, que nesta casa o antecedeu na admiração a Varnhagen, não haviam de faltar pequenas restrições à personalidade do grande historiador, muito embora a superá-las sobrassem os louvores de quem nunca se mostrou pródigo em elogiar.

Mesmo, porém, para os que respigaram aqui ou ali, outro não poderia ser o julgamento de uma obra que marca um dos cimos da nossa Cultura e se amplia para além das fronteiras pátrias pelos temas que abordou com tão larga capacidade de polígrafo e tanta opulência de teses e idéias.

De Garcia, a admiração pelo Visconde de Porto Seguro era sem restrições. Mesmo o estilo do fecundo historiador, do qual todos os seus biógrafos e comenta dores falaram mal, a Garcia não provocou reparos e ele o conta neste trecho suavemente irônico:

Nesse tempo, na província, como no Brasil em geral, fazia-se questão absoluta, para que um escrito, um livro pudesse ser lido, que tivesse estilo, e por estilo entendia-se a superlativação à maneira de Eça de Queirós, em que o substantivo tinha que vir sempre escorado por dois adjetivos e às vezes mais, o adjetivo por um ou dois advérbios em “mente”, o que, na opinião abalizada dos estilistas, servia para dar ou aumentar a intensidade, o colorido, o pitoresco da frase; havia ainda o emprego compulsório das comparações, destinadas a animar o escrito de imagens evocativas: período sem uma comparação, ao menos, estava demitido de período. A arte de escrever era então complicada e difícil. Mas, apesar de também participar eu da influência derramada pela Correspondência de Fradique Mendes e pela Cidade e as Serras, li, como vos disse, e reli por meu prazer, o grande livro de Varnhagen, que os meus companheiros do cenáculo da Livraria Silveira, no Recife, em princípios do século corrente, incluíram em seu Index librorum prohibitorum, por pesadão, maçudo, sem estilo... Vem daí o entusiasmo, a admiração, de que vos falei, pela obra do historiador do Brasil, acrescida sempre, no curso dos tempos, à medida que melhor a conhecia através de sua avultada bibliografia.

Nesse dia em que se encontrou com Varnhagem nas páginas da História Geral do Brasil, Rodolfo Garcia marcou a rota que o levaria, nas pegadas do mestre, a ser, com Oliveira Lima, com Capistrano, com Rocha Pombo, aquele que o igualaria na faina de pesquisar, no empenho de investigar, na paixão de descobrir, para decifrar as incógnitas da nossa História e fornecer, aos que queiram um dia desvendar o seu sentido filosófico, o manancial imprescindível das fontes autênticas.

Rodolfo Garcia não se revelou muito cedo na vocação que o notabilizaria. Andou por Ceca e Meca, nos campos da inteligência, até chegar à História. Atraíra-o antes o estudo da filologia, que o levaria para a coleção dos brasileirismos peculiares a Pernambuco, com a qual compunha o dicionário publicado em 1915.

Formou na coorte insigne de Pereira Coruja, José Veríssimo, Macedo Soares, Beaurepaire Rohan, Chermont de Miranda, João Ribeiro, Roquette-Pinto e outros estudiosos atraídos pela lexicologia indígena.

Seu Dicionário de Brasileirismos apresenta erudita introdução que bem explica a obra e sua orientação científica. Os verbetes colhidos, quanto à sua procedência, são distribuídos nos seguintes grupos: termos luso-brasileiros, termos pan-americanos, termos pambrasileiros e termos locais ou regionais. Os primeiros compreendem aquelas vozes que derivam do antigo português, caídas em desuso na velha metrópole, persistindo, porém, na linguagem brasileira. Para Rodolfo Garcia, o Brasil foi mais conservador do que Portugal. E para isto apontou, como causa principal, o afrancesamento da língua portuguesa em Portugal devido às invasões francesas, enquanto que o Brasil, com os seus portos fechados ao comércio, até 1808, se conservou quase imune a outras influências que não fossem as da Mãe Pátria. Os termos pan-americanos, diz Garcia, abrangem aqueles que se usam em mais de um país da América do Sul e Central. As várias línguas americanas, como o mexicano, o caraíba, o quíchua, o araucano, o tupi e guarani, lhe dão origem. Os pambrasileiros “são os que se usam em todos ou quase todos os Estados do Brasil. Devem sua formação precipuamente à superfetação do português à influência do tupi-guarani e das línguas africanas, em sua maioria filiadas ao grupo bantu”.

Todos esses fatos constituem, para Rodolfo Garcia, as causas externas modificadoras do português falado no Brasil. Mas as causas que determinaram maior ou menor eficiência dos fatores modificativos são as de origem mesológica, como a continuidade territorial, a facilidade das comunicações terrestres, marítimas ou fluviais, a homogeneidade ou heterogeneidade de culturas ou indústrias, a dosagem, enfim, dos elementos étnicos da população das diversas unidades da Federação.

Propõe, então, a distribuição geográfica de cinco, zonas de localismos. Na primeira – Amazonas, Pará e Maranhão –, ao lado da uniformidade do meio domina o índio, a ocupação na indústria extrativa do homem e o modo de vida por assim dizer anfíbio. Na segunda –, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas –, predomina o negro sobre o índio na mestiçagem e há a uniformidade dos misteres dos seus habitantes. A terceira – Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro –, foi a que mais sentiu o influxo da metrópole, exterminou os índios e sofreu a onda avassaladora do negro. A quarta – São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul –, oferece frisantes contrastes nas suas condições mesológicas com as precedentes, havendo falta quase absoluta do africano e grande variedade de culturas e métodos de praticá-la. Na quinta – Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso –, tudo difere: região de altas montanhas, profundos vales e campos sem-fim, é a que tem vivido mais segregada por secular espaço da comunhão brasileira.

É um excelente esboço que revela a influência da explicação geográfica, tão em voga na época de sua formação mental e mostra, ainda, a decisiva autoridade de Varnhagen, o primeiro a frisar a necessidade do estudo das línguas indígenas.

A sedução lingüística atrairia o paciente pesquisador ao fascínio da selva, onde poria sua erudição a serviço do indianismo, para as revelações dos nomes de aves em língua tupi, divulgadas no Boletim do Museu Nacional, para os glossários que depois publicaria e para as explicações aditadas a tantas obras mais tarde reproduzidas e comentadas.

Ficou, com esses estudos, senhor da língua tupi, muito embora classificasse, em carta a Alcântara Machado, de problemáticos os seus conhecimentos daquele idioma.

Alcântara Machado, incumbido pela Academia de anotar as Cartas Jesuíticas, houvera recorrido a Garcia, para decifração de vários vocábulos indígenas. E Garcia retrucou com a historieta, que ouvira do sábio Artur Neiva. Vale a pena recordá-la, tirando-a das cartas inéditas do historiador, pelo delicioso sabor da anedota e pela graça do estilo:

Em uma das viagens do imperador a São Paulo, ao chegar a Campinas, mostrou vivo desejo de conhecer certo cidadão, que pertencia ao partido contrário do que estava no poder, liberal ou conservador, não vem ao caso apurar agora. Infelizmente tal cidadão não se achava em Campinas na ocasião, mas em outra cidade, digamos Moji-Mirim, por onde o imperador tinha de passar. Chegado ali, mostrou D. Pedro II o mesmo interesse em vê-lo, e como não estava na estação pediu que o fossem buscar onde quer que se encontrasse. Esse interesse, é claro, intrigava solenemente a comitiva imperial, principalmente aos paulistas, que dela faziam parte, e ainda mais porque deles era adversário político aquele assim visado pela curiosidade do imperador. Como não lhes competia senão satisfazê-lo, foram eles à procura do homem e um entre eles, menos incompatibilizado, lhe deu contas da incumbência.

– Não me faltava acontecer mais nada do que Sua Majestade querer ver-me! – teria sido o seu comentário.

Afinal, enfarpelado na melhor roupa que possuía, foi o homem levado à presença imperial. Ao avistá-lo, ao longe, foi o imperador saudando-o:

– Ereiupe, caraíba!

O pobre homem, atarantado, dobrando-se em reverências, não sabia o que responder, ao passo que o imperador, julgando-o talvez surdo, ia repetindo a saudação cada vez em voz mais alta. Afinal o homem pôde falar para significar a S. M. que não entendia nada do que estava ouvindo.

– Como, então, o senhor não fala tupi? Foi o que me disseram...
– Não Majestade, nunca falei tupi... É mais uma calúnia da oposição!

Garcia aplicava o conto à sua situação, mas a sua modéstia é logo desmentida, porque todas as dúvidas de Alcântara Machado ele as devolve resolvidas.

Pela História, propriamente, só mais tarde Garcia se deixaria absorver, para nunca mais desertar. Como Nabuco, preferiu ligar-se ao passado que ameaça ruína do que ao futuro que ainda não tem forma. Vivendo num momento de transição histórica, não se debateu o seu espírito com a inquietação que a tantos atormenta.

Fugiu, por isso, à desorientação em que se perdem hoje os que buscam o sentido do mundo em transformação. A convivência com as coisas pretéritas dispensou-o de procurar saber se a crise que sacode a sociedade é econômica, ideológica ou política. Não podia deixar de vê-la como uma crise de civilização e, humanista dos mais puros e profundos, havia de recear pelo fim do humanismo, melancolicamente afirmado por Berdiaeff, para preferir por certo a explicação de Duhamel, de uma evolução com um conjunto de noções novas ainda sem aplicação.

Seus estudos foram, de começo, orientados por trabalhos alheios, aparecendo nas páginas da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e nas publicações do Instituto Arqueológico, Geográfico e Histórico de Pernambuco. O hábito e o gosto lhe ficaram de anotar, de achegar, de aditar e suprir, de acrescentar ou corrigir, de descobrir e revelar.

Nisso, ninguém superou a Garcia e só a Capistrano se compara. Das suas nótulas, remissões, adendos, surgem, vivificados por seiva nova, documentos que o tempo havia petrificado ou anquilosado. Sem a colaboração de Garcia, seriam reminiscências sem expressão, telas sem colorido, vidas sem alma.

Seu poder de aclarar, de restaurar o tempo, de situar o episódio era tão forte, tão pessoal, que Afrânio. Peixoto, zangado com Varnhagen por causa de Southey, só admite a prioridade da História Geral do Brasil entre as suas congêneres porque nela houve o dedo de Capistrano e de Garcia, sobretudo de Garcia:

Entretanto, se Varnhagen é o segundo grande historiador do Brasil, a sua História Geral, 3.a edição integral, é bem a primeira grande história do Brasil, porque Capistrano de Abreu e, principalmente, Rodolfo Garcia assim a fizeram, apontando-lhe os galhos mortos da árvore, podando-os com as notas embaixo das páginas e ao cabo dos capítulos, com o que, na verdade, essa História já não é mais de Varnhagen apenas, senão, correta e aumentada, de Varnhagen, Capistrano e Garcia. Principalmente de Garcia. Não o digo senão porque o posso provar. E não o digo para afrontar o Porto Seguro, que teve razões documentais para o amor e a intenção de Capistrano de Abreu, amor e intenção reafirmados por seu discípulo Rodolfo Garcia, que o realizou.

Para Southey, ambicionava Afrânio a mesma sorte de Varnhagen: que Rodolfo Garcia revivesse a sua História do Brasil, anotando-a, completando-a, atualizando-a, com documentação adequada. O apelo público de Afrânio calou no ânimo de Garcia, mas não permitiu a morte a conclusão do trabalho começado e por isso Southey terá, na historiografia brasileira, o destino de haver sido ultrapassado por Varnhagen, porque nem Capistrano nem Garcia o reeditaram, renovado, para a posteridade.

Mas muitos outros tiveram a dita que faltou ao historiador inglês. Velhos manuscritos, relatórios esquecidos, devassas e processos, almanaques bolorentos, diários inéditos, cartas e narrativas surgiram das trevas de baús empoeirados para a luz dos Anais da Biblioteca Nacional pela escolha atilada de Garcia, que lhes deu a vida do seu espírito, ressuscitando pessoas e fatos, para que existam sempre nas páginas eternas da História do Brasil.

Em muitos desses trabalhos, que ainda hão de formar um volume só na bibliografia de Garcia, prima o cronista sobre o erudito. Se, na sua maioria, aparece o saber do anotador para a revelação do texto, em vários o que encanta é a finura do comentador, a volitar risonho sobre episódios da época, num estilo de água corrente, puro, límpido, cantante.

Monges e doutores, nobres e escravos, funcionários e mercadores, toda a miscelânea de uma sociedade que se formava nos idos da colônia, surgem animados nos palácios e residências, nas igrejas e praças, nos conventos e vielas do Rio de Janeiro, do Recife, da Bahia, em reconstituição que só a força criadora do espírito de Garcia, servida por seus conhecimentos do passado, lograria fazer tão viva e tão perfeita.

Rodolfo Garcia revela-se aí o mesmo mestre erudito da sua obra fragmentada de anotador, mas o escritor ressalta todos comentários despretensiosamente feitos. Não é o didata a preocupar-se com o que ele sabe e os outros ignoram. É o guia cortês que leva pela mão, através dos escaninhos da História, os visitantes de um momento de curiosidade. Sua palavra não é de controvérsia ou polêmica. Repugna-lhe a palmatória, porque não corrige para castigar, mas para acertar, retificar, restabelecer a verdade. Sua interferência é sempre tolerante e generosa. Ao mostrar a fantasia e o erro de apreciações de um naturalista inglês que andou pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais de 1833 a 1835, depois de identificar o autor desconhecido, Sir Charles James Fox Bunbury, não o censura por ter escrito coisas narradas, mas adverte o leitor para que não se engane com as impressões do hóspede ilustre. E o justifica com brandura:

As impressões de viajantes estrangeiros sobre países que visitam e que criticam, às vezes com acrimônia, são mesmo assim interessantes: se lhes assiste razão, não há como contrariá-las; mas se dela carecem, ou se a posteridade se incumbiu de destruí-las, é sempre motivo de satisfação para quem sofreu a injustiça o verificar que o mal apontado ou o erro assinalada, ou não existia, ou teve com o passar dos tempos a correção necessária.

E é sempre assim quando emenda os outros. Fá-lo como se estivesse a pedir desculpas. Não quis tomar partido na controvérsia sobre o acaso ou o propositado intento na descoberta do Brasil, por considerar o problema sem solução. De passagem, como quem não quer, retifica a Varnhagen, sempre que o encontra em falta e conserta o erro, humildemente, sem jactância ou orgulho, que nunca lhe turbaram a naturalidade do saber.

A ironia que pontilha às vezes na obra de Garcia, a ligeira mordacidade que havia nas suas expansões, própria do seu feitio, foram talvez apuradas na convivência com um dos talentos mais ferinos que o Brasil já teve: Garcia serviu algum tempo como secretário do Conselheiro Nuno de Andrade, o delicioso Felício Terra, que os contemporâneos temiam pela língua acidulada e passou pela vida a desperdiçar talento em motejos e picardias.

Mas a alma boa de Garcia havia de ser o bastião defensivo contra a crueza do dito viperino. Sua veia sarcástica se diluiria em sorrisos de ironia e pinceladas de humor, que mancham as páginas impressionistas das suas crônicas de historiador. A sua Conferência sobre As Órfãs ele a termina com deliciosa malícia, ao explicar por que se interrompeu a corrente de donzelas por Sua Majestade Sereníssima a Rainha D. Catarina instituída para que os súditos do Brasil pudessem casar e formar famílias de quatrocentos anos. Vieram no século XVI muitas órfãs cujo dote era um emprego para o marido. O costume vem de longe... Mas no começo do século XVII a gentil imigração parou, porque da última viagem, feita na caravela de Sebastião Martins e seu irmão, houve um processo que deu com os navegantes na cadeia, pelo mal feito às órfãs da rainha. E conta Garcia:

Qual fosse esse mal, não se declara no documento citado; mas adivinha-se sem maior dispêndio de argúcia. Nem é necessário entrar em pormenores sobre o que a devassa teria conhecido. O que é certo é que, depois de tal sucesso, não consta fossem despachadas mais donzelas para o Brasil. Aos perigos da navegação, que naquele tempo eram muitos e temerosos, mais um veio juntar-se a incontinência dos navegantes...

De outra feita, a pilhéria de Garcia surge inesperada, pingando reticências de chiste no fim de um documento erudito e grave. Pediram-lhe resolver a dúvida sobre a fundação da Cidade do Salvador. E ele, estudando, os arquivos e os cronistas, pesquisando aqui e ali, encontra a solução do problema, com a data exata que oferece aos consultantes. E o seu douto parecer assim concluiu: “Mas acontece que eu não sou baiano.”

Em Rodolfo Garcia, como em Capistrano, houve sempre absoluto alheamento à glória da publicidade. O seu prazer, imerso no passado, consistia em tirar do documento a essência da verdade que lhe interessava fixar. Há em Garcia um espírito de renúncia, de sabor beneditino. Contentava-se em aparecer no baixo das páginas, em tipo miúdo, metido num G entre parêntesis. Essa referência mínima a tão alto valor é, no entanto, a identificação de uma vasta erudição, de um profundo conhecimento, que não se apagava nas foot-notes com que, um dia, aprouve referir-se à sua colaboração à obra alheia. A sua vaidade de escritor ele a cultivava para si mesmo, a riqueza de sua cultura não a ostentava em edições próprias, com o nome em ouro nas lombadas coloridas. Satisfazia-se em aparecer na folha de rosto, como anotador, e assim trouxe a lume, atualizados pelo seu saber, entre muitos, o Padre Fernão Cardim e o Visconde de Porto Seguro; o Padre Manoel da Nóbrega e Frei Vicente do Salvador; Anchieta e Maria Graham; o autor de Tratados da Terra e Gente do Brasil e o missionário que escreveu o Catecismo da Doutrina Cristã na Língua Brasílica da Nação Kiriri; o Barão do Rio Branco, com as Efemérides Brasileiras, e Luís Joaquim dos Santos Marrocos, o primeiro funcionário da Biblioteca, que veio para o Brasil com o Príncipe Regente e escreveu por dezenas cartas que são um valioso testemunho dos acontecimentos da época.

Limitava-se Rodolfo Garcia a juntar seu nome ilustre a outros nomes ilustres que guarda a bibliografia brasileira. Obra com seu nome apenas, pouco se lhe dava compor. Não fora o apelo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro para encarregar-se de dois dos mais importantes capítulos do Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, planejado para comemoração do Centenário da Independência, e Garcia não se teria abalançado a condensar, em dois exaustivos capítulos, o que ele sabia sobre Etnografia Indígena e o que havia acumulado a respeito da História das Explorações Científicas. Aí, nesses trabalhos, aparece Garcia liberto de sociedade alheia, para ser, ele só, o autor de duas admiráveis monografias, nas quais revela a vastidão dos seus conhecimentos, na forma atraente do excelente escritor que era.

Em magnífico estudo composto para assinalar a perda sofrida pela cultura pátria com o perecimento de Garcia, o Sr. José Honório Rodrigues fixou bem a autonomia do pensamento do Mestre, sem subordinação absoluta às limitações da influência recebida de Capistrano. Esse julgamento autorizado situa bem Rodolfo Garcia na historiografia brasileira:

Ele soube escrever com elegância, correção e, especialmente, com inteligência aquela contribuição magnífica que é a História das Explorações Científicas. Mas o que revela sua capacidade de historiador e o afirma como tal, capaz de intentar compreender a vida em todas as suas manifestações e de reconstituí-la numa síntese admiravelmente arguta, psicológica e interpretativa, é a Introdução que assina na Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do BrasilDenunciações de Pernambuco (São Paulo, 1929). Aqui, a firmeza do texto, a segurança da informação, a beleza da composição casam-se numa apurada reconstituição da vida colonial. Aqui ele se revelou capaz de dominar os documentos, interrogá-los inteligentemente e compor a vida tal qual ela foi vivida.

Seu preparo de historiador reunia conhecimento metodológico, investigação documental exaustiva, crítica histórica apurada, capacidade de realização e composição. Nele se observam nitidamente as influências de Varnhagen e Capistrano de Abreu. Na sua teoria da História que tanto determina o destino dos seus trabalhos, domina a explicação geográfica. Estudos geográficos, pesquisas etnográficas, investigações lingüísticas cimentaram sua compreensão do mundo colonial. As influências psicológicas de Capistrano de Abreu o conduziram à modéstia das notas, ao comentário “textual”, à erudição minuciosa. Mas não lhe faltou capacidade de síntese, como revelou no estudo já citado sobre a sociedade colonial.

Circunstâncias alheias à sua iniciativa forçaram Garcia a realizar obra autônoma, evadindo-se dos pés de página e dos fins de capítulo, onde se aprazia em registrar os seus conhecimentos, nas aparas ao trabalho alheio.

Assim como escreveu duas excelentes monografias para o Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico Brasileiro, compôs também um livro inteiro, com as lições ministradas no “Curso de Museus”, da Biblioteca Nacional, sobre a História político-administrativa do Brasil. Ficou inédito esse trabalho e ao ser editado servirá para que o nome de Garcia apareça numa obra valiosa, de síntese histórica, vinda da época do Descobrimento até a abertura dos portos.

Nesse estudo, Garcia acompanha a evolução administrativa do país desde as feitorias, nos primórdios da época colonial, até as últimas e mais adiantadas instituições sob que vive a nação. Analisou desde os forais das Capitanias até a legislação mais moderna, os registros dos governadores, dos oficiais da fazenda e da justiça, a formação dos municípios e comarcas, os códigos, as leis, todo o regime político e administrativo que vigorou no Brasil colônia e no Brasil império e ainda vigora no Brasil república.

Feito em apostilas de aula resultou num livro com unidade de composição, escrito com elegância e clareza, sem as “minúcias supérfluas de que os compêndios estão cheios e de que os ginásios vos fartaram”, como disse aos seus alunos. Ficará na bibliografia do escritor como obra de peso, na qual se condensa a sua vasta erudição, se reafirma a pureza do seu vernáculo, brilha o primor do seu estilo.

Aí, nesse livro inédito, como em tudo o que escreveu e publicou, a opulência dos seus conhecimentos da História pátria Garcia a ilustra em poucas e despretensiosas palavras.

Abri os volumes dos Anais da Biblioteca Nacional, publicados desde o ano de 1932, quando assumiu a sua direção. Aos documentos que fazia divulgar, com a marca da sua escolha, por saber o interesse que tinham para a nossa História, dava um prefácio, a que chamava singelamente de “explicação”. São, no entanto, comentários profundos, que vivificam a frieza do texto, ampliam e esclarecem o que de outra forma não se saberia, levantam pontas de véu para que se devassem perspectivas não imaginadas, abrem sulcos novos para a sementeira de estudos que estão a pedir devoções iguais à de Garcia. É assim com a História da Fundação do Colégio da Capitania de Pernambuco, com o livro das Denunciações que se faziam à Visitação do Santo Ofício à Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, do Estado do Brasil, no ano de 1618, com os Atos da Câmara Municipal de Vila Rica, primeiros documentos da vida administrativa de Minas Gerais, depois que, pela carta régia de 29 de novembro de 1709 a Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, foi criada a nova Capitania de São Paulo e Minas. Ê assim com o Diário Resumido do Dr. José de Saldanha, demarcador de limites no extremo sul do país, em virtude das determinações do Tratado de Santo Ildefonso, de 1781 a 1788, onde Garcia, com seu pendor filológico, vai atrás do linguajar sul-rio-grandense notado pelo autor e registra de passagem que querência não é de origem castelhana, mas português do bom, porque vem de carência.

Revela-se a universidade da sapiência de Garcia numa obra restrita à História, mas que se espraia em erudição pela Lingüística e Etnografia, pela crítica, pela Filosofia, pela Literatura, por tantos e tão variados ramos de ilustração e da Cultura.

Da vossa saudade, quando a morte o abateu, poder-se-iam tirar os motivos para o florilégio do seu louvor: modelo de fidelidade; trabalhador incansável; honestidade intelectual; exemplo de coerência; homem de ciência e de coração leal; amigo perfeito; a sabedoria sem erro, a bondade sem reservas, a placidez sem renúncias morais; probo, meticuloso e insigne historiador. Poucos terão, ao partir, recebido tão sentida e justa consagração. Aí se condensa a alma de Rodolfo Garcia, para a história de sua vida.

Podia encerrar-se aqui este discurso, com o fecho de ouro do vosso elogio ao preclaro confrade, que desapareceu resignadamente, serenamente, como sempre vivera, num doce sorriso para a suprema renúncia. Mas ao concluir a evocação de sua memória, égide que busco para o culto dos dias a viver aqui, ocorre-me o episódio narrado por Gil Blas de Santillana, antes da revelação de suas aventuras, e não me esquivo à tentação de reproduzi-lo.

Dois estudantes, indo de Peñafiel a Salamanca, pararam junto a uma fonte, a descansar e matar a sede. Viram ali, sobre uma pedra, à flor da terra, palavras que o tempo quase apagara. Reavivando o gravado, leram esta inscrição: “Aqui está encerrada a alma do licenciado Pedro Garcia.”

O mais jovem riu-se da fantasia e do absurdo. Alma sepultada na terra! Que tonteira! E sorrindo, seguiu o seu caminho. O outro achou que pudesse haver ali um mistério a desvendar. Com paciência, conseguiu levantar a pedra da estranha sepultura. Encontrou então uma bolsa com cem ducados e uma carta escrita em latim: “Faço-te o herdeiro meu, tu que tiveste espírito bastante para decifrar o sentido da inscrição, e usarás o meu dinheiro melhor do que eu.”

E assim, afortunado, partiu o estudante para Salamanca, com a herança maravilhosa...

Houve aqui também um licenciado Garcia e a coincidência do apólogo. As anotações que achegou à obra alheia são o tesouro encerrado embaixo do texto que não é seu. Ao leitor apressado tais notas passarão despercebidas. Aos atentos e aos perspicazes, revelarão a alma do historiador, com a riqueza inesgotável do seu saber.