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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Evanildo Bechara

“Este menino ainda chega à Academia Brasileira de Letras”, vaticinava, pela boca de um anjo, a professora Rosinha, da escola pública de Paquetá, diante da voracidade com que o pequeno aluno Domício se aplicava à leitura dos livros da biblioteca da escola, desde As Aventuras de Tibicuera, de Erico Veríssimo, e Cazuza, de Viriato Correia, até as revistas em quadrinhos.

E eis que, quase sessenta e cinco anos depois da profecia, dá esse passo largo na estrada da existência aquele menino nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1936, e logo transferido à idílica Ilha de Paquetá, por cujas ruas e praias correram histórias de amor, algumas vazadas em memoráveis páginas literárias. Tudo isso sob os olhares vigilantes e maternais de D. Maria de Lourdes que, nos 97 anos, assiste embevecida a este ato solene de posse de uma das suas obras-primas, fruto de sacrifícios e renúncias que só os pais sabem avaliar e administrar, no estreito corredor do sacrifício.

O aluno estudioso e aplicado que fostes abriu-vos as portas do Internato do Colégio Pedro II, que vos garantiu um honesto curso de humanidades; sois, assim, um produto da escola pública de boa qualidade quando são oferecidas aos professores, alunos e funcionários as condições adequadas. O passado pode ser revivido, como demonstraram recentemente os bons resultados revelados recentemente em um artigo do Acadêmico Arnaldo Niskier, obtidos estes resultados pela escola pública do Rio de Janeiro e de outros Estados no exame Prova Brasil, promovido pelo Ministério da Educação a três milhões e trezentos mil estudantes brasileiros de quartas a oitavas séries do curso fundamental, de quarenta e uma mil escolas do País. E esses resultados se podem repetir quando a política menos escrupulosa deixar de fazer da educação desses brasileirinhos – esperança da nossa sociedade – moeda eleitoral de propagandas enganosas.

Aluno exemplar, desde cedo vos aplicastes a dar explicações a colegas que delas necessitassem, e tal atividade deixou patente em vós o prazer de levar as luzes do saber a outrem. Ao terminar o clássico do Pedro II, partiu do vosso professor de Latim, o saudoso Olmar Guterres da Silveira, a idéia, logo abraçada, de um curso de Letras.

No curso de Neolatinas da Faculdade de Filosofia da então Universidade do Brasil recebestes vosso preparo para o exercício oficial de magistério. Por essa época, quase a Literatura Brasileira e a Língua Portuguesa perdem seu futuro especialista, e a Academia Brasileira de Letras o integrante que hoje acaba de tomar posse. Isto porque, ao término do curso, o professor de Espanhol, o também de saudosa memória José Carlos Lisboa, vos convida para exercer as funções de Auxiliar de Ensino da cadeira de Língua e Literatura Espanhola, trabalho não remunerado, à espera de uma oportunidade mais compensadora. Aí começastes a conhecer, sobre ser honroso o convite, os perigos da mais estupidamente deliciosa das naus dos insensatos em que vos metestes, que é o magistério brasileiro de todos os escalões. Na senda desse desvio, a seguir seria o Instituto de Cultura Hispânica e a Faculdade Santa Ursula, a que chegastes pela mão de outro amigo e mestre, sempre lembrado com saudades, Leônidas Sobrino Porto.

A verdade é que vossa atividade como professor de ensino fundamental e médio, que conquistastes, nos colégios oficiais, mediante concurso de provas e títulos, era mais intensa nas classes de Língua Portuguesa e Literatura. O curso de Mestrado lato-sensu em Literatura Brasileira, na então recém-criada Faculdade Federal do Rio de Janeiro, pelo talento e prestigio do inigualável Afrânio Coutinho, selou definitivamente a vossa área de atuação universitária, cujo complemento natural foi o Doutorado em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com uma tese sobre a ficção de Adonias Filho, já acadêmico, e que vos fez, pela primeira vez, olhar a Casa de Machado de Assis com olhos que não eram nem oblíquos nem dissimulados.

O sucesso e o brilho da atividade no ensino superior vos foram abrindo as portas, mediante concurso de provas e títulos, para professor titular de Literatura da Universidade Federal Fluminense, por onde vos aposentastes e da qual sois hoje professor Emérito. Durante mais de 38 anos fostes professor de Literatura Brasileira, Língua Portuguesa e Didática em várias das instituições de nível superior: Universidade Federal do Rio de Janeiro, PUC do Rio de Janeiro, Santa Úrsula, Hélio Alonso, e, em nível fundamental e médio, no Colégio Pedro II, Andrews, Bennet e colégios estaduais.

Vosso exercício magisterial não se limitou às instituições brasileiras; fostes chamado a exercer as funções de Professor Visitante (Gastprofessor), durante o semestre de verão, na Universidade de Colônia, e, em 1980, no Institut für Romanische Philologie der Rheinisch Westf. Techinischen Hochschule, em Aachen, ambos na Alemanha e em ambos lecionando Literatura Brasileira, e para cujas instituições preparastes A Poesia Brasileira do Modernismo e Tendência da Prosa Brasileira Contemporânea.

No domínio da Língua Portuguesa, em parceria com a professora Maria Helena Marques, escrevestes uma renovadora coleção didática, depois revisitada com as mesmas qualidades pedagógicas, só sob vossa responsabilidade, além de mais duas obras: Gramática da Língua Portuguesa em tom de conversa, 2004 e Por dentro das Palavras da Nossa Língua Portuguesa 2003.

Marcou um lugar à parte como clássico na literatura didática o vosso Estilos de Época na Literatura que, no juízo autorizado do confrade e mestre Eduardo Portella, “transpõe as suas aparentes demarcações temáticas para se converter numa rigorosa e matizada teoria da literatura”.

Se pautasse apenas pelo campo da formação acadêmica, da atividade magisterial e da prolífica produção de livros mais relacionada a essa mesma atividade no âmbito da Literatura Brasileira e da Língua Portuguesa, teria a Casa de Machado de Assis sobejas razões para vos integrar ao seio dos seus Acadêmicos; todavia, ainda convém ressaltar a este seleto auditório mais duas atividades do nosso recipiendário desta noite festiva: a ação como promotor cultural e o namoro nada bissexto com a literatura.

No primeiro domínio, fostes o criador do Projeto Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, além de outras dezenas de projetos desenvolvidos pelo Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, entre 1975-79, e por esta mesma Casa.

Como consultor editorial, organizador de obras de autores da Literatura Brasileira para as editoras Artium, Ática e Global, ressaltando-se, ainda, a organização e prefácio, entre outras, de A Poesia dos Inconfidentes, pela Nova Aguilar, em 1996.

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Ledor assíduo e fervoroso das produções literárias, não seria de admirar que estaríeis um dia picado pela inebriante tentação da mosca azul que habita os textos de que sois crítico e apaixonado contumaz. E eis que chega a vez da primeira experiência poética com O Cerco Agreste, em 1979, impregnada de visível presença de João Cabral. Prefaciada a obra pelo saudoso Antônio Carlos Villaça, elege, dentro do conjunto de poemas, como  preferidos os versos de “O Canto”:

O Canto

Se diz

macio

garoando

na alma,

o canto.

 

O canto

se diz

irmão.

O canto

deságua

como um rio

acalentado

e vem do fundo:

canto

de berço.

O canto

se diz

de sofrência

de desnudo

canto

 

O canto

sem retorno

se deixa ver

no fundo

 

O canto

é o rio.

(pág. 28)

O filão poético aflora outra vez em 1984, com Dionísio Esfacelado (Quilombo dos Palmares), um canto que canta, entre amor, nostalgia e soluços, a presença do negro na formação da nacionalidade brasileira. É o vosso tributo a um povo de antigas sofrências. Num encobrimento disfarçado do mitológico grego Dioniso Crucificado, ouso enxergar em Dionísio do vosso Dionísio Esfacelado, o  criptônimo de Domício, o autor. Se non è vero...
Desses poemas multifacetados relembro aqui os versos de “Ecos” .

Ecos

Quatro milhões de negros

seiva

avinagrada

barro ferido

assustado

sangrada carne

acesa

viva

mutilada

na alma

a corrosão

da ira

a miséria

sopro

o poço

e a falsa

alforria

alegria

irmanada três dias

em falso espaço

de sonho.

Longe

O horizonte verde

Do Quilombo.

(pág 22)

Entre outras produções, no campo da ficção − e ficção engenhosa − citarei apenas Memórias Póstumas de Capitu, compelido, nesta redução, pelo cuidado de não fatigar este seleto auditório, se enveredara por escorço mais longo.

Nesta obra ficcional tentastes resgatar Capitu dos desvãos secretos da casa em que Bentinho aprisionara sua mulher adúltera, para dardes, a esta, voz e direito de defesa, apresentando aos devotos de Machado de Assis, estupefatos, a versão de Capitu, antes condenada, ou,  miseravelmente suspeita, aos olhos dos leitores mais inteligentes de Dom Casmurro, e agora pondo seu marido à execração.

O vosso romance nos apresenta uma Capitu cheia de viço e vigor, a nos contar os fatos de que foi palco a casa da Rua de Matacavalos. A vossa personagem quebra o encanto do discurso poético em que Machado soube envolver no manto da fantasia o triângulo Bentinho-Capitu-Escobar, preferindo, vós, substituí-lo pelo discurso da comunicação quotidiana assentado na visão biografista.

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Até aqui a vossa trajetória vitoriosa como professor de Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa, concretizada em 40 obras entre originais e aquelas que enriquecestes com o comentário das pertinentes introduções. Agora, ao entrardes nesta Casa de Machado de Assis, vosso talento, vossa inteligência, vossa operosidade e vossa competência serão convocados para a finalidade maior da instituição exarada no dispositivo primeiro do seu Estatuto: “ a cultura da língua e da literatura nacional.”

Vale a pena aprofundar o entendimento do artigo, visto denunciar claramente  um conceito e uma política de língua, nem sempre postos à luz nesta Casa. Ao atentarmos para o fato de que o adjetivo nacional, no singular, está apontado exclusivamente para literatura, enquanto língua não se acompanha de qualquer modificador, “a cultura da língua e da literatura nacional”, isto é prova inequívoca de que nossos fundadores viam a língua como um patrimônio comum a Portugal e Brasil. Está evidente que não desconheciam que nas duas bandas do Atlântico havia particularismos lingüísticos que cumpria respeitar, mas, como dizemos hoje, havia unidade na diversidade. É o destino natural de todas as línguas nacionais, quer faladas num só país, quer divididas entre nações, como é o caso da língua portuguesa,  patrimônio comum  a Portugal e ao Brasil, ou, no pronunciamento  de nosso primeiro Secretário-Geral, Joaquim Nabuco, no discurso de inauguração desta Academia, aos 20 de julho de 1897: “A língua há de ficar perpetuamente pro indiviso entre nós; a literatura, essa, tem que seguir lentamente a  evolução diversa dos dois países,  dos dois hemisférios. A formação da Academia de Letras é a afirmação de que literária, como politicamente, somos uma nação que tem o seu  destino, seu caráter distinto, e só pode ser dirigida por si mesma,  desenvolvendo sua originalidade com os seus  recursos próprios, só querendo, só apurando a glória que possa vir de seu gênio”

Este artigo pétreo de nossa instituição resulta da preocupação sentida desde muito por seus fundadores, especialmente por Machado de Assis, que,  em artigo datado de 1873, escrito para a revista O Novo Mundo, tecendo considerações sobre nosso Instinto de Nacionalidade, comentou: “Entre os muitos méritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem. Não é raro ver intercalados em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta a da excessiva influência da língua francesa. Este ponto é objeto de divergência entre os nossos escritores. Divergência, digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio, ou antes por  uma exageração de princípio” (Crítica, 25-26).

E continua, emitindo parecer mais lúcido do que os que se vêem às vezes na lição de muitos lingüistas que ensinam em faculdades de Letras, parecer que não faz má figura, pelo pioneirismo e pela profundidade, quando confrontado com a lição de dois grandes lingüistas do século XIX, o sueco Adolf Noreen, em 1888 e o francês Michel Bréal em 1897, que ressaltam o papel social e civilizatório da língua escrita, mormente da literária:

“Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa língua pare no século de quinhentos é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência  do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer locuções novas que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.

Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o princípio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão (Crítica, 26).

Refletindo acerca de tais precedentes comentários, facilmente nos situamos nos propósitos que orientaram a Academia, quando firmou o artigo 1º dos Estatutos da Casa: “a cultura da língua”.

Isto significa tão-somente que à Academia não caberá o papel da investigação e pesquisa da língua em todas as suas manifestações, populares e literárias, orais e escritas; esse é o papel dos especialistas, que atuarão nas universidades, nas academias de língua, nas atividades que objetivem seu estudo e ensino.

A Academia, ainda na sábia lição de Machado de Assis, em pronunciamento com que encerra as atividades da Casa, em 7 de dezembro de 1897: “(...) buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fonte legítimas – o povo e os escritores –  não  confundindo a moda que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas. A autoridade  dos mortos não aflige e é definitiva” (Outras Relíquias, 97).

Passados mais de cem anos, os conceitos emitidos por Machado de Assis e Joaquim Nabuco, duas personalidades que, não sendo lingüistas ou filólogos, tinham a justa percepção da unidade idiomática, são hoje repetidos, com motivações diferenciadas,, pela voz e responsabilidade de dois especialistas portugueses no campo da língua e da literatura. O primeiro  testemunho pertence  à Maria Helena  Mira Mateus,  mestra de jovens gerações universitárias, em recente entrevista a Palavras n. 29, órgão da Associação de  Professores de Português:

“O fato de as pessoas dizerem que alguém fala ‘brasileiro’ não tem grande importância e apenas mostra que os falantes são sensíveis a diferentes variedades da língua (...) Uma coisa diferente é considerar que a língua que se fala no Brasil já não é a língua portuguesa. Para mim, a utilização do termo “língua portuguesa” é importante para todos aqueles que se encontram sob esse “guarda-chuva”, pois trata-se de uma convenção que tem vantagens no funcionamento socioeconômico e cultural em termos planetários. Não vale a pena, portanto, estarmos a querer diversificar  criando outros termos quando este é de grande utilidade para todas as partes: os brasileiros terão o maior interesse em ter como língua oficial uma língua da União Européia falada em vários outros países, enquanto que para os portugueses, a vantagem de a língua que se fala no Brasil ser a mesma que se fala em Portugal advém da dimensão demográfica que essa língua adquire”.

O outro testemunho é da lavra de Aníbal Pinto de Castro, durante recente Colóquio Internacional sobre “A língua portuguesa no mundo da lusofonia”, promovido pelo Liceu Literário Português do Rio de Janeiro:

“Pelo que toca ao Brasil, pediria licença para lembrar a fundamental necessidade de entre nós reforçarmos os elos seculares de ligação lingüística e de estudos literários, não deixando de diminuir o espaço concedido nos programas de português aos clássicos  portugueses, que brasileiros são também, pois neles está a fonte perene do mais puro vernaculismo. Não para nos acantonarmos num purismo que se reveja numa caça passadista aos infratores da norma, por pecados de barbarismos ou de solecismos, mas para aí retemperarmos as  energias e sobretudo a salutar disciplina a observar na adoção de neologismos, mesmo que de  estrangeirismos se trate, absolutamente indispensáveis à modernização da Língua que partilhamos e do sistema em que ela se organiza, de modo especial no que toca a novos conceitos e realidades da vida, cujo curso não pára, ou ao vocabulário científico e técnico.

Do lado português, será a todos os títulos necessário reforçar o lugar da Literatura Brasileira nos programas das nossas Faculdades de Letras e aumentar a representação de autores brasileiros nos manuais e seletas usados no Ensino Preparatório e Secundário” (Confluência,  nº 29 e 30, pág. 36).

É neste sentido que já operam as ações da Academia Brasileira de Letras para trabalhar em prol da cultura, da ilustração e do relevo da língua portuguesa escrita, exemplar e literária.

E é para entrar em nosso seio e partilhar do nosso trabalho que acolhemos hoje o vosso saber, a vossa competência e a vossa operosidade. Hoje é um dia de festa para a Língua Portuguesa nesta Academia!

Temos a certeza, outrossim, de que vosso empenhamento honrará a trajetória luminosa de Oscar Dias Corrêa nesta Casa de Machado de Assis.

Sede bem vindo!

Evanildo Cavalcante Bechara