Início > Acadêmicos > Domício Proença Filho > Domício Proença Filho

Discurso de posse

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
DISCURSO DE POSSE

Vivo de meia dúzia de ideias e de algumas palavras. E é a palavra, aliada à ação criadora e pedagógica, base do meu percurso de vida que me traz a essa Casa das Letras. A mais relevante do país.  A essas dimensões associa-se, cúmplice, o beneplácito da amizade. Que a Casa de Machado de Assis é uma Casa da Convivência. Enriquecida democraticamente pelo jogo dialético da convergência e da divergência.  Viva, intensa, imune à corrosão da aura. Ao longo de mais de um século, Mobilizadora. Congregadora de gente da Cultura, gente das Letras.  E  o culto do verbo, em espaços que não se excluem, é que aproxima os ocupantes da Cadeira 28 para a qual fui eleito. Com a consciência , sobretudo, do que representa, comunitariamente, o raro privilégio.
 
Seja-me permitido, no cumprimento do rito da tradição, a assunção do vezo didático na recordação breve de traços que lhes marcam a atuação no processo da cultura brasileira. Que a sinceridade da homenagem compense o risco da redução e a horizontalidade do discurso.

Conheci - o nas minhas primeiras andanças pelos auditórios e corredores desta Casa. Aos poucos me aproximei de sua mineirice desconfiada. Para descobrir-lhe a afabilidade, a simplicidade, a excelência do humor. E a acolhida conselheira a quem já começava a sonhar alto. O convívio estreitou-se ao longo dos ciclos de conferências  do auditório José de Alencar.

Falo do saudoso e estimado Dr. Oscar Dias Corrêa, o jurista, o magistrado, o professor, o poeta, o ficcionista, o ensaísta, o tradutor, o cidadão de intensa e coerente ação política. Homem de fé assumida e dedicação acendrada à família. Ao lado de D. Diva, companheira atuantede dedicadíssimos cinqüenta e sete anos de casamento, felizes e mineiramente vividos. A quem, nesse momento, rendo minhas sinceras homenagens.

Itaúna, a cidade de seu nascimento, em 31 de janeiro de 1921. E dos primeiros estudos. Continuados, no Ginásio Mineiro de Belo Horizonte, hoje Estadual. Já se configurava o futuro tribuno: no concurso de oratória, vencido ´pelo jovem ginasiano, com um discurso sobre “A paz no Chaco”, coroado com publicação no Minas Gerais. No complemento da formação, o Curso Pré-Jurídico e o Curso de Bacharelado , na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais atualmente universidade federal. O orador emerge e prenuncia-se o ensaísta: ganha o Concurso Nacional de Oratória, e o Concurso Nacional de Monografias, de relevância assegurada pelo órgão instituidor: o Instituto dos Advogados Brasileiros.

Árduo, o começo. Avalie-se pela atitude: jovem estudante, dá - se conta da importância , para seus estudos superiores, de dois volumes de trezentas páginas, de autoria de Pedro Lessa:   na impossibilidade de adquiri-los,  e com a cópia xérox ainda abrigada no ventre do futuro, não vacila: copia -os a mão, para acesso imediato. O testemunho agradeço à gentileza de D. Diva.

1946 marca o início da vida pública e da advocacia. Como oficial-de-gabinete de João Franzen de Lima, secretário das Finanças do Estado de Minas Gerais. 

Deputado, ei-lo, no ano seguinte, na Assembleia Legislativa Estadual. Com reeleição e novo mandato de 1951 a 1954. Ano em que chega à Câmara Federal. A consagração do alto desempenho traduz-se na reeleição   para os dois mandatos seguintes: de 1955 a 1963, de 63 a 67. Em 1961, o legislador, licenciado,  cede espaço ao administrador da causa pública: assume a Secretaria de Educação de Minas Gerais, no governo de Magalhães Pinto, cargo em que permanece até 1962 quando volta à Câmara. Até 1966. Tempos brasileiros redemocratizados e de aguda efervescência e turbulência políticas. Identificado com o seu partido, a antiga UDN, a União Democrática Nacional. Um homo politicus como raros.

O coroamento da carreira do jurista vem com o seu chamado a integrar o Supremo Tribunal Federal, indicação do ministro Bilac Pinto. Em 1982. Nessa condição, é nomeado ministro do Superior Tribunal Eleitoral.  Eleito Vice-presidente da Suprema Corte do país, não assume o cargo: a convite do Presidente José Sarney, ei-lo nomeado Ministro de Estado da Justiça. Em janeiro de 1989. 
 
Suas palavras, num trecho da carta em que se despede  da Suprema Corte  permitem uma visão de seu percurso e de sua alta  competência:

Aqui cheguei após quase quarenta anos de advocacia, vinte e sete anos dos quais exercidos também perante este Pretório e mais de vinte de atividade política, intensa e trepidante. Pois a Corte, com a sua tradição de serena superioridade, de exata ponderação na interpretação do direito, de retidão na exegese das normas jurídicas, sem esquecer nunca o indeclinável interesse nacional, deu ao noviço nas hostes da magistratura ânimo para dominar a veemência do temperamento e das lutas políticas anteriores, para vencer-lhe o ímpeto que os anos não arrefeceram , ensinando-lhe a ouvir as manifestações contrárias ao seu pensamento, a acatar os argumentos adversos às suas opiniões, a respeitar pronunciamentos e decisões sem ressentimentos ou irritação.
Mais: vencido, aprendi a estimar a vitória da maioria adversa, ao raciocínio de que deveria estar certa; e meu voto serviria de argumento aos que, mais tarde, nele encontrassem fomento de direito ao exame das teses em confronto.

Fiel aos princípios éticos que cultua, solicita imediatamente, diante da nomeação para o Ministério,sua aposentadoria da alta Corte. Por consequência, afasta-se também do Superior Tribunal Eleitoral, Empossado, promete restabelecer no país o “reino da justiça” e reitera a fidelidade à “disciplina da lei”. Atua com intensa atividade, até julho do ano da posse, quando renuncia ao cargo.

Longe da ação pública, volta-se para a advocacia: abre escritório, em Belo Horizonte, escritório, com o filho Oscar Junior, que, a exemplo do pai, ingressa na política, com mandatos nas esferas estadual e federal, , de 1979 a 1991.
 
Inúmeras obras revelam a excelência do seu saber jurídico, a percuciência de seus estudos. Entre elas Introdução crítica à economia política, (1957), Alcance e compreensão dos direitos do homem, 1968, A defesa do estado de direito e a emergência constitucional, 1980,Autoritarismo, no mesmo ano, A Constituição Federal de 1988- Contribuição crítica, (1991) O Supremo Tribunal Federal, corte constitucional do Brasil, ( 1987) , O sistema poítico-econômico do futuro: o societarismo, livro de 1994.

Devoção aos princípios do Direito e da Justiça e à prevalência da democracia  marcam a sua atuação. Um fato, por inidiciador: edita-se, em 1965, o Ato Institucional nº 2. Nas determinações, entre outras medidas, a extinção dos partidos políticos existentes. Autorizada apenas a existeência dual da ARENA e do MDB.

Numa afirmação de coerência e de personalidade forte, o udenista convicto assume desassombrada atitude de protesto: renuncia ao seu mandato de deputado. E com elegância, mas com firmeza, explicita a sua indignação no  último pronunciamento na Câmara Federal:

 - O que nos repugna é que o governo queira impor duas organizações irreais, inviáveis, provisórias e que, para isso, obrigue todos os homens públicos desse País a uma opção impossível.

Há nove anos, Sr. Presidente, disputando a cátedra de Economia Política da Faculdade Nacional de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil, escrevi uma tese – Introdução à Crítica e à Economia Política – em que sustentava que o objeto da ciência econômica era a opção onerosa socialmente avaliável, dizia eu, para caracterizar bem os termos dessa opção, que me parece e me parecia fundamental.

Agora, sem blague, poderia dizer que, nove anos depois, a política, não a economia, me impõe uma opção, também onerosa, a mais onerosa de quantas pensei fazer; a tal ponto que me recuso a  fazê-la, e deixo a política pela economia.  Era o dia 23 de março de 1966. Perdia a política brasileira, ganhava a economia e ganhavam ainda mais a prática e a ciência do Direito. 
 
O magistério: outra de suas paixões. Luminoso, o começo: a conquista, por concurso de provas e títulos, da citada Cátedra de Economia da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, atualmente Universidade Federal.  Aos 29 anos de idade. Torna-se, então, o mais jovem professor catedrático de seu Estado natal. E acumula concursos e cadeiras em inúmeras instituições de ensino superior: Faculdade de Ciências Econômicas da antiga Universidade do Brasil, Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A que se junta a intensa atividade pedagógica em outros estabelecimentos públicos e privados:  leciona, ao longo dos anos, Economia, na Universidade de Brasília, em 1966; mais tarde, nas Faculdades Integradas Bennett (1971); Direito do Comércio Exterior, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Direito do Trabalho, na Universidade Católica de Minas Gerais, entre outros. Em paralelo, a ação administrativa: a direção da Faculdade de Economia e Administração da UFRJ, em 1968, o Decanato do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da mesma Universidade, de 1971 a 1980, a direção da Faculdade de Direito da UERJ, de 1976 a 1980.

Invulgar, sua capacidade de trabalho: a jornada, iniciada nas primeiras horas do dia , estende-se regularmente até 11 horas da noite.

A seu lado, sempre, D. Diva. O dinamismo suavemente abrigado nas dobras da discrição. Destacado o apoio logístico ao homem público. Desde o tempo em que os parlamentares não dispunham de assessorias e gabinetes. E não nos esqueça do cuidado com  os dois filhos do casal, Ângela e Oscar Junior. 

A ação política intensa, o magistério, a dedicação ao Direito não diluem à fidelidade às letras, nas quais se inicia desde os bancos escolares do Ginásio Mineiro de Belo Horizonte.  A literatura integra antes uma comunhão de afetos intensamente cultivados.

E à lucidez do jurista, alia-se o ficcionista, autor de Brasílio, publicado  em 1968, e de Quase-ficção, 12º volume da Coleção Austregésilo de Athayde, da Academia , coordenada pelo dinamismo de Ivan Junqueira, editado  em 2003. 

Brasílio , romance de costumes políticos, espelha, na transfiguração da literatura, aspectos da vida pública brasileira, de 1930 a 1950. Uma história nuclearizada no personagem-título, um político. Que começa prefeito de Rio do Morro, pequena cidade interiorana, é eleito deputado estadual e, na sequência, federal, chega a Governador do Estado e culmina com um cadeira no Senado da República.  Na base da criação, a experiência vivenciada pelo autor, a sua intimidade com os seus pares e com os fatos da vida pública brasileira. Na tecedura da trama, simples, ressalta a qualidade do narrador na articulação das ações e na perspectiva crítica marcada de ironia. Na linguagem, a fluência e o coloquialismo. Uma passagem, por exemplificadora:

Mas não era possível descrever-se toda a fauna humana que Brasílio encontrou na Casa do Povo, como se chamava a Câmara. Eram cinquenta e quatro figuras diversas, cada qual com um jeito, uma cara, assentando-se ou se levantando ao comando da intimação do presidente e dos líderes.
Muito mais proveitoso seria contar-se, por exemplo, o que se passava na Secretaria, de onde saíam prontinhos, estandardizados, os pareceres das Comissões. Na maioria, é claro.
(....)
Você sabe, leitor amigo, o que é bancada da imprensa? Pois vou dizer-lhe ,em poucas palavras: são uns senhores que ficam, em geral, defronte dos deputados, quando eles falam, ou estão calados; que tomam , ou não tomam notas em papel sem pauta, de preferência; que trocam ideias entre si, muito cordialmente, sem dar nenhuma ideia nova em troca da que não recebem; e que, no dia seguinte a gente fica sabendo da opinião que tinham do que se passou na sessão a que assistiram, ou que não tinham e a direção do jornal entendeu que era bom ter.. ( Brasílio. Rio de Janeiro: Gráfica Record Editora, 1968. p. 147)

Quase-ficção: o título indicia o rigor da caracterização do texto que se propõe: apoiado no realismo de detalhe e na aguda observação de pessoas e acontecências.  Quatro histórias bem urdidas, reveladoras de  domínio do narrador,  astucioso, na explicitação merquioriana da mímese.

Na primeira, um discurso à beira do túmulo de um amigo, a pedido da comoção da viúva em prantos e eis o personagem tomado pelo delírio do necrológio.

Narrador e protagonista dividem o discurso. O deste último, reflexivo, autoquestionador. Nuclear, a presença da morte, inexorável, sempre impactante. E a cada passo, o alívio da tensão por meio da ironia bem-humorada. O comportamento do personagem vai, humanamente, do horror à natureza do texto à gradual aceitação, a cada solicitação nova e diante dos aplausos da fama à assunção plena e entusiasmada. Já agora marcada pelo prazer do discurso. Vicissitudes da alma humana, flagradas pelo ficcionista. Na culminância, a instauração da função de uma ideia fixa. No silêncio da estrutura, a relação intertextual com  “O alienista”. Em paralelo, a exaltação da amizade, rememorações de passado comum que une o vivo e os mortos louvados. Nostalgias. Nem falta o realismo de detalhe, como garantia  de verossimilhança. O riso, racionalizador e amortecedor da tensão, pontua o fim e a perda. A moral da história, a cargo do leitor. Que a ambiguidade do texto, por literário, possibilita: ridendo castigat mores ou Vanitas, vanitatis, ou ambas.

Perda e morte voltam na segunda narrativa. Agora de um cão. Cheio de ideias. Na verdade , um cão eruditíssimo. Com nome de economista famoso: Keynes. E com as memórias transcritas pelo melhor amigo da espécie. Enfim, um cão literariamente antropomorfizado. Com uma história que, por vezes, serve de pretexto para reflexões sobre a realidade brasileira. E um desfecho carregado de emoção. Um texto-espelho da realidade urbana do país, espaço assumido pelo escritor e indiciado pelo título do livro.

“Currículo”, o terceiro conto. A partir de inesperada demissão, a via-crucis do personagem na busca de um novo emprego. Depois de uma vida de dedicação e eficiência. A alta qualificação , a experiência, o domínio das línguas estrangeiras, as várias obras publicados, o currículo exemplar não abrem as portas do espaço privado ou público. A militância e o exílio emergem, contraponteantes, no desfecho, irônico. E a visão crítica, sempre. Agora tendo por alvo o mercado editorial brasileiro. Quem escreve, conhece.

Na última história, o percurso de um candidato à Academia Brasileira de Letras. Li e reli, com redobrada atenção. Quase-realidade? Lição. O texto: um divertido roteiro a ser cumprido, os procedimentos, os envolvimentos. Hiperbolizados. O final, surpreendente, acentua a frustração.

A linguagem revela a elaboração cuidada, o domínio da frase curta, a presença da erudição do autor, as animizações bem trabalhadas.

O prefácio de Eduardo Portella acentua a linha de força dominante: histórias de perdas. Irreparáveis. Perdem-se amigos, perde-se a companhia amiga do cão estimado, o emprego, a ansiada eleição para a Academia. Com as consequências decorrentes. Na alma.

Perder aproxima-se de situações trágicas. No sentido grego do termo. Não se pense, entretanto, em retratos carregados de lamúria. O autor, ciente de que integram, inexoráveis, a humana condição, dilui a tinta da melancolia nas  águas do humor. A reflexão, nesse sentido, a cada passo pontua as peripécias da ação. O narrador exorciza a tragicidade do fim implacável com a distensão pelo riso. Ao fundo, a consciência do efêmero:  tudo passa sobre a Terra. No fundo a fé: perder acontece, e está longe de ser verbo definitivo.

A sensibilidade do poeta, presentifica-se desde a juventude, E , em especial, na sua atividade de tradutor , que pode ser admirada no volume intitulado Meus versos dos outros, lançamento da ABL, na Coleção Afrânio Peixoto. E no seu último livro, Viagem com Dante.  2005, centrado na  Divina Comédia,  cujos versos sabia no coração. “obra de uma vida inteira, pois que se iniciou , a rigor, quando Oscar Dias Corrêa, , então com 16 anos, foi apresentado aos versos da Vita nuova pelo Professor Tancredo Martins do Curso Pré-Jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais”,assinala o poeta e também exímio tradutor Ivan Junqueira, na apresentação da obra. Obra e paixão. E o autor acompanha o Poeta e seu Guia, Virgílio, até o XXXIV Canto do Inferno, reencontra-os na chegada de Beatriz, nos Cantos XXIX e XXX do Purgatório e, por fim, vê l´inspiratrice conduzindo-a ao Empíreo no Canto XXXIII do Paraíso.  Não sem antes dizer da musa na transcrição, mantida a língua do tempo,  e na transcriação  do soneto de louvor e encantamento, que recordo, por sua força poética:

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quand´ella altrui saluta
ch´ogne língua devem tremando muta
e li occhi no l´ardiscon di guardare.

Ella siva, sentendosi laudare,
benignamente dúmiltà vestuta:
e par che sai uma cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi si piacente a chi la mira
che à per li occhi uma dolcezza al core
ch´entender non la può chi non la prova.

E par che da le sua labbia si mova
un spirito soave pien d´amore   
chr va dicendo al´anima : sospira!

Tão gentil e tão cândida parece
A amada minha em seu cortês saudar
Que nossa boca, trêmula, emudece
E os olhos não a ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se  louvar
E de humildade seu olhar se tece,
Como se um anjo que, do céu, viesse,
Para milagre à terra demonstrar.

Mostra-se tão graciosa q quem a mira
Que dá à nossa alma seu olhar dulçor,
Que não pode entender quem não a prove.

Parece que dos lábios seus se move
Um espírito suave, todo amor,
Que vai dizendo ao coração: suspira!

A sua sensibilidade guia o entendimento do leitor por esses espaços e fecha o livro com notícia da viagem existencial do grande poeta.

Nem a saúde combalida impediu-o de autografar, cuidoso, em sua última noite terrena, cinquenta exemplares destinados a amigos de fé. Até as 23 horas. Como sempre. Adormeceu definitivamente na véspera do lançamento. Esperado com  entusiasmo.

Sua eleição para esta Casa se dá em 6 de abril de 1989,  na vaga de  Menotti de Picchia, amigo antigo. Revelador, um trecho do seu discurso de posse:

Lembra-me perfeitamente – vejo a cena nas luzes da memória: discutia-se a chamada “Emenda dos Conselheiros”, que instituía, com os ex-presidentes da República, um conselho Superior de assessoramento do presidente da República.

A UDN combatia o projeto. E, nesses casos, éramos os mais ousados- e a ousadia sempre foi o meu fraco, disso sabeis! – escalados para o debate.
Chegou a minha vez: fui à tribuna e desincumbi-me da missão.
Ao descer para o plenário, encontro no meio do corredor, caminhando na minha direção, o nobre deputado Menotti del Picchia, que me diz em tom quase fraternal:
Menino, quando você foi à tribuna, perguntei-me: que que esse menino vai falar, depois de Capanema, Arinos, Baleeiro, Adauto, Lacerda. E sabe de uma coisa? Gostei do seu discurso!
Agradeci-lhe o cumprimento espontâneo e insuspeito, envaidecido e acanhado. E ganhei-lhe a estima e o direito à prosa, nos momentos em que um orador mais monótono ocupava a tribuna e me acercava dele para ouvir-lhe a palavra fascinante.

O ficcionista e poeta paulista, por seu turno, é uma das militâncias ativíssimas na instauração do Modernismo nas nossas letras. Seu poema “Moysés” de 1917, junta-se  aos textos prenunciadores da grande ruptura que começa a concretizar-se. No mesmo ano, data literariamente afortunada, vêm a público Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade, A cinza das horas, de Manuel Bandeira, Nós, de Guilherme de Almeida, Carrilhões, de Murilo Araújo. Anita Malfatti faz sua segunda exposição de pintura. Aquela que tanta celeuma iria causar, e que seria, inclusive, responsável , na sua repercussão, pelo mau juízo que muitos fariam da proposta modernista. Sobretudo pela violência da crítica de Monteiro Lobato, expressa no título do artigo dedicado à mostra e publicado no jornal O Estado de São Paulo, edição da noite, do dia 20 de dezembro: “Mistificação ou paranoia”.

O mesmo ano de 1917 marca também o lançamento de Juca Mulato , onde se destaca o espaço concedido  à sensibilidade da etnia afro-brasileira. Abertura propiciada pelas diretrizes do movimento, que privilegia o olhar crítico sobre a realidade do país. O poema busca evidenciar a presença mestiça na cultura nacional. Identificada a  dor ingênua do personagem-título,  com o canto, na óptica do autor,  do “ gênio triste da nossa raça e da nossa gente”. Dor de amor. Impossível. Porque tem por alvo a “filha da patroa”. 

Juca Mulato pensa: a vida era-lhe um nada....
Uns alqueires de chão: o cabo de uma enxada;
Um cavalo pigarço; uma pinga da boa;
O cafezal verdoengo; o sol quente e inclemente...

Nessa noite, porém, parece-lhe mais quente,
    o olhar indiferente
    da filha da patroa....

Vamos, Juca Mulato, estás doido?” Entretanto
tem a noite lunar arrepios de susto;
parece respirar a fronde de um arbusto,
o ar é como um bafo, a água corrente um pranto.
Tudo cria uma vida espiritual, violenta.
o ar morno lhe fala; o aroma suave o tenta...
“Que diabo!” Volve aos céus as pupilas, à toa,
e vê ,na lua, o olhar da filha da patroa...
( PICCHIA, Menotti del. Juca Mulato. 3.ed. São Paulo: Casa Editora O Livro, 1921. p. 14)

O sentimento intenso mobiliza e fragiliza o vigoroso caboclo, “forte como a peroba e livre como o vento”. E ele sofre a coita amorosa, no limite. E com ele chora a natureza solidária e consoladora. E é essa mesma natureza que o livrará e ao poema  de um trágico desfecho carregado de romantismo, como demonstra a fala atribuída à floresta antropomorfizada:

Juca Mulato olhou a floresta; os ramos, nos espaços,
Pareciam querer apertá-lo entre os braços.

“Filho da mata, vem! Não fomos nós , ó Juca,
O arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
O varejão do barco e essa lenha sequinha
Que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
Não fez , de um galho tosco, um cabo para a enxada?
( Id.,ib. p.41-2)
E Juca Mulato, conformado,

Consolou-se depois: “ O Senhor jamais erra...
Vai! Esquece a emoção que na alma tumultua.
Juca Mulato! Volta outra vez para a terra,
Procura o teu amor, numa alma irmã da tua.

Esquece calmo e forte. O destino que impera,
Um recíproco amor às almas todas deu.
Em vez de desejar o olhar que te exaspera,
Procura esse outro olhar, que te espreita e te espera,
Que há por certo um  olhar , que espera pelo teu...”
    (Id., ib. p. 45)

O livro foi acolhido com entusiasmo pelo público-leitor. E pela crítica. O longo poema, permito-me aduzir, caracteriza-se por uma visão distanciada, um dos posicionamentos ligados à presença do negro no processo literário brasileiro. Literatura sobre o negro. Configurada em textos nos quais os representantes da etnia reconhecidos como tal são referidos como “personagens”. Ou em que aspectos ligados às vivências do negro e seus descendentes no Brasil se tornam assunto ou tema. Envolve procedimentos simpáticos e solidários, mas que, implicitamente, com poucas exceções, indiciam estereótipos e reduplicam perspectiva ideológica tradicionalmente introjetada na sociedade brasileira. Inatingível a “filha da patroa”.  Por força do distanciamento social. Valoriza-se , entretanto, o mestiço, destacado o seu modo de ser sentimental, identificado com dimensões do jeito de ser brasileiro, da nossa gente, e por mobilizar a reflexão.  

O amor ainda será, na obra de Menotti del Picchia, núcleo de  Máscaras,  de 1920, versos molhados de estética simbolista, em que dialogam “Arlequim, um desejo, Pierrô, um sonho, Colombina, a mulher”. Num texto carregado de sentimentalismo. Como explicita a fala de Colombina, conciliatória, num exemplo de multiplicidade existencial, singularidade do poema dialogado:

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma
Dando a Arlequim meu corpo.... e a Pierrô minh´alma!
Quando tenho Arlequim quero Pierrô tristonho,
Pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo porque amar é variar, e em verdade
Toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente
Se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.
PICCHIA, Menotti del. Máscaras. Editora Nacional, sd. s.p.)

O escritor logo se revelará um prestigiado ativista do Modernismo nascente.  Nesse sentido, esclarecedora é  a conferência que pronuncia , no dia 15 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo, terceira noite do festival de três dias que constituiu a Semana de Arte Moderna de 1922, texto intitulado “A arte moderna” , em que explicita o  ideário artístico do movimento:

A nossa estética é de reação. Como tal, é guerreira. O termo futurista  com que erradamente a etiquetaram, aceitamo-lo porque era um cartel de desafio. Na geleira de mármore de Carrara do parnasianismo dominante, a ponta agressiva dessa proa verbal estilhaçava como um aríete. Não somos nem nunca fom”. Eu, pessoalmente abomino o dogmatismo e a liturgia da escola de Marinetti. Seu chefe é, para nós, um precursor iluminado, que veneramos como um general da grande batalha da Reforma, que alarga seu “front” em todo o mundo. No Brasil não há porém, razão lógica e social para o futurismo ortodoxo, porque o prestígio do seu passado não é de modo a tolher a liberdade de sua maneira futura. Demais, ao nosso individualismo estético, repugna a jaula de uma escola. Procuramos, cada um, atuar de acordo com  nosso temperamento, dentro da mais arrojada sinceridade. ( In: TELLES, Gilberto Mendonça. Modernismo brasileiro os “futuristas e vanguardas européias. 3.ed. r e v . e aum. Petrópolis: Vozes: Brasília: INL, 1976, p. 228.)

A história demonstra que o movimento, no processo de sua instauração, seguiu caminhos múltiplos e vários.

Paralelamente, o jornalista faz da sua coluna no Correio Paulistano o mesmo que Oswald de Andrade da que assina no Jornal  do Commercio:  espaço de divulgação das ideias renovadoras que agitavam aquele tempo brasileiro. E logo fundará, com Plínio Salgado e Cassiano Ricardo, na busca que queriam os propositores do movimento, o Verde-amarelismo e a Revolução da Anta, marcados pelo nacionalismo literário.

Em poesia, sua primeira incursão efetiva no Modernismo vem com Chuva de pedra, em 1925. Com a imagística a marcar de novo  forte presença, aliada à assunção do verso livre.

O verde-amarelismo explicita-se pleno em República dos Estados Unidos do Brasil, de 1928. Onde vários poemas ideologicamente coerentes exaltam a formação do nosso país, o patriotismo, a escola, a paisagem brasileira, além de retratar, à luz de juízos de valor, figuras históricas, como Anchieta, O Aleijadinho, Fernão Dias, Euclides da Cunha, e Rui Barbosa.

Na obra do ficcionista, muitos títulos. Nem falta à sua pena a presença do memorialista. Era consequência natural do dinamismo de sua profícua atuação cultural. E ela se corporifica em A longa viagem. De 1969-72.

Do homem público disse com precisão O Dr. Oscar no citado discurso de posse. Ali estão destacadas com percuciência  e minúcia características de seu ideário sobre temas públicos e sociais, sobre a realidade brasileira, a sua atuação como político. A ele remeto, atento ao conselho antigo do pintor Apeles, destacado por Valério Máximo e lembrado pelo Padre Manuel Bernardes: Ne sutor supra crepidam: não sapateiro  além de suas sandálias.  Limito-me a reproduzir texto em que, na Câmara Federal, o fundador do movimento “Verde-amarelo” alude a um Congresso Cultural realizado no Chile, quando um jornal indaga, em comentário  sobre seu posicionamento ideológico: 
  
 (...) nunca fui “integralista” – como poderão atestá-lo os que com todo o direito nesta Câmara o foram.
 Não sou “comunista”, porque, como o próprio Lênin, compreendo que a socialização integral é fruto de supermaturação econômica, etapa final de uma evolução material e cultural , que estabeleceria no mundo a utópica “idade do ouro”. Não se  comuniza a miséria. Socializar o precário – isso que está aí- seria, entre nós, desorganizar o início de uma débil estrutura econômica que devemos, ao contrário, amparar e estimular de todas as formas.
 Minha posição doutrinária ficou expressa em livro, hoje superado, mas continua na necessária coragem de revisar valores procurando libertar-nos do medo de esquadrinhar conceitos a que demos solenidade mística: “fascismo”, “comunismo”, “democracia”, liberdade”, “liberalismo”, “sufrágio universal”, alusões que existem e não existem, que funcionam a meio do caótico ecletismo desta hora de transmutação de um ciclo histórico, hora crucial em que o mundo que demograficamente cresceu demais mercê da ciência e da técnica, continua  metido na roupa estreita de instituições que já não funcionam com muita fome, pouca comida e violentas contradições sociais entre a miséria que mendiga e o plutocrata que esbanja. 
 

O antecessor de Mennotti del Picchia é outro escritor de ação multifacetada: o baiano Xavier Marques, Francisco Xavier Marques. 
 
Sua literatura envolve representação do regionalismo baiano de marcada especificidade. Em que pese a complexidade que envolve o conceito do primeiro termo desse sintagma classificatório.  Exemplo de autodidata determinado. Que da escolaridade dos primeiros estudos de latim, francês e português, orientados pelo Cônego Bernardino de Sousa, ascende à condição de professor, de jornalista, poeta, ensaísta, biógrafo, ficcionista. Alicerçado no trabalho, como condição para dedicar-se aos estudos.  Foi funcionário público, e chegou, na vida política à condição de deputado federal. Mas é sobretudo a sua pena de escritor que ilumina mais intensamente a sua representatividade e também o historiciza no espaço das letras. Destacada a vinculação à Bahia, notadamente ao imaginário peculiar de quem convive com a Ilha de Itaparica, onde nasceu.  É ver a novela “A noiva e o golfinho”, marcada de mitificação , a partir de dimensões eróticas e fantásticas. E o texto que o rigor impiedoso de Agripino Grieco admitiu caracterizar-se por dois terços de obra-prima: “Jana e Joel”, ambientada na Ilha dos Frades, na Baía de Todos os Santos, e no bairro soteorpolitano de Calçada. Ambiência insular valorizada, em contraste com a realidade urbana. Numa história de amor , destacada a vida simples dos pescadores. De par com o caráter documental e a cuidada linguagem de tom parnasiano, um cheiro antigo de leite romântico, que evola mais notadamente dos seus romances históricos, Pindorama, centrado na época do descobrimento, e Sargento Pedro, em que se destaca a Independência. Em certo sentido, as histórias curtas antecipam a amplitude que será conferida à miticidade e à folclorização da ilha pela obra de João Ubaldo Ribeiro. Como se depreende, tem-se, pelo menos a coincidência de uma experiência  em comum: afinal, cada um vive, a seu modo,  a realidade insular  que o destino lhe reserva nas andanças da vida, seja vivida, seja literária.    

Dinamismo e ação multifária marcam intensamente a vida do fundador o paraense Herculano Marques Inglês de Sousa.

A ele se deve a produção de obras literárias que a historiografia legitima e situa entre as manifestações relevantes da presença do Realismo-Naturalismo  na nossa literatura. A ponto de disputar com Aluísio Azevedo, a  condição de autor da obra-marco do estilo epocal no Brasil. Pelo menos na leitura crítica de Lúcia Miguel Pereira, que, nessa direção, destaca O Coronel Sangrado, de 1877. O mulato, do escritor maranhense, é de 1881. Sua inscrição plena no estilo afirma-se consensualmente, como é consabido, com  O missionário, lançado em 1888, na esteira da tradição realista-naturalista, de linhagem francesa . Pano de fundo, a influência de Émile Zola e de  Eça de Queirós. O romance singulariza-se, na obra do autor, por privilegiar o indivíduo, e não grupos humanos, como nos demais que escreveu. O personagem nuclear é um religioso, o Padre Antônio. Que “farto das beatas de lenço branco na cabeça de andar miúdo e língua viperina; cansado de ensinar o catecismo às crianças; enjoado das ladainhas”, resolve enfrentar as dificuldades da catequese na distante e difícil Munduracânia. E que, a meio do caminho é surpreendido pela força da atração feminina. E cede. Um personagem em luta contra o determinismo biológico e social e que acaba vencido. Essa a tese depreendida da trama. Que perde sustentabilidade, na medida em que,   na verdade, o que o move, na direção da catequese de índios bravios não é o propósito religioso. É o desejo de se tornar uma celebridade. Que se pretendia , no mínimo, tornar-se um São Francisco Xavier brasileiro. Orgulho, a mola mestra do seu comportamento. Ao fim e ao cabo, um sacerdote sem vocação, como o Pe. Amaro do romance eciano. O que também dilui a configuração de anticlericalismo no romance. Mais caracterizador de um estudo psicológico. História de um pescador e O Cacaulista, completam a sua produção no gênero, centrada na vida amazonense, de que, segundo Sérgio Buarque de Hollanda, é o primeiro a tratar literariamente.

A fortuna crítica dos romances ensombrece a significação dos seus  Contos amazônicos, recentemente relançados. Povoados de tapuias,violência, cabanagem, vivências de tempos rudes, lendas locais, e a paisagem. Em histórias a que não faltam ritmo e suspense. Marcadas por descrições minuciosas de ambiente, caracterização detalhada de personagens, acentuado o determinismo social. Na linguagem, a fluência  do narrador seguro.

De par com a atividade de escritor, Herculano Marques Inglês de Sousa,  destaca-se por sua dedicação ao jornalismo e à política, à advocacia e ainda ao magistério.  É fundador jornais, como o Diário de Santos e a Tribuna Liberal, e revistas, como A Revista Nacional de Ciências, Artes e Letras e a Ilustração Paulista; membro do Partido Liberal,  presidente do Espírito Santo.  Abandonada a política, a conselho médico, não perde o dinamismo e, com residência em São Paulo, ei-lo fundador do Banco de Melhoramentos de São Paulo, um ano antes da publicação de O missionário. No ano seguinte, abre escritório de advocacia no Rio de Janeiro, para um começo de três anos difíceis. Depois, é a alta reputação conquistada no exercício da profissão. 

Na  Academia, é o redator do projeto dos Estatutos que a regem e seu primeiro tesoureiro. Naqueles tempos pioneiros em que aos acadêmicos cabia um estipêndio mensal. Vale lembrar, a propósito do seu desempenho,  trecho de sua carta ao presidente Machado de Assis, quando deixa o cargo em 1907, texto citado pelo acadêmico Alberto Venâncio Filho, em conferência sobre os juristas pronunciada no âmbito do ciclo de conferências comemorativas do 1° centenário da Instituição:

Deu-me algum trabalho e sobretudo muita despesa, porque os acadêmicos, como literatos  em geral, salvo honrosas exceções, não gostam de pagar. E eu tinha  que fazer face a uma despesa anual de cerca de um conto de réis com as mensalidades recebidas de dez a doze sócios a cinco mil réis para cada um, e muitas irregulares” ( VENÂNCIO FILHO, Alberto. Os juristas. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS.Cem anos de cultura brasileira.- Ciclo de conferências do I Centenário da ABL. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2002. p. 106). 
 
 A  tradição e a excelência da adminsitração não consagraram a prática. Felizmente
  

O jurista deixou marcas de sua alta capacidade no livro de 1898, intitulado Títulos ao portador e no projeto de Código Comercial, ainda que não aprovado .

Ao falecer, em 6 de setembro de 1918, é conduzido à última morada , no cemitério de São João Batista, pelo acompanhamento que o jornal O País registra como um dos maiores de que se tinha memória até então. O fato dá a medida de sua presença e de sua respeitabilidade pública, num tempo de fundas modificações na sociedade brasileira: Segundo Reinado e começos de República.

Deve-se à sensibilidade de Inglês de Sousa a indicação do patrono da Cadeira, o responsável por um dos textos fundadores da nossa literatura. Falo de Manuel Antônio de Almeida, o autor das Memórias de um sargento de milícias, o diretor da Tipografia Nacional cuja sensibilidade  estimulou um certo aprendiz de tipógrafo, que surpreendera lendo durante o expediente,a continuar a prática da saudável transgressão, com saudáveis conseqüências:  O jovem funcionário chamava-se Joaquim Maria Machado de Assis.

O romance, único livro dado a público pelo autor, emerge inicialmente, como é consabido, sob a forma de folhetim,  publicado de 27 de junho de 1852 a 31 de julho do ano seguinte, no suplemento chamado A Pacotilha, lançado também em 1852, pelo importante jornal domingueiro o Correio Mercantil, sediado no Rio de Janeiro.

A estória, vale reavivar a memória das nossas coisas literárias, teve boa aceitação. Do público. E, com algumas modificações textuais e na ordem dos capítulos, ganhou roupagem de livro. Em dois volumes, sintomaticamente assinados por “Um brasileiro”: o primeiro em 1854 e o segundo no ano seguinte. 

O brasileiro que assinava o texto era, àquele tempo, um jovem de vinte e um anos: nascera em 1831, na cidade do Rio de Janeiro. De família modesta. Cursara preparatórios e tinha-se formado em medicina, carreira sem muito prestígio na realidade brasileira de então. Culminou por abandonar a profissão. Além do folhetim que fazia para o jornal, onde se empregou como forma de subsistência, escreveu poemas, não muito felizes, crônicas, dedicou-se à tradução, exerceu a crítica literária e chegou a ser Diretor da Academia Imperial de Música e Ópera Nacional. Faleceu no navio Hermes, em que viajava para Campos, a cidade fluminense.

O romance, lembro, apenas como motivação para a leitura ou  releitura,  centraliza-se nas deliciosas aventuras e vicissitudes vividas por dois personagens, um meirinho conhecido como Leonardo - Pataca e, em plano destacado, seu filho, também Leonardo, este desde a infância até a idade adulta. No tempo do rei, dom João VI. Nas terras cariocas. No curso da estória, o convívio com a realidade popular de então: seus tipos, suas festas, procissões, súcias, fados, danças, as relações familiares, os pequenos jogos de influência. À luz desses aspectos da vida provinciana , uma divertida visão de mundo, relativizadora dos valores preconizados pela classe dominante e , nessa direção, diversa da tensão maniqueísta que então caracterizava as manifestações literárias.

Um texto de forte originalidade , diante da incipiente ficção brasileira do tempo.

A singularidade da obra presentifica -se basicamente em três dimensões  que se integram: a configuração dos personagens, a internalização do social, a técnica que evidencia.

Imersos numa atmosfera de espontaneidade e humor, os personagens tendem para a tipificação e para o caricatural.

Leonardo pai, por exemplo, é apresentado , entre outros traços, como uma rotunda e gordíssima personagem, de cabelos brancos e carão vermelho”, sempre envolvido em paixões devastadoras e avassaladoras que terminam por coloca-lo em situações ridículas e desconfortantes.

O filho, decorrência endiabrada de “uma pisadela e um beliscão”, herda do pai a fraqueza sentimentaloide, envolve-se em complicações ainda maiores, embora todas superáveis.

Ao redor de ambos, movimentam-se personagens-tipo, complementadores  da pequena-burguesia  que se representa no romance. Todos vivem o pequeno cotidiano da província, entre as festas, os amores, os conflitos. E carecem, o que é comum na prosa ficcional da época, de profundidade psicológica. Ganham, entretanto, relevância, ao serem construídos sobretudo em termos do que representam como categoria geral, situados basicamente em função do lugar social que ocupam, na maioria identificados pela profissão , indiciadora do modus vivendi da cidade, no âmbito do segmento da comunidade privilegiado ano romance. Por força dessa construção e da dinâmica da narrativa, revestem-se de significação peculiar e altamente representativa, em termos da relação que se estabelece entre o romance a realidade brasileira a que se vincula.

No plano de superfície, destacam-se no romance o anti-heroísmo do protagonista e a presença mimética do referente, reforço da verossimilhança , prática que se tornará comum, ao longo da narrativa brasileira do século XIX e ainda, hiperdimensionada, em inúmeros textos do século seguinte e ainda no atual .

Por força desses dois aspectos, fixou-se, durante longo tempo, na tradição da crítica brasileira, a tentadora vinculação do texto à narrativa picaresca e a valorização da dimensão documentária do romance, esta última base para considerá-lo precursor do realismo, como estilo de época.

Entendo , com Antonio Candido, que não são esses os pontos de relevância valorativa do romance. Leonardo filho não é um pícaro, sua história não é um romance picaresco, embora ambos, pai e filho, apresentem alguns pontos em comum com aquelas modalidades de personagem e de narrativa, fixadas pela tradição literária europeia,como demonstra com percuciência e professor e crítico brasileiro, trata-se do “primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo de uma tradição quase folclórica e correspondendo , mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca do seu tempo no Brasil”.
(Cf. CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, 1970, (8): 116).

Por força da gratuidade que o caracteriza, o anti-herói das Memórias , assim situado , esclarece ainda o mesmo estudioso, vincula-se, sobretudo, às histórias populares, de grande sucesso, e a uma tendência ao cômico, ao satírico e ao caricatural, que tinha forte presença no espaço cultural brasileiro coetâneo, seja na poesia, no teatro ou no desenho, por força da influência francesa, em cuja imprensa proliferou entre 1830 e 1850. (Cf. CANDIDO, Antonio. Op. Cit. p.116 e segts)

Acrescento que Leonardo não é o malandro brasileiramente carregado de valentia. Sua malandrice se situa mais no convívio com a astúcia, com o amoralismo inofensivo. Um malandro na sua dimensão divertida, suavemente marginal. Afinal, a história termina com um final feliz. E não abriga maiores tragédias.

Nesse sentido, o romance de Manuel Antonio de Almeida é o primeiro a retratar muito do que se concretizaria como marcas do carioca, ou do carioquismo, se o neologismo me é permitido: o humor, a  malandrice gozadora, sem consequências drásticas, o machismo, o “jeitinho”, a sedução como arma, a alegria de viver.

Representa-se ainda, na profundidade do texto- sigo a leitura de Antonio Candido - a dialética da ordem e da desordem, que comanda a movimentação e a configuração dos personagens em ação.( cf. CANDIDO, Antonio. Id. Ib. p. 121 e segts. E SCHWARTZ, Roberto. Pressupostos, salvo engano, de “Dialética da malandragem”. In: _____. Que hosras são? Ensaios. São Paulo: Cia. Das Letras, 1987. p. 131,).

No plano superficial da trama, a opção do autor  privilegia a pequeno - burguesia metonimicamente e caricaturadamente caracterizada. Burguesia e nobreza estão ausentes da história. Decaídas e criminosos também. Os negros, pouquíssimos, apenas atuam como figurantes eventuais: são as baianas e as crias de Dona Maria. Em ação, apenas um pardo, o desordeiro Juca. O espaço  da ação também é limitado. Reduz-se às áreas atualmente centrais do Rio de Janeiro, naquela época núcleo da vida citadina local. Esses procedimentos relativizam  a apontada fidelidade ao real.

O posicionamento do autor diante da condição escrava, praticamente ausente da narrativa, acrescento, reforça essa relativização. Tanto mais que os negros eram maioria na população daquele tempo.
 
A dimensão documental presentificada no texto assume alguma pertinência , segundo entendo, na descrição das festas populares, onde o cronista parece sobrepor-se ao romancista. A natureza dos relatos de Manuel Antônio de Almeida é tal, que o seu contemporâneo Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A moreninha, chegou a considerar os capítulos das Memórias, como artigos do jornal.

Por outro lado, o texto parece reproduzir, e no caso com maior fidelidade e com acentuada perspectiva irônica, o padrão social de moralidade dominante, que condenava as “súcias” e as “festas”, a desocupação. Nem falta o controle policialesco e arbitrário do temido Major Vidigal. Curiosamente, depreende-se da história uma preocupação moralizante, na medida em que todos os atos de ruptura são situados em sua dimensão transgressora e passíveis de punição. Um bom exemplo são as detenções e humilhações vividas pelo Leonardo, quando é surpreendido na consulta ao feiticeiro e mesmo na festa condenável pelo chefe de polícia. Ainda que as disfarce o efeito humorístico.

Nesse percurso, o autor intensifica o retrato dos tipos e dos usos, sobretudo aqueles que se marcam de pitoresca peculiaridade. E, de certa forma, seu texto deixa perceber traços de carnavalização , no sentido bakhtiniano do termo.

Assinalem-se ainda, no romance, o predomínio do lúdico, a complacência relativizadora da lógica das categorias de bem e mal, virtude e vício, a excentricidade de certos procedimentos do personagem  nuclear, marcado por elementos antitéticos, tais como nobreza e abjeção, afirmação e negação, trágico e cômico, ainda que, nesse último caso, em escala bem menor. Acrescente-se o tratamento do sentimento amoroso, dividido entre a desmitificação ridicularizadora da primeira parte do livro e o tom sério de várias passagens da segunda.

As Memórias envolveriam , na verdade, a partir de afirmativa de Mário de Andrade, com base em testemunho de Melo Moraes, a transposição literária de recordações de um sargento veterano contadas por ele ao escritor (Cf. ANDRADE, Mário. “Introdução” In: ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Martins, 1952.p. 9.). Trata-se do português Antonio César Ramos, que foi diretor do escritório do Correio Mercantil e do Diário do Rio. Consta que foi soldado na Guerra Cisplatina, em 1817, integrado ao Regimento de Bragança, e chegou, posteriormente, ainda no Brasil - Colônia, a sargento de milícias. Seu comandante, nessa instância, foi nada menos do que o major Vidigal, durante muitos anos senhor todo-poderoso da polícia colonial nas terras cariocas, Ao dar baixa Antônio César Ramos empregou-se naqueles jornais e, amigo do jovem companheiro, passava-lhes reminiscências do seu tempo de caserna. A partir desse material, Manuel Antonio de Almeida teria composto suas histórias. Esse dado ajuda a esclarecer a ambigüidade do título, uma vez que o protagonista só ingressa nas milícias na proximidade do final da estória. A maioria de suas aventuras se passa anteriormente.

O romance, em termos de técnica, talvez por força da condição de folhetim, com capítulos publicados semanalmente, acabou constituindo um conjunto dinâmico de várias micronarrativas. A unidade é assegurada basicamente pela estória-eixo do Leonardo Filho. Em função dela, alteram-se descrições - narrações de aspectos e fatos característicos da vida carioca.

Em termos de comportamento, os  personagens deixam perceber , ainda que de modo estereotipado, traços que passaram a se freqüentemente identificados como marcas típicas do brasileiro, em especial do natural do Rio de Janeiro: a sensualidade acendrada, o gosto do ócio, a astúcia, a agilidade da inteligência,a simpatia, o bom-humor. De certa forma, o romance sintetiza elementos configuradores da identidade carioca comunitária e cultural.

O texto faz-se de narrativas paralelas, mas interligadas, que alternam descrições e ajuizamentos do narrador. O procedimento realiza-se num jogo que assegura o ritmo da obra e mantém o interesse do leitor. Apresenta descrições de marcada plasticidade, linguagem gestual , coloquialismo no discurso dos personagens. E o humor domina, com algum travo de acidez e ironia cruel, a atmosfera da história, atitude estranha ao espírito do tempo, A carga humorística emerge da ação e de situações do discurso. O humor verbal é conseguido por meio de recursos à antífrase e ao duplo-sentido.

A linguagem coloquial traz para a literatura o uso popular, descontraído, da língua portuguesa do Brasil, logo preocupação de outros escritores.

Todos esses elementos contribuem para a construção da estória de um anti-herói assumido, o que contrasta com a tendência da literatura da época, no país, centrada na exaltação do heroísmo, da fantasia, do sentimentalismo, do subjetivismo, da imaginação criadora e da mitificação. Por outros traços, porém, mantém aspectos que  o vinculam ao ideário romântico. Entre eles, destaca-se a centralização na dimensão individual dos dois Leonardos, cujas estórias correm paralelas, a exaltação, com seriedade em determinados momentos, do sentimento amoroso, capaz de provocar mudanças significativas no comportamento dos personagens. Por outro lado, como assinala a saudosa professora e crítica brasileira Samira Nahid de Mesquita, configura-se no texto um existência dialética de aspiração ao sublime, de nostalgia do absoluto, como o apelo do circunstancial, do histórico e do material (Cf. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Notas e orientação didática por Samira Nahid de Mesquita. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 85) Mesmo a preocupação com realismo de detalhe é marca romântica. E  aparente objetividade da obra não esconde a visão subjetiva do narrador, ideologicamente reduplicadora.

Não se trata de um texto antecipador do Realismo, como estilo epocal, mas de um romance romântico, de marcada peculiaridade. Um produto cultural raro, na medida em que, de forma pioneira, revela muito da sociedade e do caráter brasileiro em formação.

Assim situado, o texto difere do romantismo sentimentalizante dos precursores O filho do pescador, de Teixeira e Sousa, lançado em 1843 e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844. Interrompe o veio que será predominante na prosa de José de Alencar e Bernardo Guimarães, entre outros, cujas obras marcam a ficção da época.

Converte-se, entretanto, em texto pioneiro em termos de  centramento na matéria de memória, motivo que ganhará boa fortuna na arte literária brasileira, com altos exemplos posteriores como as Memória póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis, São Bernardo, de Graciliano Ramos , Memórias sentimentais de João Miramar , de Oswald de Andrade,  e Grande sertão: veredas , de Guimarães Rosa. 
 
As observações sobre o romance, cumpre esclarecer, emerge do diálogo com os estudos citados e ainda com os seguintes textos integrantes da fortuna crítica do autor: MONTELLO, Josué. Manuel Antônio de Almeida. In: COUTINHO,  Afrânio. ( dir.) A Literatura no Brasil. Romantismo. 2.ed. Rio de Janeiro: Editorial Sul-Americana, 1969, v. II, p. 325-31; GALVÃO, Walnice Nogueira. No tempo do rei. In: _____. Saco de gatos. Ensaios críticos. São Paulo: Duas Cdiades/ Secretaria de Cultura, ciência e Tecnologia, 1962. p 27-31; MERQUIOR< José Guilherme. A literatura dos anos 50-60: Costumismo, Ultra-romantismo, José de Alencar. In: -----. De Anchieta a Euclides. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977. p. 70-73; REBELO, Marques. Vida e obra de Manuel Antônio de Almeida. 2.ed. r e v. São Paulo: Martins, 1963; GOMES, Eugênio. Manuel Antônio de Almeida. In: Aspectos do romance brasileiro. Salvador: Livraria Progresso, 1958; NEGRÃO, Maria José da Trindade.(org.) Manuel Antônio de Almeida. Textos escolhidos. Rio de Janeiro: Agir, Nossos Clássicos, 1966.\)

 Senhoras Acadêmicas, Senhores Acadêmicos, Senhoras e Senhores:

Oscar Dias Corrêa, Menotti del Picchia , Xavier Marques e Inglês de Sousa  aliam o exercício do magistério e da prática literária à militância política e à advocacia. Minha tribuna é apenas a cátedra.  Meu parlamento, a sala de aula. Congresso, o que trata de língua e literatura.  Sou, em primeira e orgulhosa instância, professor. Em paralelo, poeta menor, confortável crítico do texto alheio, e, eventualmente, contador de histórias. E, vez por outra, animador cultural. Sem falsa modéstia, com alguma galhardia. Verdade que, em  certo dia, em meio ao entusiasmo da ação docente, uma jovem frase afiada degolou os resquícios da tardia ilusão de permanência e juventude: - minha avó foi sua aluna... – Aposentei-me. Mas não consegui evitar as recaídas. Frequentes. No âmbito do elo comum que une os ocupantes da Cadeira: a intimidade com a literatura, o culto da nossa língua portuguesa.
  
Essa língua ameaçada. Pela despreocupação com o conhecimento e pela globalização. Língua mátria, em suas variantes que nos singularizam, sem nos desunir Posto que unos somos na nossa diversidade multicultural.  Língua de cultura.

Nesse tempo agora,  de crise e de questionamentos que acompanham os estudos da língua portuguesa e da literatura no Brasil,  permito-me, venia concessa, embalado pela representatividade do rito, trazer a esta festa acadêmica um convite à reflexão.

Bem houveram os fundadores,  ao fixarem no artigo primeiro e cláusula pétrea do Estatuto, a partir do projeto de Inglês de Sousa, o culto de ambas como  preocupação precípua. Culto e defesa. Com a consciência de sacerdotes da palavra e do conhecimento. Iluminados pela tradição aberta ao novo. Abertura que revivifica e atualiza.  E que, seguramente, lhe garante a permanência da aura, no reconhecimento da gente do Brasil que se acostumou a reverenciá-la.

Abro aspas para Nélida Piñon: “ Nada mais fez a Academia Brasileira de Letras  (...) desde a sua fundação, que honrar a aventura do espírito sob o vertiginoso impulso do idioma. Sempre soubemos que não há pátria sem a defesa da língua.”

Palavras  que subscrevo. Na crença de que a vida é uma partilha de discursos. Na medida em que a fala de cada um é iluminada por outros discursos, que, ao longo da existência, vão constituindo o nosso domínio da língua que falamos. Língua, forma de organizar o mundo e de tornar comum a outrem o que apreendemos. Língua, elo fulcral da integração entre passado, presente e futuro, na dinâmica que preside o processo instaurador da Cultura. Núcleo de nossa competência lingüística, que integrada à  competência comunicativa e à competência cognitiva, possibilita ao indivíduo a condição de cidadão.. Não tenhamos dúvidas: neste amanhecer de um século de progresso cada vez mais acelerado, a competência emerge como o único aval seguro da sobrevivência digna. E competência implica um saber e um fazer. E bem sabido e bem feito. A realidade mundializada não abrirá espaço para improvisações e despreparos. Quem sobreviver, verá. Cumpre, pois, manter acesa a chama do fogo inaugurado, também a duras penas, pelo mitológico Prometeu, o Previdente. Com mais rigor e cuidado, que os deuses são outros e bem mais sutis. Afinal, integramos a grei dos especialistas do pensar, promeiteicamente cultores do extraordinário da vida.

A língua é também suporte da literatura, arte da palavra.

O texto literário constitui, sabemos todos,  uma forma específica de comunicação que evidencia um uso especial do discurso , posto a serviço da criação artística reveladora. Entenda-se revelação nesses espaços semânticos, como configuração mimética do real.

O que me parece decisivo, -como garantia  motivadora do texto literário e de sua validade como fator de formação e de ampliação da competência cognitiva, da competência linguística e mesmo da competência taxionômica - é a compreensão de sua significação e importância para a nossa condição de  seres humanos, de seres sociais e para a Cultura em que nos inserimos.

Impregnado ou não da ideologia dominante , o texto de literatura leva o leitor a questionar a realidade social que o cerca , propiciando abertura para a transformação enriquecedora ou até para a assunção consciente de identidades.  A literatura continua sendo um dos meios mais eficazes de que se vale o ser humano para conhecer a si mesmo e à realidade.
É sempre útil lembrar que o escritor, o poeta “falam pela cidade”.

O escritor é poderosa testemunha do seu tempo e de sua gente. E se nem todos leem, quem lê converte-se em voz ativa na formação da opinião pública. E leva outros a lerem.

A História – e ela insiste em existir – tem provado que a perspectiva humanística da realidade é mais eficaz do que a objetividade pragmática cuja eficácia só se efetiva se a ela se associa. O texto literário possibilita à excelência tal perspectiva. Manter o seu lugar comunitário é uma questão de sobrevivência cultural.

É preciso insistir ainda que só há literatura onde existe um povo, e, consequentemente, o desenvolvimento de uma Cultura. A matéria literária é cultural. Uma das mais relevantes funções do artista, afirma T. Hall, é ajudar o leigo a estruturar o seu universo cultural.

E não nos esqueçamos de que o texto literário envolve, como se evidencia nas considerações sobre os que me antecederam na Cadeira 28, dimensões históricas e ideológicas.   E vai além: sendo a obra de arte literária matéria ficcional, a realidade nela revelada não se confunde com a realidade socialmente dada, mas é capaz de iluminá-la na direção de uma apreensão mais profunda.

A linguage literária, assinala Maurice-Jean-Lefbve, abre-se sobre o mundo e põe diante dele “uma questão que não é daquelas que podem ser respondidas pela ciência, pela moral ou pela sociologia (...) ela interroga o homem sobre sua obsessão de uma adequação perfeita ao ser do mundo. Não é uma solução, uma fuga para para fora da linguagem e do humano: ela incarna uma nostalgia”. ( LEFBVE, Maurice – Jean. Structure du discours de la poésie et du récit. Neuchâtel: Éditions de la Baconnière, 1971. p. 28-9) .

Já se percebe – e importa reiterar-  a  importância da leitura. Uma prática que se impõe como fonte de ampliação e atualização dos saberes e fazeres que constituem a plenitude das nossas competências. Para além do suporte em que se inscreve o texto. Seja a página do jornal ou da revista, a tela do computador, e ainda, conviva maior, o livro. E assumo a afirmação, o livro de literatura, nutriente poderoso do nosso imaginário.

E assim me posiciono, desde este primeiro momento, porque me proponho efetivamente, juntar forças, nesta Casa de Letras, a partir da preocupação estatutária primeira.

Senhoras acadêmicas, senhores acadêmicos, minhas amigas, meus amigos:

Felicidade é  memória. Seja-me permitido deixar aflorar a subjetividade, para lhes falar de um menino e sua ilha,  introjetada, em seus olhos antigos, na sua clara geografia.
 
Do menino, como muitos que tiveram e têm o privilégio de viver numa ilha - paraíso. Conhecida como Pérola da Guanabara. Onde a via flui ao ritmo das marés. E as velhas barcas congregavam conversas e estreitavam afetos. Ali a vivência em que se lhe forjavam o imaginário e a sensibildiade. Alicerçada no Jardim de Infância da Escola Paroquial , à frente o carinho de Dona Rosinha, a burilar as primeiras letras, a orientar leitura, a revelar o maravilhoso mundo da escrita. Tibicuera, de Érico Veríssimo, Cazuza, de Viriato Correia, e muitas, muitas histórias-em-quadrinhos.

Esse menino ainda acaba na Academia Brasileira de Letras! Assim diziam os professores da Escola Joaquim Manuel de Macedo, onde fez o curso primário. E repetiam os pescadores e a conversa solta e livre do Viracanto. 

E o menino ouvia e não sabia bem de que se tratava, na inocência dos seus verdes anos. Conhecia, isto sim, que era alguma coisa de muita importância. No tecido das lembranças o sorriso cúmplice e  gratificado da queridíssima e afetuosíssima Professora Gisela Maia Pires de Carvalho.

Lá fora,  a figura indecifrável de Getúlio Vargas, o Pai dos Pobres, seguia metonimizando a vida do país. Galvanizadora, aurificada pela condicionadora presença imposta às mentes e aos corações. O tempo da inocência impedia a claridade do juízo crítico.  A ambigüidade sinuosa do poder inebriava as massas e disfarçava as duras sombras do regime. E o menino e seus colegas, mobilizados pelas professoras, seguiam celebrando,  nas escolas, a mitificação. Como a maioria do povo brasileiro. Fraturada diante da queda do ditador amado e da descoberta deslumbrada de um vento novo e melhor chamado democracia! E mudaram as festas cívicas e as comemorações. Sub-reptícia, a imagem do caudilho permanecia, plena de liderança.
  
Certo dia, a notícia. O pai não voltaria do hospital. Voltou. Na lancha especialmente contratada. Levaram-no para o derradeiro repouso sob as frondosas árvores do cemitério – jardim. Partia, inexoravelmente, dos espaços desta vida. Cedo. É sempre cedo para os pais partirem. O menino chorou para dentro. Sem lágrimas. Como o pai gostava. E a mãe assumiu a família. Com sacrifício e determinação. D. Maria, mãe-coragem. Lúcida, na sua convicção da relevância do conhecimento. Lucidez que ilumina sua decisão de assegurar a qualquer sacrifício, a educação dos quatro filhos menores.   E  de matricular o menino no Internato do Colégio Pedro II, padrão da educação brasileira,  fundamental na sua formação. 

Ali foi aluno gratuito, ali foi inspetor, ali descobriu a magia de ser professor. Desde os  12 anos, em aulas particulares aos colegas das turmas anteriores. O lendário casarão amarelo de São Cristóvão! onde lia diariamente, na parede no pátio interno que congregava as turmas várias vezes por dia, a frase – estímulo, adaptação de versos de Vergílio, poderosa, na língua com que o familiarizam as aulas de latim e a vivência de coroinha da Igreja Matriz da sua Ilha: Macte animo, generose puer! Sic itur ad astra! Bravo, jovem magnânimo! Assim se vai aos astros! Era preciso seguir o rumo das estrelas, o menino sabia. Como garantia de sobrevivência, como assunção prazerosa do saber a vida. A intuição antecipava a lição aristotélica que logo aprenderia nas aulas de Tarcísio Padilha, seu mestre de filosofia: “Todos os seres humanos desejam naturalmente conhecer”.  Conhecer a si mesmo; conhecer o mundo; conhecer o outro, e a sua relação como o outro e com o mundo: conhecer a sua circunstância.

O velho Pedro II! Onde se sedimentaram amizades – irmãs para toda a vida, e onde  também despontaram suas primeiras grandes admirações: Olmar Guterres da Silveira, o professor exemplar, o orientador, que lhe apontou o caminho da Faculdade de Letras; Afrânio Coutinho, primeiro deslumbramento diante da literatura brasileira, mestre e modelo; Leônidas Sobrino Porto, que lhe revelou  o encantamento da língua e da literatura de Espanha. E o menino declamava, fervoroso,  nas reuniões do Grêmio, que ajudara a fundar, com seus irmãos do internato, os versos canhestros, mas mobilizadores, atribuídos a Castro Alves e que, certamente, ele nunca assinou: “O que é belo é sempre novo/ é ver o filho do povo/saber lutar e subir/ para o Panteão da História/para conquistar o porvir”. Verdade que se ouviam também as “Vozes d´África” e os versos de “O navio negreiro”, compensatórias.  No pátio interno, a frase de Vírgílio incentivava. E a biblioteca oxigenava o processo de formação.

E dizia a ironia simpática dos colegas, a cada boletim com as notas mensais: assim você acaba na Academia Brasileira de Letras!  E o menino descobriu então, que, entre os fundadores daquela Academia, estava o criador de uma das paixões que povoavam o seu imaginário, Capitu, a moça dos olhos de água.  E conheceu a relevância da instituição anunciada.

E veio a  Faculdade. E nela, as lições de Celso Cunha, Alceu Amoroso Lima, Thiers Martins Moreira, José Carlos Lisboa, Manuel Bandeira, Ernesto de Faria, Roberto Alvim Correa.  Iluminadores, a abrir perspectivas e oportunidades. A concretizar aprofundamentos na direção da lição aristotélica aprendida. Ao mesmo tempo em que ofertavam ao jovem discípulo amplos e generosos espaços de amizade.

Getúlio volta, embalado pelo legitimidade do voto. Eleições: participação, Diretório, União de Estudantes. Politizações. E Vargas sai da vida para entrar na história. O que vem depois, sabemos todos.

A esse tempo, o menino cresceu, tornou-se em homem. Mas desacreditou os  versos do poeta, de Carlos Drummond de Andrade: não perdeu o sonho. 

E, eis que de repente ela, a Academia, ganha concretude e realidade. Ali, ao lado da Faculdade de Letras, emerge, entre as sombras do mito, o Petit Trianon. Era o seu primeiro deslumbramento. A aproximação, lenta, cuidadosa. A começar pela freqüência assídua aos cursos promovidos pelo mítico Presidente Austregésilo de  Athayde, que o menino conhecia  como o tio devotado do seu colega petrossecundense, o hoje diplomata José Constâncio Austregésilo de Athayde, primo da honorável  Laura Sandroni. Cursos de romance, de conto,de poesia, de crítica. Era o começo. Isento de qualquer expectativa. Aprendizagem. No percurso, família, livros. E os filhos. Três. O caçula partiu. Cedo como partira o pai. Tão claro, tão rico de esperança, a palavra-energia nos seus textos jovens, levemente anunciados, seu verbo florindo liberdade, acalentada à seiva dos seus dezoito anos.  Seja-me permitido recordar  seu dia luminoso, agasalhado na saudade, órfã no deserto, conviva de uma sede sem oásis. Secas, as lágrimas, por muito tempo incontidas. E a cicatriz que, por vezes, ressangra. Mas a fé na plenitude luminosa  do Reencontro.  E a certreza de sua alegria diante destas galas.

Nas esquinas da Ilha, as vozes, mais seguras, diante do percurso universitário, e dos primeiros e canhestros ensaios na arte do verso- de amor e paixão, naturalmente- unanimizavam-se: desse jeito, o filho de D. Maria acaba mesmo na Academia.
 
Não era um equívoco: era um vaticínio. Inescrutáveis os mistérios das palavras premonitórias!  O menino antigo chegou. Trazido pelo estímulo das amizades com que a vida o presenteou ao longo do percurso. Chegou e aqui está. Tornado em homem. De letras.   Aqui está. Aqui estou. Consciente da honra e da responsabilidade de ocupar a Cadeira 28. E se aqui me encontro, devo, como tantos outros brasileiros como eu, à escola pública e gratuita, fundamental, ontem como hoje como garantia do direito de todos à educação.
          
E agradeço. A Deus e à Senhora Maior, em testemunho de Fé. Pela graça desta consagração, enriquecida pela presença de minha mãe, na lucidez dos seus 97 anos; aos meus filhos, Domício Júnior e Adriano amigos, cúmplices, a eles, por serem como têm sido.Desde sempre. A essa belamente maravilhosa – e corajosa - Rejane, companheira de retomada do Amor em tempo de madureza e em plenitude depurada,  na perigosa mas felizmente  vigorosa reta dos sessenta.
 
Aos meus professores da gloriosa Faculdade Nacional de Filosofia, minha gratidão e a homenagem do meu reconhecimento. Em especial à Mestríssima, iluminada, aqui presente, que segue fiel à sua vocação de formadora de gerações de docentes, e que honrou o seu sempre aluno com o prefácio consagrador do livro de estreia: a professora Cleonice Berardinelli.

Gratíssimo aos muitos amigos e amigas, companheiros de navegação nas águas desse rio, em permanente fluir que, em muitos momentos, me ajudaram na ultrapassagem das pedras do percurso, e a resistir, e , em certos momentos, a reexistir.

Agradeço, in memoriam ao meu saudosíssimo amigo Adonias Filho, integrante desta Casa, o primeiro que me fez vislumbrar a mosca, não azul , como a do poema machadiano, mas verde, asas de ouro antigo e de esperança, que, de repente, não mais que de repente, passou a voar e revoar em torno da  frase-vaticínio. E Mestre  Josué Montello, professor de Academia e de Machado de Assis.

Agradeço aos prezados acadêmicos e acadêmicas por me permitirem concretizar o sonho. Tenaz e pacientemente cultivado. Sem a preocupação de desvendar o mistério do que se vislumbrava nas asas do inseto, aquele. Mobilizador, Insistente, no instante em que Arnaldo Niskier, ao tempo de sua presidência, entronizou-me nas conferências da Sala José de Alencar, coordenadas pelo entusiasmo de Antônio Olinto. Tempo que propiciou o cultivo de novos amigos e ampliou admirações. Agradeço-lhes e  aos demais pares desta Casa, de quem ao longo dos oito anos de pastor, sempre recebi provas de acolhimento e receptividade.  Patoreio árduo, realimentado pela lição plantada nos longes da ancestralidade: “ Se fores à caça e não tiveres êxito, não partas a flecha e o arco; o Destino recomenda repousares para os retomares no dia seguinte”.

Agradeço, em especial, o empenho de Cícero Sandroni,  de Eduardo Portella, de Ana Maria Machado, de Nélida Piñon, de Lygia Fagundes Telles, de Sábato Magaldi,  de Zélia Gattai Amado. No momento certo.

Agradeço , comovido, a Evanildo Bechara, amigo há mais de trinta anos, a generosidade de me receber. 

Aos funcionários da Casa, pela expectativa solidária sempre presente.

Agradeço, em especial, ao Prefeito César Maia, pela oferta deste fardão, que me engalana e metorna ainda mais identificado com a minha Cidade Maravilhosa.  E aos irmãos do meu velho Pedro II, pelo colar com metonimicamente se integram, solidários, a esta festa.   

E agradeço a todos os que se congregam na celebração deste momento, culminância da. eleição que consagra. E que, segundo a tradição e o aval das gentes, congrega imortais. Palavra exorcizadora, forma de conjurar, disfarçar e compensar a certeza implacável da finitude, legado da humana criatura. Pois para isso fomos feitos. Para o convívio com o transitório.  Na expectativa , para os que cremos, da plenitude na eternidade. E para os que não crêem, da sisífica ilusão tão bem caracterizada por Albert Camus, de buscar a felicidade enquanto cumprimos a missão de levar a pedra existencial ao cume do seu destino e nos imaginamos felizes no percurso. Como aqui e agora, nessa instância que honra, eleva e consola. Mas que, ao mesmo tempo, amplia a responsabilidade de quem, como tantos de nós, se preocupa com com levar adiante a chama prometeica, e com a Cultura da pátria em que nascemos e que é nossa. E, em especial, com a cultura da língua portuguesa e da literatura brasileira, objetivo primeiro da existência desta Academia. Brasileira. De Letras. Sic itur ad astra!
 
Muito obrigado.