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Cláudio de Sousa

                               AS TEORIAS DE BEDFORD

Acabaram-se as aulas. Rara era a análise que ainda se fazia. Eu continuava a ir diariamente, ao laboratório.

Trazia um livro, punha-me a lê-lo. Ou enchia as páginas de um caderno com anotações relativas a meu professor de química.

Bedford veio certa tarde ao laboratório, agradeceu-me a dedicação e dispensou-me a assistência, lamentando nada poder oferecer-me.

Conservaria, apenas, o rapaz que lhe estava fazendo, ao mesmo tempo, o serviço de recados. (Os recados eram pedidos de dinheiro a uns e a outros. A mim não mo pedira ainda, talvez por acanhamento.)

         - Se quiser vir prosear, é com prazer.

A fórmula era de simples polidez, porque ele passava os dias ao lado de Mariana.

Continuei a frequentar o laboratório, entretanto. Por que, se nada havia ali que fazer?

É o que só agora compreendo, ao escrever estas notas.

Era o eflúvio imponderável, a emanação fatal daquela carne lúbrica de mulher que se ia apoderando de mim... Como vim a sentir-lhe o doce e cruel apelo!...

Certa tarde, ao sair de um livreiro, se me deparou o Nunes, que havia muito não encontrava. Acabava de doutorar-se em Medicina. Arrastou-me para um café sonolento e vazio. Contou-me as peripécias da defesa de tese, suas esperanças, a alegria de se ver, enfim, livre e senhor de si. Ouvia-o distraído. Entraram, sucessivamente, duas mulheres, e tomaram assento, olhando-nos com insistência. Uma era rubicunda e grosseira. A outra, ruiva e seca, tinha a pele picada pela varíola, cujas cicatrizes lhe davam o aspecto da fruta-de-conde. A imaginação povoada pelas sacerdotisas de Afrodite, mirei-as com repugnância.

Queres ouvir-me ou não? - disse-me o Nunes, que logo acrescentou, ao ver para onde me iam os olhos: - A ruiva é graciosa, mas a gorducha só como domingo de Páscoa após alguma quaresma severa.

Repliquei-lhe que eram nojentas. Reproduzi-lhe o quadro que Bedford me fizera entrever.

- Mas isso tudo é romance, amigo. Temos hoje muito melhor. Mil e quatrocentas hetairas em Alexandria... Que é isso? Vichy, segundo acabo de ler, pequena cidade de águas para o estômago (imagine se fosse para outro órgão) tem três mil cortesãs inscritas, afora as que se não inscrevem... por pudor. Paris tem quatro milhões de habitantes e mais de um milhão de “livres-amorosas” como você liricamente lhes chama. E Londres? E Berlim? É verdade que no capitulo amor nada descobrimos de novo, nem um vício a mais. Mas se os antigos nos pudessem visitar, que pesar lhes causaria não terem nascido hoje?

E procurou dissuadir-me das ilusões “do acne, das espinhas românticas dos adolescentes”.

De nada me valeram, porém, tais discursos. Bedford envenenara-me com suas lascivas evocações. No dia seguinte, como ele aparecesse no laboratório, não lhe escondi a impressão que elas me haviam causado.

Bedford sorriu. Uma só narrativa bastara para me interessar, e, entretanto, meses, anos a seguir eram necessários para que um discípulo ganhasse amor a outros estudos. Vitória da natureza contra o artificialismo, do instinto contra o raciocínio derrotista, porque o amor é o princípio, o meio, o fim de nossa vida animal, - disse-me ele. E a vida animal é a única que se realiza na alegria, na felicidade. O mais é tortura de raciocínio sem fim e sem esperança, de preconceitos morais que são verdadeiras perversões, verdadeiros crimes contra a natureza, de intrigas, de orgulhos, de ambições de honras que, tudo somado, nada valem. E Bedford inflamava-se:

- Apregoam a civilização como a vitória da moral contra a natureza. Que fizemos nós de maior, de mais alto, de mais glorioso do que os gregos e os romanos? A Grécia conseguiu chegar ao supremo grau do aperfeiçoamento intelectual. Seus artistas, seus homens de ciência, seus filósofos, seus retores, seus poetas, seus escritores, seus escultores, seus pintores, seus matemáticos têm ainda hoje fama celebrada pelas mais adiantadas civilizações. A Hélade sagrada ainda é o coração imortal da fantasia, da arte, iluminura das melhores páginas de concepção humana. E entre seus grandes artistas, como entre seus bravos guerreiros, o amor é irradiação sempre clara da natureza livre que a Acrópole consagra e diviniza.

À minha puberdade, ao meu erotismo de adolescente, Bedford parecia irrespondível de genialidade.

Ele inflamou-se, como sempre que desenvolvia teorias sexuais.

Falou-me de Roma, cotejou-lhe a luxúria, veio pela Idade Média, entrou pela moderna, e provou, provou exuberantemente - ao menos a mim me parecia isto - que a cultura e a civilização se acompanham da emancipação dos instintos naturais do amor.

- Os preconceitos, as peias ao ato natural do amor, que é infinitamente belo, colocam o racional abaixo do irracional, pois este, felizmente para ele, nunca poderá construir filosofias imorais que vão de encontro às sábias leis da natureza. Digo mais: colocam o homem abaixo da percepção vital dos próprios vegetais, que se cruzam livremente na execução perfeita das leis naturais! - bradou Bedford. Qual foi a primeira página de moral religiosa? A folha de parra. O suficiente para esconder, apenas, o que se sabe. Ora, esse primeiro princípio de moral foi o da hipocrisia, porque é evidente que, tanto o homem quanto a mulher, antes e depois de haverem pecado, sabiam o que estava por baixo da folha. Fingiam desde então ignorar o que desejavam pela força polar, pela força vital de suas células, como os outros animais. Depois a folha de parra cresceu. Cobriu o umbigo, subiu aos seios, desceu pelas pernas, com exclamações de espanto de todas as partes do corpo, estranhas ao ato sexual. E a hipocrisia é tão evidente que deixaram a descoberto a boca, paraíso de volúpia, e as mãos, mensageiras de carícias e armas da violência e do estupro... As civilizações modernas estão a alargar os decotes e a encurtar as saias da moral, como rasgam largas avenidas e derribam os pardieiros. Porque a vida, amigo, é o amor, é o ato de perpetuação da espécie.

Sua fisionomia tomou aspecto de ironia piedosa:

- Olhe para o ar, meu amigo, para as nuvens de ouro de pólen que correm o espaço. Veja o rio que deflui límpido, feliz, sereno. Se lhe opõem obstáculo, as águas turvam-se, encrespam-se, encachoeiram-se. Deixa de ser o rio feliz e sereno para ser a raiva e o tumulto. Assim, o amor. Por que, então, por qual maldade feroz transformar a doce e linda melodia na tragédia dos vícios e dos crimes? Eis a obra imoral da hipocrisia de nossa moral.

Quando vim para a rua após aquela aula, dançava-me diante dos olhos toda a história erótica da espécie. Era dia esplendoroso de sol. Via no espaço a marcha triunfal do pólen, a procissão maravilhosa de fascinantes formas femininas, de reflexos, de olhares que cegavam... Havia um parque em frente à casa de Bedford. O perfume das magnólias era vivo, capitoso, morno, e parecia exalar-se dos corpos nus daquela feminilidade esparsa, a bailar na luz... Formas vegetais e formas animais, as primeiras desabrochavam em flores, as segundas em sorrisos claros de aleluia, quando recebiam o beijo fecundante... E como sorriam as mulheres... Parecia-me ver a que fora meu primeiro amor, meu único amor, e que sorria assim, inebriada, quando eu a possuía...

O ar era uma alegria só, festa universal... O amor era a atração de polos que se buscavam, de afinidades que se saturavam, e sentia-se, no espaço, frêmito e apaziguamento gostoso que se sucediam...

Tinha razão Bedford... com seu animalismo sadio, saciado, contente.

Baixei os olhos para a terra. O auto carregava-me agora pela mais populosa das avenidas, pelo trânsito central, o eixo, a espinha de nossa civilização. As mulheres passavam quase nuas, ou antes, apenas cobriam pouco mais do que os selvagens escondem com penas à roda da cintura. As saias curtas, encurtando sempre, à proporção que se civilizam. Os decotes fundos, afundando sempre na proporção das saias. E o nudismo das praias?...

Eram reais as teorias de Bedford! A civilização podia ser medida pela emancipação dos costumes. Nossas avós usavam roupas fechadíssimas, do queixo aos pés, e viviam fugidas do homem. Atrasadonas, semibárbaras, enclausuradas em casa. Se vinham à rua, era de olhos baixos, passo monástico. E o Brasil, que era? Umas aldeias isoladas...

E as mulheres de hoje? Vivem na rua, andam, lascivamente, em ondulações de quadris que evocam os transportes mais quentes do amor, enquanto os seios, subindo, com a marcha, em maré cor-de-rosa, quase ultrapassam o fragilíssimo cais de seda que as rendas finas transparentes orlejam de espuma...

Seus perfumes intensos, essências sintéticas em que se esgotam os químicos como Bedford - esquecia-me de dizer que Bedford se ocupava, então, de descobrir, essências lascivas - misturadas com as emanações dos corpos bem lavados, e ligeiramente úmidos de suor, desprendiam-se mornos e mais capitosos, mais excitantes nos ardores da canícula do que o satyricon que as cortesãs de Alexandria davam a beber aos amantes velhos. E olhavam os homens com franqueza, com acessibilidade, quando não com audácia provocadora. O amor caminha de emancipação em emancipação. E o Brasil de hoje que é? Uma civilização que se impõe.

Entrei num cinematógrafo. Todos os cartazes eram de beijos, de abraços, de cenas mais ou menos lúbricas. No maior deles, lia-se Afrodite, evocação das cenas antigas de amor que Bedford me descrevera. Havia um aviso ditado pelo Juízo dos Menores: “Impróprio para senhoritas e menores”. E senhoritas e menores entravam, aos bandos, com habeas corpus requerido por seus próprios pais...

Na tela, beijos longos, infindáveis, a perda de hálito, nos quais se sentia a sucção, a dentada, o glotismo.

A sala fremia. Os pais confraternizavam com as filhas. Os seios das mulheres palpitavam de excitação. Os rapazes estalavam bicotas. Meninas impúberes iniciavam-se nos mistérios de Afrodite. Eram as classes do Didascalion, talvez mais completas... E as velhas mães complacentes sorriam... Terminado o beijo, as outras artes de sedução feminina. O sorriso, o gesto provocante, a carícia de surpresa, o retraimento, toda a gama... que vinha, de novo, morrer, em abraços violentos e em beijos tão vivos, tão quentes, tão impetuosos que, agora, até mesmo as cadeiras das velhas mamãs estremeciam. Vaporizadores espalhavam no ar perfumes capitosos que se casavam com as emanações animais...

E no escuro, outras bocas se juntavam, excitadas, enquanto carícias se trocavam, e o ar se enchia do mesmo bafo quente de sensualidade do bosque de Afrodite. As luzes vacilantes das lâmpadas de mão dos indicadores pareciam as pupilas dos sátiros montados nas cabras montesas que decoravam o zoóforo do antigo templo. E eu que nunca havia percebido aquilo? Fora preciso que Bedford me abrisse os olhos! Terminara a fita naquele frêmito de sensualidade. A luz mostrou olheiras roxas, fisionomias quebradas e olhos ainda cheios de desejos não satisfeitos.

E há um cinema em cada rua nas cidades modernas de Afrodite... Nunes colheu-me o braço na saída.

- Que decepção? - disse-me ele. - O reclamo fez-me supor que a fita fosse mais ousada. Exploradores!

Vi que toda gente saía com a mesma impressão. Queriam mais? Por cinco mil réis só aquilo?.. Exploradores!

- Como vai o Bedford? - perguntou-me Nunes.

E a ouvir-me contar o assunto das preleções, concluiu:

- O Bedford está em caminho da loucura. E faz-me pena! Tão esforçado pesquisador! Esperava-se dele um mundo de revelações. Vou amanhã contigo à sua casa porque estou preparando monografia acerca da obsessão sexual. Pobre Bedford! O final de todos os grandes gozadores é a pasmaceira, a idiotia, após o furor lascivo. O genitalismo domina-lhes todas as manifestações da vida. As alucinações eróticas cativam os cinco sentidos, o olhar, a audição, o olfato, o tato, o paladar. Em tudo, veem a forma sexual. Nos galhos das árvores, pernas de mulher; na curva de uma cúpula de igreja, um ventre feminino; no vaivém do pistão de aço que se balança dentro do cilindro de um motor, o ato venéreo; em dois cômoros que se acuminam, seios túmidos de desejo; num vaso sagrado de altar, uma cintura, uns quadris!

Lembrei-me das mãos de Bedford a acariciarem, enquanto dissertava, a curva de uma retorta, como se tirasse disso sensação voluptuosa.

- Tudo - continuava Nunes - por mais distante que esteja da ideia genital, o erótico delirante colhe, absorve, e compreende à luz de sua ideação monocêntrica. Louco lúcido com a excitação da primeira fase dos delírios, tudo elabora, amolda e plasma na visão fescenina. E ergue, na loucura incipiente, uma filosofia que, como todas as loucuras e todas as filosofias, encontra adeptos de alma simples.

Eu era um deles, compreendo-o agora.

- Domina-os o pansexualismo. E paradoxo onde se encontram os extremos, levam a generalização a afirmar que no ato da criança que inocentemente suga o alimento no seio materno há o esboço da inclinação sexual. Todas as ações humanas, da dor à piedade, dos atos vegetativos às mais altas concepções da arte e mais árduas labutas da ciência, parece-lhes que obedecem a único principio, móvel ou apetite, que se resume na obsessão sexual.

Comparei Nunes a Bedford. A palavra de Nunes era vibrante, incisiva, com forte acento de homem, de masculino sadio, de bife sangrento e dentes vorazes; seus gestos eram sacudidos, de “quebro-te a cara”, de box ou luta romana. A voz de Bedford, ao contrário, aflautava-se, dia a dia, na gama das alcovas. Seus gestos eram moles, fatigados.

E ao ouvir Nunes, seduziam-me suas palavras, como me haviam seduzido antes as de Bedford. Verifiquei que meu impressionismo era como o da cera, do último toque, e entristeci. Era organismo autônomo ou me deixaria sempre levar por outrem?

- Todos os cinco sentidos - continuava Nunes - ficam dominados pela ideia erótica e de tão delirante alucinação nasce moral pervertida. A ideia é o produto das impressões sensoriais elaborado pela força definidora incutida na consciência pela tradição, pela experiência e pelo estudo. Mas a perversão sensorial acaba por viciar e desorganizar a concepção cerebral. Os eróticos delirantes não ouvem senão gemidos, suspiros, soluços de corpos que agonizam em transportes de volúpia, não palpam no que tocam senão curvas femininas, recantos sexuais, as formas lascivas. Os cérebros dos velhos caem nesse delírio como noutros pela fraqueza da idade, e o dos moços, como Bedford, pelo abuso do prazer. Basta-lhes de começo o gozo normal. De tanto buscá-lo, porém, escasseiam-lhes aos nervos a provisão de energia. Procuram, então, nas impressões imaginativas dos vícios, das perversões e dos atos contra a natureza, sensações que lhes reavivem o apetite embotado. É como o declive dos tóxicos. O prazer quintuplica-se, as sensações extremam-se. Já não se satisfazem com o amor dentro da natureza: transpõem todos os preconceitos, libertam-se de todos os pudores e, em ânsia insaciável de gozo, entregam-se a intraduzíveis caricías, inomináveis contatos, que a imaginação, cada vez mais enferma, lhes vai sugerindo. E nesse gozo progressivamente maior, tocam os extremos da libido, em frenesi demoníaco, em jubilação satânica de refinamentos sensoriais que os deixa estendidos, frios, gelados, sem respirar, em síncope longa no leito doloroso da volúpia. E da obsessão nasce o delírio. O sabbath dança-lhes permanentemente diante dos olhos, e a natureza inteira transforma-se na frisa do zoóforo do templo de Afrodite, na qual o fogo do cio corre na espinha de todos os animais. Vem, depois, o esgotamento, a impotência. Entram, então, em cena os excitantes, as beberagens afrodisíacas, o satyricon. E à desorganização oriental une-se a devastação física. Sucumbem por ter batido demais às portas da vida!

No dia seguinte fomos juntos ao laboratório. Bedford não reconheceu desde logo o antigo aluno. Sua memória, como as demais faculdades, ia-se apagando. Quando Nunes lhe disse o nome, pareceu recordar-se vagamente. E repetiu: Nu... nu..., incapaz de maior esforço, porque a visão que a primeira sílaba lhe abriu aos sentidos empolgou-o.

- Nu... É a expressão da maior beleza. Esta fruta, por exemplo - ele descascava uma laranja - só na nudez revela a formosura. Vejam agora que a despi, as deliciosas e túmidas curvas de cada gomo, o dourado da linfa, sintam a excitação do perfume, a frescura do suco...

E, como se vampirizasse um corpo de mulher bebendo-lhe todo o sangue, espremeu-a na boca com os dedos até deixá-la murcha, engolindo com volúpia os grandes sorvos que desciam em glu-glu lento.

Nunes, de pernas cruzadas e o queixo no castão de vidro azul da bengala de junco, balançava a cabeça em tom de desânimo. (A bengala do Nunes era coisa notável.) Eu, com a imaginação violenta, via Bedford transformado no marechal Gilles de Rays. A laranja era criança eventrada, cujo sangue, mesclado com humores, o sádico sugava, indiferente ao mau cheiro das vísceras. Nunes recordara-me na véspera a história horrenda do monstruoso sádico francês, executado em 1440, que violou e assassinou mais de oitocentas crianças.

E acudia-me à ideia um sádico brasileiro, de edição grosseira, que violentara e matara diversos meninos. Os peritos reconheceram-lhe a dirimente da loucura. O juiz aproveitara-se para dar longa mostra de erudição... em Legrand de Saule. E o sádico assassino deixara de ser condenado. Enviaram-no para sanatório do governo com bom quarto, boa alimentação, médico, farmácia e miúdos para os cigarros... E como não lhe deram mulher, não tardou que tentasse violar e estrangular um companheiro, outro pensionista do Estado.

Pobre marechal Gilles de Rays, por que não nasceste em época supercivilizada como a nossa?

Os bárbaros de 1440 executaram-te. Se hoje o nosso sádico com só cinco ou seis assassínios pode conseguir todas aquelas regalias, tu, marechal, com o acervo de oitocentas crianças, sacrificadas à tua perversão, terias um palácio, e criados de libré.

Disse isso a Nunes e ele assustou-se.

- Menino, você precisa deixar a companhia de Bedford. Loucura pega, principalmente essa.

Reconheci a incoerência do que me acudira, e ele se tranquilizou.

Sugada a laranja, mostrou-nos Bedford o bagaço, e exclamou:

- Parece corpo exânime de mulher flagelada após longo e intenso gozo, lívida, retorcida. E só o amor dá essa enorme beatitude de êxtase, de rapto sobrenatural!

Carinhosamente, tal que conduzisse o corpo nu de uma mulher, alisou o bagaço e acamou-o na mesa.

Nunes, propositadamente e para lhe tomar o pulso, permitiu-se contradizê-lo.

Bedford aqueceu-se. Quis servir-se dos mesmos argumentos históricos que me expusera.

Entrou a comparar as grandes bacanais antigas com as expressões medrosas de nossa sensibilidade amorosa. Descreveu a onda de sensualismo que arrancava Messalina do leito imperial e a levava à tarimba dos quartéis, onde, em fúria ninfomaníaca, se dava aos soldados hercúleos, de músculos enrijados pela guerra e pelos sóis da África. Com a volúpia violenta das fêmeas dos tigres, e a fúria sensual das leoas, esgotava-os, fazia-os morrer sobre seu corpo, encasando pela madrugada, com os rins quebrados, o corpo lasso e dolorido, não saciada e perseguida ainda no sono pela visão lasciva que a reconduzia, nem bem nova noite se fechava, à violência selvagem, à caricia brutal, aos beijos acres do hálito de fumo e álcool...

Agitava-me, insensivelmente, na cadeira. Meus 19 anos latejavam-me nos pulsos. Messalina!... Nunes encarava friamente a fisionomia de Bedford, que cada vez mais se animava, ao mesmo tempo que a voz ganhava calor, a imaginação brilho, a evocação flagrante...

Nero, o circo, os banhos, as lentas unções de óleos nos tepidários por escravos formosos, os vinhos bebidos em ânforas largas para que, ao mesmo tempo, se deliciassem o olfato e o paladar, os banquetes, em cujos triclínios o amor não se interrompia, e entremeavam-se os beijos e os pratos, enquanto nas danças, adolescentes menores apenas púberes criavam ou reproduziam todas as formas plásticas de conjugação. Roma delirante de sexualismo, Roma Sodoma, Roma Gomorra de todos os vícios, do sadismo, das perversões, das lésbias e dos invertidos que assentavam até no trono imperial, um imperador casando-se oficialmente com outro homem - toda Roma erótica, em síntese admirável de colorido, de definição rápida em traços fulminantes jorrou dos lábios de Bedford.

Nunes que o conhecera apático, de poucas palavras, espantava-se ao ouvir-lhe a loquacidade torrencial, infatigável, inexaurível. Parecia outro Bedford, excitado por qualquer estimulina secretada por glândulas reprodutoras desorganizadas.

Bedford terminara. E à guisa de conclusão replicara ao olhar negativista de Nunes:

- Roma é o berço da civilização latina, que até hoje nos aclara, e que desde então, através dos séculos, nenhuma raça tem suplantado.

Nunes replicou-lhe. Aquele caudal de sensualismo, longe de definir o maior momento de esplendor grego ou romano, marcara época de decadência. Nos povos, como nos indivíduos - e Nunes acentuou bem as três últimas palavras - a período de falsa excitação e falso brilho que os excessos provocam, segue-se o delírio, cujo fim é a idiotia, a abulia. O leito da luxúria torna-se leito da invalidação e da morte. O equilíbrio desconcerta-se, a sinergia rompe-se por hipertrofia parcial, e todo o metabolismo vicia-se na ação predominante e avassaladora da ideia fixa, do íncubo sensual que atormenta todas as células de erotismo imaginativo, e cria o delírio sexual.

Bedford ouvia-o com o mesmo sorriso compassivo com que, pouco antes, Nunes lhe acompanhara as palavras. Os loucos semilúcidos parece terem piedade imensa de nosso bom senso. Lembro-me de um, muito rico, que se acreditava laranjeira. Punha-se nu, alcatifava-se de folhas de laranjeira, e ficava horas no pátio da casa com os braços arqueados como galhos, as laranjas dependuradas dos dedos. De cada vez que lhe dava a mania, era preciso, para tirá-lo dali, mudá-lo para tina com terra, como se fosse, de fato, laranjeira - e trazê-lo para casa. E quando no salão, envolvia todos os mais em olhar inesquecível de piedade, como se só ele houvesse compreendido a verdade objetiva de sua essência. Descia da tina, colhia as próprias laranjas, e chupava-as. A mania acentuou-se. Via árvores de frutos em todos, e foi preciso interná-lo no hospício certa manhã em que, armado de tesoura, quis cortar os seios da criada de quarto pretendendo fossem os frutos de uma pereira.

- A lubricidade deforma e deprava o ato singelo que se destina, apenas, a perpetuar a espécie, tal como o praticam os irracionais, sem extravagâncias imaginativas. Conduz o indivíduo à decadência, à ruína moral, e as nações como as raças ao desaparecimento - concluiu o Nunes. Das civilizações antigas o que sobrevive não é o produto do sensualismo, mas o que deixaram perpetuado no bronze, no mármore, na tela, nos livros eternos da razão.

- As obras de arte - obtemperou Bedford - são apenas reflexos de exacerbação sexual. Obedecem à libido, ao instinto multiplicador.

E citava grandes nomes, aos pares. Dante que teve amores aos nove anos, Sainte-Beuve que exclamava a este propósito:

         “Que n’ai-je comme lui mes amours à neuf ans.”

Flaubert, Maupassant, Chateaubriand, cuja frase, no dizer de críticos, “tem o sabor de carne”, e outros, e outros muitos.

- Corra a literatura em geral - dizia Bedford - e na prosa e no verso que há além da chama voluptuosa?

E superior, generoso, conciliante, concluiu:

- E não é preciso ir às artes, ou especializar as atividades humanas. O povo, o vulgo ignorante, conhece a verdade do aforismo: Cherchez la femme. Todos os crimes, todas as grandes tragédias, todas as desgraças do homem civilizado vêm apenas da moral que pretende suprimir o irreprimível, desviar de seu curso atrações naturais, afinidades invencíveis para assim favorecer interesses problemáticos da sociedade.

E, apostolar, com os olhos de iluminado, concluiu:

- O homem é no Universo o único animal triste. E foi ele próprio que fabricou sua tristeza. É o único animal descontente: e é o autor de seu descontentamento. Há na alma humana certa ânsia, certa inquietação que não se define. É a ânsia e a inquietação dos cativos. Regresse à natureza e estará emancipado e feliz. As obras humanas só se tornam imortais quando impregnadas do segredo e do mistério da vida, bebidos com volúpia nas próprias origens. Nosso riso é falso. Só a lágrima é realidade. E por quê? Porque moral estúpida nos veda todos o gozos e obriga-nos a esconder-nos nas furnas da hipocrisia para satisfazer instintos naturais. A moral, em que se funda? Nas religiões. Pois os livras sagrados, história das religiões, estão pejados de sensualismo. O Bramaputra não é mais imoral do que a Bíblia. O “Cântico dos Cânticos” do rei dos reis, da sabedoria de Salomão, é o mais lúbrico dos poemas da carne. A Bíblia é imprópria para senhoritas e menores, como os espetáculos de gênero livre.

Nunes compreendeu que era inútil insistir. Bedford ultrapassara, disse-me ele na rua, a zona possível de discussão. A paixão erótica empolgava-o. Devia estar em uso de beberagens excitantes, que lhe suprissem o langor do esgotamento precoce.

Sentamo-nos num banco de jardim público, ainda sob a influência das palavras quentes de Bedford. Arrisquei-me a lembrar a Nunes o que me dissera de Paris, de suas orgias, de sua bacanal desenfreada. E, entretanto, é onde, justamente, a civilização latina tem seu auge, ao passo que em outros países, como a Itália, a Espanha, Portugal, da repressão dos costumes não resultou progresso algum. O Portugal das conquistas, o Portugal glorioso que, pequenino, conseguira dominar a vastidão de oceanos inexplorados, faleceu beatamente encapuchado num hábito fradesco à porta de uma catedral. A Espanha, a Espanha ferrabrás, contra cujo escudo inamolgável se quebrara a lança do infiel, fenecia nas vielas escuras junto ao nicho dos santos.

Nunes, que me ouvira atentamente, estudando-me os gestos, aconselhou-me que deixasse quanto antes o comércio de Bedford. A imaginação exaltada e o impressionismo adolescente punham-me em sério perigo.

- De fato, replicou-me, Paris reproduz hoje, e talvez com mais intensidade, as orgias bacanais antigas. A onda de luxúria e de instintos que cresceu, se avolumou e se tornou irrefreável após a guerra, com a inversão dos valores empobrecendo as camadas mais altas, e enriquecendo o povo, trouxe à tona as baixas tendências e os violentos apetites dos novos ricos, sequiosos de conhecer todas as volúpias que ontem, com indignação, reprovavam. Nas casas de tolerância, o sadismo crucifica mulheres nuas em pranchas de madeira, ou acorcunda-as sobre cavalos mecânicos para que ofereçam o corpo ao chicote, ao knut russo, ao relho de cinco pontas que lhes zebreia a pele de equimoses e de sangue, manejados por pulsos fortes de clientes degenerados, que lhes compram a miséria por uma centena de francos. O “tronco”, como outros instrumentos de suplício, que se destruíram com a abolição dos escravos, revive nas câmaras de flagelação dessas casas, que se contam às dezenas e se anunciam nos jornais, que a polícia conhece, registra, cataloga, e que pagam imposto ao Estado burguês e honesto... Sim, isso é verdade, está em inúmeros livros franceses, que clamam contra a dissolução. O lesbismo, o glotismo, as inversões, vivem e viçam em mais de uma camada; funcionam às escâncaras cabarets de homossexuais ou de homens vestidos de mulher, mercam-se com voz aflautada, enquanto a polícia, no limiar, fuma o cigarro frouxo de sua fiscalização. A título de curiosidade, portadores de grandes nomes da aristocracia nacional e estrangeira neles aparecem. Mas a cultura francesa que se ergueu indignada contra um presidente de senado encontrado morto numa casa de tolerância entre dois adolescentes, profliga as úlceras de sua civilização, e longe das regiões que a cocaína devasta ou das casas de ópio, nas quais homens e mulheres, alucinados pela droga, se entregam uns à vista dos outros às mais violentas práticas de desbragado erotismo, trabalha nos gabinetes, nos laboratórios, nos centros de ciência e de arte para salvar a continuidade das conquistas da raça do naufrágio da brutalidade e da incontinência.

E concluiu, eloquente:

- Nos países onde o pensamento chega aos mais altos cimos da evolução, há na luta tremenda vencidos e desequilibrados. São estes que, desmanchados os nervos, desfreados da autofiscalização, emancipados, pelo delírio, da disciplina das tradições que regem os costumes e a moral, arrastam nas noites de verão ao Bois de Boulogne mulheres até então classificadas, que de sua loucura se contaminam, e ali de parceria com desconhecidos se dão às mais torpes orgias entregando as próprias esposas, pelo prazer da aventura, aos transeuntes de acaso. Mas todos esses quadros de insânia erótica constituem exceções, minorias. Só um louco pode esquecer-se das altas concepções mentais, do gênio francês, da obra imortal de seus escritores e artistas para atribuí-las ao delírio genital.

Com estas palavras despediu-se, recomendando-me que evitasse o convívio de Bedford.

                                                                         (As mulheres fatais, 1928.)