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Discurso de posse

 

Senhor Presidente da Academia Brasileira de Letras,

Ars longa, vita brevis. Parece inadequado citar logo no início a tradução latina do aforismo de Hipócrates, numa casa onde se cultua a imortalidade. Mas este lugar-comum colecionado por Flaubert atormenta-me desde quando tomei consciência de sua implacável verdade. Enquanto soava o cantar do doce pássaro da juventude, eu imaginava o contrário, isto é, o tempo de vida seria infinito, ou pelo menos suficiente para escrever todos os livros imaginados, cuja realização sempre poderia ficar para amanhã. Mas depois caí em mim, o que, como já afirmou o primeiro presidente desta Casa, é sempre melhor do que cair de um segundo andar, e senti com amargura a fuga do tempo e a finitude inexorável a nos esperar a todos, sem distinguir entre mortais e “imortais”.

E ao estudar a vida dos que me antecederam, percebi quão longa e rica é a história da Cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras e quão breve é o tempo de que disponho para contá-la. Além do dever de lembrar todos os que a ocuparam, existe também, no lado pessoal, um profundo sentimento de amizade, respeito, admiração e afeto dedicados aos dois últimos ocupantes desta Cadeira, Barbosa Lima Sobrinho e Raymundo Faoro. Trata-se de fato raro na história da Academia Brasileira de Letras: o recipiendário ter convivido com os dois últimos ocupantes da Cadeira, e de forma tão intensa com um deles, quanto foi a convivência com o presidente da ABI. Ter sido distinguido com a amizade desses dois luminares da vida contemporânea brasileira, autores de obras tão complexas de decifração do Brasil, constitui um dos orgulhos da minha vida. Falar sobre eles seria tarefa para mais de duas horas, se quisesse fazer aqui o resumo do resumo do resumo da vida e da obra de tão ilustres brasileiros. Mas o primeiro dever de quem ingressa nesta Casa, é cultuar a memória dos pais fundadores e seus sucessores imediatos, o que faço a seguir.

O número 6 dado à Cadeira que me entregastes, estabelecido pelo critério da ordem alfabética, deve-se à escolha do poeta Casimiro de Abreu para patrono pelo fundador, José Alexandre Teixeira de Melo. À menção do nome do fundador, penso em duas coincidências: na mesma cadeira, encontram-se um José Alexandre, o Teixeira de Melo, e um Alexandre José, o Barbosa Lima Sobrinho. E entre todos os nomes evocados na nominata desta Academia, a número 6 teve o patrono, de vida tão curta, desaparecido aos 21 anos de idade e o terceiro sucessor o de vida mais longa, novamente o Dr. Barbosa Lima Sobrinho, incansável trabalhador cujo último artigo para o Jornal do Brasil, escrito com antecedência, aparece três dias após a sua morte, aos 103 anos.

Os poetas José Alexandre Teixeira de Melo, nascido em Campos, e Casimiro de Abreu, nascido na Freguesia da Sacra Família de Barra de São João, amigos inseparáveis na juventude, dividiram um quarto de pensão na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República em meados do século XIX. A amizade pouco durou, devido ao desaparecimento prematuro de Casimiro, no dia 18 de outubro de 1860, há cento e quarenta e três anos. Quase um século e meio após seu falecimento, Casimiro continua uma forte presença na lírica e no imaginário brasileiro: a morte de um ultra-romântico em plena juventude, poeta que incendiou as mentes femininas e excitou os rapazes com versos a exemplo de “Ai! se eu te visse no calor da sesta, / A mão tremente no calor das tuas, / Amarrotando o teu vestido branco, / Soltos cabelos nas espáduas nuas!... / consagrou o espírito de uma época, quando a obrigação dos jovens românticos que escreviam versos era partir deste mundo antes dos trinta anos.

Casimiro é de 1839, ano durante o qual também vieram ao mundo outros brasileiros ilustres, a exemplo de Carlos Gomes, Machado de Assis, Tobias Barreto, Pedro Luís e Floriano Peixoto. Completou onze anos em 1850, início de uma década em que, segundo Raymundo Faoro, o quinto e inesquecível ocupante da Cadeira número 6, “o país europeizava-se, para escândalo de muitos, iniciando um período de progresso rápido, progresso conscientemente provocado, sob moldes ingleses”. Naquele então os investimentos surgiram dos capitais antes aplicados no tráfico escravagista, que aos poucos se extinguia, enquanto o café, produzido pelo trabalho do braço escravo existente, estimulava a incipiente burguesia comercial lastreada na exportação da monocultura. Com Mauá à frente e os bancos ingleses à retaguarda, os primeiros capitalistas tentavam os caminhos do lucro e enfrentavam obstáculos criados pelos regressistas.

Aquele decênio também aparece da mesma forma na descrição de outro saudoso confrade, o historiador Francisco de Assis Barbosa. Em seus estudos sobre o século XIX ele encontra em 1850 a marca de uma arrancada decisiva para o futuro, com o despontar do espírito de empresa, de iniciativas audaciosas, de melhoramentos materiais. Cito Francisco de Assis Barbosa: “Tudo começa em 1850: telégrafos, estradas de ferro, calçamento das ruas, iluminação a gás. O Código Comercial é de 1850. Mauá simboliza essa fase, cujo ponto de partida, nos anos de 1850 e 1851, encontrou seu cronista no jovem José Maria da Silva Paranhos, futuro Visconde de Rio Branco, redator das Cartas do Amigo Ausente, publicadas no Jornal do Commercio.”

É nessa década progressista do século XIX, cuja recordação nos remete ao desenvolvimentismo dos anos 50 do século seguinte, como se a história, um século mais tarde, se repetisse, que desabrocha a poesia ultra-romântica. O saudoso confrade José Guilherme Merquior, um dos maiores críticos literários brasileiros – assim definido na palavra de Eduardo Portella, a quem peço licença para com ele concordar em gênero, número e grau –, afirmou que nas mãos dos mais importantes ultra-românticos, entre os quais inclui Casimiro, o verso se despoja do saber clássico e lusitano que ainda conservara em Gonçalves Dias. E foi talvez a influência de Gonçalves Dias, segundo Waltensir Dutra, que despertou em Casimiro a atenção para certos aspectos da metrificação. Múcio Leão também lembra: “ao celebrar, em amorosas estrofes, a terra natal, Casimiro recebia muito a influência de Gonçalves Dias”. De volta a Merquior, ao analisar os poetas daquela geração, ele afirma ainda que, “em face da complexa gama psicológica de Álvares de Azevedo, nem sempre realizada do ponto de vista da expressão, e do fracasso artístico de Junqueira Freire, o sentimentalismo ingênuo de As Primaveras, de Casimiro de Abreu, publicado em 1859, figura como o produto mais harmonioso do nosso ultra-romantismo”.

Inspirados na cultura francesa, e desprezando a influência comercial inglesa, os poetas ultra-românticos usavam vastas cabeleiras – mais tarde imitados pelos Beatles – e morriam cedo. A observação percuciente de Sílvio Romero mostra a sociedade brasileira do tempo dividida em dois grandes grupos. Cito Romero: “os primeiros eram os homens sérios, os outros eram os boêmios, os gênios sedentos d’ideal”. Romero os descreve com as seguintes palavras: “aqueles eram os burgueses chatos e estúpidos, na linguagem dos gênios; estes, para seus inimigos não passavam de uns malucos, uns extravagantes nocivos. Literatura e comércio eram inconciliáveis; poesia e negócio eram o cão e o gato, viviam em perpétua luta, as duas profissões eram incompatíveis. Ainda me lembro bem do tempo, em que a condição primordial para ser bem aceito no comércio, ser logo empregado e ter boa e forte proteção, era ser bem estúpido, ter a cabeça bem fechada às insinuações das letras de forma”.

Nesse tempo o negociante português José Marques de Abreu se esforça para afastar seu filho Casimiro das letras e tenta convencê-lo a dedicar-se aos seus negócios, atividade considerada séria e lucrativa. Tentativa vã, pois o rapaz sentia em si, tal como Castro Alves cantou mais tarde, o borbulhar do gênio; resistia ao pai e deixou em suas lembranças um registro lamentoso da opressão paterna. Tudo indica que, ao sentir-se obrigado a reprimir seus devaneios estéticos atrás do balcão comercial, o poeta fantasiou um pouco o autoritarismo do pai. Segundo José Guilherme Merquior, “a verdade é que o rapaz, que o pai levara consigo aos quatorze anos para Portugal, freqüentou desde cedo meios literários, especialmente ao vir morar no Rio, em 1857, e sempre financiado pela bolsa do velho”.

Da mesma forma que os garotos da minha geração que tiveram o privilégio de aprender a ler, aproximei-me da literatura por intermédio da Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Laet, onde o poema mais popular era “Meus Oito Anos”, de Casimiro, o famosíssimo “Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!” Confesso aos admiradores deste poema que, apesar da sua popularidade, não se encontra entre os meus preferidos. Eu considerava pelo menos esquisita a afirmação de Fausto Barreto e Carlos de Laet na apresentação de Casimiro: “Não é escritor correto, mas poeta cujos maviosos acordes sabem o caminho do coração.” Sem gostar do poema – então estava fascinado com a Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade –, e dois especialistas do quilate de Barreto e Laet não consideravam Casimiro um escritor correto; e “maviosos acordes sabem o caminho do coração” era demais para mim.

Eu estava então sob a influência das lendas que corriam sobre sua vida – perseguição do pai, amor contrariado ou infeliz, dramas espirituais – e das acusações de descuidado quanto às regras da prosódia e metrificação. Mas, conforme nota Afrânio Coutinho, a edição crítica organizada por Sousa da Silveira, comemorativa do centenário de nascimento do poeta, em 1939, além de estabelecer em definitivo o texto de suas poesias, que corriam mundo comprometidas por alterações e erros, recolocou, por uma anotação abundante e judiciosa, o poeta no conceito dos estudiosos, ao mostrá-lo perfeitamente enquadrado nas tradições do idioma e da boa técnica do verso, além de possuidor de superior qualidade quanto à força expressiva e ao valor musical de seus poemas, demonstração de que era uma excelente organização de poeta.

Esta não era a opinião de Sílvio Romero, admirador de Teixeira de Melo, o fundador da Cadeira: “Teixeira de Melo teve por amigos e companheiros literários Casimiro de Abreu e o doutor Luís Delfino dos Santos que o ofuscaram inteiramente sem possuir merecimento superior ao seu. Casimiro, primando pela simplicidade, que às vezes chegava ao chatismo, morreu pouco depois de publicar as Primaveras, e viu-se repentinamente célebre. Luís Delfino dos Santos, primando pela elevação que descamba muitas vezes no exagero, no gongorismo esdrúxulo, fez ruidosa cadeira médica, imitou cabedais e aguardou a vinda de um momento propício para alçar-se ao posto de pontífice máximo de um grupo de sectários. Teixeira de Melo, que tem simplicidade sem a chateza e elevação sem a bombasticidade, não teve nenhuma dessas consagrações entusiásticas: ainda hoje ele é um obscuro.”

Ainda hoje é um obscuro, se comparado com a popularidade de Casimiro. Um dos fundadores desta Casa (do grupo dos trinta primeiros) Teixeira de Melo, 37 anos após a morte de Casimiro, em 1860, presta-lhe homenagem ao indicá-lo como patrono de sua Cadeira. Mais uma razão para lembrar o poeta das Primaveras, enquanto Teixeira de Melo hoje é mais conhecido pela rua que leva seu nome, em Ipanema, e só é evocado quando há sucessão na Cadeira número 6.

Logo após a morte do pai, e na expectativa de tornar-se herdeiro, Casimiro recebeu outra má notícia: estava tuberculoso, na forma que à época chamava-se tuberculose galopante, ou melhor, uma violentíssima tísica, palavra de uso então mais corrente. Tentou ir para a Ilha da Madeira tratar-se mas, sem a herança paterna, entravada pela burocracia cartorial, não dispunha de recursos para atravessar o Atlântico. Refugiou-se em um hotel, em Nova Friburgo. De lá veio para o Rio uma informação errada, de que Casimiro acabara de expirar.
A notícia era falsa, mas a doença não. E foi implacável: Casimiro morreu às cinco horas da tarde do dia 18 de outubro de 1860. Sobrevivera ao pai somente seis meses e um dia. Morreu o poeta, chorado por todos e, de certa forma, também o profeta. Devemos a R. Magalhães Jr. o resgate de um poema de Casimiro, publicado na revista semanal O Espelho, de Francisco Eleutério de Souza, com o qual termino esta recordação:

Horas de Spleen

Às vezes, quando eu cismo no passado,
Nos meus dias de crença e de esperança,
Pergunto a Deus: “– De que me serve a vida?
Melhor me fora falecer criança!” –

A minha mocidade passa estéril,
Já morre a primavera e chega o estio!
Ai de mim! Sou cadáver do que fora!
– Crânio sem fogo, coração vazio!

Vivi? – Passei na terra, como um eco!
Uma vez – uma só – no meu caminho
A virgem que eu sonhara – pensativo
Veio junto de mim falar baixinho!

Era doce essa voz!... Morreu? – quem sabe?!...
Suspirava de amor? – não sei... qu’importa?
Murchos os sonhos dum futuro rico,
Lamento afora a mocidade morta!

[...]

Tão funda a sepultura! – Vou descendo,
A aurora nasce, vou dormir no leito...
– Depois “encontro” uma mulher deitada,
Vestidos brancos – uma cruz ao peito!

Arreda-te, mulher! – filha do vício –
Erraste o teu caminho – é longe a estrada.
Diz: por que nesta noite de tormenta
Na minha cama vim te achar deitada?!...

– Não me toques! – disse ela despertando –
Tenho frio... há muita neve fora;
Nas trevas procurei este refúgio,
Oh! não me mandes, – eu to peço – embora!

Mas a cama é pra mim, pois tu não sabes
Que essa pedra, mulher, é o meu jazigo?!
– Eu sei, mas tenho frio; não te zangues,
A cama é larga... vem dormir comigo!

José Alexandre Teixeira de Melo, nascido em 1833, doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio em 1859. Depois de clinicar na sua cidade natal Campos de Goitacazes, foi, a partir de 1875, funcionário da Biblioteca Nacional, da qual chegou a ser diretor. Escreveu sobre vários assuntos sendo a sua obra mais apreciada as Efemérides Nacionais, em três volumes, publicada em 1881. Como poeta, publicou Sombras e Sonhos em 1858, ainda estudante, e Miosótis, em 1877, reunidos em Poesias, 1914, com um estudo de Sílvio Romero. Um dos trinta primeiros fundadores da Academia Brasileira de Letras e então nos seus 64 anos, o segundo mais idoso deles, naquele 1897, Teixeira de Melo escolheu para patrono de sua cadeira o companheiro de juventude, e assim consagrou o poeta de As Primaveras no pantheon da Academia. Pela ordem alfabética dos nomes dos patronos, sua Cadeira recebeu o número 6, que no momento tenho a honra de ocupar. Faleceu no Rio de Janeiro a 10 de abril de 1907, aos 74 anos.

Na sucessão de Teixeira de Melo os acadêmicos elegem um militar, Artur Silveira da Mota, mais tarde Barão de Jaceguai, o qual, depois da proclamação da República, renuncia ao baronato e passa a assinar-se Artur Jaceguai, nome sob o qual ingressa nesta Casa. Militar de formação espartana, admirado por Barbosa Lima Sobrinho, que lhe escreveu a biografia, a guerra contra o Paraguai o encontra no posto de capitão-tenente e no comando do encouraçado Barroso. Seu navio de guerra é o primeiro a passar pelo mais forte obstáculo fluvial que encontrava a esquadra brasileira para atingir Assunção: a poderosa e, por muitos, considerada inexpugnável fortaleza de Humaitá. As dez baterias, com noventa e oito canhões de grosso calibre instaladas na fortaleza, impediam as tentativas da esquadra brasileira de seguir rumo a Assunção. Depois de muita hesitação e de planos para a passagem, na madrugada de 19 de fevereiro de 1868 a terceira divisão da esquadra brasileira designada como Divisão Avançada, sob o comando do capitão de mar-e-guerra Delfim Carlos de Carvalho, da qual fazia parte o encouraçado Barroso, comandado pelo capitão-tenente Artur Silveira da Mota, prepara-se para tentar furar o bloqueio. Desobedecendo ordens do comando da esquadra, o encouraçado Barroso adianta-se e, sob o chumbo grosso paraguaio, consegue passar e posicionar-se em situação de tiro contra a fortaleza. Seu exemplo é seguido pelos outros vasos da Divisão Avançada e logo a esquadra brasileira transpôs o obstáculo. Existem controvérsias sobre o episódio e narrativas conflitantes. Mas, pelo feito, Delfim Carlos de Carvalho foi galardoado com o título de Barão da Passagem. Artur Silveira da Motta ressente-se do esquecimento; afinal, considerava-se o herói da passagem – e não só ele –, José Bonifácio, o Moço, patrono da Cadeira número 22, hoje ocupada por Ivo Pitanguy, escreve um poema em sua homenagem, chamando-o de “O Barão da Frente”.

O título de Barão de Jaceguai lhe é dado mais tarde pelo Imperador D. Pedro II. Depois de fundada a Academia Brasileira de Letras, na correspondência entre Machado e Nabuco encontramos várias sugestões, partindo do futuro primeiro embaixador do Brasil em Washington, favoráveis ao ingresso do barão nos quadros da Academia. “Desde a fundação”, escreve Nabuco de Challes, em 1903, “pensei que homens como Jaceguai, Lafayette, Ferreira Viana, Ramiz Galvão, Capistrano e os outros que você sabe, deviam ser dos que têm a honra de ser presididos por Machado de Assis.” E em outro carta, referindo-se a outra vaga: “Eu pensei que Jaceguai dessa vez se apresentaria. Ele, porém, achou mais fácil passar Humaitá do que as baterias encobertas do nosso reduto.” (Desde aquela época existiam as baterias encobertas no nosso reduto.)

Abre-se a vaga de José do Patrocínio e Nabuco volta a lembrar que o seu voto era para Jaceguai: “Acho que ele deve apresentar-se. Não compreendo que ele, que não teve medo de passar Humaitá o tenha para atravessar a praia da Lapa.” À época, a Academia instalara-se no prédio do Silogeu Brasileiro, na Lapa, banhada pelas águas da baía da Guanabara, antes dos sucessivos aterros. Jaceguai acaba decidindo-se a atravessar a praia da Lapa e pleitear a Academia na vaga de Teixeira de Melo, obtendo 12 dos 13 votos de acadêmicos presentes e mais onze dos que votaram por carta no dia 28 de setembro de 1907.

O discurso de posse de Jaceguai é antes de mais nada uma justificativa da sua candidatura. Mas nada diz sobre Teixeira de Melo: “Diante deste último nome sou forçado a calar-me destoando, talvez das práticas acadêmicas. Relevar-se-me-á, porém, a singularidade ante a minha confissão ingênua talvez de não haver conhecido o homem nem a sua obra. A minha abstenção, neste caso, creio ser a maior homenagem que prestar possa à sua ilustre memória. Não seria digno dela, nem de mim mesmo, ler apressadamente as produções para vir aqui fazer delas e do autor um panegírico convencional.”

Mais tarde, Goulart de Andrade, que o sucedeu na Cadeira número 6, explica em seu discurso a omissão de Jaceguai: “É que nas suas Efemérides Nacionais, o escritor campista, ao relatar a passagem de Humaitá pela esquadra brasileira, citara o nome do comandante da Divisão, Delfim Carlos de Carvalho, depois Barão da Passagem, omitindo o do comandante do Barroso, Artur Silveira da Mota.” Jaceguai não o perdoou, mas Goulart de Andrade fez questão de lembrar o fundador da Cadeira número 6, dedicando-lhe grande parte de sua oração.

 

Senhores Acadêmicos:

No seu discurso de posse na Cadeira número 6 desta Academia, Barbosa Lima Sobrinho começa assim a evocação do seu antecessor: “José Maria Goulart de Andrade aportara ao Rio de Janeiro em 1907. Era pouco mais que um adolescente, no alvoroço dos 16 anos. Vinha de Alagoas, esta mesma Alagoas de onde saíra, onze anos antes, e também com destino ao Rio, outro poeta – Sebastião Cícero dos Guimarães Passos, que andava também no verdor dos 19 anos.”

Goulart de Andrade nasceu em Jaraguá, a 6 de abril de 1881. Aprendeu as primeiras letras com o professor Ângelo Barbosa e com um tio. Completou os estudos primários em Maceió com o professor Adriano Augusto de Araújo Jorge. Aos 16 anos veio para o Rio de Janeiro e matriculou-se na Escola Naval, onde fez o curso prévio de três anos. Não se distinguiu como aspirante de Marinha, mas escreveu seus primeiros versos, doze sonetos, que enviou para o irmão, Eusébio, para serem publicados no Gutemberg, de Maceió. Apenas um foi publicado, “Colo”, o primeiro deles, os outros foram devolvidos.

Coestaduano, admirador e hóspede de Floriano Peixoto, o poeta ainda neófito sentiu-se perseguido pelo oficialato da Marinha ainda com as feridas abertas da revolta de 1893. Não seguiu a carreira de oficial da Marinha, mas, na Academia, viria a suceder a um Almirante, o Barão de Jaceguai, a quem, por sinal, conhecera na Escola Naval, em 1900. Ao abandonar a Escola da Ilha das Enxadas trabalhou em várias atividades, enquanto cursava a Escola Politécnica, onde se formou engenheiro geógrafo. Casou-se com D. Luísa de Araújo Lima a 3 de outubro de 1906. Nomeado para a prefeitura do Distrito Federal, trabalhou nas obras de reforço do abastecimento das águas da cidade, foi redator de debates da Câmara dos Deputados e diretor do Ginásio Pio Americano.

As atividades profissionais não o impediam de prosseguir na produção de sua obra poética, mas poemas enviados a outro irmão, Manuel Aristeu de Andrade, também não lograram uma crítica favorável; Manuel responde que deveria tentar outra coisa, por lhe faltar a intuição poética. Os fracassos iniciais não o desanimaram. No Rio de Janeiro, alvorecer do século XX, Goulart de Andrade participou de um dos derradeiros cenáculos dos cafés cariocas, o da Confeitaria Colombo.

A obra de Goulart de Andrade não é extensa, mas nela encontramos as Poesias, primeira série, publicadas entre 1900 e 1905. Há uma coletânea de Teatro, primeira série e segunda série, as Poesias da segunda série e os romances Assunção (1911) e Numa nuvem, uma fantasia romântica de 1913, publicado em folhetins no Correio da Manhã. O seu último livro é Ocaso.

No seu extraordinário discurso de posse, pronunciado neste Petit Trianon, em 31 de janeiro de 1938, aos 41 anos de idade, alto, elegante, bem-posto e sóbrio no seu fardão verde-ouro, Barbosa Lima Sobrinho discorreu com erudição, para uma platéia onde os homens envergavam casacas e as mulheres vestidos longos, sobre a situação da literatura brasileira na época do seu antecessor. Descreveu o tempo literário em que o poeta alagoano viveu e defendeu a existência das Academias de Letras:

“Aqui podem caber todas as escolas. Aqui se fazem representar os diferentes setores da atividade intelectual. E é por isso que lendo, há pouco, os volumes em que se acham reunidos os discursos acadêmicos, tive a impressão de acompanhar nas suas figuras dominantes a própria história da vida mental do Brasil. No entrechoque das escolas poéticas, no trabalho dos romancistas, dos contistas, dos comediógrafos, na crítica, nas ciências jurídicas, nas manifestações tribunícias, na publicística, no jornalismo. Muitos dos patronos desta companhia ilustraram-na com os seus nomes imortais, como Hipólito da Costa, Gonçalves Ledo, Evaristo da Veiga, Joaquim Francisco Lisboa, Joaquim Serra. E que perseverais nessa atitude no-lo provam tantos outros que foram antes de tudo ou quase exclusivamente homens de imprensa, como José do Patrocínio, Alcindo Guanabara, Medeiros e Albuquerque, Constâncio Alves, Félix Pacheco e Vítor Viana. Não fosse o jornalismo por si mesmo manifestação literária, e ainda se poderia ver, nessas eleições, o reconhecimento dos gloriosos serviços prestados às letras e à inteligência brasileira.”

Embora já tivesse publicado sua tese A Ilusão do Direito de Guerra, dois livros de contos, A Árvore do Bem e do Mal e O Vendedor de Discursos, o clássico O Problema da Imprensa e seis ensaios sobre problemas pernambucanos, era na condição de jornalista que ele se apresentava para conquistar seu lugar na Academia Brasileira.

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho nasceu no Recife, na casa de seus pais, Francisco Cintra Lima e Joana de Jesus Cintra Barbosa Lima, à Rua da Aurora, a 22 de janeiro de 1897, seis meses antes da fundação da Academia Brasileira de Letras. No momento do parto, ouviu-se uma salva de 21 tiros de canhão de um quartel próximo, e a parteira comentou para a mãe: “Está ouvindo os tiros? É para saudar o nascimento. Este menino vai ser um grande homem.”
Esta história faz parte da crônica familiar dos Barbosa Lima e, se não aconteceu exatamente assim, è bene trovata. Mas antes que a profecia se realizasse, o menino crescia no bairro do Recife, naquela área onde teve início a ocupação da cidade, com ruas estreitas e construções do tempo da Colônia, vestígios da história e da vida de Pernambuco dos primeiros séculos, a ambientação de bairro antigo, com sua vida boêmia e velhas construções de armazenagem e instalações portuárias.

Em Pernambuco o espírito nacionalista se instalou cedo, nas lutas contra o invasor holandês e mais tarde contra a Coroa, fosse a da Corte de Lisboa ou a do Rio de Janeiro. O Dr. Barbosa costumava dizer que a nossa independência teve origem na Batalha de Guararapes. – No meu tempo de criança – disse-me ele certa vez – acostumei-me a ouvir histórias sobre as lutas dos pernambucanos em defesa da pátria. Lembro-me de que, eu ainda menino de cinco ou seis anos, estava em casa, sentado numa cadeira quando ouvi uma banda tocar o Hino Nacional. No mesmo momento levantei-me e permaneci de pé até o fim do hino. Aquele impulso foi o meu primeiro sentimento de patriotismo.”

Nacionalista, mas garoto forte e saudável, hino nacional à parte, seu primeiro interesse era o esporte. A família morava numa casa onde parte da cobertura era de telha vã; o menino amarrou uma corda nas vigas de madeira e com um cabo de vassoura improvisou um trapézio, onde se exercitava. Mais tarde, com amigos, entre os quais o inseparável Múcio Leão, que o recebeu nesta Academia, fundou o Corinthians Olindense Futebol Clube (no qual jogou como center-forward, o centrefór da nossa infância, o centro-avante de hoje, a posição do Ronaldo). O nome do time era homenagem ao Corinthians da Inglaterra. O clube não tinha sede nem campo e eles jogavam no campo do Salgadinho, ao lado da praia.

– Quando a maré enchia, o mar cobria o campo e a gente não podia jogar... Mas o futebol era muito divertido, naquele tempo.

Também gostava de remar e de marcha batida. Certa vez, sempre ao lado de Múcio Leão, foi de Olinda a Goiana, uma distância de 60 quilômetros, em marcha batida, em dez horas, mas o esporte jamais impediu o menino Alexandre José, Xandre para a família, de estudar muito e crescer inspirado nas lições e no exemplo do tio, o general e tribuno Barbosa Lima Em seu discurso de posse, prestou-lhe homenagem:

“Estimei-o sempre com sentimento filial. Não sei o que nele mais admirava. Se as lições de sua cultura excepcional, lúcida e profunda, se a doçura do acolhimento, que era surpresa encantadora na aparência hirsuta que lhe vinha das atitudes severas, do jeito empertigado do corpo, das barbas apostólicas. O nome que tenho é o dele, nome que meu pai adotou para mim, numa renúncia feita de intenções afetuosas. Minha mãe, irmã de Barbosa Lima, o adorava também.”

Alexandre José formou-se na Faculdade de Direito do Recife em 1915 com 17 anos e passou todo o tempo do curso lendo muito na biblioteca. Pretendia fazer concurso para a cadeira de Direito Internacional Público e Privado e ao mesmo tempo de Direito Constitucional. Preparou a tese A Ilusão do Direito de Guerra, na qual demonstrava que todos os acordos firmados em Haia foram insuficientes para impedir a Primeira Guerra Mundial. Mas o concurso foi cancelado e para a cátedra foi nomeado o filho de um juiz seccional da cidade. Escreveu vários artigos contra aquela decisão, incompatibilizou-se com grande parte dos professores da Faculdade e sentiu que não poderia permanecer no Recife.

Veio para o Rio em 1921 com uma carta de apresentação do Barão de Suassuna, que era amigo de seu pai, para o Conde Pereira Carneiro, e logo estava empregado como redator do Jornal do Brasil. O salário mal dava para pagar as despesas de aluguel de um quarto que ele dividia com outros dois jovens nordestinos: Oliveira e Silva, que aposentou-se como desembargador em Santa Catarina, e um certo Belarmino, mais tarde conhecido como Austregésilo de Athayde. A partir de 1927 começou a escrever artigos assinados e conquistou desde então a liberdade de dizer o que pensava mesmo quando o que escrevia se distanciava das teses do editorial do jornal.

Depois de publicar a tese que não chegara a apresentar em Recife, lançou dois livros de contos, O Vendedor de Discurso e A Árvore do Bem e do Mal; em 1924 aparece a primeira edição do hoje clássico O Problema da Imprensa, escrito para combater a lei do senador Adolfo Gordo, que instituía a censura na imprensa, onde estudou as questões do jornalismo de sua época. Trecho do livro:

“No dia em que o jornalista tiver a noção completa de sua responsabilidade e de sua atuação social, provavelmente se sujeitará a normas escrupulosas de ética. Evaristo da Veiga compreendeu toda essa responsabilidade e por isso se orientou superiormente em meio da agitação do primeiro reinado e da regência. De sua pena saiu certa vez esse precioso código de ética jornalística: – Respeite-se a lei sem subterfúgios de chicana; respeitem-se os cidadãos para que haja tranqüilidade e confiança; sirvam os jornais de instruir e não de ofender e perturbar; argumentem mas não insultem. Moderação nos escritos; verdade nas doutrinas; decência no estilo; instrução; moral, mais moral, muita moral.”

A lição de Evaristo, publicada na sua Aurora Fluminense, lembrada por Barbosa em 1923, continua atualíssima.

Alexandre José conheceu Maria José em Cambuquira, ela dez anos mais jovem, filha do advogado paulista Horácio Gonçalves Pereira. Quando foi a São Paulo, pedir a mão da moça, o advogado tentou demovê-lo: “Minha filha não sabe costurar, lavar roupa e nem cozinhar. Tem certeza que quer casar-se com ela?” O jornalista respondeu: “Doutor Horácio, eu trabalho num jornal que tem a maior seção de anúncios classificados do Brasil. Se precisasse de empregada doméstica, seria fácil encontrar uma.” E assim casou-se com aquela paulista que transformou sua vida de solteirão no Rio de Janeiro dos anos 20. “Maria José me fez acreditar na existência de anjos” – disse ele, em 1995, ao ser entrevistado pelas biógrafas de sua mulher, Ana Arruda Callado e Denilde Leitão.

Senhores Acadêmicos, minhas Senhoras, meus Senhores. Estamos apenas no início da vida de Barbosa Lima Sobrinho. Infelizmente, neste breve momento não tenho condições de sintetizar a grandeza de sua obra e de seu pensamento. Pretendo propor que a Academia, em colaboração com a UERJ e a ABI, promova um seminário em 2004, para, nos 80 anos de publicação de O Problema da Imprensa, estudar, com uma equipe de especialistas, a vasta obra de Barbosa Lima Sobrinho, com mais de cem títulos – entre os quais destaca-se, nesta primeira fase, A Verdade sobre a Revolução de Outubro, de 1934, uma análise perfeita do movimento que levou Getúlio Vargas ao poder.

Eleito deputado em 1934, em 1937 foi indicado por um colegiado para a presidência do Instituto do Açúcar e do Álcool, indicação referendada por Getúlio Vargas. Deputado constituinte em 1946, eleito governador de Pernambuco em 1948, foi obrigado a lutar no Supremo pelo seu mandato, questionado pelos derrotados. Vitorioso, realizou excelente governo; novamente eleito deputado por Pernambuco para a legislatura 1959-1963, ao fim do seu mandato, desistiu da vida parlamentar por não se adaptar a Brasília.

Barbosa Lima Sobrinho teve grande participação nesta Instituição. Foi Secretário-Geral, Presidente e, mais tarde, Tesoureiro, nas diretorias presididas por Austregésilo de Athayde. Grandes amigos, embora suas idéias sobre os problemas nacionais nem sempre coincidissem, Athayde costumava dizer que, sem o aval de Barbosa, jamais teria construído o prédio que, alugado, constitui hoje a principal fonte de renda da Academia. E Barbosa, em conversa com seus companheiros da ABI, contava que sua confiança em Athayde era tanta, que assinava cheques em branco para ele.

Por escrever contra o golpe militar, depois de 1964 Barbosa Lima Sobrinho foi obrigado a responder, como testemunha ou indiciado, a treze IPMs, os tristemente famosos Inquéritos Policiais Militares. De três deles ele se lembrava bem: o primeiro, chefiado por um major, porque assinara artigos em O Semanário, de Osvaldo Costa. No segundo um coronel acusou-o de ser candidato à direção do ISEB, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Aos olhos dos inquisidores a situação se agravou, quando ficou comprovado que à mesma época Barbosa Lima Sobrinho comparecera a uma feijoada, na casa de Ênio Silveira, em homenagem ao seu amigo Miguel Arraes, deposto do governo de Pernambuco. Perguntado por que comparecera a tal reunião de subversivos, respondeu que jamais, em sua vida, recusara convite para uma feijoada, e não seria daquela vez que deixaria de tomar sua caipirinha e comer seu feijão.

No terceiro, chefiado por um general, seu inquisidor teve a gentileza de considerá-lo apenas testemunha e não indiciado. Aquela atitude respeitosa do general deu lugar a uma conversa sobre os problemas nacionais e ambos terminaram expondo os respectivos pontos de vista. O general inquisidor percebeu que aquele experimentado jornalista conhecia muito mais o Brasil do que ele – e que suas idéias tinham algo em comum. Terminaram amigos.

Em 1968 aparece Presença de Alberto Torres, que além de biografia do pensador brasileiro, é uma afirmação política. “Quando o entreguismo surgia triunfante, era indispensável que alguém se lembrasse de Alberto Torres, grande brasileiro que sempre defendeu os interesses do país” – disse ele mais tarde, comentando o seu livro. Dez anos depois da publicação, o historiador José Honório Rodrigues afirmava: “As idéias de Alberto Torres, – um homem bravo, inconformado e dedicado ao Brasil –, são examinadas por Barbosa Lima Sobrinho, outro homem bravo, inconformado e dedicado ao Brasil. Lendo este livro, as gerações, atuais e futuras, não perderão a esperança no país.”

Em seu discurso de posse nesta Academia, Raymundo Faoro lembrou seu antecessor:

“Barbosa Lima, depois de uma longa jornada de trinta anos de nacionalismo sem espinha dorsal, deliberou criar sua utopia – fonte de futura ideologia. Resgatou Alberto Torres do túmulo conservador onde jazia, para retomar seu reformismo radical. Reconhecia que somos um país sem direção política e sem orientação social e econômica. Embora Augusto Comte nunca tenha se detido no estudo do nacionalismo, Barbosa Lima adotou as bases de sua crítica, particularmente no que diz respeito à organização e reorganização da sociedade. Não aceitaria, está claro, o agrarismo de seu modelo – que, como ele, não se preocupa em distinguir o nacionalismo do patriotismo: o nacionalismo seria um dever do patriotismo. [...]

E mais adiante:
 
“A ortodoxia – a inflexível cartilha que privilegiava a hegemonia exterior – deixou perecer as indústrias de Mauá. Barbosa Lima queria que, em lugar de Cairu, estivesse Alexander Hamilton, que, nos Estados Unidos, com seus subsídios e empréstimos de banco para isso criado, gerou a indústria e criou o empresário. Num livro dedicado ao Japão, editado em 1973, demonstrou que o capital estrangeiro não é capaz de gerar os meios necessários ao desenvolvimento. Sem xenofobia, sem chauvinismo, sem patriotadas e sem ufanismo, criaria um novo nacionalismo.”

No parágrafo final de sua oração Faoro pergunta e responde:

“Quem era esse homem que viveu mais do que um século, cercado pelo respeito e pela admiração de seus contemporâneos? Foi, sem dúvida, um intelectual situado acima das classes e das ideologias. Mas, foi muito mais: foi o mensageiro de uma terra incógnita, onde estaria banida a miséria e a injustiça. Sua mensagem falava à imaginação dos homens e despertava a esperança das gerações mais novas. A utopia que construiu move a História e exerce fascínio hipnótico sobre os que a conseguem ver. Mas a utopia que move a História não é a história: a utopia não é realizável porque, se realizada, funda-se sobre o despotismo. O homem que foi capaz de desenhar uma época e construir os fundamentos de um país chamou-se – quando virá outro? – Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho.”

Inspirado nas idéias nacionalistas de Alberto Torres, criticou com veemência os autores da política econômica inaugurada em 1964. E assim prosseguiu, nos livros e na ação, defendendo suas idéias. Em Japão, o Capital Se Faz em Casa demonstrou a capacidade da economia japonesa de desenvolver-se com a própria poupança, sem aportes de capitais financeiros de outros países. No episódio da anticandidatura à presidência, com Ulisses Guimarães, quando foi o anticandidato à vice-presidência, na campanha das diretas, no impeachment de Collor ele interpretou, como jornalista, os anseios pela fundação de um país independente, forte do ponto de vista econômico, mas solidário e justo com a sua população desamparada e excluída. Tornou-se assim a consciência moral da Nação.

Em 1978, depois da campanha eleitoral em que acompanhou Ulisses Guimarães em pregação cívica pelo Brasil, convocado pela classe dos jornalistas, Barbosa Lima Sobrinho foi eleito pela terceira vez Presidente da ABI. Estava então no vigor dos seus 81 anos, idade em que a maioria absoluta dos que lá chegam já estão aposentados há muito tempo. Depois de ter sido o mais jovem jornalista a exercer o cargo em toda a história da instituição, em 1926, aos 29 anos de idade, volta à presidência em 1978, então o mais velho dos jornalistas brasileiros a exercer aquele cargo.

Neste momento, permitam-me lembrar, com afeto e saudade, o homem que tanto bem fez à vida pública brasileira, e com quem aprendi tantas lições. Sua longevidade levou D. Paulo Evaristo Arns a dizer que ele podia ser imortal por pertencer à Academia Brasileira de Letras, “mas para mim, o que o Dr. Barbosa é, mesmo, é eterno”. Aos 102 anos, fraturou o fêmur e foi obrigado a permanecer em casa, contra a sua vontade. Não pôde comparecer à homenagem que lhe prestou a ABI quando completou 103 anos de idade. Naquela ocasião, foi saudado pelo professor Antonio Candido e seu discurso de resposta foi lido pelo acadêmico Evandro Lins e Silva. Mais tarde, um grupo de diretores da ABI foi visitá-lo. Convalescendo da fratura, passava os dias lendo livros o os jornais do Rio e de São Paulo. Às quartas, como sempre, redigia seu artigo semanal, para o Jornal do Brasil, com a colaboração do filho, Carlos Barbosa, que concorda absolutamente com as idéias do pai. “Ele me ajuda muito”, costumava dizer o Dr. Barbosa. “É o meu braço direito.” Naquela tarde, na Rua Assunção, observei os dois, o Dr. Barbosa e D. Maria José e ambos me pareciam eternos. Ele se alegra com a visita dos amigos, mas se a conversa aborda momentos felizes do passado, ela derrama algumas 1ágrimas. Então o Dr. Barbosa a consola, acaricia sua mão como um namorado à moda antiga e logo as lágrimas cessam. Faz-se um silêncio só cortado pelos gorjeios de um canário instalado numa gaiola na varanda do quarto de onde canta para o casal. “Ele é um grande companheiro” comenta o Dr. Barbosa. O canário parece gostar do comentário e aumenta o volume dos trinados. A tal ponto que às vezes atrapalha a conversa, e os visitantes ficam com a impressão de que o passarinho avisa ter chegado a hora de deixar o Dr. Barbosa descansar. Nos despedimos e à saída, ao passar pela porta, voltei-me e percebi que, com a nossa ausência, os trinados do passarinho diminuem de intensidade e ganham um tom suave, tranqüilo. O canário-da-terra agora canta só para o Dr. Barbosa e D. Maria José, que, embevecidos e de mãos dadas, permanecem absortos, ouvindo a sua música.

Foi a última vez que os vi.

Personalidade ímpar na vida brasileira, figura humana impressionante de quem muitos dos que aqui estão presentes se lembram bem, aquele homem de grande altura, não só física mas também moral e intelectual, de quem o jornalista Mino Carta dizia: “o saber brotava dele como a manga nasce da mangueira”, Raymundo Faoro nasceu em Vacaria, no Rio Grande do Sul, no ano de 1925, numa família de agricultores. Aos seis anos, a família mudou-se para o oeste de Santa Catarina, onde seu pai, de quem se recordava como um tipo aventureiro, fundou uma pequena hidrelétrica. O menino Raymundo fez os primeiros estudos numa escola particular cujos professores adotavam um sistema moderno de ensino: proibiam que os alunos decorassem qualquer coisa e exigiam deles comentários pessoais das leituras. Mais tarde foi matriculado em um colégio dirigido por religiosos maristas, onde o sistema de ensino era outro, na base da memorização, o famoso decoreba da nossa infância. Mas a semente do entendimento havia sido plantada e o método inicial de educação levou-o a ser um devorador de livros. Viajava muito a Buenos Aires com amigos, freqüentava as grandes livrarias da cidade e começou a interessar-se por Max Weber, cujas traduções para o espanhol ali eram abundantes. Formou-se em Direito e tentou advogar em Porto Alegre, mas os escritórios de advocacia estavam todos tomados. Mudou-se para o interior, chegou a atuar no júri, mas não se adaptou.

De volta a Porto Alegre, Faoro integra o grupo de escritores, poetas e intelectuais da revista Quixote, entre os quais Luiz Carlos Maciel, um dos papas da contracultura dos anos 60/70, no Rio de Janeiro, cujo lema era a frase de Unamuno: “Vamos fazer uma barbaridade!” Inquieto, empreendedor, foi um dos seus elementos mais atuantes, segundo Guilhermino César. Não se conformava com a ordem intelectual reinante na província. “Mas seu desgosto” – acentua Guilhermino César – “não se exprimia propriamente em termos de poesia ou prosa de ficção.

Carregado de preocupações filosóficas, buscava antes de tudo interpretar as causas do nosso atraso mental, combatendo o empirismo e a rotina. Vinha para inovar. E postulava com ardor a proscrição de todo o sentimentalismo na apreciação dos fatos sociais. Em vez da improvisação brilhante, queria algo de sistemático, que dissesse as coisas cruamente, mas as dissesse de uma vez para sempre.” Mas toda essa visão voltada desde cedo para as ciências jurídicas e sociais não o impediu que escrever a apresentação do número da revista Quixote dedicada à nova poesia do Rio Grande do Sul.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1952, onde a vocação para os estudos sociais continuou, mas foi atraído, de passagem, pela crítica literária e publicou nos jornais de Porto Alegre excelentes estudos sobre Simões Lopes Neto e Érico Veríssimo, encarando-os sob prisma inteiramente novo. Ainda segundo Guilhermino César, “no seu exame fez tábua rasa dos valores estéticos para só se preocupar com o ‘documento’ que a obra de ambos os escritores não deixa de oferecer aos gaúchos”. Uma espécie, eu diria, de ensaio para a sua grande obra A Pirâmide e o Trapézio. E no tempo que lhe sobrava começou a escrever Os Donos do Poder, cuja primeira edição foi lançada em 1958 pela editora Globo de Porto Alegre.

Na sua primeira edição, um volume de 257 páginas, o livro não teve recepção à altura dos seus méritos. Quem era aquele advogado gaúcho que procurava na dinastia de Aviz e na concentração do poder político e econômico na Coroa portuguesa as raízes da sociedade brasileira, identificada pelo autor como patrimonialista e estamental, e mais, na qual o poder público era exercido e usado como se fosse privado? A inovadora interpretação surgia exatamente em um momento de exaltação desenvolvimentista, estimulada pelo Estado, quando as mudanças no país se operavam sob o comando do presidente da República a utilizar todos os seus poderes para remover a capital do Rio de Janeiro para Brasília.

Os críticos marxistas da obra foram cruéis. Segundo o próprio Faoro, Nélson Werneck Sodré só faltou insultá-lo com palavrões. Estabeleceu-se em setores da crítica da esquerda o dogma segundo o qual seu pensamento político era ultraliberal, embora Florestan Fernandes, apesar de marxista, considerasse razoáveis suas teses; e Caio Prado Júnior, sem citar o autor, disse que o livro o impressionara muito. Faoro admitiu, em entrevista ao suplemento Mais!, da Folha de S. Paulo, que os marxistas consideravam-no herético. Não obstante esta artilharia pesada de um lado, intelectuais do outro lado do espectro ideológico também o rejeitaram. Gilberto Freyre chegou a dizer-lhe que um dos dois iria destruir o outro e ameaçou: “Eu aposto que você vai desaparecer.” E Wilson Martins, nas palavras de Faoro, embora mais delicado, “também repudiou tudo o que escrevi”. Mas uma voz, aqui da Academia Brasileira de Letras, se levanta em defesa do livro: a de Barbosa Lima Sobrinho. Relator da comissão de acadêmicos que indicaria o Prêmio José Veríssimo de 1959, sugere o livro de Faoro e seus colegas de comissão acompanham seu voto. Foi esta Academia, portanto, a primeira instituição a reconhecer o valor de um livro fundamental na historiografia brasileira.

Indiferente aos ataques e às críticas, Faoro prosseguiu em seus estudos e em 1960, no primeiro concurso para a Procuradoria do Estado da Guanabara, ingressa naquela defensoria numa turma da qual também fazia parte o meu querido e saudoso amigo Dirceu de Oliveira e Silva. Ambos se tornam, assim, colegas de Barbosa Lima Sobrinho e trabalharam tenazmente na defesa do patrimônio do contribuinte carioca, em casos célebres, como o da Light.

O golpe militar de 1964 e seus desdobramentos na repressão à sociedade civil levaram alguns críticos de Faoro a rever suas posições sobre Os Donos do Poder. O autor do livro, no entanto, com tranqüilidade e persistência, imune ao ruído do mundo, tratava de ampliar o seu texto inicial e em 1975, quando surge a segunda edição, foi necessário publicá-lo em dois volumes, com mais de 300 páginas cada um. Guardo com carinho e respeito os exemplares desta segunda edição com que Faoro me presenteou quando o entrevistei, no seu apartamento no edifício Águas Férreas, no Cosme Velho, com dedicatória na qual utilizou a expressão imerecida para mim, “afetuosa homenagem”. O afeto era também uma das marcas da personalidade desse homem espontâneo, incapaz de uma hipocrisia e sempre pronto a dizer o que pensava – porque pensava o que dizia – hábito visto por alguns, mal-informados, revelador de um traço rude de sua personalidade.

Jamais rude, mas sempre franco, no primeiro parágrafo do prefácio à segunda edição, Faoro explica:

“Montaigne, que nega ao autor o direito de alterar o texto de um livro hipotecado ao público, justificou as suas infidelidades ao princípio com este subterfúgio resvaladio: ‘J’adjouste, mais je ne corrige pas.’ Posso afirmar, sem receio ao olho malicioso e zombeteiro do francês quinhentista, que a tese deste ensaio é a mesma de 1958, íntegra nas linhas fundamentais, invulnerável há treze anos de dúvidas e meditação. A forma, todavia, está quase totalmente refundida, outra a disposição dos assuntos, adequado o estilo às minhas exigências atuais.”

E em seguida:

“Este livro não segue, apesar do seu próximo parentesco, a linha de pensamento de Max Weber. Não raro as sugestões weberianas seguem outro rumo, com novo conteúdo e diverso colorido. De outro lado, o ensaio se afasta do marxismo ortodoxo, sobretudo ao sustentar a autonomia de uma camada de poder, não diluída numa infra-estrutura esquemática, que daria conteúdo econômico a fatores de outra índole.”

Faoro introduz na historiografia brasileira dois conceitos: o do estamento burocrático e o do Estado patrimonialista. Na análise da obra, Simon Schwartzmann acentua que para Faoro o Brasil não teve um passado feudal, ou semifeudal, com o predomínio do campo sobre a cidade; ao contrário, o que sempre predominou foi a força do poder central. Não há dúvida que as grandes distâncias, o isolamento das propriedades rurais, os recursos produzidos pela posse da terra e pelas plantations de açúcar, tudo levava ao fortalecimento do poder local. Estes eram, no entanto, explica Schwartzmann, citando Faoro:

“efeitos inevitáveis, decorrentes do isolamento geográfico, da extensão da costa, capazes de gerar núcleos de autoridade social, sem que a administração real permitisse a consolidação da autonomia política [...] tudo está longe do feudalismo, da aristocracia territorial, dos monarcas latifundiários. Olhos vigilantes, desconfiados, cuidavam para que o mundo americano não esquecesse o cordão umbilical, que lhe transmitia a força de trabalho e lhe absorvia a riqueza. O rei estava atento ao seu negócio.”

Essa situação criada desde o início com as capitanias hereditárias, continuaria pelo período imperial, com uma forte presença dos centros urbanos, onde se instalava o poder do Estado, de cujo beneplácito o poder dos donos da terra dependia.

A segunda tese de Faoro, associada a esta, é que o poder político não era exercido nem para atender aos interesses das classes agrárias ou latifundiárias nem àqueles das classes burguesas que mal se haviam constituído como tal. O poder político era exercido em causa própria, por um grupo social cuja característica era exatamente a de dominar a máquina política e administrativa do país, por intermédio da qual fazia derivar seus benefícios de poder, prestígio e riqueza.

O que o livro Os Donos do Poder evoca no limiar do sexto século brasileiro? Renato Lessa, estudioso da obra de Faoro, explica:

“Antes de tudo o livro de Faoro indica a importância da tradição ensaística brasileira e da intenção autoral de pensar e interpretar o Brasil. Nesse sentido a sobrevida do texto contraria a fragmentação e especialização temáticas, dominantes na prática profissional das ciências sociais brasileiras. A crença nas virtudes da especialização, como sinal de progresso cognitivo, ilumina os pequenos objetos, mas acaba por nos deixar desarmados diante de grandes questões. E são perguntas dessa magnitude gigantesca que são mobilizadas quando se trata de interpretar o Brasil. É claro que sempre será possível atacá-lo por meio de pequenas guerrilhas, de pequenas demonstrações de que vários juízos ali incluídos não resistem à implacável ação dos micro-especialistas. No entanto, o que sustento é que a refutação de uma interpretação do Brasil só é possível através de outra interpretação do Brasil.”

Em entrevista concedida à revista Carta Capital logo após sua eleição para esta Academia, Faoro respondeu a duas perguntas com respostas que justificam o título de profeta dado a ele pelo jornalista Mino Carta:

Carta Capital: O seu Os Donos do Poder é um livro de alguma forma profético no sentido de que, lendo-o, você consegue imaginar tudo o que aconteceu depois.

Raymundo Faoro: A razão é simples, não pelo fato de eu ter adivinhado. Eu suspeito que Hegel, quando diz que a história começa com o Estado,quis dizer que a história começa quando o Estado passa a ser o agente ou o aval, o amparo da sociedade civil. Esse é o momento em que a história começa. Como eu acho que aqui a história, pelo menos a história da democracia, ainda não começou, não é muito difícil prever coisas, prever que daqui a pouco as coisas estarão como estão hoje. Os personagens são sempre os mesmos. Sabemos, por exemplo, que há um componente sempre salvador na sociedade que é massacrada e que é, como dizia Capistrano há cem anos, “sangrada e capada”. Naquele tempo eram 400, hoje são 500.
Carta Capital: Quem são os candidatos a puxar o pelotão?

Raymundo Faoro: Eles vão se repetir. Basta trocar nomes que as pessoas estarão aí, sempre haverá o candidato salvador da pátria. Haverá um candidato de esquerda que, se chegar ao poder, fará uma política de direita, e haverá um candidato de direita que, chegando ao poder, vai procurar fazer uma política de esquerda. Porque esses nomes não significam nada. Convicções, idéias, partidos não significam nada. Talvez haja uma redução, assim, um maquiavelismo. Porque o poder desempenhava tal importância, tal significação para o político que ele, no poder, ia fazer aquilo que fosse melhor para sua continuidade no poder.

Renato Lessa define Os Donos do Poder como “reconstrução retrospectiva da história”; um retorno a um tempo ainda não capturado pelo fatalismo que nos perdeu. Fiel ao seu roteiro, Faoro nos dá a narrativa completa do seu péssimo sonho. Ao final do livro, nossa veleidade civilizatória não é nada mais do que um “esqueleto de ar”, coberto pela “túnica rígida do passado inexaurível, pesado. Sufocante”.

O pesadelo deriva da visão pessimista sobre o destino do Brasil a nos invadir após a leitura da obra. Aqui permito-me lembrar a sugestão de José Murilo de Carvalho, para quem, apesar do final desalentador do livro, o otimismo racional de Faoro volta à cena, com sua fecunda atividade na reconstrução democrática do país, após sua eleição, em abril de 1977, para a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil.

Raymundo Faoro era o presidente da Ordem quando o Senador Petrônio Portella deu inicio ao diálogo com as instituições da sociedade civil. Pouco acostumado com a arte de conversar sem dizer nada, no primeiro momento ele achou que seria enrolado pelos políticos. Nesse momento difícil da história recente e de sua própria biografia, transmitiu sua insegurança a um amigo e recebeu dele um bom conselho. Homem curtido em lutas políticas, Nehemias Gueiros disse-lhe que não deveria temer os políticos, e jamais seria enganado, porque era um homem franco e sincero e deveria manter-se assim.

– Aí eles vão se complicar, disse Gueiros, porque o sincero, como você, sempre ganha do esperto.

E foi assim, com sinceridade, franqueza e lealdade que o então presidente da OAB conseguiu avançar, nas conversas com Portella, em direção à abertura política, cujo primeiro passo foi a volta da instituição do habeas corpus, que a truculência da ditadura havia banido do direito brasileiro. Está registrado na história o caminho percorrido por Faoro nos encontros e desencontros com os donos do poder de então, no Governo Geisel, para dar este primeiro passo na direção do restabelecimento do estado de direito, isto é, a volta da garantia do habeas corpus. Sua atuação, naqueles anos de chumbo, não só na OAB, mas também na ABI, ao lado de Barbosa Lima Sobrinho, constituiu uma das pedras de toque na reconstrução democrática.
E ao discursar na reunião da OAB em Curitiba, em maio de 1977, Faoro fez uma síntese do seu pensamento sobre a situação do Brasil naquele momento:

“Se a realidade não inspira otimismo, não sugere o abandono do bom combate. Os advogados sempre souberam, com bravura e lucidez, fixar sua missão nas situações difíceis, sem enfado cético, e sem dramaticidade retórica. Guardiães da ordem jurídica, sabem eles reconquistá-la, recuperando-a em seus valores racionais, em meio a esta galeria de espantos. Declinável é, desta sorte, a origem de suas preocupações que apontam para a necessária estruturação do estado de direito, preocupações que definem propósitos claros e públicos. Não se há de buscar o remédio na farmacopéia condenada, na utópica construção de uma visão tecnocrática para apagar outra visão tecnocrática. A conciliação dos homens de boa vontade, sem partidarismos e sem temor, há de assegurar um pacto social no consenso pacífico, que se traduza em pacto jurídico. A República se fundou e se engrandeceu com fundamento numa ampla e livre deliberação constituinte, que é a fonte de todo o poder e a inspiração para todas as perplexidades. Este não é um caminho de retorno, mas mensagem de confiança no futuro, do futuro que se abre na dinâmica da hora atual, sem apelo ao milênio prometido pelo vôo dos números em delírio.”

A extraordinária personalidade e a obra de Raymundo Faoro exigiriam análises mais demoradas que, neste discurso, condicionado pelo tempo, não terei condições de apresentar aos que pacientemente me ouvem. Mas no convívio desta Academia procurarei manter bem viva a memória do meu ilustre antecessor, não só nos meus estudos, mas também na organização de conferências e seminários sobre seus trabalhos de interpretação do Brasil.

Não poderia, no entanto, deixar de lembrar aqui seu instigante livro Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio, que, lançado em 1974, permanece hoje na condição de um dos maiores e mais completos estudos sobre a obra de Machado. Neste estudo exemplar, Faoro lembra-nos que “é inútil procurar em Machado de Assis a nota de revolta, a denúncia ou a indignação. Com ar de zombaria diz as coisas sérias, sem a cor viva ou vermelha das reivindicações. Não remonta à origem dos fenômenos, não lhes pesquisa a essência e o conteúdo”, vendo, “apenas, o aspecto exterior e decorativo, o lado social e cheio de cores berrantes, extravagantes”.
É este o Machado que Faoro descreve e analisa em A Pirâmide e o Trapézio. Com seu olhar percuciente ele nos revela que, embora tenha passado ao largo de temas como a expansão industrial e a atividade operária, ao concentrar-se em atitudes aparentemente menores, como a de homens que exibem os atrativos das próprias mulheres para ascender socialmente – Machado de Assis apresentou de forma contundente os bastidores da ascensão de uma classe para a qual o lucro soberano sobre todos os escrúpulos é tudo, expondo com todas as letras e humor inigualável “a falsidade íntima de toda a sociedade, seu pecado secreto”.

Assim conseguimos observar, através das janelas abertas pelo estudo e a análise de Raimundo Faoro, a impressionante atualidade da obra, por isso mesmo imortal, do primeiro presidente desta Casa.

Senhores Acadêmicos, minhas Senhoras, meus Senhores.

Não posso terminar este discurso sem lembrar com saudade os acadêmicos que conheci e que não estão mais entre nós. A amizade que tanto Laura quanto eu mantivemos com eles ainda hoje enternece nossos corações e jamais nos esqueceremos deles.

Também quero agradecer aos amigos que aqui vieram, e à minha família, irmãos e irmã, cunhadas, filhos, noras, sobrinhos e o primeiro neto, Pedro, cujo nascimento, em agosto passado, constituiu para mim e Laura a grande alegria deste ano. E jamais esquecerei a memória de meus pais, ele, Ranieri, filho de emigrantes que vieram da Toscana, ela, Alzira, de modesta família de Guaxupé. Ambos me ensinaram tudo de bom que eu sei. Fico imaginando, emocionado, a alegria – e talvez a surpresa – dos dois, se pudessem estar aqui presentes; consola-me o fato de minha mãe, aos 90 anos, ter assistido a entrega do Prêmio José Ermírio de Moraes com que esta Academia distinguiu a biografia de Athayde.

Senhoras Acadêmicas, senhores Acadêmicos. Elegestes para a sucessão de Raymundo Faoro um jornalista pouco conhecido fora do Rio de Janeiro, mas sempre atento aos problemas nacionais; um ficcionista bissexto, um aprendiz de historiador da imprensa brasileira e um administrador da área da cultura. Para agradecer tanta generosidade – o que deveria ter feito desde o inicio, conforme a tradição acadêmica – vou utilizar as mesmas palavras de Faoro, quando recebeu o Prêmio Moinho Santista de 1978, outorgado por um júri do qual fazia parte Austregésilo de Athayde: “Recebo esta eleição como estímulo, e não como consagração”, disse Faoro. “Estímulo que recebo – continuou – grato à benevolência dos outorgantes, para dedicá-lo aos companheiros que freqüentam essa área de necessário e fértil inconformismo.”

Se pudesse resumir em três palavras, e criar uma espécie de ex-líbris para marcar meu ingresso nesta Casa, escolheria estas três, saídas da pena faoriana que, tenho a certeza, receberia a aprovação de Barbosa Lima Sobrinho: “necessário e fértil inconformismo”. É um pouco menos do “vamos fazer uma barbaridade” do grupo Quixote, mas muito mais do que ficar balançando a cabeça como se fosse uma vaca de presépio diante das injustiças deste mundo.

Para terminar, desculpando-me por ter abusado tanto da vossa paciência, ainda peço licença para relatar um episódio banal, mas daqueles que permanecem gravados na memória, uma obsessão, embora não passe de uma trívia. Na ocasião em que um grupo de escritores levou a Sergio Paulo Rouanet a notícia de sua eleição para o PEN Clube, meu sogro e eu conversávamos, quando alguém chegou até nós e perguntou, em tom de brincadeira:

– Dr. Athayde, quando o senhor levará o Cícero para a Academia?

Athayde fechou o semblante. Em sua face surgiu aquela expressão grave da qual todos os que o conheceram se recordam, usual quando ele ouvia qualquer brincadeira sobre a Academia, e redargüiu rápido:

– No dia em que, havendo uma vaga, ele trouxer os vinte votos necessários à eleição.

Direta e simples mas dura, a resposta repelia a idéia, embutida na pergunta, de que ele poderia apadrinhar o genro e facilitar seu ingresso nesta Casa.

Dez anos após o seu falecimento, onde quer que esteja, e creio firmemente – tal como ele dizia dos acadêmicos mortos, que os via aqui neste recinto –, ele também permanece entre nós, e assim posso dirigir-me a ele.

Aqui estão 36 votos de 36 acadêmicos votantes, Presidente.

Deposito-os nas mãos de Laura Constância – companheira de quase meio século de quem sempre recebi amor, estímulo, apoio e compreensão, sem os quais jamais chegaria até aqui – e os consagro à memória de Austregésilo de Athayde e de Maria José, a Jujuca, na certeza absoluta de que estes votos também pertencem a eles.

Alguns amigos perguntam se a minha vida mudou, depois que me tornei um “imortal”, expressão que abomino por considerá-la inadequada e, muitas vezes, zombeteira. A pergunta, sempre irônica, me faz lembrar a história que meu pai contava, sobre pequena retificação feita entre os limites dos estados de São Paulo e Minas Gerais logo após a Revolução Constitucionalista de 1932. Trabalho realizado, os topógrafos que se ocuparam da tarefa visitaram a fazendola de um agricultor, cuja propriedade passara, depois da retificação, de um estado para o outro. E um deles, com uma ponta de ironia, perguntou:

– Então, meu amigo, está notando alguma diferença depois da mudança?

– Não senhor, respondeu o fazendeiro. Está tudo igual, a não ser... a não ser o clima, que aqui deste lado é um pouco diferente.

Assim, respondo aos amigos: além do usar o fardão, e receber a espada, o colar, o diploma, e o chapéu-de-dois-bicos – mais emplumado do que o de um mestre-sala de escola de samba –, o fato de ingressar nos quadros da Academia Brasileira de Letras não mudou nada em mim ou para mim, a não ser a circunstância de estar mais próximo de pessoas cuja convivência é extremamente proveitosa em todos os aspectos: o espiritual, o intelectual, o moral e o ético, sem falar no exemplo que nos dão de vidas dedicadas às letras e ao Brasil. A ilustre companhia é a melhor parte da glória que fica, eleva, honra e consola, pois, graças a Deus, desfrutamos dela em vida.

Reitero, portanto: passar pela linha imaginária dos limites entre a Avenida Presidente Wilson e o Petit Trianon em nada interferiu no meu modo de ser, que continua o mesmo.

Mas quanto ao clima – bom, creio que o fazendeiro da história de meu pai tinha razão –, o clima às vezes é um pouco diferente.

Muito obrigado.