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Celso Vieira

O MESTRE

           “Estremeceu a pátria, viveu no trabalho, e não perdeu o ideal.”

                                                       Rui

O maior dos nossos mestres, Rui Barbosa, findou titanicamente, ao desaparecer com a eminência histórica da cidade, que era o Morro do Castelo. Alguma cousa devia irmanar a sorte das montanhas e a dos titãs no mistério infinito.

Esse destino sem par na trajetória dos nossos dias refletiu o gênio ocidental da Justiça e da Liberdade, tanta vez crucificado, tanta vez redivivo. Uma e outra, deusas invictas, com a face recoberta pela mesma nuvem, o coração golpeado sob as armas de ouro, velaram o corpo do herói como sombras amadas, entre o luto da terra e a bênção dos céus.

No oratório-berço donde veio Rui - berço e altar de Vera Cruz - era ainda criança e colegial, quando a voz de um poeta anunciou que ele seria um tribuno-gigante. Com efeito, à velha tribuna religiosa de Antônio Vieira, prodígio do século XVII e enlevo do templo católico, erigida no solo baiano, sucedeu a tribuna jurídica, frequentada pela nova eloquência e pelo novo sacerdócio, em que se multiplicaram as suas orações, flamejantes cóleras ou esplendentes milagres do Verbo nas alturas. Claviculária de tesouros sem conta, a memória dele possuía todo o saber dos livros, joeirado através da meditação.

Só esse monossílabo - Rui - basta ao país incomensurável, porque resume legiões de oráculos; só por essa luz medimos o nosso tempo na ascensão das horas e das ideias mais lampejantes. Universalizando-se, a esfera do gênio singular poderia abranger todas as formas intelectuais e sensíveis, como a esfera platônica, e encerrá-las na mesma circunferência de beleza, traçada em volta da mesma bondade suprema.

Desde 1874, vivíamos na época de Rui, no augusto domínio solar de seu pensamento. O sufrágio direto, a separação da Igreja e do Estado, a causa do ensino primário e secundário, a ideia republicana, o choque do Exército e da Monarquia, o Governo Provisório e o Estatuto de 24 de fevereiro, o habeas corpus manejado contra as ditaduras, a legalidade antijacobina, a posse dos direitos pessoas, o conceitos doutrinário do estado de sítio, o debate do Código Civil, o triunfo Internacional de Haia, o civilismo e a revisão, a palavra excelsa de Buenos Aires consorciando os nossos rumos aos do mundo livre, sob tormentas implacáveis, tudo o exalta e engrandece ou nele se concentra e personifica. Até o exílio, nas brumas do caso Dreufys, mais densas que o nevoeiro da Mancha, donde recebemos as Cartas de Inglaterra, lhe consagrou a fama de cavaleiro andante do Direito.

Foi ele o homem-síntese das nossas instituições, das campanhas e reformas nacionais durante meio século, o soberano da Inteligência no Brasil, a única Inteligência deveras temida por oligarcas, embusteiros, violadores da lei nos cimos do Poder. E esse reinado contemporâneo atualizava mentalmente o de Salomão, fascinando povos estranhos e longínquos. Rebrilhante de joias clássicas, vestida e ornada, suntuosamente, pelo seu humanismo, com ele reinou a língua portuguesa em todo o esplendor das páginas de Rui.

No oceano da vida brasileira, em que se arrojava para o Ideal tanta força, desencadeada por um só espírito, vimos quebrar-se a onda mais alta, sob a mais pura estrela. Dia a dia porém, crescerá o eco da sua glória, sobre o tumulto das ondas efêmeras, com a própria nação imorredoura. É um desafio à Morte o que voa do féretro de Rui para a alma eterna do Brasil.

(Estudos e orações, 1941.)

 

JOAQUIM NABUCO

Entre todas as atividades do espírito, não se nos depara nenhuma que exija maior soma de faculdades de inteligência, do que a que diz com o estudo da personalidade humana.

Vivamos embora em contato permanente com certas pessoas: delas poderemos quando muito surpreender os traços marcantes, e que se traduzam em qualidades extrovertidas do caráter. Alguns aspectos da inteligência, mais positivos e salientes, quais o da originalidade, imaginação, presteza de raciocínio ou o senso dos valores - que se manifestam no falar ou no escrever, eis até onde atinge o juízo crítico do biógrafo de medida comum.

Mas, quando se pretende traçar o perfil de um grande homem; quando se tenta marcar-lhe a trajetória nos domínios da ação ou do pensamento; quando buscamos situá-lo convenientemente entre os seus pares, realçando-lhe os méritos que o tornaram insigne, as virtudes pelas quais sobressaiu entre outras personalidades também ilustres - aí então o escritor esbarra em insuperáveis dificuldades, porque, tendo de dispor da receptividade capaz de alcandorar-se ao cimo de tão altas virtudes, para compreendê-las, precisa ainda de possuir o verbo com que as definir: o autor tem de subir à magnitude do personagem.

Joaquim Nabuco é dessas personagens que exigem um autor - tal a multiplicidade dos aspectos, todos grandes e nobres, sob que passou pela vida brasileira, engrandecendo-a e se engrandecendo.

Não é, pois, sem fundado temor que ousamos enfrentar tema de tão árduas dificuldades, embora sedutor, como são sempre sedutores os assuntos que nos fazem falar do Brasil e dos seus grandes homens.

 

                                                                           (Joaquim Nabuco, 1949.)

 

DISCURSO INAUGURAL

(Sessão de 28 de dezembro de 1939)

Senhores Acadêmicos. - Quando fui recebido nesta casa, em 1935, por Aloísio de Castro, sentenciou esse amável confrade, resumindo-me o longo tirocínio administrativo, que o secretariado era a minha vocação e o meu fadário. Houve sorrisos discretos no auditório ilustre. Daí por diante, confirmando o vaticínio ao colega, que exultava à hora das eleições, infalivelmente, a Academia elegeu-me 2º secretário, 1º secretário e secretário-geral, posto já ofuscante, no qual supunha eu ter vencido o ápice do meu destino. Tão seguro nas previsões, como nos diagnósticos, Aloísio de Castro passava, com o seu horóscopo, de médico a astrólogo, da semiologia à astrologia, sob o neopaganismo em que a astrologia judiciária, designação dos antigos, vai renascendo por toda a parte, mesmo nas adjacências da medicina. Aliás, muito antes dele, Rabelais apresentava-se aos leitores do almanaque perpétuo como doutor em medicina e professor de astrologia.

Algumas vezes, porém, falham as predições dos especialistas e dos oráculos. Nem sempre demora a verdade, com efeito, no templo de Esculápio ou entre os louros do Palatino. Já me havia condenado um médico do Recife, sendo eu criança, a perecer muito antes da maioridade, e ultrapassei na vida meio século, donde posso induzir que me não amam os deuses, porque só amam os jovens... na sepultura. Outro médico, desvendando o futuro, impôs-me o secretariado como predestinação, e eis-me Presidente da Academia Brasileira de Letras. Só por isso, entretanto, ou por isso mesmo, não hei de concluir dos textos ou dos fatos como o divino Platão e o prudente Montaigne, imprudentíssimo neste caso, que os facultativos e os jurisconsultos são criaturas maléficas nos países onde receitam ou demandam, externam os seus pareceres ou emitem os seus prognósticos.

Benevolamente retificastes o juízo oracular. Grato pela honra da escolha imerecida e espontânea, sinto-lhe a grave responsabilidade, que me trouxe, não obstante a preeminência dos colaboradores, que me cercam, no relevo de tão nobre investidura, - “uma das genuinamente nobres situações morais do país”, - como a definiu o Conde de Afonso Celso, há quatro anos, inaugurando a sua terceira presidência.

Não me deslumbra, Srs. Acadêmicos, a posição iluminada pelos reflexos do vosso prestígio. Antes me deixam apreensivo, nesta correnteza ou neste labirinto, que é o tempo, vários enigmas do meu futuro presidencial. Se o peso das montanhas, por vezes, arranca aos titãs um lamento, como poderiam trazê-las aos ombros os pigmeus? Quanto mais altas as posições, em que se destacam os homens, tanto maiores as dificuldades, que os apoucam, reavivando-lhes o sentimento do próprio desvalor. Tenho diante de mim a primeira dificuldade na sucessão à presidência do Sr. Antônio Austregésilo, estimável pelas suas realizações. Aditai-lhe a obrigação momentânea, mas iniludível, de colorir o ato da posse com o meu programa, um artifício multicor de oratória, exigido ao novo Presidente por disposição regimental.

Conheceis a ironia da locução francesa - menteur comme un programme. Se os programas do ensino e da política, em outros climas, foram sempre coisas inverosímeis, apenas serão verdadeiros os nossos programas acadêmicos? Se as projeções ilusórias mentem, à semelhança dos fogos de artifício, estrepitantes e efêmeros, como teriam conciliado a utopia e a verdade os meus predecessores, homens por excelência verídicos?

A leitura de programas anteriores deu-me a resposta desejada. Nenhum desses trabalhos alardeia e preconiza a virtude específica de um plano; todos convergem, essencialmente, para a observância fiel do mesmo Decálogo intangível - os Estatutos. Intangível, porque a sua reforma, deixai-me acentuá-lo, seria uma profanação, um atentado às origens acadêmicas, subtraindo à lei fundamental os dois nomes gloriosos, que lhe perpetuam o espírito e lhe consagram a vigência, num desafio das normas irrevogáveis ao tempo - Machado de Assis e Joaquim Nabuco.

Concretizado em aplicações lexicológicas e estéticas o princípio do art. 1º - velar pela cultura da língua e da literatura nacional - , exercido em atividades econômicas e administrativas o dever, constante do art. 3º, desde logo se recompõe e se desenvolve o programa necessário, não de um presidente recém-eleito ou de qualquer presidência extinta, mas da própria instituição, que se eterniza, enquanto passam os anos e as vidas fugazes. Ei-lo de novo formulado em algumas cláusulas breves:

          Zelar devidamente os interesses do patrimônio social;

         enriquecer a biblioteca desta casa de autores e livros, facilitando o ingresso aos estudiosos;

         animar o progresso das formas literárias, que se harmonizem com a defesa do idioma e o decoro do estilo, sem prejuízo dos caracteres de brasilidade essencial;

         prosseguir nas tarefas de publicidade acadêmica - Revista, Anuário, Gramática, Dicionário, História da Academia, ainda não encetada, Monografias e Antologias, traduzidas estas nos idiomas de maior divulgação;

         promover os estudos biobibliográficos acerca dos patronos e dos consócios desaparecidos;

         garantir aos bons escritores e poetas o estímulo real da seleção e da justiça, indeclinável, no sistema dos nossos concursos, ampliado por iniciativa do Sr. Levi Carneiro;

         dar preferência, nas sessões ordinárias, entre homens de letras, aos temas oriundos da literatura.

Nas linhas deste programa, de acordo com o pensamento original desta fundação, nacionalizamos os sentimentos artísticos, as tendências e energias literárias da alma brasileira, aproximando valores do Brasil Unido em correspondência fraterna, sem esquecer as relações e permutas intelectuais com amigos nossos, da Europa e da América, mediante as quais se alargue o nosso horizonte pela cultura e pelo idealismo. O verbo criador da Academia Brasileira de Letras, fiat luminoso do seu primeiro dia, foi o verbo nacionalista. Machado de Assis prefigurava na Academia o núcleo ou o nexo, que servisse “para conservar no meio da federação política a unidade literária”. Joaquim Nabuco, ao proferir na sessão de 20 de julho de 1897 o maravilhoso discurso inaugural, estabelecia com altivez o rumo brasileiro: - “... a formação da Academia de Letras, declarava ele, é a afirmação de que literária, como politicamente, somos uma nação que tem o seu destino, seu caráter distinto, e só pode ser dirigida por si mesma, desenvolvendo sua originalidade com seus recursos próprios, só querendo, só aspirando à glória que possa vir de seu gênio”. Todavia, na própria originalidade, sem qualquer dependência, ele apregoava a fixidez relativa do idioma, para lhe evitarmos o empobrecimento das fontes e lhe opormos um embaraço à deformação, mais rápida no Brasil do que em Portugal. Ainda em 1897, dirigindo-se à Academia, recomendava-lhe Machado de Assis a guarda incessante e incorruptível do idioma, “não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica”. Desse modernismo precisamos, sem a intolerância exclusivista dos cânones, para nos renovarmos; dessa moda burlesca e dançante de carnaval prescindimos. Se a tradição alia os contemporâneos aos ancestrais, orientando a marcha das ideias, não havemos de transigir, sem desdoiro, ante os iconoclastas do santuário, os deformadores da linguagem.

Vernaculamente fiéis à estirpe, ainda lhe cultivamos, por outro lado, formas e gestos de sociabilidade, tão adequados no recinto, em que a gentileza se faz o ornato precioso e característico do ambiente espiritual. Com efeito, se o inventor dos cursos alemães da sabedoria, Keyserling, discriminando as feições coletivas do Brasil, revê na delicadeza o atributo inconfundível do nosso povo, não caberiam todos os requintes de urbanidade no cimo das nossas letras? Como reminiscência do instante e do lugar, quero lembrar-vos aqui as palavras do Conde de Afonso Celso, elevado à presidência em 1935. Atenta a sua composição de élite, recordava-nos esse fidalgo, a Academia “deve mostrar-se escola de boas maneiras, de salutares lições e exemplos, de tolerância, de amor à tradição e ao progresso, de ideal”.

[...]

Sim, os antigos passam e os novos hão de lançar ao mundo o tesouro das promessas estonteantes. Enquanto não o fazem, todavia, e os frutos mais verdes amadurecem na árvore donde caem os frutos sazonados, continuem velhos e moços, homens de várias escolas e várias idades, a trabalhar como possam, como devem, porque todos cabem, afinal, passadistas ou modernistas, na última escola inventada pelo bom senso francês - le vitalisme -, em que apenas se distinguem as formas vitais da arte, as produções vivazes do espírito, sem qualquer delimitação cronológica ou estética. Desta maneira, longe dos facciosos e dos fanáticos, aqui está o ideal de toda a gente: le vitalisme. Idosos ou juvenis, façamos da revivescência e das suas ilusões o nosso modus vivendi, um princípio de germinação literária, de atividade pensante. Quem sabe se o vitalismo, tendo falhado em outro século para os biologistas, não vai ressurgir com outra magnitude para os literatos?

É de praxe, Srs. Acadêmicos, que os programas acabem majestosamente, como as sinfonias. Muito grato serei à divindade, entretanto, se o meu findar sem algum desconcerto das suas vozes, algum desencontro dos seus ecos. De qualquer modo, valha-me a segurança da vossa boa vontade, força de simpatia e concórdia, animadora, imprescindível aos mandatários da terra, pois que aos homens de boa vontade se dirigem os próprios mensageiros celestes. Em qualquer desafinação, valha-me a consonância dos sentimentos benévolos com que vos digneis corrigir os lapsos desta regência imprevista. Orientai-me desde o prelúdio, Srs. Acadêmicos, e tereis na execução das vossas ideias a certeza de um epílogo harmonioso e feliz para a nova presidência da Academia.

                                                                       (Estudos e orações, 1941.)