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Barbosa Lima Sobrinho

O JORNALISMO NO MOVIMENTO ABOLICIONISTA

O Sr. Gilberto Amado, colocando-se num ponto de vista eminentemente marxista, resumiu a interpretação econômica da formação política do Brasil, no Segundo Reinado, com a seguinte frase: “Aí está esboçada toda a história do Brasil no Segundo Reinado: Senhores e Escravos.” Ele acreditava que o acordo tácito entre a Monarquia e a escravidão é que veio dar ao império brasileiro aquela majestosa tranquilidade que o destaca e singulariza em meio da América Latina.

A tese sedutora é contestável e pelo menos deficiente para explicar o complexo de nossa evolução histórica durante tão longo período. O Sr. G. Amado dá como prova de sua teoria o domínio dos conservadores, apoiados nos senhores de escravos. Refere a queda tão rápida do Partido Liberal após a maioridade de Pedro II e a atribui à pressão dos proprietários de terras, por força dos quais se implantou a dominação conservadora.

A doutrina não explica a facilidade com que os conservadores se encaminhavam na corrente de medidas emancipadoras, como João Alfredo em 88, ou como Eusébio de Queirós, em 50, num dos gabinetes mais coesos e poderosos que o partido logrou organizar durante o Segundo Reinado. Esquece outros fatores, que agiram com uma influência que não se pode determinar até onde alcançou, nem se foi preponderante, mas se sabe ter sido, em várias ocorrências, altamente ponderável.

Nesses países da América Latina nunca se deve esquecer, nas explicações históricas, um fator encontradiço: a interferência militar. Todo o período de agitação da independência e todo o Primeiro Reinado se ressentiram de seu aparecimento: o período regencial se caracterizou pela repressão enérgica que lhe opôs, o Segundo Reinado viveu a desfrutar a paz que a Regência lhe preparou, graças ao formidável Feijó, que esmagou a anarquia militar.

Há que apreciar a atuação de fatores de outra ordem, como a pressão que pode vir do estrangeiro e o entusiasmo popular, ou a coação quase irresistível da opinião pública formada pelas campanhas necessárias.

Todos esses elementos se encontram combinados e ativos no movimento abolicionista. A princípio foi apenas a pressão estrangeira, conquistando a convenção de 1826, a lei de 1831 e, principalmente, a de 1850, esta última, depois do Bill Aberdeen, como disfarce para as humilhantes providências inglesas.

Independentemente da pressão material se apontaria a do espírito, esse estado que o Conselheiro Nabuco de Araújo definiu nessas palavras magistrais: “Vede que hoje no mundo cristão somos a única nação que tem escravos. Vós não pesais o que é a força das coisas, o que é a pressão da civilização, exercida sobre um país que se isola do cristianismo, que se isola de todos.”

Houve ainda, dentro do país, o trabalho de uma propaganda eficiente, efetuada por homens que assumiram nesse tempo atitudes apostólicas. Graças a eles se fez a abolição, desamparada e hostilizada pelo poder e apesar disso vencedora. Sales Torres Homem, referindo-se ao tráfico e à reprodução ou nascimento como os dois meios perpetuadores da escravidão, dizia, já em 1870: - “O poder da opinião, que destruiu o primeiro, destruirá também o segundo, porque um e outro são igualmente nefários e desumanos.”

Para se formar essa opinião, travou-se uma campanha comovedora. A imprensa e a tribuna popular foram os instrumentos de conquista dos espíritos, nesse movimento que se apresenta, como o da Independência, popular e generalizado, surgindo simultaneamente em todos os pontos do território nacional. Durante a sua atuação, na fase aguda da propaganda, vamos encontrar aquela efervescência dos grandes dias de 1822. Comícios enormes realizavam-se nas praças e nos teatros. A Confederação Abolicionista preparava comícios semanais em que falavam oradores de reputação, muitos dos quais senadores, ou deputados.

A cada momento improvisavam-se agitações. Nabuco e José Mariano eram aplaudidos por toda a parte. Depois de derrotar, em 85, o candidato conservador, Nabuco passa triunfalmente pela Bahia e por Alagoas. Em Pernambuco, o entusiasmo que ele provoca chega ao delírio. Certa manifestação, no Rio, ao Conselheiro Dantas reuniu multidão calculada em seis mil pessoas. Patrocínio obtém avultada votação para vereador pela Capital do Império e consegue ser eleito num dos primeiros lugares.

O que havia na capital do país se encontrava nas províncias, desde as corporações abolicionistas até os comícios e as manifestações. Uma corrente das mesmas simpatias e aspirações agitava o país de norte a sul. Votou-se a lei de 13 de maio numa atmosfera de delírio e exaltação, tão forte que Patrocínio se pergunta, na Cidade do Rio: “Sonhei, ou vi tudo isso?” Até a Princesa Isabel descera de Petrópolis e esperava, numa das salas do Paço, a lei, a fim de lhe apor sem demora a sua assinatura. Por isso, Paulino de Sousa, no discurso corajoso e lógico que pronunciou, concluía com aquela frase irônica: “Ponho termo ao meu discurso para cumprir um dever de cavalheirismo, não fazendo esperar uma dama de tão alta hierarquia.”

Mas a causa popular zombava dessas resistências: ela seduzia os políticos de todos os lados, inclusive os ministros conservadores, com os encantos da popularidade. A corrente vinha já muito forte do alto e se despenhou irresistível, arrastando, envolvendo, dominando. Os elementos políticos - monarquia e parlamento (1) - capitularam apressadamente, ansiosos por salvar do naufrágio algum prestígio pessoal.

A duas causas se devia o movimento nacional: à tribuna popular, nos comícios frequentes, e à imprensa, entregue a formidáveis batalhadores. Muitas vezes a mesma pessoa usou os dois instrumentos de propaganda, como Patrocínio, Rui, Bocaiúva e o próprio Nabuco, para não enumerar senão os líderes do movimento. A influência da imprensa, no abolicionismo, deve ser considerada preponderante, pela continuidade da ação que a faz terrível. Não lhe faltaram jornalistas excepcionais pela combatividade, como Patrocínio, Ferreira de Menezes, J. Serra, Ferreira de Araújo, Gusmão Lobo, Bocaiúva, Rui.

Patrocínio é o maior de todos. Não se poderá dizer que a ele se deva mais do que aos outros; mas em verdade nenhum possuía tantas qualidades para agitador. Nabuco vinha prejudicado com a sua aristocracia, não só pela ascendência de que se honrava, como pela finura de sua inteligência e equilíbrio de sua cultura. Patrocínio surgia da turba, animado das mesmas paixões populares, argumento vivo contra a iniquidade da escravidão. Os conhecimentos nada profundos e a inteligência lhe facilitavam a missão: ele não era acessível à sobriedade, ao sereno equilíbrio ático. A imaginação tropical lhe fornecia, em catadupa, os tropos sensacionais, com que fascinava o auditório. Havia ainda o talento verbal, que era nele torrentuoso. A multidão exige dos seus dominadores que tenham muito de sua própria alma.

Patrocínio principiou a sua campanha na Gazeta de Notícias, que era dirigida por Ferreira de Araújo. Com a morte de Ferreira de Menezes passou a governar a Gazeta da Tarde, em 1881, deixando-a em 87 para fundar a Cidade do Rio, que circulou desde 28 de setembro desse ano. O seu nome se ligou às duas folhas que mais se realçaram na batalha: A Gazeta da Tarde e a Cidade do Rio. Ferreira de Araújo, que o tivera na Gazeta de Notícias, dizia a respeito de Patrocínio: - “O que está feito, não é exclusivamente obra de seu trabalho, da sua dedicação e das suas convicções; não é tudo dele; mas é o principal: a alma, o espírito popular e o desinteresse, foi ele que os introduziu na campanha.” Enquanto Rui expunha, mais que tudo, o argumento jurídico, enquanto Nabuco preferia falar em nome da civilização, Patrocínio agitava os assuntos comovedores. Ainda de Ferreira de Araújo é a frase: “No ardor da peleja confiava mais no quadro descritivo dos horrores do cativeiro do que nas vantagens econômicas da abolição.”

Ferreira de Meneses, fundador da Gazeta da Tarde e um dos iniciadores do movimento, não o acompanhou. Derrubava-o a morte logo no começo da agitação, em 1881.

Impressionante figura do jornalismo abolicionista foi, na Gazeta da Tarde, Joaquim Serra, conhecido já pela sua atividade em A Reforma, no decênio de 1868-1878. Fazedor irônico de epigramas, ele tinha para os acontecimentos uma palavra alegre e crítica. “É um Meilhac político”, disse Nabuco, “compõe com os assuntos do dia burlesco tão inofensivos para os personagens que neles aparecem como La Belle Hélène para os gregos ou La Grande Duchesse para as pequenas cortes da Alemanha.” Mas na Gazeta da Tarde revela-se, como diz ainda Nabuco, o “outro Serra, figura resplandecente na história da abolição pela seriedade, constância, sacrifício e heroísmo do seu incomparável combate de dez anos, dia a dia, até a vitória final de 13 de Maio.”

Era assim que se manifestavam, acerca do abolicionista, os seus companheiros de propaganda, aqueles que mais de perto o acompanharam. André Rebouças chamava-o “o publicista que mais escreveu contra os escravocratas”; Gusmão Lobo observava por sua morte: “Ninguém fez mais do que ele... e quem fez tanto?” Em A minha formação, Nabuco dirá ainda: “Serra cumpriu a sua tarefa com uma constância e uma assiduidade a toda a prova, sem dar uma falta, e com o mais perfeito espírito de abnegação e lealdade. Minado por uma doença que não o perdoa, salvava cada manhã o que bastasse de alegria para sorrir à esperança dos escravos.” Como têm razão os homens que censuram a classe dos jornalistas, capaz de produzir, num mundo de egoísmos naturais, tão desnaturado desinteresse!

Não esqueçamos outros combatentes merecedores do nosso respeito, como Gusmão Lobo, que na fase crítica do movimento encheu sozinho, com a emancipação, o Jornal do Comércio; ou Bocaiúva, ou o formidável Rui Barbosa, ou Coelho Neto, para não falar em outros, que não tiveram tanto relevo, mas nos quais não foi menor o entusiasmo, ou a abnegação.

Nabuco, se agiu menos no jornalismo (2), aplicou a sua atividade em todas as esferas, até no interior do Vaticano, obtendo aquela célebre manifestação de Leão XIII e por certo tão decisiva no espírito da Princesa Isabel.

Grande movimento, a abolição! Considere-se na batalha o valor decisivo da imprensa, o desinteresse de que deu provas e logo nos convenceremos de que o país lhe deve, na conjuntura, a parte maior dos serviços. (3)

Pouco depois, aproveitando o esforço da campanha abolicionista, os republicanos venciam sem trabalho a jornada de 15 de Novembro. Ainda uma vez vamos encontrar na imprensa um fator preponderante, graças a campeões como Bocaiúva em O País e Rui Barbosa no Diário de Notícias. Este, apoiando-se na questão militar, foi o terrível propagandista a que se deve o 15 de Novembro.

Em 30 anos de República, a atuação do jornalismo não tem esmorecido e, ao contrário, ele se tornou o veículo de todas as agitações nacionais. Mas o obscuro comentador para neste ponto, acreditando não ser ainda tempo de julgar com acerto e imparcialidade a influência da imprensa no período republicano.

(1). Nabuco se rebela contra essa opinião, mas se o abolicionismo, na sua fase autônoma de 1879-1888, se iniciou, cronologicamente, com J. Sodré, na Câmara esse brado não repercutiu tanto. A campanha popular dominou o movimento.

(2). Escreveu em A Tribuna, de 1871 a 1873. Ele próprio o narrou em A minha formação. Colaborou também em A Província do Recife e em O País.

(3). “A Abolição é também, e acaso principalmente, obra dos jornais e jornalistas, e, salvo raras e indignas exceções, toda a imprensa brasileira foi, com mais ou menos moderação, abolicionista.” José Veríssimo, “A Imprensa”, no Livro do Centenário. “O que caracteriza a campanha abolicionista no Brasil é exatamente o fato de ter sido ela transportada vitoriosamente das ruas para o parlamento como uma imposição e uma conquista da imprensa e da tribuna popular.” O. Duque-Estrada, A Abolição, pág. 49.

                                                          (O problema da imprensa, 1923.)

 

A LÍNGUA PORTUGUESA E A UNIDADE DO BRASIL

Convém fixar a função da língua portuguesa, como instrumento de comunicação com o mundo, língua de tipo universal, incorporando-nos à comunidade humana. É uma porta aberta para o universo, ainda que estreita, dentro do conceito do poeta, que a considerava:

 “És, a um tempo, esplendor e sepultura.”

Nenhum povo cometeria, hoje, na hora do intercâmbio e da interdependência, o erro de restringir ainda mais o campo de ação de um determinado idioma, quando a tendência é para alargar as fronteiras, ou para aumentar o número dos que o empregam. Qualquer sacrifício que se fizesse nesse sentido teria a compensação de uma influência maior da língua utilizada e ninguém poderá receber como desnacionalizante um esforço, que visa à influência espiritual e ao alargamento do campo de ação da própria pátria, através de seu instrumento linguístico.

A língua vale - explicava Entwistle - pela sua riqueza de pensamento e pela sua ampla difusão. Esses os elementos que a prestigiam e valorizam. Nesse aspecto, Miguel Osório de Almeida já havia notado que o português era realmente um túmulo, pois que os trabalhos escritos nesse idioma têm tido o destino de se conservarem quase integralmente ignorados. “Em rigor - concluía ele - poder-se-ia dizer ter sido o pensamento português e brasileiro o túmulo da língua portuguesa... para erguer este é preciso primeiro criar, ou se quisermos ser menos rigorosos, fazer nascer aquele.”

Não nos parece, todavia, que tudo se resuma a uma questão de pensamento. Há outros fatores, econômicos, políticos, sociais, que se acrescentam ao espiritual, para valorizar um idioma e tornar quase necessário o seu conhecimento. De qualquer modo, porém, o que convém é não perder terreno, isto é, é não reduzir o número de pessoas que o utilizam como um idioma comum.

No Brasil, não é esse o único interesse na defesa da língua portuguesa, nem será essa a mais importante de suas funções. Quando atentamos na variedade das manifestações dialetais, que se multiplicam Brasil adentro, chegamos à evidência que não possuímos nenhum tipo dialetal, que possa servir de meio de comunicação em todo o território brasileiro, em que pesa a opinião do Sr. Serafim da Silva Neto, que entendia que “a grande maioria dos fatos que caracterizam os nossos falares regionais têm âmbito pan-brasileiro”. Refere-se, porém, a alguns fatos, como o desaparecimento da flexão numérica por meio do s, a extrema simplificação das formas verbais e a diversos fatos fonéticos, a redução do ou a ô, do ei em ê, do lh em i, no nd em n, do mb em m, o desaparecimento do r e do l, o uso do ter por haver. São fatos de importância, na caracterização de fenômenos dialetais, mas não serão essas alterações que hão de servir de suporte a um idioma brasileiro. Damos, por isso, mais importância à contribuição dos vocabulários, aos regionalismos que podem chegar à linguagem escrita e até mesmo à língua literária do país. E sob esse aspecto, pode haver brasileirismos de uso nacional, mas o mais comum é encontrar vocábulos próprios, em cada uma de nossas assinaladas áreas linguísticas.

Um dos dialetos mais expressivos do país é o gaúcho. Dele nos diz o Sr. Roque Callage “que 60% dos vocábulos rio-grandenses são do origem hispano-latina, ou puramente platinos”. “No que toca aos termos empregados na vida pastoril, essa contribuição é quase unânime, bastando apenas citar, como um ligeiro exemplo, as seguintes palavras: vaquilhona, terneiro, vacagem, matambre, tropilha, tentos, tambo, saladeiro, aperos, mancarrão, zorro, tronco, tambeiro, banhado, rincão, retovo, reponte, redomão, querência, posteiro, alambrado, peleia, pelego, xerga, pingo, pilungo, picaço, petiço, sinuelo, entrevero, cusco, corincho, pelechar, milico e muitíssimas outras."”Leia-se um autor rio-grandense, intérprete fiel e brilhante desse dialeto, Alcides Maia, e encontrar-se-á trecho assim:

                  “Montava um gateado, cabos-negros, urco, meio estreleiro e sonador. Caprichara também no trato do animal, bem gordo, chairado a cogotilho, primorosamente rasqueteado, de cascos redondos, a cola de canta-galo.”

A impressão de estranheza, que nos deixa esse trecho, que só podemos entender com o auxílio de um glossário, não se limitará a esse autor e a esse dialeto. Vejamos um outro observador de dialeto regional, o Sr. Manuel Ambrósio, residente no vale do rio São Francisco, na parte de Minas Gerais. Num livro Brasil Interior, alinha para mais de 370 expressões típicas do linguajar da região de Januária. Há frases assim: - “Meu véio era muito resmelengue do teimoso, coitadim!”, “Deus perdoe teus pecado, não te sirve de pena, mais eu já ouvi se andá rosnano nas milodença.”, ‘Tu topou, tamancudo! Bem feito! Pranão andá mais zanzarano e bongano.”

Encontramos aí, nesse repertório de regionalismos, “adio”, no sentido de nunca, “alhas” em vez de aliás, “acão’ por eis-me aqui, “areias gordas’ por inferno ardente, “bocave” por audácia e um sem-número de modismos, para uma zona que se nos afigura restrita.

O falar nordestino tem tido divulgadores entusiastas, desde o Sr. José Américo e José Lins do Rego, e já foi objeto de uma obra séria do Sr. Mário Marroquim, que preferiu o título de A língua do Nordeste, embora não a considere senão um dialeto. Expressões típicas da região, nem sempre encontram compreensão imediata para os que não estejam identificados com o vocabulário nordestino. “Danço lá com esse trupizuque... Estou de meu, dando figa pra ele”, observa personagem de A bagaceira. No próprio folclore há versos, que precisamos ler com atenção:

                  “Barba de guandu

                  Cachorro de sela

                  Soco de quinzela

                  Rato guabiru

                  Pena de urubu

                  Barriga de esturro

                  Venta de chamurro

                  Beiço de purão

                  Cavalo de cão

                  Orelha de burro.”

                  Ou:

                  “Mas no centro das troças

                  De tantos mamulengos

                  Destaco os quatro engrossas

                  Do tal Clube dos Quengos.”

O dialeto caipira, tão bem estudado no livro de Amadeu Amaral, não seria mais acessível. “O Bismarque chateô no chão, amarrano, que era u’a buniteza. As corujas do campo a mó que tavam malucas, essa noite; era um voar sem parada, em riba da minha testa, que me deixava azoretado.”, “Cuidado, minha gente, temos aí cabra que truca sem zape nem catatau.”, “Estacas de guarantã sustendo uma viola, uma espingarda de picapau e a patrona de couro de jacuatirica, um pala, um corote e roupas velhas.”

Seria trabalho interessante e valioso organizar uma espécie de antologia de nossa literatura regionalista, para reunir não só as páginas mais belas que a ilustram, como para exibir uma documentação dialetológica, que já nos daria uma impressão antecipada, embora precária, de nosso futuro atlas linguístico. Bastaria essa coletânea para nos convencer de que nossos dialetos não transpõem, via de regra, pelo menos naquilo que eles tem de mais característico no vocabulário, as fronteiras das regiões a que pertencem. Verificaríamos que nenhum deles poderia desempenhar a função de meio de comunicação entre os brasileiros de todos os quadrantes. A linguagem que eles apresentam é difícil para qualquer leitor, mesmo para os das regiões a que pertence o dialeto, pois que todos estamos habituados a outro tipo de linguagem escrita. Poder-se-ia dizer, ou supor, paradoxalmente, que esses trechos fariam sucesso quando lidos a analfabetos, pois que se ajustariam melhor quando ouvidos. Retratam a língua falada entre pessoas incultas e não alfabetizadas. A língua escrita e, sobretudo, a língua literária, depende de uma certa continuidade, e não é possível passar impunemente de um trecho de jornal, ou de antologia escolar, para o linguajar tosco, entremeado de expressões truncadas e de provincianismos desconhecidos. Eu não me atreveria a enfrentar, sem um glossário, esses livros de literatura regional, e não posso compreender que me pertença um idioma, cuja leitura e cuja compreensão dependa do uso de vocabulários especiais.

Leiamos o trecho coligido por Lindolfo Gomes e que um dos mais decididos partidários da diversificação linguística, o Sr. Renato Mendonça, citava num de seus livros:

“Vancê vai ino, vai ino inté garrá o espigão... vai subino, vai subino, e chega no arto em onde tem u’a cruz onde mataro um homem, fio do cumpadre manjó Zé de Castro, vai para dois ano - Deus li fale narma... mas porém, despois, vai desceno, vai desceno inté caí na varge do seu coroné. Hi pega na tria, pur meio do capim-gordura, e vai rompendo. Depois garra estrada larga; tem pra diante u’a portera, abre, mas porém não deixa aberta pra mode não fugi o gado, que o dono brama. Vai seguino, quando chegá na estiva, tem um atolero, passa no meio, quebra mão esquerda e ganha estrada outra vez, e vai ino, vai ino até encontrá uma umbaúva seca, hi quebra o braço direito, ganha outra estrada, e vai rompendo, toda vida, encontra u’a vendinha, é de Neco Sousa - bom home, ninguém ganha dele no truque - pode descansá, se quisé, se não quisé, progunta o caminho quando chegá na pedrera, quebra o braço esquerdo, ganha a estrada de rasto de tropa - entravessa um carderão - cuidado que atola inté o pescoço já morrero ali munto gado e munto burro - e gente tomém - passa no meio, patrão - é o mais seguro - anda mais obra de um tiro de espingarda - e tá no arraiá. Hoje é sabo, aminhã tem missa lá. Cumo é sua graça?”

O Sr. Serafim da Silva Neto apresenta como sendo o estado atual das flexões verbais, na linguagem regional, esses exemplos do verbo louvar:

                  Presente do indicativo: Eu lóvo

                  Tu lóva

                  Ele lóva

                  Nós lóva

                  Vós lóva

                  Eles lóva.

E assim por diante. Mas será isso a língua brasileira? Decerto que não, como não é língua portuguesa a que se encontra nos trechos registrados por Leite de Vasconcelos e nos quais procurou traduzir as formas dialetais existentes em seu país. Que será, então, a língua brasileira?

Conta-se que, num exame do Colégio Pedro II, certo aluno defendera essa famosa língua brasileira e que o Professor Oiticica, que o ouvia pacientemente, o interrompera:

                  - Diga-me, então, o padre-nosso em língua brasileira.

Outro filólogo, o Sr. Serafim da Silva Neto, escreve a esse respeito: “Imaginemos o que seriam os textos venerandos da Constituição e do Código Civil se vazados na linguagem com que Catulo escreveu a sua pitoresca e deliciosa literatura regional. Imaginemos severos professores de Medicina, Direito, Engenharia, lançando, do alto da cátedra, entre joias de saber universitário, os ‘pru mode’, que no grande poeta popular tão saborosos nos parecem! Quando tal coisa acontecesse, não teríamos só rebaixado a língua que herdamos: ter-nos-íamos rebaixado nós mesmos à face do mundo civilizado.”

A conclusão, pois, a que não podemos fugir, é a de que se temos o privilégio, apesar da vastidão de nosso território e da variedade de falares que concorrem para a diversificação de nosso fatores, de nos entendermos facilmente de extremo a extremo do Brasil, devemo-la a essa língua portuguesa, que foi, desde a fase colonial, uma das forças decisivas da unidade do país. Ela é que nos prendeu através dos séculos da formação; ela é que assiste ao nosso desenvolvimento e à nossa expansão. Ajudou-nos a superar os obstáculos do bilinguismo ou trilinguismo, impondo-se pouco a pouco às tribos do gentio subjugado e à escravaria africana. Permitiu que se sentissem como um só povo as gentes esparsas no litoral imenso, do extremo Norte às fronteiras do Sul, constituindo-se em fator de repulsa à colonização holandesa, que ameaçara dividir o país em diversas regiões inajustáveis. Foi aos poucos fixando, a Oeste, no choque com o castelhano, as lindes dos súditos de El-Rei Camões. Nela se escreveram nossos primeiros documentos oficiais, as cartas de ofício, as provisões e ordens das autoridades, as cartas familiares, as escrituras dos cartórios. O grito da Independência se expressou em português, como a proclamação da República. Todas as nossas leis são escritas no idioma de Vieira, como todas as Constituições políticas, que regeram e regem nossas instituições, estabelecendo deveres e direitos entre governantes e governados. Nenhum de nossos prosadores, ou de nossos poetas, usou de outro idioma, para a tradução de seus pensamentos e de sua sensibilidade. Os versos que cantaram a beleza de Marília de Dirceu, ou a alegria dos oito anos, ou que modularam os cantos do exílio e os sofrimentos dos escravos, traçaram-se na língua portuguesa. De Bento Teixeira Pinto a Machado de Assis, do Padre Vieira a Rui Barbosa, de Mont’Alverne a Joaquim Nabuco, não tivemos, e não quisemos ter outra linguagem que aquela que a epopeia lusa sublimara.

Se pensamos na unidade brasileira, temos que defender com energia o idioma, que é o penhor dessa unidade. Estamos com o Professor Jarbas Aragão, quando diz que “uma onda de impatriotismo consciente ou inconsciente procura destruir a obra inestimável da unidade da língua” - o que seria o mesmo que combater a unidade da pátria. Não sabemos por que o Brasil há de estar mais na língua falada dos analfabetos, ou no linguajar descuidado da conversação, do que na língua escrita e na língua literária, em que se expressou toda a nossa literatura, o canto dos poetas, a frase límpida dos prosadores, o documentário de nossa atividade espiritual nos jornais, na tribuna sagrada, na tribuna forense, nas casas do Parlamento do Império e do Congresso republicano.

No dia em que se quebrasse a disciplina da língua escrita e da língua literária, para que prevalecessem os falares regionais, teria também desaparecido a unidade linguística, que é um dos fundamentos de nossa unidade política e de nossa unidade nacional. Como é também a língua comum que conserva a hegemonia prática e, em consequência, o meio de comunicação eficaz, no que se chamou a federação de linguagens da sociedade moderna, isto é, as gírias, as linguagens técnicas, regionais, familiares ou profissionais. Mesmo quando a conservação de nosso idioma tradicional representasse constrangimento, deveria ainda assim ser mantido e defendido, pelos benefícios que daí nos adviriam. E ainda mais tranquila se nos afigura a causa, quando sabemos que não exige nenhum constrangimento, pois que foi nesse idioma que nos foram cantadas as canções de ninar e nele foi que expressamos as palavras de amor, as confidências arrancadas ao coração. Não pode representar constrangimento o empregar o idioma em que ouvimos, pela primeira vez, a vozinha infantil articulando, em nossos lares, suas primeiras sílabas hesitantes.

Quando a sabemos bem é que vemos que tem as virtudes e qualidade dos idiomas universais. Não é uma língua morta, pesada de arcaísmos que a façam rígida e áspera, mas um idioma plástico, e dócil, trabalhado pelos escritores que o ilustraram e ansioso pela cooperação dos que continuem a obra iniciada, fazendo com que ele reflita, cada vez com maior precisão, as necessidades e aspirações da época em que vivemos. Não se trancou ao espírito de reforma e à evolução natural da expressão. Deseja, apenas, que esse progresso obedeça às leis gerais do idioma, para que ele se conserve fiel a si mesmo, e possa prender, com o mesmo elo, o passado e o presente, para inspiração e segurança do futuro. Será assim o idioma, na frase de Rodó, uma ponte eterna sobre a corrente dos séculos, como tem sido uma ponte sobre a vastidão do oceano. Que os idiomas se destinam a vencer o Espaço e o Tempo, desde que aqueles que os usam saibam compreender sua vocação ecumênica e seu sentido de perenidade.

                                 (A língua portuguesa e a unidade do Brasil, 1958.)