Início > Acadêmicos > Barbosa Lima Sobrinho > Barbosa Lima Sobrinho

Discurso de recepção

Discurso de recepção por Múcio Leão

Alegria e melancolia

Nesta noite de vossa consagração acadêmica, Sr. Barbosa Lima Sobrinho, não sei que mais haverá no espírito daquele que chega e no espírito daquele que vem dar-lhe as boas-vindas. Não sei que mais haverá – se alegria, se melancolia.

Alegria haverá, e grande, pois esta é a noite gloriosa em que recebeis o galardão merecido pela obra que, através de quatro lustros, vindes realizando, no incansável labor de homem de letras e de jornalista.

Melancolia haverá, e profunda; a melancolia de não vermos aqui, entre os presentes, algumas figuras benignas, que vos amaram, que vos compreenderam, que sentiram, um dia, o orgulho de vosso destino fulgurante.

Que vos direi eu nesta noite? Que vos direi eu, que tenho tanta coisa a dizer a vosso propósito?

Permiti, primeiramente, que, abandonando, por um instante, as pompas desta solenidade, a minha imaginação se transporte para bem longe, para o vosso e para o meu Pernambuco. Ali, torno a encontrar, amáveis e graves, dois homens, cujo maior sonho consistiria em que pudessem ver chegados à festividade de hoje os filhos que, ao lado deles, os seguem, procurando imitar-lhes os exemplos de uma pobreza austera, honesta e laboriosa. Ali torno a encontrar as imagens de duas mulheres suaves, afeitas igualmente ao sacrifício e à ternura. Ali torno a encontrá-las, cercadas de um bando álacre de crianças.

No meio desse bando de crianças, há dois meninos que aos meus olhos se destacam. São já amigos dos livros, são já especulativos ou melancólicos, e já vivem procurando, para leituras e meditações, autores solenes ou graciosos.

Um desses meninos, e sem dúvida o mais prudente, o mais sutil, o mais exato, sois vós.

Tríplice esplendor

A Cadeira que vindes ocupar fulgura sob um tríplice esplendor.

O patrono é aquele rapaz desconsolado e meigo que, nos instantes de uma vida curta, soube sonhar um sonho deslumbrado e deixou versos impregnados de indizível tristeza e ternura sem fim. O criador da Cadeira é o poeta comovido e dolente, o poeta que conhece as mágoas das esperanças fanadas e dos amores insatisfeitos. O segundo ocupante é o herói fulgentíssimo que pôde esculpir, nos campos de batalha, alguns dos bronzes preclaros de nossas epopéias; erudito, ele perdura, também, no valor dos livros que escreveu. O terceiro ocupante, aquele a quem sucedeis, é o gentil-homem de encantadora estirpe mental, é o poeta, o romancista, o crítico atilado.

Poesia. Heroísmo. Erudição.

É esse o legado que vindes receber, Sr. Barbosa Lima Sobrinho. E sois digno de guardá-lo.

Quanto à erudição, não será somente a Academia Brasileira quem a proclame, a louve e a admire. Ela está aí, nítida, em ótimos livros, que abordam os mais diferentes gêneros. Por esse lado, o autor da Ilusão do Direito de Guerra e do Problema da Imprensa será excelente continuador de Teixeira de Melo, o estudioso das Efemérides Nacionais, de Jaceguai, o cronista de nossa história naval, e de Goulart de Andrade, o crítico de Sementeira e Colheita, o aproximador de Milton e Camões.

Quanto ao heroísmo, nada posso dizer. Conheço-vos as virtudes civis e particulares, e sei que conservais aquela rija fibra moral dos velhos pernambucanos, que souberam escrever, em nossa Pátria, as páginas galhardas da bravura. Não tivestes ainda ocasião de mostrar se possuís, como Jaceguai, uma têmpera de guerreiro. Tudo o que sei é que já andastes militarmente fardado, com uma bravia carabina ao ombro, nas marchas e contramarchas de um tiro-de-guerra do Recife. Desse belicoso tempo ficaram, indeléveis, alguns traços em vosso coração. E no mais austero dos vossos livros é com orgulho maldisfarçado que aproveitais uma ocasião que se apresenta para desvendar aos nossos olhos os difíceis segredos da nomenclatura dos fuzis Mauser.

Para completar-vos a integração na Cadeira de Casimiro de Abreu, restar-me-á falar da poesia. E poeta vós o sois, meu ilustre confrade. Poesia é o encanto de vossa vida tão pura, tão alta e recatada, toda oferecida ao bem da Pátria e ao amor da família. Poesia é grande parte de vossa obra – esse gracioso livro da Árvore do Bem e do Mal, algumas dessas histórias sutis do Vendedor de Discursos, a maliciosa tradução do Diário de Adão e Eva, que publicastes, um pouco clandestinamente, nos começos da atividade literária. Poesia é, principalmente, essa longa série de trabalhos que guardais nas gavetas, esses sonetos e esses poemas que viestes escrevendo num diálogo íntimo com a vossa própria alma.

Alvorecer de uma vocação literária

As primeiras manifestações de vossa tendência literária, meu caro confrade, eu vou encontrá-las na infância. Era no Instituto Ginasial Pernambuco, o colégio da Rua da Aurora, que, sob a direção de Cândido Duarte, acolhia uma centena de garotos inquietos. Vossa turma possuía, entre outros, dois meninos que mostravam possuir maiores pendores para a literatura. Um era Edmundo Jordão, belo espírito de homem de Letras, que hoje, todo entregue às cogitações de magistrado, redige eruditas sentenças no Juízo de Direito de Garanhuns. O outro éreis vós. Estudiosos, lidos, já, em Eça de Queirós, em Zola e talvez em Machado de Assis, vós e Edmundo Jordão deliberastes fundar um jornal. Essa folha usava um título pomposo – A Verdade. O quanto era infantil aquele retalhinho de papel, escrito por dois colegiais, não será difícil imaginar. Mas, se eu cito o fato, é somente porque ele parece traduzir, já nesses dias, que poderíamos dizer longínquos, a vossa irrecusável tendência para as atividades jornalísticas.

Veio depois o período da Faculdade de Direito. No velho instituto encontrastes mestres capazes de vos compreenderem o espírito. Laurindo Leão, Hercílio de Sousa, Henrique Milet, Meira de Vasconcelos, Gondim Filho, Aníbal Freire foram vossos mestres diletos. Com eles aprendestes os mistérios tortuosos do Direito. Eles acreditaram em vós, desde o primeiro momento.

Período de esporte

Também foi essa a vossa grande fase de exercícios físicos.

Os livros de estudo absorviam, sem dúvida, boa parte das horas dos vossos dias. As outras, porém, eram dadas ao esporte: à natação, ao remo e, principalmente, à marcha e ao futebol. Neste último exercício, destes repetidas provas de energia e resistência nas competições do Clube Náutico. Certo, nunca conseguistes entrar na arena como elemento de primeiro team; foi, porém, com a vossa palavra que o clube contou no momento em que, numa rude pugna de advocacia, teve que delegar a um dos seus associados a missão de combater a lastimável teoria, hoje vitoriosa, do profissionalismo no jogo.

No remo, fostes também elemento destacado da associação a que pertencíeis. Por uma dessas ironias singulares das coisas, vós, o mais modesto dos remadores, vistes a vossa guarnição batizada como sendo a guarnição dos gomeiros. Esta palavra, na gíria desportiva de Pernambuco, quer dizer blasonador, contador de bravatas, cabotino. É que um dos vossos companheiros de guarnição, doce alma em verdade, era, na aparência, um truculento, um ferrabrás, que andava a desafiar os campeões dos páreos de honra para infligir-lhes derrotas vergonhosas. Essa abundância de desafios do vosso sota-proa mereceu a ironia reparadora dos companheiros do clube. Vós, que éreis um prudente e discreto proa, tivestes que receber parte do sarcasmo.

Assim vos entregáveis ao futebol e ao remo. Vosso exercício predileto era, porém, marchar. Vossas excursões a princípio foram moderadas. Tranqüilas caminhadas de uma légua, de légua e meia, do Recife a Olinda, de Olinda a Beberibe, de Beberibe aos Peixinhos. Depois fostes adquirindo confiança nas próprias forças. E eis que, certo dia, deliberastes ir a pé desde Olinda, onde moráveis, até Goiana. Para essa destemerosa prova, foram convocados quatro ou cinco amigos, habituados às caminhadas longas. Na noite aprazada, compareceu apenas um. Os outros tinham desistido.

Essa viagem foi o seu tanto agitada. E eu creio que poderíeis narrá-la numa página de que não ficaria ausente o humour.

O valor de uma carta

Ao deixardes a Faculdade, éreis o laureado da turma. Auréola fulgurante punha-vos em destaque o nome. Lembrai-vos da confiança profunda que todos nós depositávamos em vosso futuro. À memória vem-me episódio curioso daqueles dias juvenis. Acabáveis de concluir o curso e fostes passar uns dias em um dos aprazíveis engenhos de Água-Preta, época de Natal. Tudo era aquela deliciosa alegria do tempo das festas nos engenhos pernambucanos. Achavam-se convosco vários colegas dos bancos de estudo. Certa noite, no salão da casa-grande, as moças começaram a orçar o valor das cartas dos bacharéis recém-formados que se encontravam no engenho. Ao se referirem à carta de um dos vossos amigos, useiro e vezeiro na conquista das simplesmentes, sorriram, irônicas:

– A carta do Dr. Fulano só vale cinqüenta contos...

E, ainda assim, talvez seja muito...

Alguém perguntou, então, em quanto orçariam elas a vossa carta. E a resposta veio imediata:

– Ah! A do Dr. Barbosa Lima vale, pelo menos, uns dois mil contos...

Aí está a mais verdadeira síntese das grandes esperanças que todos já depositávamos em vós, naqueles formosos tempos.

Oliveira Lima

Nessa época fizestes grande amizade com Oliveira Lima. E essa amizade, creio, teve muita influência sobre a vossa vida.

Decepcionado dos homens e das coisas, amargurado com a insânia da guerra, que devastava o mundo, o historiador de D. João VI havia procurado um remanso de paz e tranqüilidade em sua cidade natal. No Recife, ele foi habitar velha mansão senhorial dos Apipucos, relíquia de um passado opulento. Ia freqüentemente àquele casarão, visitar o mestre, que todos admiravam e amavam, uma juventude palradeira. Oliveira Lima, que deixou uma obra não raro desabrida, onde se diz muita verdade e se faz muito sarcasmo, era, na relativa intimidade que concedia aos seus jovens amigos, de uma bondade simples e confiada. Quanta vez, em sua chácara vizinha ao Capibaribe, sentado à cadeira de balanço, nos falou, a vós e a mim, acerca de trabalhos que estava a completar. A tarefa com que então lutava era grande: a de ultimar a sua História da Civilização. Tivemos a felicidade de ver-lhe o pensamento, por assim dizer, em sua forma nativa, através de determinada crítica sobre um acontecimento relevante da história da humanidade, através de uma apreciação sutil ao método de um Guizot, de um Mommsen, de um Cantu.

Mais tarde, nas lutas jornalísticas em prol da candidatura do Barão de Suassuna, fostes o companheiro constante de Oliveira Lima. E o testemunho da reciprocidade dessa afeição encontra-se na repetida correspondência, sempre carinhosa, que o sábio historiador manteve convosco.

Creio que poderemos ficar irmanados na veneração e na gratidão ao mestre de Pernambuco e seu Desenvolvimento Histórico. Devi-lhe o primeiro emprego que tive, o de repórter no Diário de Pernambuco. Talvez lhe tenhais devido, também, o vosso primeiro emprego.

Diário de Pernambuco

Era ao Diário de Pernambuco que semanalmente íeis, para entregar os vossos artigos, já suculentos e cheios de idéias.

A tradicional folha pernambucana era, então, dirigida por dois jornalistas muito diferentes, mas do mesmo modo interessantes: Carlos de Lira Filho e Manuel Caetano.

Carlos de Lira Filho, polemista cuja ironia fulminava os adversários, tinha aos nossos olhos o prestígio de um Zeus que vivesse perdido entre nuvens. Não se dignava de aparecer-nos. Permanecia numa esfera olímpica, no segundo andar do prédio, na sua vida isolada de misantropo. Lá, no castelo inacessível, escrevia as notas, os artigos, e os mandava diretamente à composição.

O contato dos colaboradores com o Diário estabelecia-se através de Manuel Caetano. Era um homem singularmente retraído, desses que parecem estar a pedir perdão às outras pessoas por terem que ocupar um lugarzinho no planeta. A princípio, julgá-lo-íamos azedo ou mal-humorado. Vencêssemos, porém, essa aparente crosta de hostilidade – e que luminoso coração encontraríamos! Que tesouros de amor pela inteligência, que profundo prazer em animar os jovens! Manuel Caetano recebia vossos artigos e os dos vossos companheiros de geração acadêmica. E, como já foi contado neste mesmo recinto, quando o original se apresentava especialmente detestável, tinha a paciência de sentar-se à mesa e recopiar, na sua letra caligráfica, as páginas ilegíveis.

Se me não trai a memória, os principais artigos que publicastes, nessa fase inicial de jornalista, versavam sobre a grande guerra. Vossa forma literária, nessa hora matinal, trairia a influência de Euclides da Cunha e Raul Pompéia.

E tínheis, de vez em quando, a volúpia de ornamentar o estilo com vocábulos mortos. Está a lembrar-me, agora, o escândalo que provocastes, no meio dos estudantes, vossos leitores, quando, num artigo em que examináveis a situação em que iria ficar a Rússia depois da guerra, empregastes o advérbio – tamalavez. Nenhum de nós conhecia, sequer de vista, esse vocábulo sesquipedal, que tínheis ido descobrir creio que numa página de Malheiro Dias. E a estranhíssima palavra assumiu, em nossa ingênua imaginação, a monstruosidade de uma daqueles répteis fabulosos, que contemplávamos, assombrados, nas reconstituições de Figuier – animais que, se aparecessem hoje nas ruas de Paris, seriam capazes de devorar o almoço na varanda de um quinto andar!

Tamalavez! Aquilo, desde então, foi, para todos nós, o dinossauro da literatura.

O satírico

Nesse tempo, ai de nós dois, já tão distante, existiam em vós dois espíritos: um era o estudioso tranqüilo, o homem pacato e manso, que gostava de comunicar aos leitores as suas idéias, e lhes dava, quando muito, o piparote de uma ironia; o outro era o satírico impenitente, sem caridade, às vezes sem humanidade. Era o homem que certa vez (relevai a impertinência da minha memória, que às vezes tem o capricho de não deixar que se apaguem as coisas) me dizia, num momento de confidência pessimista: “Eu desejava ter na vida aquela inflexibilidade de Aquiles.”

Sim, era esse desejo de inflexibilidade, e talvez mesmo de violência, que havia principalmente no outro Alexandre José, no Barbosa Lima Sobrinho dos tempos que estamos a recordar. Às suas tendências de admirador do Alceste de Molière devemos boa parte da vossa obra inicial. Toda ela, toda a vossa produção da primeira mocidade, é impregnada de revolta contra as coisas, de ódio contra a baixeza e a vilania humana. O convívio medíocre, a vulgaridade dos alunos da Faculdade de Direito, estimulou a vossa irritação mal contida. Que havíeis de fazer? Volvestes contra os companheiros da turma a vossa alma jupiteriana. E, novo Sérgio, evadido agora das aulas de um colégio secundário para os bancos de uma faculdade superior, começastes a dizer verdades sobre toda a gente. A série de Caricaturas, que publicastes acerca dos bacharelandos do Recife no ano de 1917, ficou famosa. O mais curioso é que publicáveis essas caricaturas sob o mais absoluto sigilo, pondo-lhe apenas esta assinatura: Cam e Sem. Que execuções tremendas eram essas páginas! E como o retratista de almas, o psicólogo vingador, nelas se revelava!

Não resisto à tentação de ler, perante a Academia, uma dessas páginas, em que já reveláveis toda a eloqüência do vosso estilo. Seja a mais característica de todas aquela em que traçais o perfil de um dos mais ilustres rapazes da época – exatamente o perfil do Sr. Barbosa Lima Sobrinho. Assim fazíeis a vossa própria execução:

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho é um nome grande demais para a insignificância de quem o leva.

Herdeiro da esquelética magreza de seu tio, tem um físico desagradável – alto como uma montanha, magro como um espeto, pernas compridas, e por cima de tudo uma cabeça grande com um rosto pequeno. Dá a impressão exata de uma maravilha de equilíbrio – uma vara de espanar, mantendo na extremidade um crânio descarnado. É, entretanto, um sportman: futebol, natação, remo, escoteirismo, tudo isso lhe é grato e, a julgar das aparências, muito tem concorrido para lhe desenvolver... os ossos.

É o campeão das distinções, a cujas brilhaturas tem feito jus menos pela inexistente inteligência e fosforescentes estudos que por sábios expedientes.

Foi um dos papáveis à oratória do quinto ano, mas a sua insignificante candidatura injustificada e extravagante esvaiu-se aos primeiros embates da feroz campanha.

A sua discreta vaidade é o menor dos seus grandes defeitos.

A perseguição incansável de deidades horrendas (Asinus asinum frieat) tornou-o misógino, tanto que quem o quiser ver raivoso, apresente-lhe senhoritas. Ele abalará e, chegando a casa, cansado, esbaforido, explicará em voz entrecortada à família assustada: “O diabo! O diabo!”

Tão violento misoginismo não pode ter outro termo que o casamento, provavelmente com mademoiselle Timidez, que já lhe vive no coração por lhe viver no sangue.

Essa tendência para o sarcasmo havia de ser, mais tarde, o traço característico de muitas de vossas crônicas, quando, com Maviael do Prado, assumistes a colaboração efetiva no Jornal do Recife. É que, naquele momento, todos os vossos autores diletos, os mestres que líeis e cujo espírito assimiláveis, eram os humoristas, os ironistas, os sarcásticos. Vivíeis, então, em plena intimidade com Swift, com Carlyle, com Daudet, com Fialho de Almeida.

Instinto de pacifismo

Mas o tempo se encarregou de apagar o influxo dessas entusiásticas leituras. E, em breve, no lugar da primeira tendência, que até então havia predominado, foi-se afirmando a segunda tendência: o gosto da harmonia, da suavidade, da universal compreensão para as coisas e os homens.

Toda a vossa carreira de homem público tem-se orientado nesse rumo construtivo. Erguestes como balizas as grandes idéias fecundas: o amor da Pátria, não movido de prêmio vil, mas alto e quase eterno; o amor da família; a defesa da sociedade, organizada dentro da ordem, dentro da lei.

Ao virdes para o Rio com a vossa láurea, todos imaginavam que havíeis de orientar a vida para o terreno da advocacia, da pura ciência jurídica. Essa expectativa pareceu confirmar-se, nos primeiros trabalhos que publicastes. Foi o primeiro O Regime de Bens dos Súditos Inimigos, tese com que cumpristes uma obrigação assumida perante a Faculdade de Direito do Recife, no momento em que vos foi conferido o prêmio de melhor aluno do ano.

O volume que se seguiu era, também, de caráter jurídico – era a Ilusão do Direito da Guerra. Belo e fecundo livro! O assunto é dos mais sugestivos, nesse terreno imenso e flutuante das abstrações do Direito Internacional. Ainda hoje leio com interesse as páginas em que fixais certas figuras da tragédia de 1914, as páginas em que resumis a história dos armamentos, as páginas em que sintetizais as crônicas das guerras da França com a Alemanha, as páginas em que debateis tantos problemas da organização interna dos povos e da existência de uns povos com os outros. Releio com prazer aquelas declarações de pacifismo ardente, a que, paladino de uma causa bela e acaso romântica, volveis tantas vezes. Releio com agrado aquela meditação final, em que nos dizeis estas palavras, que hoje ainda – e talvez principalmente hoje... – poderiam ser citadas aos chanceleres de todos os povos:

Sim, a guerra é má. E é, ainda, o pior de todos os males, o flagelo monstruoso, a calamidade incomparável. Unamos as nossas forças no combate com que a havemos de destruir, mais cedo ou mais tarde. Confiemos na beleza da causa e sejamos serenos, atacando sem ilusões, mas também sem desânimo, o uso calamitoso. Por mais violento que seja o instinto belicoso do homem – diz G. Ferrero –, a obra da civilização não tende menos por isso a comprimi-lo, como a todos os instintos de destruição; por mais emaranhado que apareça esse nó górdio de interesses, de paixões e de erros, não pode ser insolúvel para a eterna paciência do tempo. Não podemos permanecer nesse errado caminho, a que não chega o mais tênue raio de inteligência. Força é que o homem se civilize, aprendendo, com as abelhas, os princípios da solidariedade e da cooperação.

Ouvirão os homens essas belas palavras, Sr. Barbosa Lima Sobrinho?

É muito difícil responder que sim... Os homens não costumam ouvir as palavras de um conselho avisado. E aqueles que procuram adverti-los dos erros em que ameaçam cair e dos crimes que se aprontam para cometer, acabam, não raro, tendo a certeza de que viajam numa região melancólica, somente povoada de surdos e cegos.

Mentalidade européia e mentalidade americana

A vossa posição, de intemerato amigo da paz, Sr. Barbosa Lima Sobrinho, bem pode ser compreendida pelos idealistas da América. Já não será, talvez, compreensível para os doutrinadores políticos de certas nações da Europa. Por menos pessimistas que sejamos, há uma deplorável verdade que somos forçados a reconhecer: com todos os seus prodígios de civilização, com todos os seus museus e todas as suas bibliotecas, a Europa é ainda, e continuará sempre a ser, um mundo afeito à guerra, e que só nos preparativos da guerra encontra o seu clima propício. Não creio que isso seja apenas o fruto de uma educação, que ciosamente adestra os homens desde o berço para as lutas destruidoras. Em minha opinião, o sentimento naturalmente belicoso do europeu, como o sentimento que naturalmente deve ser pacifista do americano, decorre das próprias condições geográficas e humanas que um e outro encontram.

Nos países europeus, o valor de uma vida humana é coisa insignificante, quando comparado com o valor de um metro de terra. Cada palmo de terreno, naqueles países, foi embebido com o sangue e as lágrimas de gerações e gerações, que o conquistaram ou o defenderam. Cada um desses palmos de terra como que fala, a cada coração de homem, dos antepassados que ali lavraram, amaram, sonharam, sorriram e padeceram. Falará, também, dos netos, que, pela ordem das coisas, ali um dia hão de viver e trabalhar.

Na América o quadro é exatamente oposto. Aqui vale muito mais a vida de um homem do que, às vezes, uma longa extensão de território. Nossos avós conquistaram regiões onde caberiam e poderiam florescer muitos países. Conquistaram essas regiões, só se moveram, durante alguns meses, entre rios e florestas bravas. E ainda hoje bastará a qualquer de nós tomar a deliberação de ir viver nas selvas de Mato Grosso ou de Goiás, para ter, desde logo, a probabilidade de tornar-se proprietário de um território tão largo quanto o da Bélgica ou o da Suíça.

A essa ausência de uma tradição que a propriedade da terra signifique, a essa imensidão e a essa facilidade, que são nossas, podemos acaso atribuir as generosas tendências da alma brasileira, esse espontâneo tolstoísmo, com que muitos de nós achariam mais razoável dar a um estrangeiro uma fibra do nosso próprio braço do que nos empenharmos nos desesperos e nos ódios de uma guerra.

Mas essa linguagem, que vos estou falando, é, para os ouvidos do europeu, linguagem vã de ideólogo. Linguagem de ideólogo americano, e talvez seja melhor dizer – de ideólogo sul-americano.

E a verdade é também que essas palavras encontram cada vez menos ressonância, num mundo em que os grandes países se organizam minuciosamente, para saírem à realização da partilha dos países fracos, num melancólico e lacrimoso mundo, que ainda não viu nascer o sol que deixasse de contemplar a explosão dos canhões, na obra nefasta de devastar povos e arrasar cidades inermes.

Posição do homem prudente – Os persas em Antioquia

No discurso de recepção a Cherbuliez, na Academia Francesa, lembrava Renan um episódio que, para os dias de hoje, serve como um símbolo muito apropriado. Era sob Valeriano, e a cidade de Antioquia estava sendo assediada pelos persas. Desdenhosa dos riscos que a ameaçavam, toda a população havia acorrido a um teatro, que ficava ao pé da escarpada montanha, onde se erguiam as defesas da cidade.

Estavam os espectadores com a atenção presa ao que acontecia no palco, quando, de repente, o ator começou a balbuciar, a empalidecer e a tremer. É que, do lugar em que estava representando, descortinava bom trecho das muralhas da cidade. E, assim, era ele a única pessoa que podia, naquele teatro, ver os soldados persas, já vitoriosos da situação, descendo a montanha a toda pressa. Sem demora, as flechas começaram a cair, dando aos distraídos espectadores a impressão da tremenda realidade.

Aí está um melancólico símbolo para o homem de espírito exato e de experiência madura, o símbolo para o homem capaz de ver, e de saber o que está vendo.

Em torno dele, a multidão, embalada em mendazes divertimentos, está esquecida das realidades cruéis. Ele, unicamente ele, pode ver e perceber as coisas misteriosas. Só ele sabe que os persas não estão distantes, e só ele conseguirá ouvir, ecoando rudemente no solo, o sinistro rumor do avanço dos invasores.

Barbosa Lima

Nesta noite em que celebramos a elevação e o esplendor de vossa obra, meu ilustre confrade, não seria possível esquecer a figura daquele que tem sido, para vós, o mais alto modelo moral e espiritual. Refiro-me a Barbosa Lima.

Era a dele uma figura excelsa, dessas que hoje vão cada vez rareando mais em nosso país.

Formado ao contacto de Benjamin Constant, cedo lhe amadurecera no espírito o grande amor das idéias liberais.

Na sua agitada vida de homem de governo e de parlamentar, foi ele um dos varões mais representativos do Brasil republicano. Desse Brasil talvez um pouco romântico, certamente eivado de erros. Desse Brasil generoso, cujos erros correspondiam aos excessos fulgurantes de um idealismo que hoje não é mais compreendido.

Era um espírito de cultura enciclopédica, possuindo as ciências matemáticas, as ciências biológicas, as ciências políticas. Acrescentava a tudo isso a finura no gosto literário, a sólida erudição de humanista, o amor à frase perfeita, um sentimento de poesia, se assim posso dizer, que nos deslumbrava, a todos os que tínhamos a honra de sua convivência afetuosa.

Sobrinho desse homem raro, desde cedo ficastes sob o seu fascínio. Lembro-me de uma carta que ele vos enviava, há uns bons vinte anos, a propósito de um dos vossos primeiros artigos. Senador da República, ouvido e acatado como um líder pelos seus pares, Barbosa Lima deleitava-se em acompanhar a marcha do adolescente que, no Recife, começava a pensar e a trabalhar. Grande foi a impressão que experimentou ao ler, pela primeira vez, um dos vossos artigos. Logo vos escreveu, confessando que a grande ventura de sua vida consistia em sentir que fora, apenas, um predecessor. E, relativamente a vós, comparava-se com James Mill, progenitor e precursor do grande Stuart Mill.

Realmente, é no exemplo de Barbosa Lima que vindes norteando a vida. E é essa uma glória nova a acrescentar a todas as vossas glórias. São raros, na história da literatura e do pensamento, esses casos de absoluta identidade espiritual entre parentes próximos, como pai e filho, ou tio e sobrinho. A propósito do caso dos dois Barbosas Limas, eu me referia ao caso de James e Stuart Mill. Mas, se quiséssemos encontrar um paralelo mais exato, teríamos que evocar, diante de vosso tio e de vós, meu caro confrade, o caso dos dois Plínios. Eram lá, também, tio e sobrinho. O tio era o sábio, o estudioso de todas as coisas, o filósofo dos grandes acontecimentos da Natureza. O sobrinho era o escritor penetrante, sagaz na análise, percuciente na observação, rico de idéias, misto sedutor de homem de letras, historiador, ensaísta e psicólogo, que nos legou, com a sua correspondência, um repositório farto de documentos para a reconstituição da vida romana durante longo período.

Representais, assim, uma como continuidade de vontade e inteligência. O homem novo, que sois, prolonga, em espírito, o homem que já não existe.

Convivendo convosco, teremos, na Academia, a impressão de que aqui se encontra o erudito Barbosa Lima, cuja figura devera, com tanta justiça, ter enobrecido uma de nossas poltronas.

Atividade jornalística - O Jornal do Brasil

Entre os capítulos do vosso livro sobre a Ilusão do Direito de Guerra, destacarei aquele que dedicastes ao estudo do “Bolchevismo e a Paz”. É uma síntese da posição que assumem, relativamente ao problema da guerra, os discípulos russos de Marx e Lenine. Vemos ali que, já na aurora da Rússia soviética, examináveis, com grande vigor de combatente, o regime leninista. Assim dizíeis, exaltado adversário ao credo novo: “No presente ou no futuro, o bolchevismo significa, pois, um programa belicoso e agressivo, como todas as teses intervencionistas.”

Perdoai se fiz referência a uma vossa opinião política, Sr. Barbosa Lima Sobrinho. Esta noite de hoje, eu a quereria somente ilustrada pelo encanto de vossa obra de criação e pensamento literário. Mas a citação que acabei de fazer é conveniente, porque nos encaminha à vossa atividade jornalística no Rio de Janeiro.

Essa atividade tem sido eficaz e permanente. Começando nos trabalhos de reportagem, facilmente ascendestes ao posto de redator político em um dos maiores jornais da cidade. Sois, hoje, ali, numa casa em que se abrigam alguns dos homens mais representativos da Imprensa brasileira, o redator-principal.

Desde 1921, ano em que aqui chegastes, tendes trabalhado no Jornal do Brasil. Podeis imaginar quanto é grato ao meu coração fazer esta referência. Ali, ao lado desse harmonioso espírito de homem de letras, pensador e parlamentar, que é o Sr. Aníbal Freire, exerceis, com autoridade e brilho, vossa relevante função.

Como é ilustre a coluna em que doutrinais, cada manhã, ao povo brasileiro! A história do Jornal do Brasil é uma das mais formosas que registra a Imprensa do nosso país. Fundado pelo belo espírito de Rodolfo Dantas – de quem Nabuco dizia que havia combinado em si qualidades e faculdades que entre nós nenhum outro jovem político reuniu –, o Jornal do Brasil foi, desde logo – como também Nabuco acentuou – um jornal saído de um gabinete de estudo.

Que fulgurante galeria, a dos seus primeiros tempos! Na redação, é Nabuco, é Sancho de Barros Pimentel, é Ulisses Viana, é Gusmão Lobo, é aquele resplendente Constâncio Alves, com quem tendes tantos pontos de contacto.  Entre os colaboradores estrangeiros, é Emile de Laveleye, é Paul Leroy-Beaulieu, é Teófilo Braga, é de Amicis, é Fialho de Almeida. Nas suas colunas de colaboração nacional, é José Veríssimo, é Barbosa Rodrigues, é Rio Branco, o herói pacífico da nacionalidade.

O tempo acrescentou novas glórias a essa gloriosa estréia. A direção de Dantas sucedeu a direção de Rui Barbosa. À esplêndida galeria que acabei de evocar veio juntar-se outra. Esta Casa emprestou às colunas da folha cuja redação dirigis os nomes aureolados de João Ribeiro, Medeiros e Albuquerque, Silva Ramos, Coelho Neto, Oliveira Lima, Carlos de Laet, Osório Duque-Estrada, Luís Murat, Mário de Alencar, Laudelino Freire. São ainda hoje colaboradores de suas colunas três de nossos ilustres companheiros, os Srs. Conde de Afonso Celso, Ribeiro Couto e Osvaldo Orico.

Foi lá que levantastes o vosso posto de combatente do Jornalismo. Continuador dos Hipólitos, dos Evaristos, dos Justinianos, dos Bocaiúvas e dos Nabucos, sois um jornalista de convicção, de cultura, de austeridade nos processos. Quantas batalhas da nacionalidade, quantas batalhas em defesa dos nossos princípios mais puros, tendes levado avante. Batalhas políticas, econômicas, sociais, de toda a ordem. Há um século, um jornalista de vossa predileção batizou o seu jornal como a Sentinela de Pernambuco na guarita da liberdade. Tendes sido alguma coisa como esse título indica. Tendes sido alguma coisa como a sentinela do Brasil na guarita da razão e do direito. Ser-me-ia fácil enumerar uma série de campanhas que, como a da valorização do café, tendes realizado, na defesa das instituições e das idéias construtivas, na coluna que está a vosso cargo. Aludirei particularmente àquela que para todos nós da Academia é a mais memorável: a campanha em prol da ortografia simplificada. Foi o Jornal do Brasil o primeiro dos órgãos cariocas a adotar a ortografia estabelecida pelo acordo da nossa Academia com a Academia das Ciências de Lisboa. Quando o sistema foi discutido no Parlamento e fora dele, a vossa pena ergueu-se para defendê-lo. Mais de quarenta artigos, todo um livro, cheio de ótimo conhecimento da matéria filológica, produzistes então. O nosso querido Laudelino Freire, alma de apóstolo, que viveu lutando em prol da pureza do falar e do escrever no Brasil, amava esses trabalhos, e desejava tê-los encerrados num volume. Ama-os, igualmente, e com freqüência encarece a necessidade de formardes com eles um livro, o nosso mestre, o Sr. Barão de Ramiz Galvão.

Não vos limitais, porém, a exercer o Jornalismo em vossa autorizada coluna. No amor que dedicais à profissão, há também o devotamento do erudito. Vossa monografia sobre o Problema da Imprensa, escrita no momento em que se cogitou de dar uma lei demasiado severa ao Jornalismo brasileiro, representa um brado veemente de toda a classe. Através desse problema, fixais figuras majestosas da vida do periodismo nacional. É Diogo Feijó, autoritário, sereno, frio e poderoso. É Evaristo da Veiga, saindo do anonimato do seu comerciozinho de livros para, mercê da força que lhe confere uma superioridade moral incontrastável, dominar a opinião e dirigir o país. É o gigante de bronze, o magno Patrocínio. É Ferreira de Meneses, é Joaquim Serra, é Bocaiúva, é Guanabara, são tantos outros. Generoso como sois, e atento às glórias alheias, não limitais o quadro à Imprensa da capital brasileira. Chamais, também, para que sirvam de modelo ao vosso pincel perito, os jornalistas combatentes das províncias. Aqui estão Cipriano Barata e Frei Caneca, fazendo a campanha liberal de Pernambuco em 1824. Ali está o grande João Francisco Lisboa, o jornalista infatigável, do qual dizeis que é um modelo excelente, comparável aos grandes clássicos do Jornalismo inglês, um Adison, por exemplo.

Algumas dessas páginas constituem perfis definitivos dos jornalistas que evocais. Muitas delas, como as que dedicastes a Evaristo da Veiga, a Cipriano Barata, a Justiniano da Rocha, foram completadas na monografia sobre A Ação da Imprensa na Constituinte. A algumas delas ainda voltastes, retocando-as, aperfeiçoando-as, em conferências históricas, que fulgem como sínteses dos períodos da vida nacional em que esses grandes varões atuaram.

Historiador

Tais perfis são como sinais da faculdade central do vosso espírito.
Essa faculdade central parece-me ser a do historiador. Amais a História e, se não viveis totalmente dedicado às suas pesquisas e às suas revelações, é porque as contingências da vida material vos encaminharam a outros rumos. Mas, na essência de vossos trabalhos, está a curiosidade no perquirir, está o escrúpulo no afirmar, está a insatisfeita necessidade da documentação, dons precípuos do historiador.

Alguns de vossos livros – como Pernambuco e o Rio São Francisco, o ensaio sobre a conquista do Piauí, a monografia sobre Maurício de Nassau – constituem verdadeiros estudos de história. São puros capítulos de História, igualmente, certos trechos da Ilusão do Direito de Guerra, certos estudos do Problema da Imprensa. São, ainda, sólidos ensaios de História certos artigos que vindes publicando em jornais e revistas, como aqueles em que fixais a figura do tirano Rosas, a figura de Mitre, a figura de Alberdi. O mesmo será preciso dizer de algumas das conferências que tendes pronunciado no Rio e na capital paulista.

De todos os vossos trabalhos de historiador, porém, aquele que se reveste de maior importância é o intulado A Verdade sobre a Revolução de Outubro. Nesse livro, dais o depoimento pessoal, obtido em esforço diário de reportagem na Câmara dos Deputados, acerca do movimento político que se processou no Brasil entre 1928 e 1930.

Muitos são os aspectos de vosso processo de fazer História, que eu poderia indicar aqui. Aludirei apenas a um: ao vosso pendor para os retratos das individualidades em jogo. Que penetração psicológica possui a vossa pena, para ir até às molas secretas que movem as almas! Quanta subtileza em certas de vossas anotações! E como, às vezes numa simples observação, que parece feita sem propósito, desmontais todo o misterioso mecanismo de uma alma ou de um acontecimento!

É claro que da maioria desses perfis não está ausente a malícia. O caricaturista inclemente de 1917 ainda permanece no publicista austero de 1938. E é o primeiro quem empresta ao segundo o fino encanto das perfídias, das maldades graciosas.

Crítica literária

A mesma penetração que revelais no apreciar os valores políticos revelais no julgar os valores literários.

Quando começastes a trabalhar no Jornal do Brasil, exercestes a atividade de crítico literário. Logo depois, porém, fostes substituído por Osório Duque-Estrada, que, ao morrer, deixou a coluna para João Ribeiro.

Tendo abandonado a coluna de crítica, nem por isso perdestes o amor a essas análises. Muitas das páginas que vos impuseram definitivamente à consideração e ao respeito dos leitores pertencem a esse gênero. Vossos estudos, publicados em várias fases, sobre Matias Aires, Afonso Arinos, Rui, Disraeli, Capistrano de Abreu, os vários comentários a propósito do movimento antiacadêmico de Graça Aranha, umas argutas observações em torno desse tema sugestivo – a gramática e a forma literária – são como reflexos nítidos de vosso honesto senso crítico.

Dois dos vossos trabalhos dessa tendência puramente literária e crítica, eu não poderia deixar de destacar. Refiro-me à conferência em que estudais Machado de Assis e ao ensaio em que estudais Cruz e Sousa.

No trabalho sobre Machado de Assis o que vos interessou foi este problema psicológico de tanta importância: a timidez do escritor. Tímido que sois, fizestes, em tal página, um verdadeiro auto-exame. Foi, por assim dizer, com os resíduos do vosso próprio problema que lograstes explicar os singulares mistérios da vida e da obra do criador de Brás Cubas.

No ensaio que tem como tema Cruz e Sousa, o que vos interessou não foi apenas um desvão do espírito, um fenômeno parcial da alma, como aconteceu no estudo sobre Machado de Assis. Em Cruz e Sousa o que vos interessou foi o homem, na sua representação completa. Foi o espetáculo truanesco de um pobre coração de poeta a lutar com aquela a que aludis – miséria comum e sem remédio a que chamamos vida. Foi, enfim, a alma do grande negro a se arranhar em todos os sofrimentos, e criando uma obra imensamente amarga, pungente e pessimista.

Um perfil de Goulart de Andrade

Constitui uma de vossas mais agudas páginas de crítica a análise que dedicastes a Goulart de Andrade.

Ele foi, como bem acentuastes, o representante de um momento de transição em nossas letras. Vinha da geração ilustre que assistiu à libertadora alvorada de 13 de Maio e contemplou a República em seu berço. Formou-se na lição radiosa de Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia. Seu verso marmóreo, que se empenha em vencer as supremas dificuldades da arte poética, é, talvez, aquele que melhor poderia representar o nosso Parnasianismo, na obra dos epígonos da escola.

José Maria apareceu no Rio, quando ainda existiam, na cidade, os últimos representantes da caravana alvissareira, que se reflete em A Conquista de Coelho Neto. Esses boêmios enchiam a Rua do Ouvidor do ruído sonoro da Poesia, daquela gárrula inquietação, que o espírito mais característico do grupo fixou nas páginas do seu livro – Nós, as Abelhas.

A vida, porém, foi pondo cada um deles num caminho ajuizado. Goulart de Andrade, que já era, em essência, um espírito sério, facilmente se adaptou à disciplina do labor profícuo.

No momento em que o conhecestes, ele ainda guardava alguma coisa das primeiras horas de alegria e estouvamento. Seu gesto seria, ainda, o de um espadachim desafiando heroísmos. Nas suas atitudes destemidas, no gosto pelo colorido e pela ênfase, até mesmo talvez no físico, ele nos deixaria a sugestão de um Cirano dos trópicos. Mas já era o poeta afeito aos rudes estudos, preocupado com aquilo que chamais o seu medievalismo. Já havia composto os cantos reais, os mais difíceis poemas a que ainda um poeta se aventurou em língua portuguesa. Já havia publicado o Assunção. Já havia produzido algumas das melhores páginas de sua crítica.

Entretanto, esse belo momento, que evocais na vida de Goulart de Andrade, não foi o momento mais alto daquele querido companheiro. O momento mais alto de Goulart de Andrade foi o do seu indizível sofrimento. A dor manteve-o, durante meses e meses, preso em casa. Vós o vistes, nessa fase, sob a vigilante guarda de um amor todo dedicação, todo fidelidade.

Na cadeira de enfermo, triste e solitário, não podendo, por determinação médica, entregar-se aos diletos trabalhos intelectuais, passava Goulart de Andrade os vastos dias defronte de um quadro, onde fulgia a imagem de Jesus. Eram doces colóquios longos; amorosos e piedosos, os que ele teria com o Cristo. Que diria à figura divina o homem, que tinha regressado às velhas crenças, palmilhando o caminho dos grandes sofrimentos?

Eis o que jamais saberemos. Eis o que seria, sem dúvida, a mais resplendente página do poeta, se José Maria nos tivesse contado o prodigioso encontro de sua estrada de Damasco.

Contista

É, pois, como um psicólogo, que sabeis analisar, Sr. Barbosa Lima Sobrinho, os homens políticos e os homens de letras. É ainda como um psicólogo que sabeis criar as figuras dos contos, pondo-as diante dos nossos olhos, com impressionante força de vida.

Dois são os vossos livros de ficção literária – A Árvore do Bem e do Mal e o Vendedor de Discursos. Publicados com o intervalo de quase dez anos, é fácil fixar, através do vário rumo que neles seguistes, a evolução que se operou em vosso espírito. No primeiro, encontramos o rapaz, talvez ainda um tanto ingênuo, todo preocupado com o amor e as coisas do amor. No segundo, achamos o homem experiente, estudioso, amigo das minudências, o homem que fez um longo caminho entre os outros homens, e concluiu, como o Eclesiastes, que tudo é aflição e melancolia debaixo do sol.

É no Vendedor de Discursos que está o melhor de vossa criação literária. Aqui revelais as grandes afinidades que tendes com um dos vossos mestres diletos – Machado de Assis. O nosso genial romancista experimentava, como diversos críticos têm observado, verdadeira fascinação pelos loucos. Vós também a experimentais. É um pouco simbólico de vosso processo de encarar os homens aquele conto intitulado “Teoria das Almas”. Internado numa casa de saúde, o vosso personagem vê passar na rua certo sujeito de aparência correta e aprumada. Vai o transeunte marchando, mas o doente desanda a bradar:

– Aquele homem é capenga! Capenga! Capenga!

Quando o interpelais, o maluco responde:

– Tenho absoluta certeza de que a alma dele é capenga. – E depois vos diz estas palavras, que parecem penetradas da maior sabedoria:

– O corpo não me interessa. É um acidente sem importância. Basta considerar que um simples bigode ou uma barba qualquer pode mudar a fisionomia de uma pessoa. Se um bonde corta a perna da mais linda das moças, ela deixa de nos merecer admiração para nos inspirar piedade. A alma não fica ao alcance de mudanças tão repentinas e insignificantes.

E, esclarecendo a sua teoria, este lunático diz mais estas palavras, dignas de um mestre de psicologia:

– Há almas que andam muito bem, harmoniosamente, embora possam ter outros defeitos, como a cegueira, ou a surdez. Há almas baixas e altas, franzinas e espadaúdas, almas de nariz grande, sardentas, ruivas, carecas, míopes, vesgas, manetas, imberbes, bigodudas, atléticas, tuberculosas... A mesma coisa que em relação ao corpo, sendo que raramente coincidem as características do espírito e do físico. Sucede, também, que o corpo se modifica durante a existência, desenvolve-se, entra em declínio, ao passo que a alma se conserva inalterável, por toda a duração da vida. Quem possui alma velha pode sair de calça curta, que será sempre ancião, denunciando-se na maneira grave em que se porta na brincadeira. Ao contrário, as almas infantis, mesmo quando o corpo se apresenta sob o apanágio dos cabelos brancos, são, sempre, e forçosamente, infantis.

Louco, ou semilouco, ou, pelo menos, um tanto diferente do resto da humanidade, é, na vossa galeria de seres raros, aquele homem que viveu sempre da maneira mais obscura e que era um orador fecundíssimo, capaz de criar, com os discursos que vendia, a glória de toda uma geração de parlamentares. Pertencia à mesma categoria aquele indivíduo antipático, que passou a vida a se indispor com todo o mundo, e acabou escrevendo um diário para se defender e acusar os outros.

Em vossos contos, nas histórias que imaginais, quase tudo é extraído aos recantos irregulares da psicologia mórbida. E o que não é arrancado a essas solidões misteriosas vale, ainda assim, como documentação da imensa miséria da natureza humana. São dolorosos documentos de tal espécie as páginas simbólicas dessa novela em que o mais belo e poderoso dos lampiões foi destruído pelos seus companheiros, só por este crime: pelo crime imperdoável de brilhar mais que os outros... É um documento também muito doloroso – e tanto mais doloroso, porque é muito verdadeiro... – aquela história do ramo de flores num dia de revolução. Aqui pondes em foco o velho processo sempre triunfante dos adesistas de última hora.

Ah! Sr. Barbosa Lima Sobrinho, olhada em vossas páginas, como é torpe e vil a humanidade! E como toda ela fora digna de receber aquele fogo inclemente, que o Senhor dos Exércitos, em sua ira divina, mandou um dia contra as cidades do pecado!

Pernambuco dentro do Brasil

Jornalista, historiador, homem de letras – eis aí, Sr. Barbosa. Lima Sobrinho, a expressão mental daquele que a Academia chamou para substituir Goulart de Andrade.

Esse jornalista, esse historiador, esse homem de letras, tem sido, em todos os passos de sua vida, uma voz sempre pronta, na defesa da sua terra e da sua gente. Quando lhe coube, no Congresso da República, uma cadeira de deputado, desenvolveu, na tribuna parlamentar, a mesma atuação generosa e destemida em prol de tudo o que interessasse ao Brasil.

Nos acentos vigorosos dessa voz, eu encontro aquele antigo destemor e aquela antiga elegância com que falavam os homens do Leão do Norte.

Sim, ilustre confrade, eu não receio dizer que sois a mais autorizada personificação da alma e do espírito pernambucano, nos dias de hoje. É para Pernambuco, é por Pernambuco, que tendes vivido e combatido e sofrido. Num momento difícil da política do Estado, quando as forças do poder central ameaçavam destruir a livre opinião dos pernambucanos, foi a vossa pena, entre todas eloqüente, que se agitou no Jornalismo carioca para evitar o ominoso golpe. Vossas campanhas contra os açambarcadores do açúcar, contra os absurdos da Great Western, são conhecidas de todos.

Mas existe um entre os demais serviços que tendes prestado a Pernambuco, que ninguém poderá jamais esquecer: é o vosso livro sobre o São Francisco. Que esforço do beneditino esse livro representa! Quando vos dispusestes a estudá-la, a questão do São Francisco já tinha sido tratada por Braz do Amaral, Ulisses Brandão, Pereira da Costa, Eduardo Espínola, Gonçalves Maia, Goudim Filho, José Cirino dos Santos e alguns outros. Mas vós não sois desses que se contentam com o fruto das pesquisas já feitas, concluindo sobre os trabalhos alheios. E pondo de lado o que os vossos antecessores haviam descoberto ou estabelecido, tratastes de pesquisar por vossa própria conta. Meses e meses trabalhastes na Biblioteca Nacional. Removestes manuscritos de leitura dificílima. Oitenta peças foram assim examinadas, estudadas, copiadas. E, enfim, aí está esse volume, diante do qual o nosso querido mestre João Ribeiro exclamou, ao estudá-lo num dos registros do Jornal do Brasil: “Eis um dos melhores livros de história que possuímos.”

E Pernambuco bem merece o calor do vosso carinho. Ele tem sido um trabalhador incansável na obra de civilização do Brasil. E tem sido, ainda, esta coisa tão rara: um trabalhador que não costuma fazer lembrar os serviços que presta.

Esses serviços são, porém, magníficos, e valem como belos títulos de glória.

Nos fins do século primeiro e nos começos do século segundo, cabe a Pernambuco realizar o rumo para o norte e o rumo para o sul. É agora a conquista, é o auxílio na edificação da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará. É o heroísmo de Jerônimo de Albuquerque, combatendo os franceses que invadem o Maranhão. É no Pará a luta dos pernambucanos Matias de Albuquerque e Jerônimo Fragoso de Albuquerque. É também a guerra contra o temeroso caeté. É o estabelecimento do primeiro povoado no São Francisco. No fim do primeiro século, já os pernambucanos haviam passado além da cachoeira de Paulo Afonso.

É, depois, a luta contra os holandeses. Oitocentos e seis navios, 67 mil homens, mandou Holanda contra Pernambuco. Durante vinte anos, essas tropas foram aparelhadas de todo o necessário para a guerra. E durante esse longo período, Pernambuco se manteve íntegro, heróico e firme, no primeiro verdadeiro gesto de consciência brasileira. É, agora, o quadro dos que, perseguidos pelas forças de Holanda, têm que abandonar ao invasor o patrimônio de riquezas e terras. São as propriedades arrebatadas. São os rebanhos destruídos. São os engenhos incendiados...

E são, depois, no correr do tempo, os movimentos pela liberdade, as revoluções em prol do ideal republicano. É Bernardo Vieira de Melo, sonhando a República, quando ainda a Europa estava sob as névoas do Absolutismo. É 1817, epopéia sangrenta e luminosa. É 1824, grito pungente contra o espírito despótico de Pedro I. É 1848, erguendo a bandeira do Nacionalismo, defendendo o Brasil para o Brasil, insurgindo-se contra a ambição de estreito mercantilismo dos forasteiros lusitanos.

Pregoeiro de novas doutrinas, apóstolo de fecundos ideais – eis o que Pernambuco tem sido dentro do quadro brasileiro. Vós mostrastes, Sr. Barbosa Lima Sobrinho, que essa elevação na ordem espiritual não tem valido grande coisa a Pernambuco. Lutando freqüentemente pela causa brasileira, tem ele sido punido freqüentemente pelo singular crime de suas atitudes. De um território extenso, que há pouco mais de um século abrangia Alagoas, grande parte da Bahia e se dilatava até Minas, é hoje o estado pernambucano aquela magra faixa de terra, escândalo da cartografia. O mais, o Império lhe foi arrancado, como castigo de sonhar o sonho da República. Vencedora em 89, a República esqueceu essas dilacerações heróicas.

Nada disso tem importância. O que tem importância é o trabalho, é a beleza e a sinceridade do trabalho. Com essa sinceridade e com essa beleza é que, em todos os tempos, se preocuparam os velhos pernambucanos, vossos antepassados – eles que viveram sonhando com um Brasil grande e melhor, embora o rincão que tanto estremeciam fosse ficando sempre num olvido melancólico.

É essa, hoje, a vossa atitude, meu caro e ilustre Confrade. O que de fato vos seduz, independente de prêmios ou honrarias, é o trabalho honesto e útil. Uma de vossas primeiras páginas contém eloqüente exaltação ao esforço. Numa réplica de Goethe, encontro esta fecunda palavra: “Eu não saberei o que fazer da eterna felicidade, se ela não me oferecer novos trabalhos a realizar, novos obstáculos a transpor.” É também o poeta olímpico quem diz numa de suas Xênias imortais: “Nós vivemos para nos eternizarmos.”

Eis aí um belo programa para uma Academia: o amor ao trabalho desinteressado, a preocupação de prolongar-se até um futuro remoto, através das obras incessantes.

Estou certo de que esse programa terá para vós, Sr. Barbosa Lima Sobrinho, a sedução das coisas muitas vezes sonhadas.

Vinde, portanto, ocupar a vossa Cadeira e realizar, em nossa companhia, os belos e altos livros que haveis de dar à cultura brasileira.