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Discurso de posse

No esplendor das horas culminantes, a memória ilumina, entre os fragmentos do passado, cenas, ou impressões, a que atribui o prestígio de uma significação oportuna. É assim que, de velhas passagens da adolescência, ressurge, para o prazer de minha recordação, o episódio daqueles nadadores que, nas praias de Olinda, enfrentavam e venciam o assalto das ondas inquietas. No balouço das vagas, tornava-se o movimento sensação voluptuosa, como se o vai-e-vem das águas aumentasse a elasticidade, ou a força dos músculos. E era deslumbrador o espetáculo, que a distância ia lentamente compondo. Apagava-se a orla branca das praias, e já parecia que os coqueiros assentavam no mar os seus troncos esguios, ou que saíam das ondas as fraldas das colinas, que as igrejas enfeitavam com as suas torres seculares, tão brancas junto ao verde-escuro da copa das mangueiras. Ao hemiciclo da praia inicial somavam-se as enseadas circunvizinhas e os coqueirais, que se emendavam até o extremo limite da visão, tecendo e destecendo, ao sabor das brisas, a renda das suas palmas enlaçadas.

O encanto do panorama, a alegria do movimento, a carícia das águas tépidas arrastavam o nadador. E a distância se tornara excessiva; a temeridade da aventura assustava os espectadores, enfileirados na praia. Apercebia-se, afinal, o imprudente dos perigos a que se expusera. Contemplando o caminho longo, que precisava de novo percorrer, de si mesmo indagava, angustiado, se para tanto chegariam as suas forças.

Tenho aqui renovada, num plano tão diverso, a sensação desses tempos de adolescência. O prazer de vossa eleição, o encanto desta hora esplêndida não conseguem destruir as dúvidas do temerário. Chegarão para tanto as suas forças?

Essa interrogação modera, de algum modo, a manifestação dos agradecimentos que vos devo, e justamente pelo que de vossa parte encontro de excessivamente generoso, na desproporção entre o que me concedeis e o que eu, em verdade, vos posso oferecer.

Fostes ainda mais longe, conferindo o encargo da saudação acadêmica a um companheiro de toda a minha vida, sem receio ao que lhe pudesse inspirar, ao generoso coração fraterno, amizade tão longa e tão íntima. Gestos assim não são feitos para a retribuição de agradecimentos triviais, mas para serem sentidos. Não se perderá a vossa intenção, senhores acadêmicos.

As Academias e os cenáculos

Não escasseiam, entre os candidatos à vossa eleição, os que, à míngua de triunfos, tomam partido sob o estandarte de vossos adversários. Convenho, porém, em que nem todos os que se apartam de vós obedecem a esses motivos subalternos. Pode conservar-se distante o batalhador corajoso, decidido a correr a sorte do dilema que Aristóteles estabelecera: o homem isolado ou é um Deus ou um bruto. Os Alcestes das letras, receosos de capitulações, ou de influência estranha, talvez prefiram a glória das batalhas inflexíveis, desde que não há sociedade que se não alimente de concessões e de transigências. Para esses temperamentos, não há prazer que exceda a alegria das lutas solitárias. Cheios da sabedoria do Eclesiastes, compreendem a inanidade de todas as vitórias. As festas da vaidade já não prendem os olhos desencantados, que se deixaram arrastar à contemplação das profundas da vida. Como é superficial ou insignificante o contentamento que vem pelos caminhos do orgulho!

Pouco a pouco, a vida se encarrega de atrair os díscolos e de reduzir os rebeldes. Não há outra fórmula para a existência que a da renúncia ao heroísmo, ao heroísmo de que fala Carlyle, misto de ideal e de capacidade de sacrifício. Dissimulamos com o título favorável de “experiência” o que não passa de uma domesticação, a destruição de qualidades magníficas, para que todos vivam dentro de normas comuns, perdidas as arestas, sopitados os ímpetos, aniquiladas as revoltas.

É bem de ver, entretanto, que o dilema de Aristóteles falha nos seus próprios fundamentos. Ninguém escolhe entre as academias e a solidão, mas entre umas e outras academias. Postos de lado os raros e agressivos Alcestes, não existe, nas letras, o Robinson Crusoé, que trabalhe para o seu exclusivo divertimento. A norma é o grupo, a associação. Quando não prevalecem as academias, os cenáculos, os institutos, vinga a redação de revistas, a banca dos cafés ou a porta das livrarias. Na França existe ainda o salão literário, participando dos prélios com a energia e a coesão das unidades de combate. Prefere o Brasil os lugares públicos, que favorecem a elevação da voz, a veemência das objurgatórias, a comodidade do vestuário.

Os inimigos das academias enquadram-se e doutrinam nesses outros grêmios irregulares. Não se trata, pois, de insociabilidade, mas talvez de intolerância. A Academia de Letras, por exemplo, é um largo estuário, a confluência dos rios de muitas vertentes literárias. Nas associações de mesas de café, ou de porta de livraria, a disciplina se torna mais severa, na preponderância de critérios classificadores intransigentes. Quem não aceitar a doutrina vencedora entre os chefes, quem se não encher de veneração pelos diretores da escola, pode considerar-se excluído e sem demora rebaixado a outras categorias zoológicas. Só existe lugar para o astro e para os seus deslumbrados satélites.

Por isso observava o Sr. Fernand Divoire que um café literário se firmava no prestígio de um homem notável, ou em evidência. Moréas reinava no café Vachette; Catulle Mendès e, mais tarde, Ernest La Jeunesse haviam ocupado o Napolitain; Paul Fort era a atração da Closerie des Lilas; em torno de François Coppée se reuniam os freqüentadores do café Versailles.

Assim por toda a parte; assim também no Brasil. Coelho Neto recordava, em Fogo Fátuo, que os “grupos literários mantinham firmes as suas posições: os naturalistas, no Cailtau; os românticos, no Castelões; os parnasianos, no Pascoal. No Deroche, já em decadência, às moscas, o falanstério dos simbolistas”.

Ainda constituem as academias de letras o modelo mais amplo e mais variado de associações literárias. Aqui podem caber todas as escolas; aqui se fazem representar os diferentes setores da atividade intelectual. E é por isso que lendo, há pouco, os volumes em que se acham reunidos os discursos acadêmicos tive a impressão de que estava acompanhando, nas suas figuras dominantes, a própria história da vida mental do Brasil, no entrechoque das escolas poéticas, no trabalho dos romancistas, na atividade dos autores de contos, no esforço dos comediógrafos, na Crítica, nas ciências jurídicas, nas manifestações tribunícias, na Publicística, no Jornalismo. Sim, também no Jornalismo, por mais que isso escandalize os que procuram outros títulos nos que se apresentaram aos vossos sufrágios vindos dessa profissão, que muitos dos patronos desta Companhia ilustraram com os seus nomes imortais, como Hipólito da Costa, Lêdo, Evaristo da Veiga, João Francisco Lisboa, Joaquim Serra. E que perseverais nessa atitude no-lo provam tantos outros, que foram antes de tudo, ou quase exclusivamente, homens da Imprensa, como José do Patrocínio, Alcindo Guanabara, Medeiros e Albuquerque, Constâncio Alves, Félix Pacheco, Vítor Viana. Não fosse o Jornalismo, por si mesmo, manifestação literária, e ainda se poderia ver, nessas eleições, o reconhecimento dos gloriosos serviços prestados às letras e à inteligência brasileira pelos que se esterilizam, ou se sacrificam, nesse trabalho de Sísifo que é a Imprensa diária, trabalho anônimo, exaustivo e efêmero, cheio dos males que João Ribeiro apontava nas profissões paralelas da atividade literária.

Não se poderia atribuir a uma academia, formada ao acaso de pleitos disputados, o merecimento da infalibilidade e da justiça absoluta. Basta, entretanto, que o acerto seja uma intenção ou a linha geral por que se pautou a composição do quadro acadêmico.

Parecer-me-ia desprimoroso apresentar a minha pessoa, ou a de meus amigos, para fundamento de alguma dessas teses. Mas perdoai que vos confesse que neste momento não saberia calar o nome do General Barbosa Lima, o tribuno, cujos discursos, na exaltação cívica, na eloqüência profética, na profundidade do conceito, se assinalaram ao meu coração como aquelas sarças de fogo de que se valia a palavra divina para os seus conselhos mais solenes. Estimei-o sempre com sentimento filial, embora separados pela diversidade de temperamento e de formação, assim como pela transformação do ambiente em que tivemos de viver e de lutar. Não sei o que nele mais admirava, se as lições de sua cultura excepcional, lúcida e profunda, se a doçura do acolhimento, que era surpresa encantadora na aparência hirsuta, que lhe vinha das atitudes severas, do jeito empertigado do corpo, das barbas apostólicas. Por mais austeras, todavia, que fossem as atitudes, o olhar e a palavra sabiam contar o que havia de infinita ternura naquele coração de afetivo. O nome que tenho é o dele, nome que meu pai adotou para mim, numa renúncia feita de intenções afetuosas. Minha mãe, irmã de Barbosa Lima, o adorava também, sendo, talvez entre todos os irmãos, o que mais possuíra aquelas virtudes ascéticas e resignadas, que derivam de uma perfeita humildade cristã, virtudes que haviam sido o apanágio da vida estóica e desambiciosa do parlamentar republicano.

Refiro esses nomes e recordo essas pessoas sob a opressão de uma saudade sem remédio. Nem há nada mais melancólico do que saber que não mais estarão presentes, nas horas favoráveis, as afeições tutelares da infância e da mocidade. Para uma situação semelhante, Carlyle tivera aquela frase trágica: “De que nos vale a vida, assim limitada pela morte?”

O filósofo de Sartor Resartus não achou resposta. Mas a vida sabe aumentar as afeições que vai criando em torno de nós, concentrando nelas também a amizade pelos que já partiram. O amor pelos filhos, permitindo conhecer o que devíamos ter custado aos nossos pais, vale como uma nova e mais perfeita floração de sentimento filial.

A existência nos despoja, pouco a pouco, de nossos maiores e mais puros tesouros. Não passamos de muito a metade da vida e já temos a impressão de que vamos caminhando dentro de um cemitério, em que numerosos túmulos se nos tornaram familiares.

Mas vamos seguindo, talvez trôpegos, talvez apertado o coração... Lá, adiante da linha dos túmulos, e dos ciprestes funéreos, há amizades novas que nos esperam, há vidas novas que precisam de nós e que nos atraem, sorrindo no fundo de pupilas radiosas.

Duas gerações e dois poetas

José Maria Goulart de Andrade aportara ao Rio de Janeiro em 1897. Era pouco mais que um adolescente, no alvoroço dos dezesseis anos. Vinha de Alagoas, dessa mesma Alagoas de onde saíra, onze anos antes, e também com destino ao Rio, outro poeta – Sebastião Cícero de Guimarães Passos, que andava então pelo verdor dos dezenove anos.

Não nos iludamos com a aproximação ou com a semelhança das duas ocorrências. Entre os dois alagoanos só haveria de comum o itinerário da viagem e a tendência poética. A própria cidade que os recebia transformara-se profundamente nesses dois lustros que haviam assistido à Abolição da Escravatura, à Proclamação da República e à Revolta da Esquadra.

Tivera a Abolição a prodigiosa virtude de reunir e congregar todas as inteligências brasileiras, nesse incomparável qüinqüênio de 1884 a 1889. Ao calor do apostolado, fundiam-se arestas de incompatibilidade de temperamento ou divergências de escolas literárias. Em nenhuma outra fase de nossa História se esqueceram tanto de si mesmas as personalidades, para servir aos interesses da campanha comum. Mesmo sem unidade de chefia, o movimento se entrosava de pessoa a pessoa, de cidade a cidade, de província a província, numa coordenação perfeita e harmoniosa, que vinha menos dos planos que do sincronismo espontâneo dos sentimentos. Despreocupado, imprevidente, ingênuo mesmo, Guimarães Passos encontrou o meio literário carioca accessível às manifestações de confraternização e de amparo recíproco. Era a época dos “mosqueteiros literários”, que João do Rio nos descrevera numa frase: “A sua vida econômica baseava-se nesse princípio, que os economistas repeliriam: nunca ter dinheiro e ser sempre generosíssimo.”

A união, que se formara na campanha abolicionista, não resistira à República e muito menos ainda às guerras subseqüentes. Dividiram-se os “mosqueteiros literários” entre os partidos e os exércitos. Alguns se viram obrigados ao exílio; outros empunharam o bastão do reacionarismo. Não havia mais uma família única de homens de letras, mas uma série de grupos e de facções separadas pelas questiúnculas de partido, pelas incompatibilidades pessoais ou pelas doutrinas literárias.

Ainda sentiria Goulart de Andrade o ressaibo daquelas paixões partidárias. Coestaduano e admirador de Floriano Peixoto, entrando para a Escola Naval depois da Revolta de 1893, parece que não encontrou ambiente muito favorável. Desligou-se por isso do curso, matriculando-se na Escola Politécnica. E foi quando começou a viver em contacto com os grupos literários, fazendo parte de um dos derradeiros cenáculos dos cafés cariocas – o cenáculo da Confeitaria Colombo, no alvorecer deste século.

Veteranos e estreantes conviviam lado a lado, confundidos na mesma despreocupada alegria. Entre os veteranos, os irmãos Azevedo, Artur e Aluísio, Coelho Neto, Olavo Bilac, Emílio de Menezes, Guimarães Passos. Os novos apresentavam uma plêiade, em que já se destacavam Goulart de Andrade, Martins Fontes, Aníbal Teófilo, Leal de Sousa, Humberto de Campos, Luís Edmundo, Alcides Maia, Tomás Lopes, Bastos Tigre, Heitor Lima, Oscar Lopes.

Mantêm, no século que principia e que já não os compreende, a tradição boêmia das gerações de que se aproximavam. São homens da Rua do Ouvidor passeando pelas novas calçadas da Avenida Central.

Cultivam as frases e atitudes irreverentes, que pudessem apresentar um pouco de escândalo, ou de bizarria. O mais expansivo de todos eles, Martins Fontes, falaria desses hábitos e dessa época numa linguagem de encantamento:

Excentricidades no trajar; polainas, capas espanholas, chapéus desabados, gravatas de cores vívidas, monóculos insolentes, impertinências, arrogâncias, espalhafatos... Oh! as toilettes, por exemplo, do Calixto, do admirável caricaturista Calixto Cordeiro! Adorável! Adorável! Fantástico! Fantástico! Calixto usava sapatos bicudíssimos, com fivelas de prata onde iniciais se entrelaçavam, fraques agudos, em rabo de tico-tico, coletes altos, colarinhos ainda mais altos, gravatas de quatro voltas, à Diogo Antônio Feijó, e caveirinhas, caveirinhas de ouro, de prata, de coral, de marfim, por todo o corpo pendentes de cadeias subindo pelas frocaduras das fitas...

Não faltariam exemplos dessa preocupação de extravagância; os chapeirões de Emílio de Menezes, as polainas alarmantes de Guimarães Passos, a cabeleira de maestro do Sr. Bastos Tigre, os coletes de veludo do Sr. Oscar Lopes, que fazia três toilettes por dia... Coisas do tempo, e que passaram com o tempo a que pertenciam. Creio que o Sr. Calixto Cordeiro já reduziu, pelo menos, as caveirinhas do protocolo; desconfio que o Sr. Oscar Lopes já não usa os mesmos coletes de veludo. E até o Sr. Bastos Tigre, decerto a contragosto, teve que renunciar, também, à cabeleira de maestro.

Manifestações que nunca impediram o trabalho esforçado e brilhante dessa geração de que o mesmo Martins Fontes nos falaria, naquele soneto de Nós, as Abelhas:

Vivemos a cumprir nosso fadário,
Como as abelhas – fabricando a cera,
Como as abelhas – produzindo o mel.

Parnasianismo e Simbolismo

Do ponto de vista da Poesia, não teve Goulart de Andrade a mesma facilidade que o autor dos Versos de um Simples encontrara.

Guimarães Passos chegara ao Rio no apogeu do Parnasianismo. Por mais distantes que se encontrassem os temperamentos, a todos servia de modelo a escola de Leconte de Lisle. O que ainda proporcionava alguma liberdade era a imprecisão das fronteiras da nova doutrina, nesse particular semelhante a todas as outras. Não existe conformismo na Literatura, pois que todos querem ser renovadores e revolucionários, e, como nem sempre é fácil alcançar a substância das coisas, a transformação se restringe à mudança dos rótulos. Muito barulho sempre, em torno das pequenas modificações de fachada. Emprega-se, no comércio das letras, a indicação – “original” – como se poderia dizer – “o mais barateiro”. Pode-se mesmo considerar genial o enfatuado, ou arrogante transplantador de métodos, ou de escolas alienígenas, nem se exige muito mais que o ataque aos velhos e o emprego escandaloso da fita de papel, com as letras vermelhas: Novidade! Novidade!

O Parnasianismo, na França, surgiu como oposição ao Romantismo. Entretanto, se deixarmos de lado a aparência para examinarmos a substância do movimento literário, havemos de ver que de Hugo a Théophile Gautier e deste a Théodore de Banville há uma continuidade, como a que se observa entre os dois últimos poetas e os melhores cultores do Parnasianismo, Leconte de Lisle, por exemplo. Torna-se quase imperceptível a transição, como também na marcha para o Simbolismo, se atendermos aos sinais de parentesco que vinculam ao Parnasianismo a obra de Baudelaire e Verlaine.

Nota-se, no Brasil, fenômeno semelhante. Dos condoreiros aos mais puros representantes do Parnasianismo, há um grupo de poetas que preparam a transição e anunciam o advento da nova escola. Tinha razão Ronald de Carvalho, classificando como precursores do Parnasianismo a Luiz Guimarães e Machado de Assis. Não parece exato, entretanto, no ponto de vista cronológico, datar de 1880 a vitória da escola, por ter sido nesse ano que Artur de Oliveira, recém-vindo da Europa, doutrinava os seus companheiros, ensinando-lhes os dogmas do Parnasse Contemporain, cujo primeiro volume, aliás, datava de 1866. Antes de 1880, mesmo sem contar os precursores, haviam sido publicados os primeiros livros de Teófilo Dias. As Miniaturas, de Gonçalves Crespo, eram de 1870.

É possível que a palavra de Artur de Oliveira tenha valido para definir e propagar os preceitos da escola, mesmo porque o decênio de 1880-1890 é o do incontrastável domínio do Parnasianismo. Os autores menos ortodoxos – B. Lopes, por exemplo – ainda não conseguiam repercussão apreciável. E é naquele período que se revelam os grandes mestres do Parnasianismo, com os primeiros livros de Raimundo Correia, as Canções Românticas, de Alberto de Oliveira, as Poesias, de Olavo Bilac, as Contemporâneas, de Augusto de Lima.

De todos, o que havia de ter influência mais vigorosa era Olavo Bilac, devido ao calor tropical de sua poesia e também ao temperamento, ajudado pelo celibato, que lhe permitiu, sem inconvenientes domésticos, continuar a viver nos grupos literários da época, participando dos cenáculos dos cafés e confeitarias da cidade.

É a Bilac que José Maria Goulart de Andrade encontra, no começo de sua atividade poética, depois de haver abandonado os cursos da Escola Naval. A influência parnasiana vinha encontrando restrições, reflexos naturais do movimento de idéias no Velho Mundo. O que se notava de rebeldia em Baudelaire e Verlaine firmara-se melhor sob a magia dos símbolos. Já é grande a lista dos rebelados: Mallarmé, Rimbaud, Laforgue, Gustave Kahn, Moréas, Régnier, Samain, Guérin, Verhaeren. O decênio 1890-1900 foi simbolista na França, mas a sua repercussão não teve, no Brasil, o êxito que se patenteia naquele país. Os Cromos e os Helenos, de B. Lopes, datavam de 1881, mas não haviam provocado nenhum movimento de renovação poética. Estava destinada a Cruz e Sousa essa missão revolucionária, com os Broquéis, publicados em 1893. No hebdomadário Rosa-Cruz reuniam-se os defensores do Simbolismo: Félix Pacheco, Carlos Dias Fernandes, Saturnino de Meireles, Nestor Vítor, Pereira da Silva, Castro Menezes, Alphonsus de Guimaraens, Silveira Neto, Mário Pederneiras.  Portugal irradiava a influência de personalidades poderosas: Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Eugênio de Castro.

Nem o Parnasianismo, nem o Simbolismo haviam sido movimentos confinados ao mundo poético. Alimentavam-se de raízes profundas, acompanhando a marcha das idéias, ou das tendências filosóficas do século. O apogeu do Parnasianismo coincide com a fase de mais vigorosa influência do Positivismo. Corresponde ao domínio do cientismo, subestimando a metafísica, substituindo o estudo dos fatos às especulações do pensamento, disciplinando com a razão e a observação objetiva os arroubos sentimentais e as fantasias do subjetivismo. Não foi sem motivo que surgiu nessa época, revelando pretensões alarmantes, a poesia científica, a preocupação de temas históricos, a investigação das origens humanas, a irreverência com a religião, combatida pelo ateísmo e pelas campanhas anticlericais. Assim, quanto ao pensamento, ou quanto às origens do movimento parnasiano: na execução, foi sobretudo uma reação contra a métrica frouxa de alguns românticos (Lamartine e Musset, principalmente) e um anseio de libertação, diante de temas, ou de uma arte poética, que já se haviam esgotado e esterilizado.

Surge o Simbolismo com o enfraquecimento da influência positivista. Era uma “revanche” do incognoscível spenceriano, com as novas contribuições do inconsciente, ou do subconsciente. A metafísica retorna à matéria poética, e o mistério procura realizar a missão que a clareza e a objetividade parnasiana lhe haviam sonegado. O materialismo cede terreno ao espiritualismo renascente.

Não que os parnasianos desaparecessem de todo, para que prevalecessem os poetas dos símbolos. Seria antes o fenômeno de confusão de escolas, proliferando os títulos e os agrupamentos, os “ismos” variados dos períodos tormentosos, o Naturalismo de Saint-George de Bouhélier, o Humanismo de Gregh, o Unanimismo de Jules Romain, sem falar nas tendências mais extremadas, o Super-realismo, o Cubismo, o Dadaísmo. Cruzam-se, misturam-se as idéias opostas, mantendo-se lado a lado os vários partidos e as diversas correntes literárias. Mesmo depois de transposto o marco do novo século, não desapareceu de todo a influência parnasiana, sobretudo no Brasil, onde os poetas dessa escola foram mais populares que os cultores de símbolos.

Posto, assim, em face de uma encruzilhada, sentindo o ascendente de Bilac, o prestígio de sua poesia fulgurante, contrabalançada pela sedução das idéias, ou tendências mais modernas, como se decidiria o poeta Goulart de Andrade? Que rumo preferiria o ex-aspirante da Escola Naval?

Precariedade das classificações literárias

Estou convosco, Sr. Adelmar Tavares, em que, em poesia, não há de como nos lotearmos em românticos e parnasianos, simbolistas, decadentes, pessimistas, modernos e futuristas. Cada um é a sua alma, e todos são poetas. Sucede apenas, na escassez de recursos da linguagem humana, que é pelas reações em face das escolas e tendências literárias que melhor podemos conhecer as características da personalidade do poeta. Nem as escolas reduzem os seus adeptos a um padrão de absoluta uniformidade... Valem apenas como indicação de uma tendência, que não exclui, nem pode excluir as manifestações pessoais.

Por isso mesmo, a dificuldade está antes de tudo em precisar o que sejam as características de uma corrente literária. Sobram os manifestos, multiplicam-se os programas, e cada vez se torna mais difícil reconhecer os elementos diferenciais de uma escola, que cada escritor define, ou realiza, de seu ponto de vista próprio. Outro obstáculo está em que os movimentos dessa natureza se acentuam no aspecto negativo, como forças de reação mais do que de construção. Pregam ou desejam o extermínio das normas dos processos anteriores. Por isso, o que melhor as define não é o que fazem, mas o que evitam. O Parnasianismo reagia contra a facilidade de ritmos e o exagero de subjetivismo de alguns poetas românticos. Nada o revela melhor que a preocupação de conservar-se à distância da forma descuidada e do lirismo fácil e transbordante. Mas, se daí quisermos inferir que o Parnasianismo chega ao objetivismo absoluto, não seria exata a conclusão, senão em face da escola, ao menos diante dos poetas que a ela pertencem. A impassibilidade figurou mais nos manifestos que nas poesias parnasianas. Anatole France já dizia que o grande doutrinador da escola, Xavier de Ricard, sustentava com ardor que a Arte deve ser de gelo, “e nós não nos apercebíamos que esse mestre da impassibilidade não escrevia um único verso que não fosse a expressão violenta de suas paixões políticas, sociais ou religiosas”. Paul Verlaine pretendera obedecer ao dogma da serenidade, quando perguntava se era ou não de mármore a Vênus de Milo. E o crítico da Vie Littéraire respondia: “Sem dúvida é de mármore, mas pobre criança enferma, sacudida por estremecimentos dolorosos, não conhecerás nunca da vida e do mundo senão as perturbações de tua carne e de teu sangue.”

Convém acentuar que a impassibilidade parnasiana não queria dizer indiferença, nem seria possível imaginar uma poesia insensível. O que Leconte de Lisle recomendava era a serenidade de forma, o equilíbrio, a harmonia, o que não obstava que a sua obra refletisse os impulsos de uma grande paixão, embora intelectual. Olavo Bilac interpretaria o pensamento parnasiano, dizendo naquela famosa “Profissão de Fé”, que de tão perto acompanha o poeta de Émaux et Camées:

Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa Serena,
Serena Forma!

Definiu, precisamente, o Sr. Martino esse culto pelo estilo, quando nos disse, num trecho que também se poderia aplicar ao Parnasianismo no Brasil: “Mas que a forma deva ser impassível, escultural e muito pura nas suas linhas é ponto em que todos os parnasianos, mesmo depois de 1870, estão e continuam de acordo. O horror à ‘incoerência da idéia’ e à ‘incorreção do verbo’, com todas as suas conseqüências, que são consideráveis, permaneceram até o fim como o sentimento forte e comum a todos os poetas que se alegram com o batismo de parnasianos.”

Nesse culto à forma, nesse cuidado de estilo, nesse amor aos efeitos do colorido e da sonoridade, o Parnasianismo corresponde aos sentimentos de um grande grupo de poetas, que possuem mais vigorosamente o sentido do som, da cor, do perfume e do contorno. São os cultores da poesia plástica, em que o verso recorda o relevo da modelagem, pela precisão maravilhosa das metáforas. Mesmo depois de Leconte de Lisle, não esquecem e não desamparam Banville, e Théophile Gautier, como não esquecem os ritmos amplos e sonoros de mestre Hugo. Para eles, a escola vem das Orientales, continua pelos Émaux et Camées, não perde de vista as Odes Funambulesques e inspira os poemas de Baudelaire. Eis aí, nessa sucessão, a prova da precariedade das escolas, pela revelação do parentesco entre esses poetas, que saem de correntes diversas, mais românticos os primeiros, e o último exibindo os motivos novos com que se alimentariam o Satanismo e o Simbolismo. Apesar da diversidade dos rótulos, aproximava-os uma razão mais forte, que era o temperamento semelhante, a preponderância da imagem na arte de todos eles. Essa a razão por que Baudelaire dedica o seu livro a Théophile Gautier, ou o motivo por que seria Banville o sistematizador da metrificação parnasiana, com o Petit Traité de Poésie Française. Todos eles, como o autor de Émaux et Camées, poderiam exclamar que eram pessoas para as quais existia o mundo exterior.

Os imaginativos

Goulart de Andrade se incorporaria a esse grupo de poetas do mundo visível, amigos do colorido forte e dos ritmos marcados. Servem-lhe de musas os sentidos. É um imaginativo, acumulando comparações e compondo poesias num encadeado de metáforas. Poderia dizer, como D’Annunzio, que a tudo preferiria a felicidade de celebrar as festas dos “sons, das cores e das formas”, para através delas realizar a unidade da Arte, reunindo na mesma composição a poesia, a música, a pintura, a escultura. Não faltam, por isso, nos poemas de Goulart de Andrade as descrições vivas, de um colorido e de um relevo que impressionam. Na poesia “A minha lavandeira” deixa-nos a impressão do quadro que descreve. E tantos outros poderiam ser destacados! Seria o caso, por exemplo, da descrição do mar morto, da evocação das cidades malditas, da vigorosa narrativa do poema “A procelária” ou dos fortes abandonados. As onomatopéias freqüentemente auxiliam os efeitos dessa palheta variada e rica de tons:

Balas, bombas, rojões, bombardas, ribombando,
Nos broncos barrocais, de montanha em montanha,
Atestado brutal de peleja tamanha!
Estridor de canhões e retinir de espadas,
Grita surda e feroz, agudas clarinadas.

Fiel ao culto da forma, como é comum nos visuais, exclamará, no ofertório de seu famoso “Canto Real do Poeta”:

Poeta, que tanto estiolas teu valor
No embate rijo e desesperador
Pela forma imortal que te amargura,
Se à Perfeição não chegas, lutador,
Estaca... e rola sobre a terra escura!

Bilac não fora menos irredutível: ou a perfeição ou a morte:

Vive! que eu viverei servindo
Teu culto e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo,
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu ofício
No altar; porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também.

Assim compunham esses poetas a sua mística, espécie de sucedâneo da religião que desprezavam, ou combatiam. Estamos diante de uma nova crença, o culto da Arte pela Arte. Não admira que a métrica seja o evangelho da seita que surge e que as regras de versificação avultem com o prestígio de dogmas. Equiparam-se os deslizes de forma aos crimes infamantes, para não dizer aos sacrilégios, desde que estamos no domínio da fé, ou da superstição. Banville definira exatamente a nova doutrina, afirmando que “a imaginação da rima é, entre todas as qualidades, a que constitui o poeta”. E acrescentava: “Isso é uma lei absoluta, como as leis físicas; enquanto o poeta expressa verdadeiramente o seu pensamento, ele rima bem; desde que seu pensamento se embaraça, torna-se fraca, arrastada e vulgar, e isso é fácil de compreender, pois que, para ele, pensamento e rima são a mesma coisa.”

Goulart de Andrade nunca dispensava o buril. No romance Assunção e na peça a que deu esse mesmo título há referências, de feição evidentemente autobiográfica, a um certo poeta, que é denominado “domador de rimas”, “esmaltista de estrofe”, preocupado “com a idéia da Forma na mais surpreendente pintura, na plástica mais sedutora dentro da mais acabada expressão orquestral”. Martins Fontes assim o definia na “Sextina a Goulart de Andrade”:

Grande Goulart de Andrade! O que eleva um cantar
É esse exímio poder de distribuir as cores,
De, na justa medida, e no raro rimar,
Chegar à Perfeição que atingiste, Goulart!
Fazendo, em teu sofrer, que as mais íntimas dores
De surdina iriais, se transformem em flores!
Flores, pois, provençais ao teu alto cantar!
Poeta, as dores que tens se transmudam em cores,
E és remestre, Goulart, no primor de rimar!

Para se conhecer até onde chegava a preocupação da forma em Goulart de Andrade, basta ler, como subtítulo de um de seus poemas, aquela advertência aos leitores desatentos: (“Obrigada a consoante de apoio.”).

O virtuosismo leva a procurar obstáculos pelo prazer de vencê-los. Já não se contenta o alpinista com os aclives comuns e os precipícios que todos encontram, e sonha com os píncaros desconhecidos, e procura os grotões que os desastres afamaram. Talvez por isso desestimem os poetas plásticos, ou não considerem bastante, o domínio das formas correntes, as cantigas, o madrigal, a elegia, a égloga, a pastoral, o epitalâmio, a canção, a ode, o soneto. Desse material envelhecido e triturado nos cenáculos do Classicismo admitem o soneto e, quando muito, a ode. E recordam gêneros de uso raro, trazidos de séculos remotos. É assim que nosso Goulart de Andrade se dedica às baladas, ao canto real, ao rondel, ao vilancete, ao rondó.

O medievalismo de Goulart de Andrade

O cultivo de formas poéticas, que remontam à Idade Média, pode parecer resultante de simpatia mais profunda pelos sentimentos que inspiravam a poesia dos trovadores. A explicação exata é a que nos proporciona um dos amigos mais fiéis de nosso poeta – o escritor Povina Cavalcanti. Refere-se o brilhante crítico alagoano a um dos gêneros preferidos de Goulart de Andrade – a balada. E observa: “A balada é a poesia lavorada, a obra de filigrana e evocação, de rendilhado e fidalguia, mimo hierático, de um ourives apaixonado pela arte das minúcias. Quem a compõe tem, necessariamente, qualidades requintadas. É um gênero de púrpura.”

Debalde procuraríamos, entre a poesia de Goulart de Andrade e os modelos medievais, essa afinidade de sentimentos que traz, espontaneamente, a renovação dos gêneros literários. Na poesia cortês dos trovadores, caracteriza-se a paixão amorosa pelo misticismo que a domina. É um anseio veemente, que se contenta com o desejar e se considera tanto maior quanto mais accessível à renúncia. Não raros são os poetas que louvam os que muito sofreram no amor, nem há nada mais sublime do que padecer pela adoração de uma dama preferida. Mais jogo de rimas, de canções e de espírito do que jogo de corpos, dirá um historiador, acentuando que a paixão da carne só por exceção aparece na poesia provençal. Não cabe também nesse quadro o ciúme, com as suas tempestades, os seus coriscos e os seus arrebatamentos. É que as menores demonstrações da mulher amada são recebidas como favores supremos, ou dádivas divinas, e pareceria impertinência tanto o duvidar, como o exigir.

As damas podem dispor de seus sentimentos, livres de qualquer dever, mesmo os que possam resultar da solenidade dos mandamentos. Já observava o Sr. Aubry que a literatura da Idade Média não obedecia a nenhuma preocupação de ordem moral. Pois não era motivo de debate sisudo o saber se o amor podia, ou não, sobreviver ao casamento? Perguntava-se o que valia mais, se ver a amada censurada sem razão, ou culpada sem receber críticas. Em certo poema da época, exclamava a jovem desposada, no período que se presume ainda sob o enlevo das primeiras expansões: “Maldito o marido que dure mais de um mês!”

Decerto não se encontra, na poesia de Goulart de Andrade, aquela atitude de menestrel discreto, sentado aos pés de loura castelã, a entoar, ao som da rota, ou da viola, versos mansos, límpidos e distantes como preces. A paixão que o inspira não pensa no sacrifício, nem admite a renúncia. Tudo nele é desejo ardente, irresistível, agressivo. Se daí não se pode chegar a uma aproximação com a arte medieval, há outros aspectos que talvez nos mostrem a explicação que se procura. Uma das melhores autoridades modernas nesses assuntos, continuador dos Fauriel, dos Gaston Paris, dos Jeanroy, o Sr. Anglade, ensina que, convencidos, muito antes dos modernos, de que seul le vers éternel demeure, os poetas medievais cultivaram a forma com empenho quase religioso. Na escolha das palavras apropriadas, ou na procura de rimas e no entrelaçamento delas, na criação de estrofes, nesse conjunto de cuidados obscuros, minuciosos e obstinados, eles são modelos incomparáveis. Poesia requintada, feita para o prazer da nobreza feudal, procura a sua melhor recomendação nas dificuldades e subtilezas do virtuosismo, da técnica apurada, que deseja atribuir a cada poeta uma forma característica e exclusiva, a que só faltava a patente do privilégio. Com o número e variedade de rimas e de versos compõem as estrofes, a que denominam coblas e das quais as Leys d’Amors enumeravam setenta categorias diversas, cada uma delas com o seu nome especial. Carolina Michaelis mostrava que “conferidas com as galaico-portuguesas, cuja pobreza de idéias e de adornos é tão saliente, as dos trovadores provençais são deslumbrantes de brilho poético, complicadas, ricas, artísticas na forma, visto que inventar novidades era a regra”. Não é outro o parecer de um mestre como o Sr. Ramon Menendez Pidal.

A finura e variedade de ornamentos correspondem à subtileza das idéias e das preocupações da época. Era a linguagem própria para os primores da galantaria ou para as argúcias de uma casuística amorosa feita de filigranas. Destoaria das estâncias triviais a quintessência do amor devoção.

É de supor que o virtuosismo tenha sido a força criadora do medievalismo dos poetas modernos, que também são requintados e amam as subtilezas de linguagem e de sentimento. Não há mesmo indicação, no caso de Goulart de Andrade, de que ele se haja inspirado nas fontes antigas. O divulgador, ou renovador, desses gêneros medievais foi Théodore de Banville, que aliás se deteve em Clément Marot e, quando muito, chegou até François Villon, que se limitara a aceitar a métrica de seus antecessores.

Banville não somente compôs baladas, rondós, lais e virolais, cantos reais, rondéis, vilancetes, como determinou as normas que deviam regular a execução de todos esses gêneros. Ateve-se Goulart de Andrade, na restauração de antigos modelos, às regras de Banville, exceto quanto ao vilancete, em que mantém a forma clássica portuguesa, aliás encantadora. Mesmo na exceção, Goulart de Andrade revela a influência da versificação francesa, distinguindo, não sabemos com que razão, o vilancete do vilancico, para sob este nome último realizar o villanelle de Banville. É aquela poesia de Névoas e Flamas:

Amor que viva no riso
Já t’o disse e, agora, friso.
Não dará fruto, nem flor...

Exaltava Banville o atrativo desses gêneros, com a referência aos obstáculos que lhes estorvavam a execução. A respeito da balada dissera: “De todos os poemas franceses, é o que oferece dificuldades mais temíveis, por causa do grande número de rimas iguais, concorrendo para expressar os aspectos diversos de um pensamento, ou de um sentimento único, que precisa ser ao mesmo tempo imaginado e visto.” E que dizer então do canto real, com as cinco estrofes de que se compõe? Cresce o risco da monotonia, pela difusão de uma idéia que se dilui na igualdade das rimas, girando em torno de um refrão inalterável. Opinava Lemaitre que esses quadros bizarros eram de tal maneira difíceis de preencher, que ao rimador se permitia pôr tudo dentro deles, fosse o que fosse.

Senhor dos segredos da versificação, Alberto de Oliveira declarava que a balada era um gênero de “dificílima execução”, acrescentando, ou explicando: “Se a quiserem ajustar fielmente ao modelo, tratá-la como feitura artística, evadir-lhe as rimas triviais e matizá-la das peregrinas, ou raras, não será isso empresa para qualquer, e só por milagre, um desses milagres do talento, deixará de ser sacrificado o surto espontâneo da inspiração.”

Pode-se daí depreender o que significa a vitória de Goulart de Andrade, num gênero de tantos embaraços. Príncipe das Baladas – proclamaram-no poetas e companheiros. Martins Fontes, que desde o primeiro livro também se revelara perito nessa ressurreição de modelos medievais, exclamava, na “Sextina a Goulart de Andrade”:

Glória, Goulart de Andrade! Incomparáveis flores
A Balada, o Pantum, o RondeI, o Cantar,
Tu, só tu, no Brasil, multiplicando as cores
Com que doiras o verso e distilas as cores,
Refloriste e, de então, te tornaste, Goulart,
Mestre da gaia ciência e do raro rimar!

Se houvesse de eleger a melhor balada do poeta, recordaria aquela em que Alberto de Oliveira encontrava “doce ritmo de embalo de rede de pena”. Já foi lida nesta Casa e há pouco repetida por outro poeta de vossa Companhia, o Sr. Pereira da Silva. Mas não sei também resistir ao prazer de uma nova leitura desses versos harmoniosos, e tão naturais, que nos fazem esquecer as advertências e duvidar de que sejam tão grandes os obstáculos, que o Príncipe das Baladas venceu brilhantemente:

Pela rosácea do vitral, desfeito
Em cores, entra o pálido luar!
Dorme! Entre as névoas de teu alvo leito
Vejo-te o seio brandamente arfar...
Dorme! Lá fora dorme o velho mar.
Na muda noite, a abóbada infinita
Apenas vela, e, trêmula, palpita.
Dorme! Nos campos adormece a flor
E a ave no ramo, que o Favônio agita,
Como tu, adormece, meu amor.
Em vão procuro ouvir, em vão espreito
Se nesse inocentíssimo sonhar
O meu nome se escapa de teu peito,
E a minha imagem tentas abraçar...
Ah! Se estiveras tu no meu lugar!
Dorme! Das rimas a caudal bendita
Desta boca febril se precipita
Num som dulcíssimo e acalentador...
A alma, que eu trouxe antigamente aflita,
Como tu, adormece, meu amor.

Dorme! Nem sabes como contrafeito
Vejo-te os lábios sem os não beijar...
Com que desejo, mas com que respeito
Contemplo a tua carnação sem par!
Dorme! Como tu, dorme o nenufar
Da fria linfa na prateada fita...
Só de meu coração a surda grita
Se escuta no silêncio esmagador!
A lembrança das horas de desdita,
Como tu, adormece, meu amor.

Ofertório

Rainha deste ser, dorme, e acredita
Que aos brancos pés te deixo a alma precita,
Misto de ciúmes, de êxtasis, de ardor...
Ai, dorme... a voz que estes cantares dita...
Como tu... adormece... meu amor...

Gostaria de lembrar também aquela balada da costureira:

Tenho o cabelo já nevado
E as faces num mortal palor,
E ainda espero o retardado...
Quando virás, ó meu amor?

Ou a balada a uma Princesa Longínqua:

Vossa alta fama assinalada
Por tanto claro lidador,
Veio até minha água furtada
De cavalheiro e rimador
Irei por vós, seja onde for,
A rima rutilando acesa,
A proclamar-vos, com ardor,
Dona da Graça e da Beleza.

Os cantos reais são também de mestre, embora não tenham, e talvez não possam ter, a mesma espontaneidade dessas baladas. Mas no vilancete o poeta reconquista a naturalidade e, às vezes, nos lembra a fluência e o sabor das redondilhas camonianas. Não há como deixar de ler esse delicioso vilancete, que aqui também já foi dito por um poeta, o Sr. Múcio Leão. Afigura-se-nos que constitui uma das melhores expansões do lirismo de Goulart de Andrade:

É tão cheiroso o teu véu...
Que, ao vê-lo, a gente presume,
Não ser véu, e sim perfume.

Voltas

Teu véu, desejada minha,
De tão leve e transparente,
Menos se vê, que se sente,
Ou melhor, mais se adivinha.
Nele tanto olor se aninha
E é de névoa tão escassa,
Que através dele se passa...

Foi-se esgarçando, esgarçando,
Tornou-se aéreo, tornou-se
Fluido de essência tão doce
Que nem sei já como eu ando!
Doido sou que estou pensando
(Tanto aroma em si resume)
Que tens um véu de perfume...

E ao sorver o delicado
Cheiro teu indefinível,
Creio teu véu invisível
Em mim ficou enrolado:
Eis porque penso, anjo amado,
Que, em sentindo o olor do céu,
Vivo dentro do teu véu...

A preocupação das escolas

Não se pense, porém, que esse admirável culto de gêneros antigos fosse indiferente ao seu tempo, ou aos ritmos que em torno dele vibraram, na expansão de uma fase agitada e tumultuária. Posto na encruzilhada das escolas, embora as tendências pessoais o levem para o Parnasianismo, procura resistir Goulart de Andrade à disciplina e à uniformidade.

A “Jornada de um Poeta”, pórtico da primeira série de suas Poesias, começa por um poema de sabor parnasiano; mas a segunda composição se destina aos simbolistas; a terceira foi dedicada aos líricos, apresentando-se com uma feição romântica. “Lunar”, uma de suas raras poesias de metro variável, não seria provavelmente estranha à influência de Cruz e Sousa:

Ó decerto, esta poeira argêntea, que sacodes
É a sementeira da melancolia...
O teu véu branco é feito de jasmins,
Ou cravos, que, em essência,
Se diluissem pelo ar numa deliqüescência
Venenosa. Ou talvez seja formada
De uma revoada
De extintos sons de bandolins
Que se partiram para o claro espaço...
Olha, temo o teu lúgubre regaço:
Que atração infernal exerces sobre mim,
Lua de âmbar, ou de marfim?

Há uma série de motivos traindo a leitura dos Broquéis. Fala Goulart de Andrade de uma lua funérea de histéricos desmaios; admite que ela se tenha formado de uma “revoada de extintos sons de bandolins”; insiste na tristeza e na impressão de frialdade da lua, onde ficaram encarceradas em “gélidas crateras” as almas dos poetas. Há expressões que poderíamos encontrar no Poeta Negro, como este verso: “Alva Flor de polares primaveras” ou ainda o paralelo com o marfim: “Lua de âmbar, ou de marfim”. Fala muito Cruz e Sousa nos “bandolins do luar”. No soneto “Música Misteriosa” há esta quadra:

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de lampadários,
As harmonias dos Estradivários
Erram da lua nos clarões dormentes.

Em outro soneto – “Monja” – escrevera o poeta:

Então, ó Monja branca dos espaços,
Parece que abres para mim os braços,
Fria, de joelhos, trêmula, rezando...

A própria idéia central da poesia “Lunar” corresponde à sensibilidade de Cruz e Sousa, que vê no mundo sideral o refúgio dos mistérios e mágoas terrenas:

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não são os ais perdidos
Das primitivas legiões humanas.

O que é espontâneo volta sem prevenir. O Simbolismo deixa em Goulart de Andrade reminiscências vagas, diria mais precisamente – procuradas. Verlaine mandava enforcar a eloqüência e substituía a cor pela nuança. Goulart de Andrade não teria forças para fugir da eloqüência ou do colorido. A sua família literária é outra, e a sensibilidade ardente e impetuosa não lhe deixa ocasião para aventuras de filho pródigo...

O amoroso

Não se terá conhecido muito a respeito dos poetas, enquanto não se procurar saber o que eles pensam, ou o que eles dizem do amor. Paul Souriau escrevera: “Tirai o amor, e que ficará da Arte? O valor poético do amor é incomparável.” Não havia sido menos explícito Lalo: “Quanto às obras de arte, já se repetiu em todos os tons, desde Platão, que elas são obra do amor, e que toda a Arte é um hino universal ao poder de Eros...” Medeiros e Albuquerque chegara a proclamar que só havia um belo verdadeiro – era a beleza feminina. Não sabemos se o conceito resultava de convicção estética, ou se apenas visava o desejo de inspirar a mais amável de todas as gratidões.

Goulart de Andrade não estaria longe desses modelos, ou exemplos. Eros ditou-lhe numerosas poesias, algumas delas cheias de um calor que poucos poetas alcançariam. Não se contenta com o louvar e o suspirar. Não se limita aos trenos suaves dos românticos, não exalta castelãs inaccessíveis. Se uma vez cantou a princesa distante fê-lo por espírito literário, nem o interessavam senão as princesas muito próximas. Porque a poesia, para ele, ou resulta da expansão de amor, ou se converte num caminho florido para novos prazeres. Poemas seus parecem feitos de lavas, nem sabemos se o Livro Proibido teria como símbolo Eros, ou o Vesúvio.

Por isso mesmo, toda a vida se reduz, na compreensão de Goulart de Andrade, ao culto do amor, ao gozo dos sentidos. Talvez houvesse alguma coisa de diletantismo nessa atitude, o próprio poeta o insinuou, numa passagem de Assunção. Mas o certo é que, para ele, o interesse da vida se concentrava na paixão amorosa, fonte exclusiva de felicidade. O que não coubesse nessa moldura seria sofrimento e martírio, como a velhice, que o poeta verbera em alguns versos cheios de horror. É verdade que estamos diante de poesias escritas no deslumbramento dos vinte anos e nada apavora tanto a mocidade como a sombra da senectude, que naturalmente se altera e transforma, quando começam a cansar os olhos inquietos que a espreitam.

“Não, eu não choro quando um velho morre!” – exclama o poeta, imaginando que:

Braços de neve, seios nacarados...
Já lhe não fazem fogo na pupila
Que incitasse os desejos indomados.

Nada pode valer a moral, diante desse fogo devastador:

Cristo, morreste em vão pregado num madeiro,
Almas não salvarás enquanto o olhar ardente
Vir a pompa da carne, e se sentir o cheiro
Da carne em flor, e a mão a carne pubescente
Tocar; e o ouvido o som sentir de um beijo, e a boca
Desvairada, encontrar a carne ardente e louca!

Acompanham esses sentimentos toda a obra poética de Goulart de Andrade. Ditaram-lhe os versos mais vibrantes dos volumes iniciais: inspiram-lhe os poemas de Névoas e Flamas; e mais tarde, no livro da melancolia, ainda se refletirão aqui e ali, como naquele terceto:

Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza,
E as harmonias todas do universo.

No soneto “Meu Jardim”, de Ocaso, o poeta procura resumir as suas experiências sentimentais:

Nossa alongada infância, à luz serena
Do luar da prece, em vago olor delida,
Florescia o jardim da minha vida,
Alvejante de lírio e de açucena.
Depois, na adolescência, manhã plena
De rubores e cantos, sem medida,
Ao abrir da corola apetecida,
A rosa do desejo o ar envenena...

Depois... volúpia louca e amor conforto...
Desentranhou-se, ao sol da mocidade,
Em papoulas e cravos o meu horto...

Enfim! velhice! Já com a sombra invade
O canteiro, onde jaz meu sonho morto,
Floração de perpétua e de saudade!

À sensibilidade do poeta apresenta-se a velhice como o jazigo de um sonho, que os outros versos não esclarecem qual tenha sido. Só se pode inferir que seja aquele sonho ardente da mocidade, a preocupação amorosa, que fez desabrochar a rosa do desejo e as papoulas da volúpia. Nada indica que o tempo haja modificado a idéia, que de começo o dominava, de que somente o amor o interessa. Senectus est morbus – diria ele ainda, na hora do ocaso. Passará o poeta ao longo da velhice sem se aperceber dos prazeres mais íntimos, ou da suavidade de um enternecimento melancólico. Não se apegará às paisagens e à vida, ou não mostrará nos seus versos essa amizade mais profunda de quem sente em todas a coisas a sombra e a tristeza de uma despedida próxima.

Senectus est morbus! Mas nem mesmo a convicção dessa tortura lhe desperta queixas ou o clamor de um desespero sem remédio. A sátira não teve maior atrativo para a sua arte, nem lhe parece matéria poética a imprecação do sofredor. Goulart de Andrade foi sempre um entusiasta. A sua alegria estava na satisfação de louvar. Coubera-lhe como destino cantar a beleza das coisas e fazer a exaltação das mulheres amadas.

Por isso, a obra poética de Goulart de Andrade há de aparecer sempre como expansão de juventude, exuberante, cheia de ardor, de ímpeto e de entusiasmo, floração amorosa, nascida em louvor do sol que a alumiara.

O teatro de Goulart de Andrade

Já Alberto de Oliveira dissera, no discurso com que, nesta Companhia, recebera a Goulart de Andrade:

O escritor em vós é primacial e essencialmente o poeta. Outras partes se louvam em vossa pena, desde a de autor de composições teatrais, às de cronista e romancista, as quais todas vos têm propiciado ocasião a vos revelardes verdadeiro homem de letras. Aquela, porém, a de poeta, a qualidade apolínea por excelência, é o título mais belo, o vosso melhor pregão de escritor.

Esse é um dos pontos em que os críticos se acham de acordo, mesmo porque, até nos gêneros em que incursionou, Goulart de Andrade manteve-se poeta. O seu teatro é quase todo em versos. Das oito peças que figuram na sua bibliografia, apenas há duas em prosa: Assunção e Um Dia a Casa Cai... Não será fácil encontrar os limites que lhe separem as duas manifestações literárias. Na terceira série de suas poesias há poemas que poderiam figurar na parte de teatro: “O Fogão do Gaúcho”, por exemplo, ou “São Francisco de Assis”.

Desconfio que não sejam de grande efeito cênico as peças de Goulart de Andrade. Escreveu-as o poeta pensando talvez menos no palco que no torneado e graciosidade das frases. Surgem as suas figuras para intérpretes de palavras e de sentimentos, que o poeta deseja manifestar. Ele é quem fala por todas as suas criações, tanto nos sentimentos, como no vocabulário escolhido, sonoro e rico.

Já foi notado, nesta Casa, que um dos temas prediletos desse teatro era o ciúme. Na primeira série de peças de Goulart de Andrade não há, realmente, assunto mais influente. Ciúme do marido pela vida anterior da esposa, casada em segundas núpcias; ciúme do pai, que não deseja o casamento da filha; ciúme da senhora avisada, que procura disciplinar, ou conduzir, as expansões amorosas do filho moço. Também as duas peças finais do repertório aproveitam largamente motivos semelhantes. Um Dia a Casa Cai relata o crime de um marido pacífico, funcionário público humilde e discreto, que a certeza do adultério da esposa converte num facinoroso estrangulador.

As figuras femininas, que dominam as peças de Goulart de Andrade, ou são viúvas ou mulheres maduras. Para ele, e confessemos que também para a vida, a mulher fatal não é a jeune fille. À candura, ou à ingenuidade, ele antepõe a saborosa experiência. A abnegada heroína de Depois da Morte, Alda, está casada pela segunda vez; as duas mulheres de Renúncia chamam-se Ester e Laura, a primeira com cinqüenta anos e a segunda com 36, e ambas viúvas. Na Sonata ao Luar, Marta, personagem feminina de uma peça a dois, tem 35 anos. As mulheres em torno das quais se desenvolve o enredo de Assunção já estão casadas, e a tentadora, a criatura irresistível, conta quinze anos de vida conjugal, enquanto a esposa esquecida não completou ainda o qüinqüênio de matrimônio, e nada pode fazer com o handicap que a prejudica. Amália, a adúltera de Um Dia a Casa Cai, já transpôs os trinta anos. A única mocinha, que aparece no teatro de Goulart de Andrade, ou que nele se destaca, é Iolanda, cega de nascença e cujo interesse dramático está exatamente nessa desgraçada circunstância.

Para o poeta, o amor continua a ser, nas peças, o mesmo sentimento que os versos nos revelam: tormenta, delírio, exaltação. Voltam-lhe freqüentemente, nas descrições amorosas, os vocábulos que nos falam de alucinação, martírio, incêndio. Para ele, os beijos são furiosos, os desejos febris, a paixão louca, histérica, brutal. O teatro escrito sob o domínio desses sentimentos não tem como aproveitar a jeune fille, numa época em que as condições sociais ainda as preservavam do turbilhão da luta pela vida. Nem os personagens de Goulart de Andrade revelam a paciência, o cálculo, o sibaritismo minucioso e a perversidade profissional dos iniciadores.

Duas peças se destacam, no conjunto da obra do poeta, pela maior riqueza de elementos cênicos, ou pelo movimento mais vivo da ação. Uma é Jesus; outra, Os Inconfidentes.

A peça Jesus havia sido começada pelo irmão de Goulart de Andrade, Aristeu de Andrade, também poeta. José Maria encontrou escrito o primeiro ato e resolveu completar o trabalho, inspirado num sentimento que ele próprio nos descreveu:

O teu querido poema inacabado
Ao fim chegou em paz e salvamento:
Releva, pois, um tal cometimento
De uma saudade intérmina gerado.

Que belo poeta é também esse Aristeu de Andrade! Maria Madalena, desejada de todos e esquecida de Jesus, fala, nestes versos de movimento fácil e de vibrante inspiração:

A tristeza, porém, a minh’alma conturba
Desde o instante em que o vi à esfarrapada turba,
Sereno como um Deus, em voz pausada e triste,
Brandamente dizer: – “O eterno bem consiste
No reino de meu Pai... Se o desejais, amai-vos...”
Pelos cabelos de ouro, o sol dava-lhe uns laivos
De uma auréola real! Seus olhos se embebiam
Em êxtase nos céus, e seus lábios sorriam,
Como devem sorrir, na glória, os do Senhor!
Senti-me transformada e o meu febrento amor,
Torpe como um chacal, tornou-se um cordeirinho,
Um anho virginal mais puro do que o linho,
Que as donzelas de Sião desfiam em seus teares
Para vestir de branco as pedras dos altares.

Sem uma nota, que indicasse o plano da peça, José Maria escreveu dois atos para completar o trabalho. Incluindo no enredo a Samaritana e nos deixando sentir, nos seus versos, a ressonância da peça de Rostand, Goulart de Andrade fez obra de arte e de amizade fraternal.

Valem Os Inconfidentes, no domínio teatral, pela composição melhor e mais inspirada de seu autor. Pelo menos, há movimento, o conflito das paixões tem motivos novos e os versos surgem fáceis e belos. O assunto estaria, talvez, mais de acordo com a eloqüência do poeta, que mais à vontade se expandiria na exaltação patriótica e no vigor do civismo. Desenvolve-se a própria ação sob a influência de um romanesco que se eleva acima da vulgaridade da vida e nos deixa entrever o céu límpido do sacrifício e do heroísmo.

Senhor de estilo preciso, musical, rico de vocabulário e obediente aos cânones da linguagem vernácula, Goulart de Andrade foi excelente prosador nos vários gêneros de que se valeu, a crítica, a erudição, o romance. O romance, embora não tenha sido uma grande vitória literária, oferece interessante documentação, indispensável ao estudo do poeta.

O tema central de Assunção caberia naquela frase conhecida: “A vida é a mulher que se tem; a arte a mulher que se deseja.” O escritor Sílvio de Novais “reconhecia que a sua obra talvez arabescada de filigranas, obra de um artista pitoresco, cheia de caprichosos relevos e de feição aristocrática; mas falha de significação moral; doirada pelo sibaritismo, mas emanada de um sensualismo mórbido, em que a luxúria se mesclava com o sangue. Até ali, ele tinha sido o panegirista do Gozo e da Beleza”. Para fugir a essas tendências, o poeta anseia por um grande sofrimento. O dilema dannunziano lhe aparecia com a força de uma intimação: O rinnovarsi o morire! A dor o purificaria, ou lhe sublimaria os sentimentos, proporcionando-lhe a intensidade, ou a comoção, que até então não pudera, ou não soubera, encontrar na sua vida de homem feliz. Onde obter o sofrimento? As forças malignas da existência costumam ser caprichosas e não atendem facilmente às encomendas de uma freguesia ocasional. Havia, entretanto, um recurso mais próximo, ou mais fácil: a paixão amorosa. Confessemos aqui, à puridade, que pode haver desgraças mais terríveis. Na escolha das aflições, quem ainda se manifesta não é o estóico, mas o sibarita, que entre as torturas e as calamidades prefere as que sejam imaginárias, dentro daquela filosofia que Machado de Assis já ensinava: antes cair das nuvens que de um terceiro andar.

O escritor Sílvio de Novais, entretanto, é casado, e com uma criatura boníssima, Clara, que o adora e que não tem, talvez, ambição maior que a de um humilde sacrifício. Alguns anos de vida conjugal haviam acabado com as inspirações ardentes. É doutrina estabelecida pelos artistas que a Arte precisa, para viver, ou triunfar, do estímulo de paixões tormentosas. Não sei se a tese é verdadeira, pois que a vemos pelo menos praticada por pessoas livres de intenções estéticas. Todavia, para os artistas que aceitam essa doutrina, torna-se a esposa uma espécie de intrusa que evita ou embaraça o advento da nova inspiradora. O escritor Sílvio de Novais nos dirá: “Se renunciasse a Marta, abdicaria certamente da glória, porque ela lhe trazia uma aura prodigiosa de energias; ao seu influxo é que ele penetrava no fundo misterioso das coisas. Se se refugiasse na família, perder-se-ia para a arte.”

O poeta prefere, naturalmente, a glória, ainda mais uma glória assim, de curvas amáveis e de beijos embriagadores. Terá a decisão as suas dificuldades, pois que não há meio de deixar de sentir a generosidade da esposa sacrificada, que adoece para morrer. A amante, de seu lado, não é apenas a glória, mas uma coisa mais complexa e mais perigosa: é uma nietzschiana. Mulher culta, inteligentíssima, intrépida, máscula na segurança e na força de seus sentimentos, domina e empolga o seu poeta. Não lhe interessam as convenções sociais; despreza o julgamento público ou até mesmo deseja enfrentá-lo e combatê-lo. De acordo com o voto de Nietzsche, estava a sua alma liberta de toda obediência, de toda genuflexão e de todo servilismo. E queria arrastar o poeta nesse turbilhão, usando os argumentos fulgurantes de todas as tentações, desde os tempos bíblicos.

Há uma circunstância que envolve, enleia e desespera o escritor Sílvio de Novais: é a agonia daquela esposa triste, que não se lamenta. Quando a morte chega, também de manso, quase sem estertores, não deixa de trazer uma compensação tardia para aquela mulher jovem e terna, que soubera amar com perfeição. Por mais que o procure a amante, está livre da fascinação o escritor Sílvio de Novais, pois que já o detém a lembrança daquela que partiu ou o remorso de uma crueldade involuntária.

Timidez? Fraqueza? Assim o diria Marta; assim também falaria Zaratustra. Mas no fundo da alma humana há sentimentos de bondade, de ternura, que as doutrinas não varrem com a rigidez de seus raciocínios implacáveis.

Esse é o tema de Assunção, o romance de Goulart de Andrade. Nem sempre apreciaremos o desenvolvimento da ação. Há um pouco de banalidade nas cenas vividas numa cidade do interior de Minas; há episódios que nos chocam, pela maneira como se apresentam. Mas a essência do romance tem o merecimento de nos fazer pensar e vale ainda como o testemunho de uma das fases mais importantes na história da inteligência de Goulart de Andrade. A tentação tanto se poderia denominar Marta, como Frederico Nietzsche, nem por outro motivo me detive na exposição do tema. Na Itália, o incêndio dannunziano elevava para o céu as suas enormes labaredas e o turbilhão das fagulhas fulgurantes. A impressão que essas tendências deixam no escritor brasileiro mostra-se superficial e transitória. Razão tinha Croce, quando dizia que o Nietzschianismo era menos filosofia do que temperamento ou mais sentimento do que sistema. Goulart de Andrade retorna sem demora ao fundo de sua personalidade. Preso, pela piedade e pela ternura, ao mundo em que vive, não consegue alcançar as paragens infernais das paixões funestas e do personalismo sem freio. É humana demais, para as façanhas temerárias do Nietzschianismo.

A Cadeira 6

Muito haveria que falar no erudito e no crítico. Muito haveria que dizer do patriota ou do orador. Vários de seus estudos, o ensaio sobre a balada, a conferência a respeito da influência de Camões na obra de Milton, os artigos na Revista da Academia, ou na Ilustração Brasileira, mereceriam mais detida referência. Esse erudito tem o esmero de um analista. A disciplina das matemáticas não lhe permite as aventuras da improvisação. Os discursos reunidos sob o título Pela Grei revelam-nos o sentimento vibrante do patriota. A sua pregação é enérgica, desinteressada e entusiástica. Nos pátios dos quartéis, no tombadilho dos navios, nas associações de classe, nos estádios esportivos, a palavra de Goulart de Andrade sempre vibrou eloqüente, idealista e colorida.

De todos os seus livros em prosa, entretanto, o que se nos afigura mais profundo e mais meditado é o que fala das personalidades que honraram, nesta Academia, a Cadeira 6, aquela que ele próprio dignificou, mercê de seus livros e de sua vida de enamorado das Letras.

Nenhum prêmio o encantara tanto como a eleição para esta Companhia, que fora sempre o seu refulgente sonho de escritor. Vencendo, em pleito difícil, um adversário como o príncipe D. Luís de Orleans, Goulart de Andrade quis patentear à Academia a gratidão e o desvanecimento de quem sabia estimar o valor de vossos prêmios. Não achou idéia melhor que a de conferências sucessivas a respeito dos que haviam passado pela mesma Cadeira que lhe destes.

Que esplêndidas biografias foram assim reunidas, com o lavor de um artista incansável! O desfile é, por certo, notável, desde Casimiro de Abreu, o patrono da Cadeira 6, o poeta por excelência da ternura brasileira. Não foi em vão que ele intitulou de Primavera ao seu livro de versos. As suas poesias não sugerem corolas esplendentes, nem ramos fartos; deixam antes a impressão discreta de brotos e de botões, que acordam ao chamado dos raios de sol.

Teixeira de Melo, também poeta, não encontraria, na sua lira, os acordes meigos e ingênuos que enfeitam a poesia de Casimiro de Abreu. Mas Sílvio Romero o exaltaria, e era tão grande o prestígio do crítico! Atravessando uma longa fase de vida, Teixeira de Melo se afirmaria também por meio de notáveis trabalhos de erudição.

Veio então Jaceguai, o segundo ocupante da Cadeira 6. Guerreiro e escritor, homem de ação e de inteligência, chega a parecer um monumento, na altura em que paira, ou no relevo de sua individualidade fascinante. Não é ele quem no combate de Humaitá, dirigindo o couraçado Barroso, primeiro chega às correntes submersas que impediam a passagem do rio? As ordens do comando supremo, para que esperasse os companheiros da empresa, não o conseguem deter, como também não o fazem estacar as balas paraguaias, que em cheio alcançam a muralha do couraçado. Com o braço apoiado à portinhola de vante, Artur Silveira da Mota chefia a manobra, junto ao prático, navegando à luz das fogueiras imensas que, na margem do Chaco, alumiavam a façanha prodigiosa.

Os feitos guerreiros de Jaceguai não são inferiores às páginas que ele compôs. Sente-se no seu estilo a bravura, a decisão, a lealdade do marinheiro. E as frases têm um ritmo largo e simples de ação, e espelham o mesmo patriotismo daqueles destemidos vencedores de Humaitá.

Últimos anos

O último livro de Goulart de Andrade é Ocaso, a terceira série de suas poesias editadas em 1934. Alguns anos antes já se havia interrompido o ritmo de sua criação. Os livros estampados nesse período final reuniam trabalhos antigos.

Tive a explicação desse silêncio quando visitei Goulart de Andrade. Eu o conhecera de perto na Câmara dos Deputados, que ele freqüentava como redator de debates e eu como jornalista profissional. Procurava-o muito, gostando de sua palestra animada, ou das irreverências que externava sem amargura, exuberante e alegre.

Perdi-o depois de vista. Fui encontrá-lo em casa, irreconhecível. Envelhecera vinte anos. Pálido, consumido, não era mais o Goulart de Andrade, mas um velhinho cansado, dentro da meticulosa disciplina de um horário de remédios e de uma dieta inflexível. Custei a dissimular a minha surpresa, ou o meu espanto, diante de tão rápida e completa decadência.

Aquele artista, amigo da vida mundana, orgulhoso de vitórias sociais, e que tanto se desvanecia com a admiração que os seus versos arrancavam aos corações femininos, estava ali, metido num pijama comum, precocemente decrépito, inesperadamente aniquilado. Onde mais o entusiasmo de suas palavras? A arrogância dos gestos naturais? A riqueza de modulações da voz bem timbrada, que tantos triunfos lhe conquistara na arte de dizer versos, ou na leitura de sua prosa cadenciada e sonora? Onde o fulgor do olhar, ou a vivacidade da inteligência inquieta?

Compreendi, todavia, que a vida não deixara de protegê-lo. Afastando-o do torvelinho, a que ele se habituara, deu-lhe, em compensação, a assistência das afeições dedicadas. Junto dele, havia sempre uma inexcedível amizade, que o protegia, que o confortava, que o disputava à moléstia e à consumição. Perdoai que a nomeie: era D. Fernandina Goulart de Andrade. Desvelada, maternal, foi uma animadora serena, talvez heróica, na firmeza dessa batalha dolorosa. E Goulart de Andrade conhecia as abnegações que o cercavam. Sempre que falava na esposa, ou nas filhas, as lágrimas vinham contar, nos olhos já sem brilho, os segredos mansos de uma gratidão que as palavras não podiam descrever.

Mesmo assim, batidos pela doença implacável, esses últimos anos da vida do poeta não foram tristes, nem amargurados. À floração da juventude, às rosas, às popoulas e aos cravos de que ele falara, como símbolos do desejo e das paixões impetuosas, sucederam as violetas discretas do enternecimento. A bondade, que era congênita, tradição de famílias brasileiras, apurava-se, sublimava-se na decadência, aproximando-o mais das amizades fiéis, conduzindo-o à religião, que lhe ensinava a confiar no destino providencial e misericordioso.

Já vos falei nas amizades que o apoiaram e o confortaram. Mas há um nome que também não devo calar. É o símbolo da amizade perfeita. É Martins Fontes.

Ele e Goulart de Andrade haviam sido companheiros no grupo de Bilac, sócios do cenáculo da Confeitaria Colombo, e a afeição que os aproximou não foi inquietada pelo tempo. Voltando à sua cidade natal, Martins Fontes não esquecia os amigos que aqui continuavam. Uma vez por outra, nas viagens à Guanabara, o poeta de Santos ia de casa em casa, na sua romagem afetiva, que Bilac anunciava numa linguagem pitoresca:

– Martins Fontes invadirá o Rio a tal hora...

Era mesmo uma invasão, que vinha com a força de um cataclismo, turbilhonante, irresistível. Um cataclismo benévolo, está visto, e se possível o conceito. Ainda há pouco, um de seus mais brilhantes panegiristas, o Sr. Heitor Lima, recordava esse episódio expressivo: Martins Fontes passeia com os amigos pelos caminhos do Silvestre. Estaca, de súbito, dirigindo-se para o portão de uma casa cercada de jardins. Agita furiosamente a campainha e, como demorem a atendê-lo, vai entrando sem hesitação. Caminha para um criado que se aproxima e lhe pede um regador d’água. Atendido, começa ele próprio a regar as roseiras ressequidas, abandonadas nos canteiros. Concluída a tarefa, despede-se das roseiras, uma a uma, beijando-as reverentemente, diante do empregado atônito, por certo amedrontado.

De outra feita, ajoelha-se Martins Fontes na Praia do Flamengo, para dizer orações à lua. Recita a prece de Salambô, com a solenidade de um sacerdote cartaginês. E assim era ele sempre, imprevisto, pitoresco, impetuoso. Até nos versos se revela o tumulto interior e a variedade de suas emoções, que ora lhe inspiram poemas suaves, de um lirismo inebriante, como nas Palavra Românticas, ora lhe arrancam frases desordenadas, vocábulos caprichosos, extravagâncias de uma imaginação que ele mesmo denominava “febricitante, tumultuária, ardentíssima”.

E que maravilhoso causeur! Não somente a palavra lhe acudia fluente, precisa, variada, como o gesto e a expressão fisionômica sabiam acompanhar as suas narrativas movimentadas.

Nos últimos tempos da vida de Goulart de Andrade, Martins Fontes não faltava à comemoração da data natalícia do amigo. A 6 de abril era certo vê-lo descer à porta daquela casa acolhedora, vindo especialmente de Santos para a festa do abraço fraternal.

Encontrei-o uma vez nessa visita de aniversário. Durante algumas horas, não fizemos senão ouvir tudo o que Martins Fontes quis dizer. Recitou versos, recordou episódios antigos, repetiu anedotas. Era uma torrente de palavras, de imagens, de idéias. Ainda recordo a história que ele narrava de uma guerra verbal entre um cocheiro de Paris e não sei mais que escritor brasileiro. Na iminência da derrota, o escritor tinha uma inspiração e lembrando-se das figuras de ornato:

– Silepse, anástrofe, hipérbaton, anacoluto...

A voz de Martins Fontes ia rolando as sílabas majestosas, num tom agressivo de quem insulta, e a fisionomia retratava uma cólera súbita e veemente.

Goulart de Andrade, apoiados os cotovelos nos braços de sua cadeira de descanso, ria, deslumbrado. Parecia estar ouvindo o arcanjo, que lhe vinha recordar as delícias do Paraíso, de um Paraíso que a magia daquela palavra generosa conseguia fazer ressurgir aos olhos quase apagados daquele moribundo. Quanto aos outros, o que nos impressionava era o contraste daquelas duas criaturas quase da mesma idade, uma arruinada pelas moléstias, a outra esplendente de saúde, de alegria, de vitalidade.

Não se podia supor que a morte também os quisesse irmanar, levando-os quase ao mesmo tempo. Entretanto, se eles caminham juntos, no mistério que os envolveu, como não terá sido grande a consolação para os dois viajantes! E quem sabe, senhores acadêmicos, quem sabe se não foi dado às grandes afeições o privilégio de enfrentar e de vencer a própria eternidade?