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Discurso de posse

DISCURSO DO SR. AUGUSTO DE LIMA

Senhores:

Eu vos devia há muIto esta visita que, sendo uma prova de gratidão à vossa gentileza para comigo e de apreço à distinção do vosso chamado, é ainda a condição, segundo a pragmática, para a efetividade da minha honrosa investidura.

Acompanhando-vos, de longe, em atitude de simpático respeito, desde que pela primeira vez vos reunistes, eu tinha o desejo, que temia ao mesmo tempo ver realizado, de vir colaborar convosco no cumprimento de um programa, que é tão sedutor pela glória do seu objeto, quanto árduo pela competência que ele exige nos seus executores.

Fundada a Academia, não houve quem duvidasse ser ela destinada a guardar o precioso tesouro da nossa língua e do bom gosto da sua forma literária.

Também não se duvida ter a nossa língua capacidade para abranger o pensamento humano em todas as suas energias e gradações e a civilização em todas as suas faces. O elastério e a plasticidade da sua forma, capaz de adaptar-se a qualquer assunto; a riqueza e a variedade do seu vocabulário, para representar todos os objetos e idéias; a sonoridade da sua fonia, eco musical dos diversos aspectos da natureza; o seu valor, ao mesmo tempo simbólico e material, das coisas que exprime; a rigidez lapidária, que por vezes manifesta, como reminiscência perpétua da língua latina, são qualidades que lhe devem assegurar um lugar permanente na cultura universal.

Com ela se erigiu o poema dos Lusíadas, e material de que se faz tal obra de arte está à prova de séculos e de fronteiras.

Não será difícil continuar o que já vem de tão longe, principalmente quando a esse tesouro original montam guarda legionários cada vez mais numerosos dos que falam o idioma de Camões. E que melhores chefes de tais legiões, do que aqueles que provam, dando-lhe os reflexos da civilização moderna numa pátria nova, que esse idioma, superior ao tempo, não se amesquinha nem degenera nas extensões que o gênio lusitano devassou sob o Cruzeiro do Sul?

É na verdade uma obra “imortal” a vossa, ainda sem a preocupação, que a malícia lhe entreveja, da imortalidade dos seus autores; porque ela é a eternização da pátria na coeficiência da sua mais alta cultura na cristalização perene da sua alma.
A língua, sem ser uma convenção, precisa disciplinar-se a um consensus, e esse consensus reclama um órgão. Nascestes da consciência de uma necessidade: a de constituir-se esse órgão tão essencial como os das outras funções da vida e da sociedade. As letras não fazem exceção à regra geral das coisas, mas obedecem ao seu determinismo. A lei da representação natural domina também a literatura, como os outros fenômenos sociais.

Sem agremiação efetiva, já formáveis, senhores, um grupo de representantes, mas sem os laços da solidariedade, que só podem nascer da aproximação íntima e do reconhecimento recíproco.
A vossa constituição, por um pacto escrito, fez essa solidariedade e criou as graves obrigações que são o vosso código. O mandato que assumistes no regímen representativo da língua e das letras nacionais, não podia ser temporário ou periódico, porque o ciclo destas coisas não se interrompe, é contínuo, e não tolera a mutação de programas que refletem coisas também mutáveis.

Não quero com isto significar uma rigidez intransigente da tradição, uma inflexibilidade, que tornaria as obras de arte preciosidades mortas, e a língua um elemento arcaico no turbilhão vivo do pensamento moderno, que, por necessidade de dizer coisas novas, teria de recorrer às fontes peregrinas dos outros idiomas. Perpetuidade aqui significa durar transformando-se, mas transformando-se sem perder o caráter original, a feição de individualidade.
É preciso acompanhar essas transformações, dar-lhes o cunho da lógica, legitimá-las sob as leis da evolução e vigiar em que não percam, por hiato, absorção ou dispersão, a fisionomia hereditária e atávica.

A arte se reserva uma grande parte nesta obra, mas com a condição de ser exercitada como uma função à parte. Nem por ser lapidado, deixa o diamante de ser natural, ele que não passa de uma expressão química superior do carbono, em que a Arte-Natureza transformou outros seres da matéria primitiva.

No desenvolvimento das línguas há correntes que é preciso ora conter, ora encaminhar. A moda caprichosa ou a convenção de espíritos inovadores fazem freqüentes incursões na trama do idioma ou no seu vocabulário.

O sucesso ocasional opera às vezes uma difusão inconveniente desses esnobismos, barbarismos e plebeísmos, que a dignidade e nobreza devem repelir. Só pode bem exercer essa fiscalização uma guarda que não se rende. A substituição só é possível por partes, com a irremediável intervenção da morte, que facilitará a incorporação de novos elementos transformadores.
Há, entretanto, um acadêmico, na vossa companhia, que nunca poderá ser substituído, e cuja opinião deve ser sempre ouvida: é o Tempo.
Le temps n’épargne pas ce que l’on fait sans lui.

Quanto ao mais, esta Companhia tem a principal condição para não morrer, que é a de ser formada de contrastes, que acharam um ponto comum de apoio. Tais contrastes estão mais permanentemente nela garantidos, do que se à porfia, dentro ou fora dela, se fizessem valer para a exclusão de uns pelos outros. Visando todos à mesma altura para a ascensão comum, todos aí se encontram.

“A paz só habita as alturas, disse Renan na Academia Francesa. É subindo, subindo sempre, que a luta se transforma em harmonia e que a aparente incoerência dos esforços do homem vai ter a essa grande luz, a glória, que é ainda, e a despeito do que se possa dizer, o que tem mais probabilidade de não ser de todo uma vaidade.”

O desejo de empreender essa ascensão impeliu-me para vós. Designando-me este lugar, condescendestes, talvez levados de uma ironia complacente, em pôr à prova a temeridade da minha pretensão, mais impulsiva que refletida.

Nesta Companhia, onde não faltam contrastes, nenhum tão flagrante ainda se viu como este, que mais parece um capricho do destino, de vir ocupar a vaga aberta pelo riso e pela alegria o mais triste, além do mais humilde, representante da vossa poesia.

Para significar a vacância perpétua de uma cadeira, lança-se-lhe um véu de crepe. Pois, senhores, foi o que se me afigurou terdes feito com a cadeira de Urbano Duarte, colocando-lhe delicadamente o desconstelado manto da minha musa sombria.
Sinto-me, deveras, diante das sombras joviais de França Júnior e Urbano Duarte, como um epitáfio choroso de duas memórias alegres, sem substituição possível: estranho paradoxo em que a alegria ficou com os mortos e só com o vivo a tristeza.

Pareceu-vos talvez dar assim consagração melhor aos titulares mortos, encerrando com a sua glória o ciclo literário em que viveram. E este vosso elogio, conquanto mudo, seria muito mais autorizado que todo o panegírico que eu lhes tecesse. Não fora isso, e ser-me-ia lícito supor que cedestes à corrente melancólica do temperamento nacional, raríssimas vezes aberto às expansões da alegria e do bom rir; mas neste caso a minha eleição é a derrota das meus eleitores e a bancarrota do riso nas letras, E, contudo, confesso-vos a minha inveja a esses espíritos privilegiados, que têm o dom de lançar na noite da minha alma as nascentes da aurora jovial; admiro-os pela superioridade com que, deixando as formas comuns da emoção estética, estimulam o riso, a graça, a alegria e a saúde.

Todos podem chorar, e nada é tão vulgar como a lágrima, que é o derivativo da dor, partilha dos seres animados; mas só podem rir os indivíduos que progridem para um grau superior da sua espécie, e cujo espírito, como a corrente X, penetrando os tecidos moles, desvenda nos outros a sarcástica estrutura óssea do rosto.

As lágrimas correm todas ao estuário da morte, extremo conforto, mas também horror dos fracos. O riso não! Superpondo-se à derrocada do organismo, zomba serenamente da morte, encarando-a como um simples acidente, ou riso místico nos lábios dos mártires cristãos, ou riso estóico na face pálida dos que acreditam na supervivência da virtude, ou riso filosófico, apenas denunciado no olhar dos que consideram a vida como um elo ou transição na cadeia das transformações terrestres. É que ele anestesia todos os sofrimentos.

O riso partilhou, nos séculos do maior despotismo, o cetro da realeza, quando os bobos da corte esmagavam a fidalguia insolente, tendo o supremo privilégio, vedado à própria coroa, das indiscrições que devassam, e dos sarcasmos, que fulminam.
Que vale toda a grandeza de Luís XIV na sua esplendorosa Versailles, em face da risada de Molière, cujo reinado ainda continua em plena república do espírito humano, e cujo brilho sempre vivo mantém a corte da admiração universal?
Nascido nas mesmas fontes psicológicas da dor, o riso lhe é superior, porque, através das contrações musculares, que lhes são comuns, não geme, não suplica, não se humilha: julga, sentencia condena e... quase sempre perdoa.

É nesta última função, principalmente, que ele se eleva até à ironia, supremo grau dessa sensibilidade esquisita, que só reside nesse que chamamos – um homem de espírito. Terrível soberania é esta, que não raro recebe a unção em cabeças conformadas para a coroa de espinhos, mas que ela, a ironia, converte, ainda bem! nos da sátira e do epigrama.
Retorsão dos fracos contra os fortes, ela responde à insolência dos poderosos de hoje com a interrogação do amanhã, que para estes é quase sempre uma ameaça e para aqueles é talvez uma esperança.

É a vitória dos vencidos da vida contra os desprezos da vilania de bastão, que as forças momentâneas do sucesso fortuito guindam às eminências.
Nada iguala ao sorriso triunfante de Cirano, quando olha ironicamente para a morte, tendo a fronte ungida do beijo supremo de Roxana, que é também o supremo penacho de todos os Ciranos que agonizam, depois dos sucessos que eles emprestam aos pobres de espírito, formosos de nariz pequeno.

Creio que o riso é a baliza inferior e a ironia a superior natureza humana. Não riem as bestas, nem chegam a sorrir os deuses. A formação embrionária do riso é uma contração espasmódica, uma convulsão de caráter benigno: a evolução superior do sorriso será a serenidade divina.
Eu me explico: o homem não foi o inventor do riso, como o não tem sido de coisa nenhuma. O riso é originariamente uma reação, que tem como órgão o diafragma, como se diz que o fígado é a sede da cólera e o coração das emoções afetivas. Como toda a reação, responde aos estimulantes que lhe são específicos. É uma defesa que não contrapõe golpe a golpe, mas que se manifesta em contrações no semblante, dando-lhe uma expressão singular, que não se confunde com os outros fenômenos biológicos.

Se o cérebro, de que é vizinho o rosto, vibra na plenitude das suas células, essa expressão reflete a inteligência. Se é apoucada, o fenômeno fisiológico não chega a espiritualizar-se. Não há, propriamente, riso nos idiotas, senão uma expressão burlesca que o degrada à semelhança com os símios.
Tem ainda o riso de particular que é a única das reações que se manifesta com o adormecimento dos músculos que nele não intervêm.
A gargalhada inutiliza um combatente, enquanto a cólera, o amor ou a ambição o avigoram de energias convergentes.

O riso mata a força, e é, portanto, um instrumento de progresso. São, sim, dignos de inveja esses que têm o dom de armar um tribunal instantâneo, na fulguração rápida de um olhar, convertendo o paciente em acusador, réu e juiz de si mesmo perante a galeria dos contemporâneos em gargalhadas. Todos nós o tememos e ninguém há que não se preocupe do receio de parecer ridículo. O acanhamento natural de uns, o desembaraço artificial de outros, as diversas atitudes que a situação em público impõe, é tudo isso influência desse poderoso agente. Quantas precauções, quantos artifícios empregados para que sejamos tomados a sério! E não é raro, perante o próprio foro íntimo, sentirmos exprobrações de alguma necedade ou tolice irremediável que, a nosso juízo, tenhamos cometido.
Eis o que dizia o próprio Urbano Duarte no seu ceticismo jovial:

“Toda a questão está em salvarem as aparências. A moral social consiste em parecer sem o ser, e este artigo de fé da vaidade humana é observado ainda mesmo pelos que se julgam mais sinceros e menos despretensiosos. Um homem não existe neste pedaço de mundo velho que deixe de ter a sua fatuidadezinha; poderá ser razoável e criterioso em cinqüenta assuntos, terá juízo e sensatez como vinte, mas há de por força fazer alguma coisa cm que ele seja bobo.”

Esse lado fraco, era o que eu dizia, cada um procura subtrair ao holofote da sátira.
E, contudo, raros são os que conhecem o segredo desse poder formidável e mais raras ainda são as obras de arte, em que se pode ver cristalizado o riso, porque entre a vaia da praça pública ante uma deformidade e qualquer dos epigramas de Aretino, o garoto-gênio, já há uma distância infinita.

A nossa literatura, gaulesa a outros respeitos, é de uma escassez mesquinha em produções alegres.
Citar os únicos escritores desse gênero, poetas e prosadores, que temos tido desde os tempos coloniais, e pôr em relevo a nossa pobreza, não digo de espírito, pata evitar equívoco, mas de alegria.

Urbano Duarte pertencia a esse pequeno grupo, que aliás completava em valor o que lhe faltava em número, grupo de que ainda fazem parte dois ou três dentre vós. Bem me pesa, senhores, não poder apresentar-vos redivivo, no desenho da sua individualidade integral, o meu incomparável predecessor, obrigado, como sou, a tracejar linhas ligeiras apanhadas à flor da sua obra literária e de vaga reminiscência pessoal.

Para o seu perfil exato falta-me a perspectiva da sua figura física, apenas vista por mim, há anos, em ligeiro encontro na Rua do Ouvidor. Não possuo na memória o timbre da sua voz, a ex¬pressão do seu olhar, o calor da sua mão, e se a sombra dele pudesse surgir, não sei se me reconheceria sem nova apresentação.

Que adiantaria ao elogio, sequer à biografia do escritor, transcrever a fé-de-oficio do militar? Dizer: Que tinha tantos anos e era natural da Bahia? Que assentou praça a 21 de março de 1874, matriculando-se na Escola Militar, onde fez o curso de artilharia? Que a 31 de janeiro de 1877, tendo completado o curso, com aprovações plenas, obteve o prÊmio de alferes-aluno? Que foi promovido a 2º tenente de artilharia a 20 de abril de 1879, 1º tenente a 25 de julho de 1880, capitão a 8 de novembro de 1884, e major a 10 de novembro de 1893? Este desfilar de datas, aliás incruentas, soa-nos aos ouvidos como um tropel ritmado, a dois tempos, pelo clangor vitorioso de clarim longínquo, a proclamar o mérito militar, o que não impede de ficar inédito o escritor, que é a quem procuro.

Há, contudo, aproximações aproveitáveis entre nós dois. Nascemos fronteiros um do outro. Num país grande como o Brasil dois Estados limítrofes fazem vizinhança quase íntima. Os nossos berços são vizinhos de cerca de 300 léguas, o que não é distância para uma estrada larga como é o São Francisco. Esse rio é comum às nossas regiões, sendo que para ele corre o meu natal rio das Velhas. Ele era patrício de Gregório de Matos, eu o sou de Cláudio Manuel e do padre Correia de Almeida.

Demais, a natureza é a mesma, o mesmo clima, os mesmos costumes e, nos sertões comuns, as mesmas tradições. Lençóis, cujos campanários vibraram em 1855, ao nascimento de Urbano Duarte, dorme embalada pelas lendas magnificentes da serra de Sincorá, em cujas entranhas a imaginação popular sonha diamantes incrustados em rochas de ouro.
Embalados pelas lendas do ouro e do diamante, sonham os povoados mais velhos da minha terra natal, que privada de levar a sua alma até o mar, se compensa levantando os seus serros até as nuvens.

A cantilena monótona dos bateeiros deve ter deixado no fundo da alma de Urbano Duarte uma nota melancólica, a contrastar com a boêmia humorística do folhetinista. Não mudasse de meio, permanecesse no centro das montanhas natais de aveludado aspecto sombrio, e o escritor dramático que ele tentou ser, talvez suplantasse o autor de Sem Rumo e dos Humorismos.
Urbano deixou as montanhas, aproximou-se do mar e, ainda em tenra idade, na capital da sua província, como então se dizia, passou a adolescência.

Bahia é a cidade dos folguedos e da faceirice brejeira; mas Urbano só em distância podia ouvir o rumor dessas expansões, no regímen interno do Colégio Abílio; e, apesar da garrulice escolar, o grupo que lhe ficou mais em foco no espírito não era o mais de molde a inspirar-lhe tendências literárias alegres. Estavam ali em gestação as mentalidades austeras de Rui Barbosa, Dantas, Sousa Pitanga e outros futuros parlamentares, jurisconsultos, estadistas e publicistas. Nenhum comediógrafo, nem poeta satírico, nem folhetinista. Impregnado desse meio, partiu para esta cidade, aqui chegando a 21 de março de 1874, onde não sei porquê, assentou praça e entrou para a Escola Militar. Até então não se manifestara ainda o humorista, e debalde o procuraríamos antes de 1878, em que, pela primeira vez, apareceu na Fênix Literária, de que era redator principal Rodolfo Paixão, outro militar escritor.

A sua estréia, porém, não foi assinalada por trabalho faceto ou humorístico. Ao contrário, preocupava-o assunto cuja seriedade é atestada por esta epígrafe: “A propósito da chamada poesia cientifica”.
Era, como se vê, um estudo sabendo a crítica literária onde, por sinal, havia este conceito, de uma gravidade metafísica, mas de um sentido obscuro e de solidez muito problemática:

“O Belo é o Belo, é uma forma empírica nascida da Imaginação e do Sentimento, duas entidades eternas e profundamente inerentes à natureza humana. Sua teoria está envolvida misteriosamente nos refolhos da alma.”

O estilo e as maiúsculas eram do tempo, e ainda não perderam de todo o uso.
Escreveu depois Urbano Duarte dois dramas que eu tenho o pesar de não conhecer. Mas não foi como crítico ou dramaturgo que ele entrou para esta Casa.

A camaradagem militar, sempre expansiva e folgazã, e o ruído desta Capital, cujo meio o empolgou, haviam apagado da parte superficial da sua memória a paisagem nostálgica da serra de Sincorá e a cantilena monótona dos bateeiros. Folhetins, contos, fantasias burlescas, eis o gênero em que não descansou mais o seu espírito, que encontrou no público a mais decidida simpatia. O seu talento, quase repentista, derramava-se pelos jornais em crônicas, em que a graça não era excedida pela finura e originalidade da concepção.

Não houve aspecto cômico do viver e dos costumes nacionais que ele não retratasse com irresistível chiste.
França Júnior foi, como é sabido, quem lhe decidiu a vocação, e de tal modo influiu sobre o seu temperamento que, salvo as linhas particulares que desenham a fisionomia literária de cada um, a semelhança de ambos acusa próximo parentesco não só na escolha dos assuntos, como na maneira de os tratar. O autor do Tipo de Brasileiro não se contentara do folhetim: permaneceu no teatro, para onde se encaminhara desde estudante, quando escreveu Meia Hora de Cinismo; e a partir de São Paulo e a acabar aqui no Rio de Janeiro, a graça das suas comédias trouxe em hilaridade o país inteiro, durante todo o tempo que viveu o peregrino autor do Como se Fazia um Deputado.

O seu sucesso excitou a imitação, mas poucos discípulos se aproximaram do Mestre, cuja técnica podia partilhar com outros do mesmo gênero, guardando, porém, para si aquele poder que fez o código do chiste na sociedade carioca e incorporou ao vocabulário da língua palavras com que ele designou coisas até então inominadas, por parecerem indiferentes ao comércio da linguagem.

À influência de França Júnior deve Urbano a corrente decisiva que levou o seu espírito do teatro dramático para o folhetim, passagem para a qual não lhe faltavam pretextos, senão motivos. Neste país, dizia com amarga ironia a Artur Azevedo, não vale a pena escrever, senão para fazer rir a certos leitores.
Leio também numa antologia que o Conservatório Dramático havia proibido a representação do drama Escravocrata, escrito de colaboração com Artur Azevedo.
Creio que o Conservatório fez bem se preveniu desordens, e que Urbano fez mal em não escrever novos dramas.

Mas ele era estouvado e não quis examinar se o zelo do Conservatório nascia do sucesso provável do drama, com escândalo da situação legal da escravidão, ou se repercutia alguma censura de competição de outro oficial do mesmo oficio. O certo é que, com este e com outro drama, o Anjo da vingança, Urbano abandonou o teatro, convolando da musa de coturno para outra mais faceira que não espantasse a polícia. Mas, com esta outra musa bem poderia ter ficado no teatro, porque os assuntos de que Urbano escrevia, prestam-se maravilhosamente à comédia.

O triunvirato de França Júnior, Urbano Duarte e Artur Azevedo foi durante muito tempo o bloco da graça e do espírito alegre. Homens, acontecimentos e coisas não levaram o seu curso sem ali encachoeirar-se em gargalhadas. Deles só resta o último vivo, são e em plena mocidade do espírito, e a quem, com mais competência do que eu, devia incumbir o elogio dos dois primeiros. Ele dirá se me engano proclamando o mérito moral e literário de Urbano Duarte: o mérito moral na criação das virtudes do seu lar, no cumprimento dos seus deveres e na herança de amizades que deixou; o mérito literário no encanto natural do seu estilo, na vivacidade cintilante das suas criações. Como não teve ocasião de se distinguir por bravuras de artilharia e de efusão de sangue; que toda a sua artilharia só bombardeou a tristeza e o mau humor. Antimilitarista, o seu ideal de paz transparece de uma das suas melhores páginas – “Um homem contra um exército”, onde se fantasia do alto de um morro, fortificado e inexpugnável, bombardeando o Rio de Janeiro, exterminando o seu exército e, como epílogo, fazendo saltar os próprios miolos. O avesso deste quadro retrata o moral de Urbano Duarte, que não teve um só inimigo.

Rir, dizia Nietzsche, é ser malicioso, mas com uma boa consciência. Urbano tinha a malícia bondosa dos que enxergam o lado cômico da vida sem a preocupação de doutrinar ou reformar.

Também a sua moral intransigente nunca lhe permitiu achar dignas de riso certas deformidades em que outras acham o melhor objeto de sátiras e epigramas. Em seus trabalhos são freqüentes as pinturas, antes caricaturas da vida familiar na sua ingenuidade grotesca, nos seus costumes burlescos, mas honestos. Sem sacrificar a verossimilhança, criou tipos dos nossos costumes. A perspicácia dos seus pequenos olhos vivos, em contraste com a bonomia dos seus traços fisionômicos, sabia discernir no turbilhão das coisas insípidas, indiferentes ou banais, as que tinham o sabor picante do ridículo, mas desse ridículo suscetível de ser gravado numa obra literária.

O ridículo depende das condições de espaço e de tempo: donde as dificuldades dessas criações artísticas capazes de produzir o riso universal e dos vindouros. A moda passa vertiginosamente, e o que hoje é engraçado pode ser amanhã desenxabido. Dizia Banville que em Paris bastam dez anos para se tornar incompreensível uma alusão humorística. No Rio de Janeiro, decorrido igual tempo, seria puro enigma uma revista de ano.

A mesma contingência quanto ao meio. Há aqui coisas ridículas, que seriam graves ou ao menos indiferentes numa aldeia do interior, e vice-versa: os arrieiros da minha terra expectoram grossas gargalhadas ao verem como se comporta o janota carioca sobre a sela de um cavalo trotão.
Creio, entretanto, que a maior parte das criações de Urbano Duarte tem duração garantida, porque são contemporâneas de todas as épocas e aclimam-se em toda a parte. Os fluminenses, pelo menos, não esquecerão jamais as duas galerias da antipatia e da simpatia de Urbano. Eis os tipos da primeira: homem de cabeleira saindo do chapéu em forma de S; o que reparte o cabelo atrás; o de chapelinho e casacão; os meninos de cabelos compridos imitando meninas; a mulher de bigode; o barbudo de óculos verdes; o janota de brilhante e cheirando a heliotrópio. Agora, a caravana dos favoritos: moça ciciosa que cheira a manjericão; homem de nariz grande; senhoras que têm andar de marreco, bambeando-se de um para outro lado; latagões de voz grossa e pulso firme, e... velhas gaiteiras... (Humorismos, pág. 129).

Através de toda essa galeria veremos sempre passar a sua figura simpática e bondosa, de passos majestosos e tardos, o que fez Artur Azevedo compará-lo a um pastor de elefantes.
De todos os tipos, porém, aí e alhures descritos por Urbano Duarte, nenhum guardará a eterna atualidade e universal ubiqüidade, como o do homem importuno; proteu cujas formas infinitas tem zombado de todas as sátiras, fênix que teria o privilégio de renascer das próprias cinzas, se para flagelo da humanidade ele não fosse incombustível e im1ortal. O homem importuno, maçante (nome popular antigo), amolador (França Júnior), cacete (Urbano Duarte), por uma necessidade social do presente, dada a nossa atividade febril a reclamar o melhor emprego do tempo, tendo perdido o direito de ser zurzido pela crítica jovial, que mais parece estimulá-lo, deve já agora entrar para o domínio do Código Penal e da Casa de Correção: – que menos dano fazem a vagabundagem, o porte de armas defesas e outras contravenções policiais.

É possível que tal indivíduo, na inconsciência do seu cinismo, não se reconheça no tipo do gênero que Urbano Duarte descreve, porque ele se disfarça sob as formas as mais inofensivas.
É ainda possível que, quanto ao mais, com a transformação quase mágica do Rio de Janeiro, Urbano tivesse de aumentar a sua coleção, transformando também os seus processos de escritor; mas isto já não era preciso à sua glória, como não seria à de Sarcey e de Aurelien Scholl, seus êmulos em Paris. Ela está consagrada nesta Casa pela vossa autoridade, mais persuasiva que dogmática e por isso mesmo acatada pelos espíritos livres e por todos os homens de boa-vontade.

A ela também me submeto, senhores, porque sou dócil de temperamento e disciplinado pelo hábito de obedecer à lei e de distribuir justiça.
Honrarei a memória do meu predecessor, não repetindo o brilho da sua presença mas procurando recordar a sua boa companhia.
Pouco me falta para terminar.
Perguntaram um dia a Carlin de que gênero de morte preferia morrer, e ele respondeu que lhe seria grato morrer de rir.

Sem que lhe aprouvesse, foi Molière ferido de mortal moléstia durante a representação do seu Malade Imaginaire.
Urbano Duarte, sem o desejo de Carlin e sem a surpresa de Molière, veio a apagar-se (ironia das coisas!) no meio dos esplendores e do estrondo das folias do carnaval.
O infausto registro, lançado com tinta macabra, tem a data de 10 de fevereiro de 1902.
Eu imagino, senhores (e que fisiologista mo poderá contestar?), que no estado próximo da agonia, com a obliteração dos registros mais recentes da memória pela destruição das células correspondentes, ficam a descoberto as impressões mais antigas, ainda não atingidas do mal. Estas, embora quase apagadas, formam como um dilúculo dos primeiros dias da existência, vislumbrando paisagens e coisas que nos foram familiares nos anos da infância. E a esse cenário se volta a memória, ouvindo recontar os mesmos contos de fadas e recantar as cantigas já de multo esquecidas.

Dir-se-ia que o moribundo, caminhando para o túmulo, tem a ilusão de regressar ao berço fazendo dos dois pontos invertidos, o de partida e o de chegada, a síntese do seu destino a termo.
– Ele delira, dizem os assistentes, interpretando o devaneio do enfermo, cujas frases, sem nexo para eles, são reconstruções fragmentárias, esboços de recapitulações rápidas, que a febre ainda mais precipita na iminência da partida.

D. Quixote, num plácido sorriso iluminado, recobra a razão.
– Enlouqueceu, murmura Sancho Pança.
O ateu ou ímpio abraça nervosamente o crucifixo, signo da sua crença de antanho, em cujo reflexo metálico divisa (quem sabe?) a imagem materna, movendo os lábios nas singelas preces do berço.

Seria assim também que Urbano Duarte, de todo alheado ao meio atual, e indiferente às fanfarras da mascarada irreverente e ao delírio das batalhas de flores, teria a sua alma inteiramente voltada, através de um crepúsculo cinzento, como deve ser o da memória que entardece, para as magoadas montanhas longínquas da sua terra e, agonizante, recebia nos beijos reais da esposa e dos filhos, já naquele momento viúva e órfãos, a extrema-unção do imaginário beijo materno, ouvindo, a sorrir, e também a expirar, a cantilena monótona dos bateeiros de Sincorá...

Ao carnaval sacrílego ficava um corpo sem vida... e esta fora a sua última ironia.