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Discurso de posse

Hesitei por longo tempo em requestar vossos sufrágios. Não me inspirava o sentimento de falsa modéstia, que é por vezes, na frase do príncipe de Ligne, a hipocrisia consigo mesmo. Assaltava-me a consciência o receio de preterir outros, que, pela vocação irresistível e fiel às Letras, aspirassem a essa consagração definitiva. A generosidade de vosso acolhimento superou todas essas reservas de ordem moral e hei de encontrar no vosso poderoso estímulo os meios de resgate da dívida solenemente contraída. Hão de escassear em mim elementos pessoais de êxito. Não me faltará jamais a ressonância de vossa glória, a servir de lábaro à minha fé.

A Academia é um dos cimos da intelectualidade pátria. Para ela afluem as aspirações mais nobres e o seu veredicto é a láurea suprema nos prélios do espírito.

Jamais fui vosso cortesão nem denegridor impenitente. Ao contrário, cultor respeitoso do vosso papel na graduação dos valores mentais do Brasil. Não tenho, pois, de me penitenciar.

A exemplo do que sempre ocorreu com a Academia Francesa, não faltam os que motejaram de vossos atributos e eficiência e mais tarde se abrigaram ao vosso seio. Não exerceis vingança com o vosso sufrágio a antigos adversários, porque na vindicta há sempre o travo do fel e da crueza. Serenamente vos apossais do díscolo e ides lhe transmitindo a flama de vossa tarefa. Represália espiritual e doce, a que acostumais os rebelados contra a Academia.

Pedro Lessa, o renovador da jurisprudência pátria, pontífice na cátedra e na judicatura, confessou no seu discurso de recepção, com a altaneira constante de suas atitudes, o seu malquerer anterior pela Academia e a sua colaboração nas notas dicazes, que procuravam desfigurá-la aos olhos da opinião.

Não é incomum ato de contrição como este. Até nas academias belgas, dessa Bélgica tão circunspeta e grave, o exemplo floresce. Ao ser recebido na Academia Real de Língua e Literatura Francesa, Garcia Calderon salientou o propósito dos jovens de railler les académies avant d’en être.

As academias em regra não revidam às apóstrofes com a proscrição de seus autores. Acolhem-nos em atmosfera benfazeja e pelo apaziguamento criam um ambiente propício à missão construtora.

Ao paraninfar Ribot, na Academia Francesa, o malogrado Deschanel recordou a frase do filósofo, no seu entender, cético, que, falando dos homens de Estado e dos oradores na Academia, dizia:

“É bom que haja um lugar tranquilo em que os homens que se distinguiram sob cores diversas ao serviço do País possam vir esquecer na comunhão do estudo suas fadigas e suas lutas”. Acrescentava o eloquente padrinho que se reproduzia o caso das sombras que, nos diálogos de Fénelon, conversam docemente nas arcadas do Eliseu.

Essa pintura não corresponde totalmente à realidade nem esse recolhimento deve induzir à omissão de deveres intelectuais, além do mero debate acadêmico.

É que instituições desta ordem, como os regimes, valem pelo que produzem. Não lhes basta, para o prestígio e irradiação, o arcabouço. As linhas estruturais podem ter a rigidez e harmonia indispensáveis. Mas, para a eficiência na vida coletiva, bem se façam grandes pelos frutos recolhidos.

Podeis encarar de fronte alta o julgamento da história. O acervo de vossos serviços à causa das Letras resiste a todas as invectivas e serve de anteparo às solércias da maledicência.

A coleção dos discursos de recepção pronunciados nesta Companhia não encontra outra que a exceda na exaltação das ideias, no vigor dos conceitos, na probidosa isenção do julgamento. Muitas dessas páginas poderiam figurar nas antologias mais rigorosas na seleção do pensamento humano.

A Biblioteca de Cultura Nacional, a coleção de Afrânio Peixoto, em homenagem a esse espírito cintilante de crítico e de cientista, atesta o vosso esforço em enriquecer o patrimônio intelectual do Brasil.

Na rota cotidiana, a tarefa construtora realça a cada passo. Além dos prêmios, que as vossas possibilidades proporcionam aos cultores das Letras, não há data inscrita nos anais do pensamento universal que não encontre nesta Casa alta reverência.

Mesmo fora do âmbito próprio da Academia, a sua ação se projeta pela atividade dos seus lidadores. São jorros da mesma fonte. Tal Cláudio de Sousa, nas magnificências de sua direção no PEN Clube, organizando tertúlias de saboroso encanto espiritual. Tal Múcio Leão, com Autores e Livros, no exercício de um trabalho meritório de respeito e culto pelo passado e encorajamento às novas gerações.

Não faltam a propósito do apreço aos “novos” remoques à vossa orientação, tanto mais injustos quanto se distanciam da verdade.

Nenhuma forma de inteligência pode inspirar reações obstinadas e empedernidas no sectarismo e na intransigência. Mormente no terreno em que a intelectualidade impera sobre os preconceitos e razões estranhas ao vero nível mental.

Desde a sua organização, a Academia jamais alimentou propósito de malquerença aos “novos”.

Uma das joias de vossa coleção é o discurso inaugural de Joaquim Nabuco, secretário-geral da nova Academia. Declarava ele:

Havia também que atender à representação igual dos antigos e dos modernos. Uma censura não nos hão de fazer: a de sermos um gabinete de antigualhas. A Academia está dividida entre os que vão e os que vêm chegando; os velhos, aliás, sem velhice, e os novos; os dois séculos estão bem acentuados e se algum predomina é o que entra: o Século XX tem mais representação entre nós do que o Século XIX.

A essa defesa, calcada na realidade, Graça Aranha, em plena mocidade física e mental, qualifica de dialética de advogado diabólico, para justificar as imperfeições da fundação, vendo-se diante de uma mocidade cristalizada em acadêmicos.

Onde a posterior aversão da Academia aos novos? A presença de Alceu de Amoroso Lima, Cassiano Ricardo e Manuel Bandeira, chefes incontestados da moderna corrente, não basta para dissipar o equívoco, alimentado pela malignidade?

Não faltarão, é certo, nos vossos julgamentos vacilações nos escrutínios. Nenhuma organização dos moldes da vossa escapa a esse reproche.

Na Academia Francesa, Victor Hugo foi batido por Mignet. Era a conjura dos clássicos contra o romantismo triunfante. A malevolência atribuía ao triunfador a qualidade de amigo de Thiers, e Madame de Girardin traçou a propósito um comentário pérfido:

Nous plaignons Mr. Mignet. Les soutiens de Mr. Victor Hugo sont Chateaubriand et Lamartine. La justice vient d’en haut. Si l’on pesait les voix, Mr. Hugo serait nomé... Par malheur, on les compte.

Brunetière, o altivo Brunetière, somente pela quinta vez conseguiu os sufrágios da Academia. Nem por isto se sentiu diminuído na sua tarefa de rigorosa crítica aquele a quem François Coppée, na Enquête Littéraire, de Jules Huret, qualificou de prefeito de polícia da Literatura.

Eugène Delacroix por oito vezes concorreu às eleições do Instituto, preterido por nomes que a história das belas-artes não recolheu. Isto levou André Rousseaux a lamentar que o artista tenha cedido à “vaidade em uniforme, o que foi uma das raras fraquezas do seu gênio”.

Em instituições como a vossa, os nomes dos patronos das Cadeiras devem ter a feição de sombras tutelares, a afirmar o prestígio das Letras e a estimular os neófitos.

A escolha de Artur de Oliveira, patrono da Cadeira 3, não representou uma intenção preconcebida ou um preito comovido e fiel. Filinto de Almeida pendia para Gonçalves Crespo. Seria o tributo de um poeta, nascido em terra lusa, a um grande vate, transplantado para Portugal. Ambos, sob a chama do mesmo ideal e colocados em situação sentimental idêntica.

Gonçalves Crespo e Maria Amália Vaz de Carvalho, Filinto de Almeida e Júlia Lopes de Almeida. Grata ressonância a desses nomes, que se refulgem na história das Letras, realçam como símbolos os mais puros das afeições duradouras, fontes de inspiração e beleza divina.

No cantor de Lírica havia de influir o estro de Miniaturas, ambos impregnados do culto da forma, sem a proscrição de acentos de subjetivismo, que repontam em muitas das estrofes dos dois poetas.

Os ardores nacionalistas obstaram a realização do nobre pensamento e fortuitamente surgiu o nome do escritor, ignorado do grande público, e vivendo apenas pelas cintilações fugazes do espírito na memória dos que o conheceram de perto.

Mais tarde, a Academia exumou dos arquivos dos jornais os trabalhos dispersos de Artur de Oliveira. Afrânio Peixoto, com a intuição peculiar ao seu notável senso crítico e a franqueza modelar de seus conceitos, sentenciou de modo exato para o julgamento definitivo da obra do patrono da Cadeira 3.

A correspondência deste, no período da juventude, revela por vezes ânsias literárias, sofreguidão mental incomum. Não há nela, porém, a fluidez dos sonhos da adolescência, o encanto imperecível das primeiras impressões da manhã da vida, nas suas louçanias e irradiações...

Dois trabalhos, pela sua índole, deviam mostrar em toda a sua plenitude a pujança do escritor – a memória sobre a Rua do Ouvidor e a tese de concurso à cadeira de literatura no Colégio Pedro II. Temas diversos a exigirem tonalidades diversas.

A uma imaginação, como a de Artur de Oliveira, a se expandir febrilmente nas tertúlias da boêmia da metrópole, deveria inspirar páginas de encantos e ironia a visão da principal artéria da cidade. Os primeiros trechos seduzem pelo colorido da frase, mas os outros desalentam o leito pelo tom panfletário, impróprio do assunto, pela acidez das invectivas contra os aspectos sociais então dominantes. Nenhum traço de humor a fluir entre os comentários cruéis; mostra alguma de sensibilidade artística ao contato da rua e da gente.

A tese de concurso atrai pelo poder das expressões altissonantes, mas lhe falta a substância e não a robustece o senso crítico. Sente-se a vastidão das leituras do autor; o tumulto das impressões, porém, impede a gravação das ideias em formas definitivas.

Depois de um proêmio eloquente, a tese alinha considerações de ordem geral, algumas sem atinência com a matéria versada e percebe-se no autor a pressa de terminar a tarefa. Atributo de temperamento, inadequado em dissertação para a láurea do magistério.

Não se pode negar a Artur de Oliveira influência entre os que o conheceram. Vinha ele da Europa impregnado dos ideais do Romantismo. A sua convivência com Théophile Gautier reacendera a flama dos primeiros tempos. A fascinação do discípulo pelo modelo tem a sua gênese na atração imaginativa pelo verbo. Scherer acoimou o autor de Emaux et camées de “escritor totalmente estranho à concepção elevada da arte, bem como a todo emprego viril da pena”. Brunetière chega a afirmar que numa história da literatura contemporânea pode se esquecer toda a obra de Gauthier. Mas é inquestionável que ele foi talento de surpresas verbais, a dispor, na frase de Gaston Deschamps: une série d’échantillons comme des fioles d’élixir sur l’etagère d’un alchimiste.

A arte da prosa, luxuriosa em Gautier, vivificou o pendor do jovem brasileiro, já propenso à exaltação.

No seu discurso de recepção nesta Casa, referindo-se à evolução do Parnasianismo, Oswaldo Cruz recordou a ascendência de Artur de Oliveira nas reuniões literárias do Café Cruzeiro. As expressões do cientista, parcimonioso em elogios, enaltecem a lembrança do jovem brasileiro:

Artur prelecionava com entusiasmo sobre a composição do verso, sobre a maneira de vestir a ideia com graça e donaire, e não deixá-la andrajosa e analfabeta.
[...]
Nessas palestras Artur de Oliveira relatava a emoção que experimentara quando foi apresentado a Victor Hugo e o horror que sofreu ao se sentir em casa de Hugo caricaturado por Gustavo Doré: a caricatura – prostituição do semblante – como ele dizia, horrorizado.

Outro avarento de elogio fácil, Carlos de Laet, rendeu ao talento do “saco de espantos”, de Machado de Assis, o preito de sua reverência:

Apenas a um restrito número de amigos eram notórios os fantasiosos enlevamentos daquela inteligência privilegiada e originalíssima. Havia quem de tudo se esquecesse pela boa prosa do Artur... Aos ledores de jornais nunca se manifestou... Ele não podia escrever. Quando tentava fazê-lo, a fecundidade de seu espírito e a pasmosa erudição que adquirira eram-lhe outros tantos estorvos.

Nem sempre os exímios conversadores, faiscantes de luz, conseguem transpor para a palavra escrita, em formas límpidas e sonoras, os estos da imaginação criadora.

As flutuações mentais de Artur de Oliveira terão sua explicação na fatalidade da moléstia, que vinculou o seu destino ao de tantos outros intelectuais, atormentados pela desdita. Respeitemos nele, entretanto, uma expressão sugestiva e atraente da inteligência brasileira, nos seus transbordamentos e ímpetos.

A Cadeira, a que me elevou a vossa generosidade, foi dignificada durante longo tempo por Filinto de Almeida.

Figurou ele entre os fundadores da Academia, decerto por afinidades eletivas com os que tomaram a iniciativa da criação deste Instituto. Deixara-se Filinto atrair pelo movimento político e intelectual renovador em nossa Pátria e caracterizava a sua atitude por uma linha de rigorosa correção com os companheiros e de perfeita identificação com o pensamento dos chefes incontestados das Letras nacionais de então. A sua atuação no Jornalismo em São Paulo lhe valera a confiança de muitos e as suas manifestações poéticas serviram de credenciais para o julgamento de outros.

Nem sempre Filinto de Almeida logrou o estímulo dos contemporâneos. José Veríssimo a ele não alude, em todos os seus escritos, mesmo quando estuda o desenvolvimento do Parnasianismo no Brasil. Sílvio Romero não lhe faz a mais leve referência no ensaio escrito em 1899 para figurar no Livro do Centenário. Em compensação, Graça Aranha, em conferência pronunciada em Buenos Aires, no Ateneu Argentino, em 1897, o enfileira a Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e outros, qualificando os “parnasianos brasileiros de notáveis pelos segredos que surpreenderam os mestres franceses”. Modernamente, a Antologia de Manuel Bandeira lhe realça o mérito, com a inserção da “Balada medieval”.

Seria talvez, lisonja atribuir-lhe o alto sentido da expressão poética, embora os analistas do verso, emanação da alma e essência do sentimento, deem à Poesia sentidos vários.

O sentido da Poesia é substancialmente o mesmo, diversificando apenas o colorido e a forma. Por isso toda a manifestação da inteligência poética não merece proscrições sumárias.

Mesmo incorrendo na censura dos intransigentes, apraz-me repetir o límpido conceito de Anatole France de que a Poesia deve nascer da vida, naturalmente como a árvore, a flor e o fruto saem da terra e da plena terra, sob os olhares do céu. Hão de redarguir-me que ao famoso autor de L’étui de nacre repugnava o Simbolismo, que não exclui a vida no seu ritmo e ascensão para as formas superiores. Aliás, o Simbolismo vingou-se de juiz tão severo, ao acolher a Academia Francesa Paul Valéry, que, renovando os conceitos de Variei, ostentou lealmente a sua atração pela escola tão combatida. Mas Anatole France, por entre as f1utuações do espírito, reagia sempre contra a violência e, defendendo Baudelaire das cruéis invectivas de Brunetière, proclamou que o homem podia ser detestável mas era um poeta e por isto era divino.

O poder de evocação, inato no vero poeta, traduz-se, como mostrou Bergson, numa arte de sugestão eminentemente capaz de nos fazer entrar em simpatia profunda em comunhão de alma com o artista.

Filinto de Almeida pertence à corrente poética em que fulgem nesta Casa dois dos seus mais lídimos representantes: Adelmar Tavares e Olegário Mariano.

Profano na matéria, não hesito em confessar que não releio o cantor da “Noite cheia de estrelas” e o autor de “O enamorado da vida” e os de sua estirpe sem renovado enlevo.

O nosso mundo interior é povoado de reminiscências, esperanças e sonhos. A poesia o sacode e fá-lo vibrar em emoções, a refletirem os vários estados d’alma. Para isto deve ela ser fluida, límpida e clara, como fonte cristalina de imaginação e ideal. Incumbe-lhe traduzir o sonho da beleza interior, nas suas seduções e encantamentos.

Embora o nimbo que os circunda, os poetas não raro também se denigrem a si mesmos. Num deles, dos mais harmoniosos e enfáticos, se encontra a seguinte apóstrofe:

Si l’on s’amusait à chosir pour chaque poète un métier allégorique, on trouverait beaucoup de tapissiers, de savetiers, d’acrobates, des hercules de foire, de curieux apothicaires, des joailliers e quelques potiers fabriquant ces cruches, qui, selon un mot célèbre, se croient des amphores.

Quem se exprimia em termos de tanta dicacidade e menosprezo? Henri de Regnier, o mesmo que proclamava:

La poésie doit rester un peu cabalistique et il est inutile de renseigner le public sur la structure du gobelet, d’où sortira la fleur où la colombe.

Como difere, entretanto, essa expressão de acidez do sutil e penetrante perfume des Médailles d’argile!

Praticou ele o verso livre. Mas Georges Duhamel e Charles Vildrac mostraram que, mesmo no verso livre, o ritmo, por ser mas sutil, não é menos importante. É esse ritmo que encanta nos poetas de linhagem. Ritmo que exprime a sensação da vida, estuante no seu deslumbramento interior, nos espetáculos da natureza opulenta, no descante haurido nos nossos sertões, na saudade que plange, na cigarra que canta! Gestos d’alma, fascinantes na beleza, crisóis de sentimentos puros e indeléveis!

Filinto de Almeida perpassou pela suavidade da vida interior. Por isto não o dominou a obsedante preocupação da frase, a agrilhoar o pensamento em formas rígidas. A sua linguagem é simples, correntia, despida de afetação e de ênfase. As suas manifestações intelectuais não se guarnecem de tropos e tomam forma límpida e serena. As almas simples, sem complicações, não se entediam com os seus versos. Sentem-se aí contempladas, nas emanações de ternura que deles ressumbram.

Não lhe escapam entretanto de todo as ânsias da alma. Leia-se “Torturas”:

Conheceis nada trágico e medonho,
Sacrifício maior, maior tortura
Do que cortar as asas à ventura
E humilhado fugir do próprio sonho?

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E “Alma ansiosa”:

Alma, que andas buscando errante e solitária,
No deserto da vida, em voo misterioso?
Cortando vendavais, ingente procelária,
Corre talvez empós de inacessível gozo.

Mas não sabes tu mesma, alma inquieta e fremente,
O que buscas na terra, ou nos Céus ou no Mar;
Se procuras, tenaz e ansiosa, o inexistente,
Como, onde e quando o hás de tu encontrar?

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Pois se é tudo ilusório, Alma, ilude-te e sonha;
A ventura maior é ainda – o não saber.
Quem remonta à região das quimeras, risonha,
Pode os astros tocar e as estrelas colher.

Sobe sempre! e na luz inefável mergulha,
Como as águias no azul e as gaivotas no oceano.
E deixa embaixo estuar a inextinguível bulha,
O confuso rumor do burburinho humano.

Não o encanta a força da natureza, que esplende na obra portentosa de Alberto de Oliveira. Natureza, que a frase de Rimbaud exalça:

Je vécus étincelle d’or de la lumière nature.

Ou no evangelho baudelairiano:

La nature est un temple où des vivants pilliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles:
L’homme y passe à travers des forêts de symboles...

Ou nas estrofes de ritmo clássico de Mme. de Noailles:

Nature au coeur profond sur qui les cieux reposent,
Nul n’aura comme moi si chaudement aimé
La lumière des jours et la douceur des choses,
L’eau luisante et la terre ou la vie a germe.

As Harmonias de noite velha revelam o seu estado d’alma, no instante crepuscular da vida. Sente-se combalido, mesmo exausto. Mas a suavidade do pensamento é a mesma. As folhas do inverno crestam-se no amargor mas não as enegrece o desespero. Também François Coppée compôs no outono da existência a L’arrière-saison. Em ambos os vates a melancolia da velhice não obscurece o sentimento.

Em “Angústia”, Filinto revela os seus transes:

É certo. A minha angústia continua,
E por ela e com ela me contento.
Na alma me dói, dói-me o pensamento,
No coração em sangue deságua.

Ela é um rio que flui e se insinua
Por todo o ser que eu sou, candente e lento.
Já foi, mas já deixou de ser tormento,
E enche-me as veias sob a pele nua.

Se já lhe não sentisse a dor e o peso
No coração, na velha alma ferida
De mim mesmo, eu leria asco e desprezo.

Acostumei-me a ela de tal sorte,
Que sem ela perderia a própria vida,
E a dignidade com que espero a morte.

A paisagem moral da vida de Filinto de Almeida tem encantos imarcescíveis. Não conheço na história literária exemplo mais comovedor do que a união entre o cantor de Lírica e Júlia Lopes de Almeida.

Iniciou-se o romance quando D. Júlia habitava Campinas e timidamente procurava ensaiar-se nas Letras. A remessa de um trabalho para A Semana, da qual Filinto era redator, originou a aproximação entre dois seres predestinados a darem o mais tocante exemplo de amor conjugal.

No primeiro livro de versos de Filinto – Líricas, vem a indicação do sonho que se esboçava. Mais tarde o poeta confessava: “1887 foi o ano mais venturoso de minha existência. Os deuses me sorriram... Era a realização de um sonho longamente almejado. A dedicatória de Lírica, datada de outubro de 1886, vos dirá nas simples iniciais do rosto – J. L. – qual foi esse sonho mirífico.”

O romance dessas duas almas prosseguiu durante quase cinquenta anos com os mesmos tons de ternura, confiança e estímulo recíprocos.

Na dedicatória do Livro das Noivas, dizia D. Júlia ao esposo e companheiro constante:

“Lês na minha alma como em um livro aberto. Não tenho pensamento que te não comunique, desejo ou sonho que te não exprima.”

Compreende-se a dor dilacerante do poeta em face ao desaparecimento da inspiradora de toda a sua vida. Em Dona Júlia, coletânea de versos, distribuídos entre íntimos, Filinto de Almeida exprime o seu pungir e os transes de sua alma, dilacerada no ocaso da existência.

Exclama o poeta:

Em ti eu resumia toda a crença,
Toda a fé que os outros têm na divindade.
Tendo-te a ti, tinha a felicidade
E dos ínclitos deuses a presença.

João Luso retraçou em trechos admiráveis a floração desse lar bendito. Dele pode dizer-se que nunca a palavra dos Evangelhos sobre o matrimônio teve expressão mais harmoniosa e translúcida nem a frase goethiana encontrou aplicação de tanta suavidade e ternura:

Forma ideal puríssima de beleza eterna.

Muito me sensibiliza a consciência de brasileiro a honra, que me conferistes, de substituir a um compatrício da têmpera e dos serviços de Roberto Simonsen.

O Regimento da Academia prescreve ao candidato eleito a obrigação de pronunciar um discurso sobre a obra literária de seu antecessor.

Para corresponder ao encargo, o pensamento tem de redobrar de esforço ao encarar de nível a tarefa cometida. Nela, como característica inicial, há de predominar a isenção de ânimo. A pura lisonja seria inconciliável com os objetivos desta Companhia.

Challemel-Lacour, de quem se dizia, pela compostura sempre grave, que, ao tomar uma chávena de chá, dava a impressão de beber cicuta – Challemel-Lacour, eleito ao mesmo tempo presidente do Senado e membro da Academia Francesa, reclamou o direito de tratar o seu predecessor com uma apreciação digna dele. E esse predecessor era Renan.

Os anais desta Casa registram episódios semelhantes na altanaria das atitudes. O tanto estará em não transpor os limites da cortesia e as normas da ética.

O despontar da inteligência em Roberto Simonsen acompanhou a rota em regra traçada pelos bons augúrios, em que se compraz a juventude brasileira.

Narrou o Dr. Osvaldo Benjamim de Azevedo que Simonsen era aluno externo do Colégio Anglo-Brasileiro, em São Paulo, e pediu ao seu avô, engenheiro Inácio Wallace Cockrane, com quem residia, para ser matriculado como interno. É que o tempo perdido na viagem diária ao colégio e nas conversas em casa, onde havia muita gente, ele desejava recuperar nas horas de estudo no internato.

Aos quinze anos ingressava na Escola Politécnica. Era um exemplo a mais de como no Brasil se inicia cedo a jornada universitária. A precocidade no conhecimento é um dos signos da educação nacional. Olvidamos a assertiva de Georges Hersant, um dos mais penetrantes analistas em assuntos de ensino:

Il est bon de savoir beaucoup. Mais il est difficile, jeune, de savoir beaucoup et rien.

A eclosão da cultura, em espírito sôfrego, pode produzir transbordamentos de seiva, nem sempre úteis no amadurecimento intelectual, propiciador das obras definitivas e sérias. Noutros, porém, os conhecimentos desde logo se sedimentam e vão seguindo ritmo ascensional e seguro.

Permiti-me recordar um episódio referente a um dos vultos proeminentes desta Casa.

Numa de suas vilegiaturas à Europa, Antônio Austregésilo teve oportunidade de entreter colóquios com o Professor Albert Robin, no apartamento de Rosa e Silva, que ambos frequentavam e de quem ambos eram médicos. Em certa ocasião, inquiriu de mim o notável tratadista: “Que idade tem o seu patrício?” Austregésilo tinha então trinta e poucos anos de sua vida. Ao dar-lhe a data exata, exclamou Albert Robin: “É admirável tanta erudição em tão pouca idade!...”

Em Roberto Simonsen a precocidade na obtenção do diploma não prejudicou o amadurecimento do seu espírito e se conciliava com a austeridade de sua juventude e o seu amor ao trabalho e à ação.

Tinha ele vocação para o mister de engenheiro? Decerto havia na sua estirpe testemunhos do êxito e do fulgor da carreira e esse fator subjetivo terá talvez influído na escolha.

Nada mais falho do que a presunção das vocações, tão em moda em certos didatas da pedagogia. Leon Berard, em memorável debate, mostrou a ilusão desse preconceito, apontando os exemplos de La Fontaine, estudante de Direito, estudante de Teologia, funcionário público das águas e florestas, jamais tendo escrito versos antes dos 35 anos, de Claude Bernard, trazendo como bagagem ao chegar a Paris, aos dezenove anos, uma tragédia em cinco atos e em verso, e de Pasteur, ao passar o bacharelato em Ciências, com a nota de medíocre em química.

Examinando-se a obra de Roberto Simonsen, verifica-se do entranhado amor por ele consagrado à carreira de sua escolha; determinada não pelo pendor especulativo, mas pelo que Rodman qualificava de pensamento que se adapta (adaptive thinking). A inteligência, habituada a sofrer a influência do mundo de negócios e do movimento da indústria, adaptava-se a uma profissão capaz de traduzir objetivamente a índole intelectual. No penetrante discurso com que o recebeu nesta Casa José Carlos de Macedo Soares, este aspecto mental de Simonsen encontrou apreciação adequada e feliz.

Disse o recipiendário:

A atividade no terreno dos negócios jamais prejudicou o homem de cultura que sempre fostes. Vós sempre tirastes proveito de vossa cultura para vossa ação e de vossa ação para vossa cultura. Agistes simultaneamente no campo da vida prática e da vida intelectual. E em ambas mostrastes a força de vossa personalidade, atingindo plenamente os objetivos desejados.

Diplomado, Roberto Simonsen não perde tempo em devaneios. Aos vinte anos, inicia a carreira de engenheiro, aos 24 funda a Companhia Construtora de Santos, aos trinta representa o Brasil no Congresso Internacional das Indústrias de Algodão em Paris.

Por essa ocasião conheceu Pandiá Calógeras, em viagem para a Europa. Estabeleceu-se imediatamente o contato entre os dois patriotas. Pouco depois é Calógeras incumbido de dirigir a pasta da Guerra. Inicia-se o período de construção de quartéis para o Exército. Calógeras, tão sábio quanto austero, encontrou no jovem engenheiro de Santos o colaborador engenhoso do seu tentame. Desde então firmou-se a aliança entre dois seres, que, com tendências mentais comuns e sentimentos idênticos, se irmanaram a serviço da Pátria.

Não faltaram os chacais, que, na expressão de Vogue em relação a Lesseps, sempre perseguem, segundo a lei do deserto, o leão em marcha. Às investidas contra Calógeras e seu discípulo fiel respondeu a verdade, ostentosa na tarefa regularmente executada.

A ação desenvolvida por Simonsen no campo técnico tinha de projetar-se noutros setores. À sua inteligência altamente compreensiva não escapou a necessidade de versar mais profundamente os assuntos econômicos.

Na alocução de dez períodos em que respondeu à saudação de Alcântara Machado, ao proclamá-lo membro da Academia Paulista de Letras, em 1939, confessou a mesma angústia de saber e a mesma ânsia de ser útil que dominavam os seus pares.

Já havia, dois anos antes, publicado a História Econômica do Brasil, 1500-1820, marco definitivo de sua faina intelectual. Constitui ela o curso professado na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Só o cometimento da organização deste instituto vale por um título de benemerência de Roberto Simonsen e de seus companheiros, refletores da alma paulista, nos seus anseios e pundonores. São Paulo não devia demonstrar abatimento pelo fragor da derrota de 1932. Não podiam os seus círculos diretamente interessados na vitalidade do Estado quedar remansados na contemplação dos problemas. Cumpria-lhes influir na formação das novas gerações e interessá-las no conhecimento exato dos fenômenos econômicos. Tal a gênese da Escola e a aparição de História Econômica do Brasil.

Para lustre do nome de Simonsen, convém recordar a declaração por ele feita no discurso oficial, proferido na inauguração da Escola, de ser “um leigo na matéria pois se considera apenas um homem de trabalho e um técnico de outras atividades”.

A nobre confissão faz realçar a força de vontade desse espírito equilibrado, que o desejo de acertar e ser útil ao País impeliu ao estudo probo da matéria, condizente, aliás, com o seu temperamento e ânimo construtor.

Ele havia sido na revolução constitucionalista de 1932 elemento poderoso de atividade e desprendimento. Documento da época, emanado da Associação Comercial de São Paulo, declarou:

“Roberto Simonsen foi o grande general da indústria paulista na mobilização de 1932.”

Em homenagem, prestada a Simonsen pelos seus operários, foi intérprete Guilherme de Almeida, que recordou a epopeia de 1932:

Há quinze anos, quando o nosso São Paulo dava ao mundo civilizado exemplo de civilização; quando na gesta de 1932, a “Campanha do Ouro” recolhia do peito das crianças as correntinhas e os berloques de ouro, e das mãos de seus pais as alianças de ouro “para o bem de São Paulo”, nesse instante de epopeia eu escrevi, no fundo de uma trincheira rasgada como cicatriz de glória na carne da nossa terra, os meus versos mais “meus”, porque mais do meu povo: “Moeda Paulista”. E dessa moeda santa, de suor, sangue e lágrimas, eu então dizia o que posso agora dizer também da medalha de amizade e trabalho que você recebe, Roberto:

Quanto vale essa moeda? – Vale tudo!
................................................................
Vale mais do que vale o ouro maciço:
Vale a glória de amar, sorrir, chorar,
Lutar, vencer, morrer... Vale tudo isso
Que moeda alguma poderá comprar.

Depois da ação a ideação. Após a mobilização industrial para a batalha a criação de um núcleo de pensamento.

A fundação da Escola Livre de Sociologia e Política e a consequente aparição da História Econômica do Brasil têm assim nascentes inconfundíveis.

As vistas de conjunto são, na frase de Taine, o sinal do espírito superior. O quadro simples de síntese, porém, não abre, mormente em seara em que os fatos se sucedem, determinados por fatores irreparáveis, perspectivas amplas para a elucidação da matéria. O analista tem de inquirir inicialmente do método a que obedeceram as conclusões do autor.

Pareto sustentou a tese, a que Truchy aderiu, de que as discussões sobre os métodos em assuntos econômicos não têm a menor utilidade. Schmoller demonstrou, entretanto, em páginas lapidares, a necessidade de normas para o estudo dos fatos econômicos e a praticabilidade da conciliação dos métodos para o conhecimento exato do assunto.

A obra de Simonsen não chega a soluções meramente apriorísticas. Examina os fatos na sua origem, acompanhando-lhes o desenvolvimento, e não despreza, para segurança do raciocínio, a interdependência entre os fatores concorrentes.

Afrânio Peixoto, com a admirável visão, que tanto deslumbrou os contemporâneos, alinhou um rol de “novidades” a ressaltarem da obra, por ele prefaciada, em períodos de delicioso viço intelectual. Nem todos esses itens serão temas absolutamente inéditos, porquanto alguns deles já ressumbravam das observações argutas de Calógeras, das obras insignes de Oliveira Viana e da contribuição opulenta de Gilberto Freyre em Casa-grande e Senzala. Alguns deles também acudiram ao ânimo pesquisador de Normano, no Brazil, a Study of Economic Types.

Nada mais injusto do que o conceito de Paul Valéry de que a História é o produto mais perigoso que a química do intelecto elaborou. Contra ela Descartes ostentou desprezo. Mas o certo é que quando encaminha o pensamento para a verdade e destrói mitos e ficções, a História representa a força preservadora do passado e “toda a guerra inconsiderada que se faz ao passado é uma guerra civil”, na frase de Desiré Nisard.

O grande mérito da obra de Simonsen reside na sua isenção sobreposta a influências de leituras anteriores. Para eficiência dessa tarefa serviu a sistematização da matéria versada, sem dogmatismos professorais ou a configuração de hipóteses que só a imaginação constrói. A divisão da História em ciclos mostra o critério da orientação do autor. Mas não se limitou o historiador à análise meramente objetiva destes ciclos. Estabeleceu o entrelaçamento entre eles e, com a acuidade peculiar aos mestres no gênero, procurou examinar a sua repercussão nos aspectos sociais e mesmo políticos da nacionalidade em formação.

Da evolução dos fatos econômicos passa à comparação nas zonas territoriais em que eles se produzem, sem quebra na harmonia de visão retrospectiva.

Sente-se nele a preocupação de não ocultar as fontes onde vai haurir as suas observações, e a lealdade na controvérsia é um dos sinais característicos da elevação de seu pensamento construtor, como, por exemplo, na contradita aos historiadores que acentuam o feudalismo do sistema das donatárias.

Até em incidentes, à primeira vista insignificantes, demonstra ele avisada faculdade de observação. Assim ao precisar que na substituição do nome de Vera Cruz em Santa Cruz já predominava o espírito mercantil, ao invés do religioso.

A Comparação entre autores é quase sempre perigosa. Mas não quero abster-me de pôr em confronto com a do nosso patrício obras similares, em países ligados ao nosso por afinidades espirituais e contingências econômicas.

Faulkner escreveu exaustiva obra sobre a história econômica americana. Edward Kirkland publicou muito mais tarde a História Econômica dos Estados Unidos. O texto desta é mais rico em detalhes, mesmo por abranger o período contemporâneo. O professor Daniel Martiner é autor do Estudo de Política Comercial Chilena e História Econômica Nacional. A história econômica argentina encontrou em Luiz Roque Gondra, nos livros Las ideas económicas de Manuel Belgrano e em El descubrimiento del Nuevo Mundo y la conquista de América Española, analista sutil e brilhante. Mas em qualquer delas não realça a alta compreensão da gradação dos valores, apanágio do historiador patrício.

Isto sem falar na História Econômica e Social del México, de Luiz, Chaves Oroza, que, como o seu próprio autor designa, é, antes, um ensaio de interpretação.

Pena é que Roberto Simonsen não houvesse concluído a sua obra, que tem 1820 por termo. No remate dela, acentuou o seu autor: “O Brasil colônia nascera com a revolução comercial; o Brasil iniciaria seus passos paralelamente com a revolução industrial.”

O estudo da nova fase da vida econômica do País daria ao comentador ensejo de verificar a extensão da imparcialidade e isenção do historiador e até que ponto atingira a saturação de suas ideias. Ter-se-ia de alcançar a correspondência entre o pensamento do autor e a sua ação nos movimentos industriais do País.

Devemos procurar, entretanto, noutros trabalhos, para o devido relevo da posição de Roberto Simonsen na história econômica do país, o critério de sua orientação na questão propriamente social.

No discurso de inauguração da Escola Livre de Sociologia Política de São Paulo, que antecedeu de quatro anos à publicação da História, preconiza a formação das elites e indaga se elas estão sendo compreendidas e se estão atuando à altura das exigências da moderna civilização. Recorda a opinião sempre renovada de Ortega y Gasset, mas não responde à própria pergunta que formulou.

Encontraremos porventura o filão revelador em opúsculos e alocuções posteriores?

Em vários deles depara-se a fé de Roberto Simonsen no papel da Igreja na questão social. Em abono de sua crença na religião acode-nos ao espírito o grito de Michelet:

Oh! par pitié dites-moi s’il s’est élevé ailleurs un autre autel!

Fragmentos de trabalhos seus induzem a crer que o animava a conciliação das classes nas fórmulas do espírito cristão. As afirmações, porém, não são de molde a se tornarem o prosseguimento da tarefa empreendida pelo historiador. Resultam de circunstâncias fortuitas ou emanam de situações acidentais, sem o cunho das definições completas.

O opúsculo O Problema Social no Brasil daria, pela sugestão do título, a oportunidade ambicionada. Fraca é, porém, a colheita. Nenhuma clareira nova se abre ao perscrutador, embora tenha o trabalho aparecido em 1947, um dos últimos publicados pelo autor.

Uma de suas mais interessantes produções é o Planejamento da economia brasileira. Mas não fornece ela a orientação segura do autor na análise da questão social e o tom de polêmica, destro e contundente, predomina sobre a concepção doutrinária. Aliás, ele combate com veemência o liberalismo econômico e propugna a intervenção decisiva do Estado no campo econômico. Embora procure contornar o assunto, não é difícil encontrar em alguns trechos mais incisivos certo antagonismo com a doutrina cristã sobre o papel do Estado na vida econômica, desde a Immortale Dei de Leão XIII até à estratificação de tais ideias nas chamadas ações sociais, expostas com lucidez e clarividência por Eugène Duthoit, então professor de Economia Política na Universidade Católica de Lile, ou por Georges Hoog, na sua história do catolicismo social, ideias fundadas essencialmente no espírito associativo, com respeito e salvaguarda das iniciativas privadas.

A atividade intelectual de Roberto Simonsen desdobrou-se igualmente em congressos científicos e no Parlamento Nacional. Em ambos os setores a sua visão de técnico inspirava medidas de alto interesse social, como a de que teve iniciativa na Constituição de 1934, da obrigação do levantamento periódico, por parte dos poderes públicos, dos níveis de vida nas várias regiões do país.

O seu último torneio intelectual foi o referente ao plano Marshall e suas prováveis repercussões econômicas na América Latina. Expôs de início as suas ideias sobre o momentoso assunto no relatório apresentado na XXVI Reunião Plenária da Comissão Executiva do Conselho Interamericano de Comércio e Produção e logrou triunfo completo, com a aprovação, por unanimidade, das conclusões de sua tese.

Logo após contribuiu com informações e dados, no sentido da sua orientação, na resposta ao questionário a ser apresentado à Conferência Interamericana de Bogotá.

A sua diretriz de completa objetividade não se subordinou a dogmas doutrinários nem teve a inspirá-la o interesse de política continental. Encarou o assunto com a precisão de técnico, habituado a lidar com a estatística, e igualmente com a previsibilidade das conjunturas econômicas que da execução do plano podiam irromper. Realizava assim a máxima econômica de Charles Rist: “Saber não é sempre prever. Mas prever sem saber é necessariamente vão.”

Advertiu o País dos percalços que a adoção do plano podia trazer à nossa vitalidade econômica e procurou mostrar, em frases por vezes candentes, a situação da América Latina em função do plano de reconstrução mundial. Habituado à vida da indústria e dos meios operários, pôde exclamar em síntese impressiva na reunião do Conselho Interamericano:

Os norte-americanos e europeus, que desfrutam alto padrão de vida, não compreendem, em sua maioria, as condições de penúria em que estão penosamente evoluindo os povos da América Latina. Esse estado de pauperismo não decorre de inferioridade de raça, porque todos nós somos provenientes, na maioria, dos mesmos troncos que povoam e promoveram o progresso das regiões mais avançadas do globo. Somos vítimas – isso sim – de determinismos geográficos, que só a técnica e a ciência poderão corrigir, e essa correção demanda vultosos investimentos e grandes organizações técnicas que ainda não possuímos.

Os nossos 120 milhões de latino-americanos se reduzem, na unidade homem-consumidor, em 20 milhões de europeus, ou em 5 milhões de norte-americanos. E o Plano Marshall vai servir a 270 milhões de europeus.

A franqueza dos conceitos se ajusta aos imperativos da consciência do sociólogo, em quem a falta de sinceridade e o olvido dos laços espirituais, por medo e obrigações diplomáticas, desvirtuariam a missão do homem de pensamento construtivo.

Não combatia ele o plano na sua essência. Procurava perscrutar-lhe o sentido real para que a sua expansão não encontrasse os países do outro hemisfério desapercebidos dos seus efeitos imediatos. Não nos achávamos rigorosamente no ciclo da reconversão, em que se realiza a transformação de uma economia de guerra em economia de paz, com os seus característicos irrefragáveis. Tínhamos, entretanto, interesse em nos premunir contra as consequências de um movimento econômico, de indisfarçável relevo e atuação.

Era incansável o lidador. Poucos dias antes de morrer, proferia, no Clube Militar, conferência em que insistia na sua orientação anterior. Advogava limpidamente um novo critério em face das relações internacionais e sempre a preocupação do técnico a repontar no subtítulo da conferência – Industrialização, determinismo inelutável.

Nesse trabalho acentuou em termos nítidos:

“O critério de uma política de trocas sobre bases rigorosamente econômicas tem que ser substituído por outro, de política de real cooperação, em que se complementem, em estreita harmonia, correções de ordem política, social e econômica.”

A constância de opinião desarraigada de sectarismo revelou-se ainda na bela oração – fecho de sua tarefa, com que nesta Casa acolheu ao Sr. Paul Van Zeeland.

Última etapa de sua jornada, ela coroa uma vida de exortação ao trabalho e de confiança nos princípios adquiridos na juventude e consolidados na madureza pelo exemplo e pela fé.

O Brasil não quer outra coisa no mundo de hoje senão a prática dos princípios que formam a civilização cristã à luz da qual se processa o papel que nos couber na procura da justiça e de um maior entendimento entre os homens. Somos, como a nossa Democracia social – perdoai essa afirmação, que vos poderá parecer um tanto orgulhosa –, um grande exemplo de conciliação que o destino humano revela. Não há aqui clima propício ao paganismo de força e à floração rubra dos estados sem alma.

O pensamento se coloria de otimismo e ternura para atingir ao estado da alma, em que ela se transforma no hortus deliciarum, fechado no gozo puramente individual.

Do estudo de conjunto da obra de Roberto Simonsen depreende-se não se haver ele desapercebido de que as contradições econômicas nascem não raro no meio das dores humanas e, para que esses antagonismos não assumam formas brutais e indomáveis, faz-se mister o esforço do homem, na ciência, na técnica, no aparelhamento dos meios de defesa social e, sobretudo na compreensão do sentimento de solidariedade. A este dever não faltou Roberto Simonsen, que realizou o ideal do chefe, preconizado no perfil traçado por Morris Cook, um dos teóricos da eficiência americana:

“O capitão, quer seja na indústria ou no governo, deverá ser o homem que ama e que, amando, compreende e que, compreendendo, edifica, conduz, inspira um grande número de seus semelhantes.”

O destino pôs remate surpreendente à vida de Roberto Simonsen. Este recinto, que o acolheu nas galas e louçanias de sua recepção, foi o cenário de sua morte. Tombou ele aos vossos olhos atônitos à semelhança do cedro altaneiro, que o raio despedaça.

Debruçado sobre o corpo de Francisco de Castro, Rui Barbosa declarou compreender a formosa inspiração do estatuário grego, pondo, entre os braços da noite, filhos gêmeos de suas entranhas, presos um ao outro, por um beijo inseparável, o Sono e a Morte.

Os fastos da poesia também inscrevem o verso famoso: “Ces deux enfants divins, le Désir et la Mort”, revivescência da frase de Leopardi:

Fratelli, a un tempo stesso, Amore e Morte.

O homem de ação, que amou aos seus semelhantes e se desvelou pelo humildes, não tinha de recear a morte. Havia de encará-la com a mesma disposição de ânimo com que enfrentara as variantes da sorte.

Esse “gesto breve e soberano”, irreplicável corolário da vida, não oferece preferências aos destinos ao seu sacrifício. Entretanto, se há mortes, em que o colóquio interior com a Divindade, às portas do “repouso eterno na luz eterna”, é refrigério da alma e quietude do espírito, há outras que, pela sua subtaneidade, não encontram essa consolação, mas inspiram o mesmo respeito e compunção diante dos desígnios do Criador.

Nem sempre é veraz a palavra do sábio de que o sal e a morte não se podem contemplar de face. Os que perecem no fragor das batalhas recebem os eflúvios da divinização pelo heroísmo.

Roberto Simonsen teve a morte digna de sua vida. O lidador, destro e confiante, equânime com o adversário, cedeu ao inevitável em pleno campo de ação intelectual, desfraldando a bandeira da solidariedade entre os homens e da concórdia continental.

Eis-me no cume de minha peregrinação intelectual e no término do meu encargo protocolar, que tem em mira prover a verdade.

O meu horizonte mental se alarga ao influxo de vossa generosidade. Não me atormentam desilusões, pois à minha humildade coube na vida quinhão dadivoso. O meu afã, no contato convosco, é servir à vossa causa e atender aos vossos apelos.

Incumbe sempre a instituições desta ordem a tarefa preservadora e augusta de resguardar o ideal. Os problemas intelectuais se distanciam de interesses efêmeros, contraditórios e vãos. Alicerçam-no a dignidade na controvérsia e a firmeza na decisão. Se as conclusões desta espécie abrem perspectivas para a História, não devem relegar a plano inferior a realidade contemporânea.

Em todas as épocas sempre se apontaram crises. Seria ilusório tentar ocultar os contornos da situação que a humanidade atravessa. Crise de incompreensão, crise de desnível entre as riquezas e os meios de sua utilização, pois na riqueza o fator qualidade não é despiciendo, crise de desfalecimento das energias nobres e aspirações dignificantes do homem, crise de porfia pelo domínio, seja qual for o colorido que lhe emprestemos, ela aí está, nos seus rigores e sobressaltos.

Jules Romains qualificou o mal do século de perda de confiança e perda da fé.

A confiança é elemento visceralmente ligado à vitalidade dos povos; a fé, entretanto, não é atributo de todos os seres humanos. As nações educadas no culto da liberdade – e constituem elas a maioria – não perderam a confiança nos seus processos de seleção e aperfeiçoamento do progresso coletivo, progresso político, progresso econômico, progresso social. Na tarefa de recuperação do terreno perdido tem os centros de elaboração mental influência preponderante. O dever deles é não se deixarem contagiar pelo desalento e impedir que a maré montante da exacerbação dos espíritos invada os seus recantos sagrados. Essa reserva não exclui a compreensão do pensamento universal, a qual não é antípoda do patriotismo legítimo e idôneo, nem desnatura a índole das Academias.

Thomas Mann referiu-se aos “que se ufanam de abraçar a humanidade”. Joaquim Nabuco, universalista por tendência e formação mental, enunciou a ideia de que a Pátria, embora constitua poderoso acumulador moral e uma fonte de inspiração, é em certa medida um prêmio à mediocridade. Sendo ela confundida com a língua, impediu a uniformidade e criou por toda a parte a originalidade.

As grandes obras, porém, que se modelaram em temas nacionais e propiciaram a exaltação da Pátria, revivem na posteridade com o mesmo fulgor e atuam noutras literaturas como padrões de pensamento dignificante e construtor.

Exerceis uma magistratura incontestada na história das Letras pátrias. O primeiro historiador da Academia Francesa, Pellison, qualificou os seus componentes de “operários a trabalharem na exaltação da França”. O qualificativo também vos quadra, na defesa tranquila e segura dos destinos intelectuais do Brasil. Para isto amais antes de tudo a Pátria, com esse sentimento traduzido no verso de Metastasio:

É istinto di natura
L’amore del patrio nido.

Por mim, creio convosco, tenazmente, no Brasil, na nossa terra, amando-a com esse “espírito silvestre”, de que falava Virgílio, na nossa gente, destemorosa e rútila de bondade e de fé; juro no seu passado e confio no seu porvir.