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Abgar Renault

SONETOS

III

Em vam apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu Amor.
Debalde o vosso olhar, que assi me illude,
Ao meu denega o bem de seu fulgor.

Que quanto mais de vós se desillude
Meu tino vam, mais eu chego a suppor
Que tal fereza hum dia se demude,
E que peneis tambem da mesma dor.

Mas he sem cura o mal que anda a pungir-me:
Que, si agora padece este meu ser,
Porque eu vos vejo contra mi tam firme,

O dano de querer-vos sem vos ter,
Em vos sentindo minha, ha de ferir-me
O mal de ter-vos sem vos merecer.

VIII

Senhora que fazeis meu perdimento,
Dama do meu Destino de pezar,
Bem sei que embalde sofro & me lamento,
Por esse bem que he o mal de vos amar.

Bem sei que este mofino acabamento,
Vós, que o podeis, não n’o quereis sarar;
E assi, mercê de vós, meu dano augmento,
A minha dor tornando meu sonhar.

Se preso estou agora, & desprezado,
Pezar de mi, pezar de vós, porém,
Ha de morrer Amor tam mal sonhado,

Morto da morte que de vós lhe vem:
Que se bem vos não sabe o meu agrado,
Inda menos a mi vosso desdém.

X

Se acaso o olhar nos vossos olhos ponho,
E os surpreendo na minha face ruda,
A minha vida toda em luz se muda,
Porém me sinto sempre mais tristonho.

Se cuido que he tambem vosso o meu sonho,
Por mais que o meu pensar engane & illuda,
De alma de todo em todo escura & muda,
Tanto de vós mais longe me supponho.

He que, Senhora, se, qual sois, tam fria,
Assi mudaes o meu Destino féro,
Matando-me de dor, ou de alegria,

Dizei, Senhora: desde Amor sincero,
Da natureza minha que seria,
Se tanto me quizéres qual de vos quero?

XV

Fortuna má, fazendo-me encontrar-vos,
Cizânias novas lança no meu ser,
E a fortitude que hei de não amar-vos
Heis, Senhora, volvida em bemquerer.

Meu pobre sizo, por eu contemplar-vos,
Inda por mór aggravo, ando a perder
Entre a amara ventura de olvidar-vos
E a desgraça feliz de vos querer.

Por que eu pague, Senhora, os meus peccados,
Neste de vos amar gravoso error
Bem certo contra mi se erguem os Fados.

Que hum só mortal não ha, em tanta dor,
Que cure de pagar, por vans cuydados,
Com tanto Amor tamanho desamor.

XXIV

Pera attingir huma felicidade,
Mester fôra, na Vida fugidia,
Tanto o Bem estivesse na Verdade,
Quanto, por nos mentir, mais aporfia.

Mas he tudo illusão, que Mocidade,
Belleza, Engenho, Amor, Glória, Alegria
Em nada tudo se consume & ha de
Passar asinha como a noite & o dia.

E se curamos, contra a irosa Sorte,
De na Morte matar daVida o engano,
Salteia a nossa mente malferida

Negro temor de que ainda a Morte
Mais não seja, por nosso maior dano,
Que outra forma de ser da mesma Vida.

(Sonetos antigos, 1968.)

 

CHÃO MORTO

Se essa orfandade, essa privação de tudo, esse escuro
exercido no nada
ao menos rebentassem num verso nu, esguio, sujo de terra,
- raiz arrancada em convulso estremecimento,
não da gelada lucidez do pensamento,
mas da viva carne da aflição, -
ainda houvera similitude de consolação,
e a cegueira fora-me outro modo de enxergar.

Mas não. A falta de luz na alma e no olhar,
a perda de tudo (de um tudo que não é meu), menos o náufrago
vivo sempre e para sempre frio,
e tudo apenas isto, este acontecimento que estala os ossos.
Ou estas palavras: sal, areia, surda pedra, geladas lavas
em que não nasce fonte, avaro fruto, espinho amargo.

O escuro, o ralo sol, o sufocamento no vácuo triste,
a forma bem morta, a forma disforme no livro, na carta, no peito largo,
no assoalho, na rua, na lâmpada, na mesa.
Forma que não é forma, nem feiúra nem beleza,
água que não matará nenhuma sede, chão que nada enterra,
estacado pensamento, gesto cortado no braço que o fazia,
obrigatório sono dentro do leito perpétuo e frio.

(A lápide sob a lua, 1968.)

 

SOFOTULAFAI
Ao Lívio

Às vezes temo que, na minha ausência,
as cousas não mais sejam o que são,
e o acontecido, quando estou ausente,
seja diverso do acontecimento
em que, até sem querer e sem saber,
a inocente presença do meu ser
se misturasse, tal como água e vento
no mar se fundem inconscientemente
e criam tempestade e furacão.
Quando me sumo na total ausência
do curso opaco e ascético do sono
e não estou em mais nenhum lugar,
mil invisíveis cousas misteriosas
talvez ocorram sobre o chão, pelo ar,
nas salas, sobre as mesas, nas estantes,
alpendres, pianos, geladeiras, rosas.
Durante os ocos, fúnebres instantes
ou nas noturnas horas sem sentido
em que tudo de mim está vazio,
rompe-se a ligação do velho fio;
de súbito, o que é meu fica sem dono,
e uma sutil disponibilidade
todas as cousas lança em liberdade
a todas muda em sua posição,
e as faz andar, girando em alarido
que chega já sem voz a todo ouvido,
ou em graves colóquios conversar,
ascendendo do limbo da mudez
com linguagem e sons a sussurrar,
que criam mundo e vida uma outra vez.
Obscura, silenciosa humanidade
se descose na sombra e acende a luz.
[...]
- "Que faz o lápis sobre a mesa em pé?"
- "Prossigo o que traçava a mão robusta
que me sustinha há pouco." - "Mas o que é
que ela traçava?" - "Letras num papel.
Papel de amor ou de ódio, totalmente
coberto de palavras belas, feias,
finas, grossas, vermelhas, estivais,
todas tingidas pela sua mente;
nada eram, isoladas; em aliança,
fluíam como mel ou como fel;
sozinhas, pedras sem significado;
em íntimo conúbio, logo cheias
de unhas, venenos, crimes capitais,
condenações, infernos, esperanças...
Em quantas mil palavras me consumo!
Nutrem-se os homens de palavras, comem
milhões de verbos e de substantivos,
tal o seu pão de cada dia ou hora.
Tudo é neles palavras que se somem
e voltam sempre iguais às mesmas bocas
de que ascenderam vãs - leviano fumo -
ou doídas do travo que há no fundo
do cego poço em que as pescou o anzol
da cólera, do amor ou da piedade.
Os homens gastam línguas, olhos, mãos
buscando verbos para usar o mundo
e encher mal-assombrada soledade.
As casas em seus mínimos desvãos,
os cemitérios e as cidades loucas,
o vago luar que se insinua agora
pela vidraça, o céu, os sons, o sol,
tudo é nome ou palavra, e todos nós,
tudo aqui nesta sala instrumental
- livros, papéis, canetas instantâneas,
borrachas, facas de osso ou de metal,
cartões, tesouras, pesos, clipes, selos,
retratos, luz, vistas mediterrâneas,
espanadores, panos, desmazelos,
ordem, relógio, horário, exatidão, -
tudo é palavra e existe por servir
à palavra, que preenche os homens vãos;
tudo agencia, em sons ou por sinais,
o humano ideal de ser (sem existir),
e constrói uma vida onde não há."
-"Tudo é, então, ancila da palavra!"
exclama um dicionário em morna voz.
- "Não foi só isto que ele disse lá
de cima do bureau. Não. Disse, mais,
que tudo de palavras é composto.
Sem elas o homem perderia o rosto."
- "Os homens vivem, morrem por sinais;
tudo tem um sinal, ou raso ou fundo,
no gelo intenso ou onde o fogo lavra.
Se a palavra acabasse, um dia, a vida
seria despojada de existência."
- "Vida é ordem; a ordem é a palavra,
que forma imprime ao pensamento e ao mundo."
- "Sem ela, a vida fora desvestida,
os seus únicos sons seriam iguais
na terra surda, amorfa e sem consciência."
Ponderosas borrachas a dançar;
parlam canetas lépidas no chão,
abraçadas a lápis amorosos;
avulsas folhas de papel carbono
despertam, na gaveta, do seu sono,
revoam e misturam-se pelo ar
com papel branco e azul mata-borrão;
e neles riscam seus sinais cianosos.
Rolam os pesos de papel na mesa,
passam a ferro amarrotadas cartas,
esmagam beijos, versos e tristeza,
e concentram-se todos sobre as fartas,
redondas letras de um bilhete antigo.
(Escreverei teu nome em chumbo ou ar,
em ouro ou pedra, e o 1ançarei no mar)
cujas palavras pelas margens correm
e se afiguram prófugos insetos.
Recompõem-se velhos calendários,
e dias e anos volvem, como objetos,
a preencher os vazios deste espaço
que ao tempo se mistura em barro crasso;
vêm esquizóides, lividos horários
dançar de novo ao rútilo compasso;
postam-se erectamente verticais,
refogem do passado e do futuro;
e, límpidos, elétricos, atuais,
esgueiram-se dos pêndulos que morrem
e a duração condensam numa linha.
A hera, que pelo silencioso muro
cresce, de uma janela se avizinha,
tal um tapete pelo chão se espalha,
cheia de luzes e noturnos cheiros,
que lembram ventres, cabeleiras; seios.
Estes, de lírio de âmbar e de opala
incerto corpo formam, cujos pés
datilografam músicas de letras,
dançando no metálico teclado,
batendo mil uníssonos etceteras,
enquanto as duas luas as marés
erguem convulsas em um mar parado,
e agora de desejos cavalgado.
Abrem-se de repente dicionários,
vocábulos saltando vão em fieiras,
e, céleres, ordenam-se em fileiras,
e vão compondo versos arbitrários,
palavras setas rápidas, certeiras:
Destilo sem o mínimo artifício
e mando a todo aquele que não me ame
outrossim, adimplir e pastifício,
Radagázio, nenhures e vexame.
Agílimos isótopos pulavam
os carrilhões unívocos ladravam
as noites sob as luas caminhavam
as aliterações levavam lâmpada
para alumiar a antiga estampa da
cidade vista atrás de um horizonte.
[...]

(Sofotulafai, 1971.)

 

DESINTEGRAÇÃO

Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!

Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minha mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas
para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse

morto...

(A outra face da lua, 1983.)