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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Deolindo Couto

Senhor Abgar Renault,

Reservou-me o destino o exercício de misteres educacionais que, por nos serem comuns, de vós me aproximaram, há trinta anos. Bendigo a circunstância por me haver ensejado admirar de perto o dignitário da inteligência brasileira, cujos triunfos sucessivos são coroados nesa noite de gala.

A Academia conta, dominantes em seus quadros, exemplos dessa pluralidade de produção literária e de ação pública. E se em vossos privilégios sobressaem os dotes poéticos, aqui chegastes exibindo louros colhidos em múltiplas áreas de atividade benemérita.

É excepcional mesmo que, entre patronos e titulares, alguém se haja limitado ao ofício de escritor. Donde a Instituição consagrar, quase sempre, vidas de estrutura complexa. Assim aconteceu ao comediógrafo e folhetinista França Junior, advogado e membro do Ministério Público; ao teatrólogo e cronista Urbano Duarte, que foi militar; ao poeta e jornalista Augusto de Lima, professor, magistrado, parlamentar; ao jornalista e historiador Vitor Viana, alto funcionário do Estado; ao historiador e ensaísta José Carlos de Macedo Soares, diplomata e político.

Sois, como todos os da constelação que ilumina a Cadeira que vindes ocupar, homem de ação multifária. Predestinado para esparzir beleza através da Poesia, pouco tempo, entretanto, reservais a esta e, ao compô-la, é como se cedêsseis a imperativos imanentes, despreocupado da sorte de vossos versos.

Quando, de uma feita, tentastes justificar a avareza com que entregais à publicidade as vossas letras, dizíeis: “Escrever para quê? Para quem? A Literatura está ajudando a acabar com o mundo ou a torná-lo mais inabitável.” E acrescentáveis: “A humanidade precisa de calar a boca, isto é, deixar de ler, de escrever e de publicar coisas durante uns cem anos, para ter descanso de si mesma – o único descanso de que ela precisa realmente.”

Delicioso paradoxo que requer imediata exegese! A Crítica Literária que, pela natureza dos conhecimentos de que se serve, entre eles a análise psicológica, vai ascendendo à condição de ramo das Ciências Humanas, recusar-se-ia, decerto, a vislumbrar, nesses períodos, simples ironia.

Em vossa mensagem, estão implícitos traços fundamentais de vossa personalidade. É a melancolia constitucional, tantas vezes confessada e sempre delicadamente disfarçada, ou atenuada, por aquele outro característico de vosso biótipo: a irrequietude. Esta não vos consente vagares para longos tornos, nem para passar a limpo o que redigis, sequer para ordenar vossa produção, havendo-me confidenciado um amigo comum temer que interrompêsseis o cerimonial desta noite a fim de falar ao telefone para Belo Horizonte, Brasília ou Paris, onde outras tarefas vos aguardam.

Nada impediu que brindásseis nossa Literatura com gemas tais que aqui chegastes sufragado em primeiro escrutínio, da primeira vez em que disputastes uma Poltrona azul. Não sei se foi também a vez primeira em que seriamente pensastes no assunto; sei, porém, que disso cogitaram antes alguns dos que vos admiram a personalidade numerosa.

Inscrevo-me entre estes e quando, há de haver três anos, ocorreu um claro nesta Casa, de vós indaguei telegraficamente para a Europa, em atitude insinuativa, se éreis candidato, ao que laconicamente respondestes: “Não disponho de munição.”

Perdoai-me que inicie esta gratulatória, apontando-vos um equívoco. É que dispondes de munição, pesada munição, capaz de prescindir de vulto, visto como a qualidade é de prol.

Sois, antes de tudo, o homem que se preparou para escrever, saciando-se nas fontes cristalinas da criação literária e afiando destramente os instrumentos da expressão, conhecendo os modelos como poucos e o idioma como raros. Nesse gosto do apuro, de regra desaparece o apetite de escrever. É a tortura dos que buscam as formas castiças, de fundas raízes no idioma, ao contrário do que se vai generalizando.

Ocorre com os obstinados na perfeição da forma literária algo de semelhante ao que preocupava o sábio espanhol Santiago Ramón y Cajal: o perigo de admirar excessivamente os descobridores científicos, porque disso pode resultar que estagne a criação intelectual, na presunção de que é impossível emparelhar com os padrões.

Quanto a vós, fostes capaz de fazê-lo, e prematuramente, como o atestam vossos poemas da juventude, influenciada pelo Parnasianismo.

Não sei se vos agradará aludir, de logo, à produção do poeta, visto ser tão proteica uma atividade, hoje necessariamente severa pela vossa atual condição de magistrado. Mas é sobretudo como cultor da Poesia que aqui ingressais, vós que sois, por igual, exímio prosador. E, como acabais de depor, foi ao poeta que se endereçou Macedo Soares quando sugeriu que vos candidatásseis à Academia.

Trazeis tendências cromossômicas para as Letras e para a missão de educar, em que, por igual, exceleis.

A vocação é, não raro, o resultado de um exemplo, e, quando este é alto e iterativo, então ela se torna nuclear. Tivestes o paradigma na pessoa letrada de vosso genitor, mestre Leon Renault, oracular autoridade no ensino técnico profissional e cujo abnegado exercício vos proporcionou habitar o próprio educandário que dirigia, o Instituto João Pinheiro.

Na casa paterna se complementava – e com que exação! – o plasmar de uma cultura, prosseguida no Colégio Arnaldo e, finalmente, na Faculdade de Direito de Belo Horizonte.

Foi a essa altura que, pela primeira vez, vos vi, sem, contudo, chegar a conhecer-vos. Devia realizar-se no Rio uma semana de debates científicos entre estudantes de Medicina. Em companhia de seis condiscípulos fui à capital mineira, para tratar da organização do certame. Da tarefa cuidávamos durante o dia e, nas três noites passadas naquela cidade, convergíamos para a Rua da Bahia, centro onde se encontravam, àquela hora, os candidatos à vida literária. Lá estava o Café Estrela, onde se reuniam algumas dessas esperanças, cedo legítimas realidades do Brasil: Afonso Arinos, Aníbal Machado, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Emílio Moura, Gustavo Capanema, João Alphonsus, João Pinheiro Filho, Martins de Almeida, Mário Casassanta, Milton Campos, Pedro Aleixo, Pedro Nava, entre outros. Naquele Deux Magots da renovação cultural de Minas, chegou-se a reservar uma sala dos fundos para os iniciados: aí se combinou A Revista, de vida tão fugaz quanto luminosa.

Da plêiade vários eram revisores do Diário de Minas, órgão do grave Partido Republicano Mineiro, e não houve que hesitar: deliberaram transformá-lo em jornal vanguardeiro, nele introduzindo colaboração puramente literária, o que faria rezingarem os circunspectos homens da Política, e suscitaria reclamações.

Dispostos a influir firmemente nos rumos novos da Literatura, os jovens intelectuais criaram o Curso Ariel, para modernizar o pessoal recalcitrante: datam de então vossas estreias como professor de Literatura, e isso ocorria paralelamente à publicação de vossos primeiros versos.

O POETA

Sois dos poetas que buscam a inspiração no interior, nos recônditos da alma, pouco influenciados pelo derredor: o ambiente para vós unicamente desencadeia os estados emocionais, e estes passam ao verso, no qual a paisagem é secundária, fundo ou contraste apenas.

Em vossa produção, salientam-se os valores intrínsecos e nela são contingentes os elementos externos, primaciais condicionadores para outros poetas.

Essa poesia subjetiva não retrata vicissitudes coletivas e nem apresenta conotações outras que não sejam traduzir pessoal e permanente desencanto.

De início, sob a poderosa influência clássica, escrevestes Sonetos Antigos, formalmente perfeitos e denotadores de seguro domínio da técnica. Nomeastes – os “desmandos” de vossa adolescência, deixando a quem os ler opinar sobre se foram ditados por amores desafortunados ou pelo simples desejo de demonstrar que bem apreendestes aquilo que Manuel Bandeira chamou a “forma”, a que nem faltam arcaísmos:

Essa vossa serena fermosura,
Que as mostras vos empresta de huma santa,
Tanto mais a frieza vossa apura
Quanto mais a minh’alma prende & encanta

Mostraes vossa esquivança em tal ventura,
Co hum riso feito de belleza tanta,
Que já não sabe alfim minha tristura
Se esse desdém se aguenta ou se aquebranta.

De tal sorte esquivaes, gentil Senhora,
O meu Amor, de guisa tal tecendo,
E destecendo a trama deste engano,

Que, se hei perdido huma esperança agora,
Outra virá bem cedo apparecendo,
Pera asinha volver-se em desengano.

São esses versos pouco anteriores à ruidosa irrupção do movimento modernista entre nós, embora pareçam contemporâneos da primeira edição das “Rimas” do sublime épico. Bem que os historiadores de nossa Literatura descubram nítidos precursores daquela revolução literária, acorda-se geralmente em assinalar-se-lhe o início na famosa semana, por certo encenada para tomar de assalto a cidadela onde se encastelavam os prestigiosos da época.

Jamais, em nosso meio, uma mudança de rumos estéticos provocou tal impetuosidade. Nem se fale das disposições musculares de que pareciam providos os companheiros de Graça Aranha, na famigerada noite de 19 de junho de 1924, e nos incidentes do Teatro Municipal de São Paulo, durante os quais, segundo depôs Menotti del Picchia, era o palco alvejado por batatas, cenouras e legumes menos nobres. A campanha ateou-se também violenta na imprensa. A atenuante só poderia residir em que um aviso pretendente a derribar normas cristalizadas tem que ser bradado, exagerado e vociferado para ser ouvido.

No meio da tormenta que se desencadeou, vossa palavra, embora firme e convicta da necessidade de romper com o que Aníbal Machado apelidara – deformação oficial do hábito –, foi de moderação. Nem se diga que de mineira moderação, porque alguns de vossos coestaduanos foram árdegos no prélio.

Reais e justas eram, sem dúvida, as motivações para novos rumos. Tinha-se de sair daquilo que Peregrino Junior chamou de “saturação estética”. Mas os padrões eram em tanta maneira arraigados no prestígio que nem sequer se atentara na insubsistência dos seus alambicados e repisados argumentos, quase todos de importação.

Entrar no Brasil, antes de sair dele, transportar para a criação literária os nossos temas e particularidades de nossa linguagem, a fim de universalizá-los – era e é desígnio compulsório.

O inventário revela resultados altamente positivos, no tocante ao aspecto linguístico e, sobretudo, na adoção dos temas locais e no domínio de várias técnicas, algumas com forte selo pessoal.

Adotastes, como tantos, novas linhas de expressão poética, mas, no verso como na prosa, mantivestes sempre coerente limpidez de linguagem.

Não deixastes de ser bom brasileiro por terdes mergulhado a fundo na Cultura clássica e universal. Este procedimento parece indispensável e não prejudica a originalidade, nem o caráter nacional da produção literária.

Graça Aranha dava a impressão de que a terra e as coisas do Brasil somente poderiam ser celebradas com a total ruptura das formas convencionais. No entanto, Manuel Bandeira, adepto oportuno das novas correntes, sentia, nos versos dos nossos românticos “de vez em quando, um cheiro forte da terra e aquela sensualidade cansada, aquela meiguice virginal (dengue) do brasileiro”, e chegou, depois, a exaltar a riqueza de sentimentos e pureza da forma na poesia neoclássica de José Albano.
 
Adotando uma posição sem exageros pudestes manter-vos atualizado nas novas fases, de muito prenunciadas por Amoroso Lima, o grande crítico, e mais do que isso, o grande filósofo de nossa Literatura.

É um dos privilégios de nosso tempo ter-se ampliado a média de duração da vida. Os homens viviam menos que o período áureo de um movimento literário, enquanto os atuais podem ser contemporâneos de várias de suas fases e até de movimentos sucessivos. Daí alguns terem evolvido, ao ponto de se tornarem irreconhecíveis, quando se lhes cotejam produções de diferentes épocas.

Ficam valendo, por isso, os elementos intrínsecos dos poemas, o “intrínseco” de Kenneth Burke, fundamento da concepção estética da Crítica, de que é paladino, entre nós, Afrânio Coutinho.

A evolução que realizastes não atingiu a temática, sempre a traduzir vosso incorrigível desengano, a despeito de visões agradáveis:

No dia neutro e cinzento,
igual ao meu pensamento,
tua aparição azul,
– o milagre de um momento –
teceu e vestiu de azul
o dia e o meu pensamento.
A tua presença azul
foi milagre de um momento,
que passou... Meu pensamento
é um dia neutro e cinzento.

Mesmo quando vos permitis mais liberdade e instilais um pouco de humour no poema, este vos trai o pessimismo.

Quando o Ministério da Educação, onde assessoráveis Gustavo Capanema, foi transferido de modestas salas da Cinelândia para o famoso palácio, a atrair, por sua arquitetura revolucionária, a atenção geral, o que de vós proveio foi uma endecha:

E porque sou esquerdo, antigo e triste,
(muito depois do “Mal Secreto” – lembram-se? –
“Quanta gente que ri talvez existe...” –
ainda é possível rir e sorrir sem ter de quê).
Não amo novidades, nem mudanças,
e prefiro saudades a esperanças.
Nada de prédio de vidro em que ar e luz entrem e se espalhem
com o método minucioso que sabe cada canto, cada mesa, cada arquivo, cada gaveta

Nada de máquinas batendo, nem de vozeios a distância
(o marulho de um mar que nunca houve):
não amo os ruídos mesmo diluídos e difusos: prefiro os silêncios concentrados,

às vezes cheios de perguntas, mútuas perguntas.
Nada de partes a querer e requerer registros de diploma,
registros de professor, sobretudo de professor (oh, sim!, de professor!)
certidões, médias mais baixas, dispensa de frequência,
decretos de aprovação em todas as disciplinas de todos os cursos
– tudo exigido em urgente voz por cima das paredes anãs.
Não quero a visão incansável do mar afogando em seu verde sujo o meu olhar.
Já sei de cor todos os seus tritões e todas as suas sereias.
Nada do mar me fascina. E nem do ar:
salvo o da Aeronáutica, nenhum Ministério deve ter intimidades com aeroporto.

     
Gosto da terra firme, dura, de pedra, de chão ou de asfalto.
Valem menos no ar dez homens vivos, a jato,
do que na terra um homem semimorto.

Que me importam elevadores prateados
por dentro, se por dentro e por fora estão parados?
Vou querer é regressar ao Rex.
Quero a água quente do Rex,
a campainha do Rex, o silêncio, o barulho do Rex,

o telefone oficial quebrado, o paciente armário de livros,
o retrato implacável na parede – o retrato eterno na resignada parede,
o retrato muito eterno com as irremediáveis palavras por baixo:
“A educação física fará de cada criança um cidadão útil à Pátria”.
Prefiro a mesa com o vidro quebrado do lado direito,
com a lista dos telefones importantes atrás da cabeça da gente,
as paredes descascadas e sem mais esperança,
entre as quais por cinco anos trabalhei, sorri, danei-me, comi terra, sorri de novo e sonhei.

Prefiro, sobretudo, a janela aberta para o poente
(a janela que nunca se fechava completamente)
por onde entravam cada tarde, em film crepuscular,
imitações da paisagem mineira que ama o meu olhar.

Não quero o novo, o grande, o claro, o alegre:
prefiro a sala velha sem luz, sem ar, sem água gelada,
o prédio velho, sem jardins, sem estátuas nuas, sem peixes, sem nada,
nada do que de moderníssimo aqui existe,
porque, por menos que pareça, sou esquerdo, antigo e triste.

Vosso lirismo atinge culminâncias no gênero elegíaco. Um dia, esvoaçaram sobre vosso lar asas negras: um filho na antemanhã da vida vos foi arrebatado.

No recolhimento a que vos entregastes, redigistes A Lápide sob a Lua, fixando em excruciante nênia, um sofrimento que nos faz lembrar o de Fernando Pessoa, quando dizia:

Escrevo meu livro à beira-mágua.
Meu coração não tem que ter
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

As estrofes compaginadas no volume revelam um temperamento refinado, que de vós arrancou algo de semelhante ao “Cântico do Calvário” de Varela. Já na introdução,

exclamáveis sem blasfemar, porque é rija a vossa fé:

Tombo, Senhor, submisso mas inconformado na desesperança.

E não Te reconheço na cruel desnecessidade da Tua lança.

E fixastes a incomportável cena:

Vejo o corpo morto da tua mocidade

dormindo sem sono a sua construção de ossos e músculos.   Estás ferido, e dóis, deves doer, e nem te queixas e Estás ferido,, e dóis, deves doer, e nem te queixas e não choras,
e nunca me dirás o que sentiste
quando sobre a tua frágil cabeça de menino e deus a vida desabou.

Lamentastes, de outro lado, um presente e um futuro radiosos:

O que eu choro na tua ausência
não é a rosa do teu corpo jovem, abatida na haste,
nem a tua alegria, que não mais verei:
doem-me os teus frutos, que, ao caíres, esmagaste sobre ti;
amarga-me o quinhão de tempo e flor
arrebatado às tuas mãos de vida.

Como a todos os pais, porém, o que vos assombrava era a lembrança do menino que embalastes:

Por tua casa pálida e noturna
hoje passei, terrestre, sem parar;
na límpida corola da manhã
aberto sol, que ria ao mar e ao céu,
feriu-me o peito, e minha dor cansada
doeu-me como doeu a hora primeira
da tua ausência eterna e nunca ausente.
Mais do que a sombra de teu vulto vi
o claro outrora do teu riso largo
e a infância às vezes dos teus olhos bons,
e no silêncio da atmosfera lúcida
o longe ouvi da tua voz perdida.

As doridas impressões resumiram-se na exclamação desalentada:

Agora morro derradeiramente.

Somados estes “elementos interiores do poema” aos rápidos traços da natureza ambiente, ele faz lembrar Thomas Gray, de produção por tantos traços próxima da vossa, romântico inglês, cuja “Elegy Written in a Country Churchyard” analisastes magistralmente, e que também transfundira ao verso “sua melancolia, seu amargor, seu desencanto, sua total desesperança, seu total desconsolo diante da injustiça do destino”.

MESTRE DE LÍNGUA INGLESA E TRADUTOR

Vossos pendores pela língua inglesa tornaram-vos um erudito e um douto nesse idioma. Sabedor de tudo e perfeito sabedor. Preparastes-vos para tal, desde os verdes anos, e com profundeza de que dão provas o notável concurso para catedrático no Colégio Pedro II, a redação do capítulo da Enciclopédia Delta-Larousse sobre a evolução e estrutura da Língua e a série de conferências sobre o Romantismo na Poesia inglesa.

Vem a pêlo referir singular episódio. Realizava-se em Teerã um dos Congressos educacionais da Unesco. Técnicos da Inglaterra e dos Estados Unidos participavam do grupo encarregado de redigir, em Inglês, as conclusões, cuja leitura foi feita antes da sessão plenária. A certa altura, apontastes no documento um erro sintático, oferecendo, de pronto, perfeito substitutivo. O inglês e o norte-americano detêm-se no problema e decidem pela validade de vossa opinião. Pouco depois, era o vosso ouvido despertado por outro senão linguístico. Veio mais afoita, porém igualmente provecta, a vossa emenda. Desta feita, o caso foi mais prontamente resolvido pelo delegado britânico: “Não ouso discutir sobre língua inglesa uma opinião do representante brasileiro.” E o corretivo se fez sob aplausos que não se dirigiram a vós, porque se endereçaram à nossa terra!

Em apreciar este aspecto de vossa cultura, cabe aludir vosso sobrexcelente papel do tradutor, que não é servil portador de textos de uma para outra língua, no predominante intuito de alimentar editoras e forjar erudições de segunda mão.

Ortega y Gasset escreveu que a tradução de uma obra poética não é a própria obra, mas “um artifício técnico que dela nos aproxima, sem pretender jamais repeti-la ou substituí-la”. E julgava impossível “a manipulação mágica em virtude da qual a obra escrita em um idioma surge subitamente em outro idioma”. Nisso talvez esteja a regra, inaplicável, porém, ao vosso caso, porque bem conheceis o idioma original, o vosso e a linguagem da Poesia.

Assim apercebido, senhoreastes o pensamento criador para, depois, vazá-lo em termos, não raro distantes dos que lexicamente lhes correspondem, mas veiculadores seguros das ideias dos autores. E isso vinha muito a propósito, quando se tratava de poesia de guerra, menos ciosa da forma do que de comunicar estados emocionais. Como acentuou Álvaro Lins, os exemplos que se enfeixam no volume Poemas Ingleses de Guerra revelam que os autores traduzidos, em sua maioria convocados eles próprios para defender seu País, lamentavam a interrupção de sua juventude, alguns eram até pacifistas confessos, mas nunca se atemorizaram diante da conjuntura e desejavam dar ao País a sua contribuição em favor da liberdade, indo William Hodgson a suplicar:

Senhor, faze de mim um soldado!
Faze de mim, Senhor, um homem!

Para sublimar o sacrifício dos compatriotas, esses artistas do verso empenharam-se em exaltar os que desapareceram.

Quando termina a guerra de 1918 é de Edward John Moreton Drax Plunkett a advertência que assim transpusestes à nossa língua:

Não sopres teu clarim, Vitória, ao firmamento,
nem entre os batalhões, nem junto às baterias.
Vai às covas, onde entre o arame ferrugento
e o ferro velho ao pé do qual a artilharia

rumo a leste passou, tal a maré enchendo,
estão os que morreram já há longos dias;
lá sopra teu clarim, Vitória, e te anuncia
aos mortos que tanto esperavam teu advento.

Não somos nós que merecemos a coroa.
Eles entre ervas que se alteavam, esperaram.
Ao bafo dos canhões queimava o lamaçal.

A ossaria esquecida o alvo inverno estalou-a,
Passaram estações, mil noites flamejaram,
e a eles tu chegaste, afinal, afinal!

São do mesmo tom, trasladados por vós ao vernáculo os versos de W. J. Brown, durante o segundo conflito mundial:

Louvor aos mortos,
reverência aos que souberam
o quanto a vida é boa
e, sabendo-o, morreram;
que amor, lar e amizade não tiveram,
salvo os sagrados pelo sacrifício.

Louvai os mortos felizes,
aplaudi o valor dos que acharam na terra
causa por que morrer. Lágrimas pelos mortos.

Nunca mais voltarão
a caminho nenhum, nem a nenhuma porta.

Alongam-se em vão
muitos maternos braços esfomeados.

Para sempre sozinhas
as noivas ficarão.

O poeta que, porém, de vós mereceu mais detido estudo foi o indiano Rabindranath Tagore e que também traduzistes, suponho que não do Bengali, mas do Inglês, idioma para o qual ele próprio vertera seus poemas.

Nem só a poesia, mas o próprio exemplar humano da “doce alma de Bengala” vos encontrava e atraía.

De admirar-lhe a poesia fostes à biografia referta de lances de onde flui tranquila filosofia, comunicativa por sua grandeza. Não é exagerado afirmar que o suave artista foi também aí um dos vossos modelos.

De Afrânio Peixoto ouvi que, certa vez, ele e outros membros da Academia foram chamados ao Itamaraty pelo Barão do Rio Branco.1 Chegando ao Palácio, ali já encontraram um grupo de banqueiros, aos quais o Chanceler se dirigiu em primeiro lugar, comunicando-lhes a próxima passagem pelo Brasil de um financista britânico que o Governo desejava homenagear. Pedia aos homens de negócios que o recebessem, levassem a conhecer as belezas do Rio e, por fim, a um almoço, encomendado pelo Ministério a determinado restaurante. Voltando-se para os acadêmicos, disse-lhes o chefe da diplomacia brasileira que, no mesmo navio, viajava Tagore, rumo ao Prata. Solicitava aos intelectuais que recebessem o poeta, mostrando-lhe os encantos da cidade e, afinal, o conduzissem ao mesmo restaurante. Rematando o encontro, informou o Titular que sabia serem de apertura financeira as condições dos homens de letras, razão pela qual lhes forneceria veículos para o passeio; lembrava-lhes, além disso, que ao “profeta da Índia livre”, também professor de Religião, era defeso comer carnes, tendo sido reservado para ele um cardápio especial.

Tudo aparelhado, dirigiram-se os acadêmicos ao porto, no momento aprazado, ali recolhendo Tagore, que lhes deu impressão de humildade, sobretudo pela mansuetude do olhar.

Visitaram os recantos cariocas e, afinal, dirigiram-se ao almoço. Tão embevecidos estavam todos com a palavra tranquila de Tagore que só deram pelo fiasco iminente, quando o poeta se dispunha a mastigar um pedaço de bife espetado em seu garfo. Lembrou-se Afrânio da recomendação do ministro e, segurando o braço do conviva, pediu-lhe que aguardasse um minuto. Correu a interpelar o dono do estabelecimento e, então, se apurou que haviam sido trocadas as mesas: aquela era a destinada ao financista inglês. Recomposta a situação, indagou o autor de Maria Bonita ao mestre de A Lua Crescente: “Se sua religião o impede de comer carne, por que o ia fazendo?” E a resposta vem pronta, embora serena: “É que minha religião, antes de me impedir a ingestão de carnes, me impede de dar escândalos!”

O EDUCADOR

Das mais preclaras, e de experiências feita, é vossa autoridade como educador, exercitada em todos os níveis de ensino. Nesse peregrinar por escolas se vos foi sedimentando o cabedal do psicólogo.

O contemporâneo exercício do magistério e de elevados postos administrativos, Secretário do Governo em Minas, Diretor do Departamento Nacional de Educação, Ministro de Estado, permitiu-vos planejar e executar métodos, reformas e inovações cruciais para o meio brasileiro.

Batestes-vos pela escola pré-primária, considerando que “o mundo de hoje vive em estado permanente de catástrofe” e “vai sendo afligido por um mal trágico – a ausência de infância –, causado pelo abandono da criança ao deus-dará nas classes pobres ou pela educação inadequada ou insuficiente por parte da classe média ou da classe rica”.

Assim se frisava o aspecto educacional integral da escola, quando já se podem lobrigar resultados funestos do arbítrio individual, advogado por educadores medíocres e psicólogos de gabinete.

Um dos pontos salientes de vossa pregação foi interessar o Governo no ensino rural. “A mentalidade urbana que vem, há tantos anos, dominando a administração pública, tem de ceder o passo ao calado clamor que sobe dessas dilatadas áreas de solidão, silêncio e isolamento”, dizíeis.

Aí o papel da escola, ao invés de subalterno, será porventura mais complexo que o do ensino ministrado nos meios urbanos. A rarefação populacional em certas áreas é tal que a escola representa um dos excepcionais, às vezes, o único dos centros de convivência e de educação. E o que se deseja não é aperfeiçoar o primitivismo campestre, mas extingui-lo, propiciando a todos os indivíduos as conquistas da civilização.

Professando em cursos de grau médio, fostes pioneiro da sua integração com os de grau superior, dirigindo o primeiro Colégio Universitário do País, destinado a estudos introdutórios à formação profissional. Aí estava o germe da reforma da Universidade brasileira, ora em desenvolvimento e para a qual também tendes substancialmente concorrido.

Durante os três biênios em que recolhi a honra de presidir ao Conselho Federal de Educação, pude admirar a excelsitude dos méritos com que os seus componentes servem à mocidade e ao País. Vindos dos vários rincões brasileiros, desligam-se periodicamente de seus interesses e convergem para examinar com diligência, isenção e superioridade os problemas de sua alçada.

Na suprema corte educacional do País, foram famosos vossos pareceres e intervenções orais acerca de problemas pedagógicos e didáticos, assim como os relativos a dúvidas de natureza jurídica e linguística.

Doutrinando, certa vez, sobre o complexo problema de selecionar diretores para estabelecimentos de ensino médio, escrevíeis: “A despeito do equilíbrio que deve existir entre os dois complexos de atributos – os herdados e os adquiridos –, os quais se exigem reciprocamente e se completam, parece-nos que, antes de serem “atributos de cultura e preparação técnica”, os traços essenciais do diretor são “atributos de caráter e personalidade”, e a verificação de uns e outros sugere a adoção de processos mais eficazes, além dos que vêm sendo utilizados pela administração federal. Ponderadas essas duas constelações de predicados; analisadas as suas influências no meio social; compreendida a missão do diretor e considerando que a direção de uma escola deve ser o oposto do poder arbitrário, o seu efeito supremo é encorajar as energias, as virtualidades e a força criadora daqueles a quem orientar, solidarizando-os no mesmo esforço e exaltando-lhes o sentimento de responsabilidade pessoal na obra comum, julgamos que, para os efeitos do art. da lei 43 da Lei de Diretrizes e Bases, entender-se-á por “diretor qualificado aquele que reunir qualidades pessoais e qualidades profissionais, compondo uma força capaz de infundir à escola a eficácia do instrumento educativo por excelência e de transmitir a professores, a alunos e à comunidade sentimentos, idéias e aspirações de rigoroso teor cristão, cívico, democrático e cultural”.

Apura-se, uma vez mais, a preocupação do mestre em sobrepor os dotes morais aos culturais.

De outra feita, éreis o jurista, procurando interpretar o sentido exato de textos da Lei de Diretrizes e Bases, os quais, nebulosos em sua redação, passavam a indecifráveis depois que a respeito os hermeneutas de profissão apresentavam razões divergentes.

Um dia, vossa palavra tem repercussão universal. O educador eminente ascende à tribuna da Conferência da UNESCO em 1960, em Paris, e expõe ao mundo, ali representado, uma antevisão da América Latina, superpovoada e ignorante, daí pobre e doente e, pois, inapta para a vida.

A autoridade de quem assim clarinava não decorria apenas de completo domínio do assunto, meditado em longa e dura experiência pessoal, nem do simples manejo de algarismos fornecidos por assessores burocráticos. Era a autoridade de quem sugeria fórmulas para obviar uma situação de desespero. O brado repercutiu de tal maneira que se transformou em pronunciamento coletivo e ecoou na imprensa do mundo inteiro.

Sr. Abgar Renault, o discurso que acabais de proferir bem atesta, na sua elegância e propriedade, os reais méritos que vos trouxeram à Cadeira 12.

Permiti que colabore na evocação de José Carlos de Macedo Soares, vosso antecessor imediato, narrando um episódio que, várias vezes, me expôs e que destacava entre os salientes de sua vida pública.

Em 1932, ao regressar da Conferência do Desarmamento, onde presidia a delegação brasileira, Macedo transitou pela capital italiana, sendo recebido, em audiência especial, por Benito Mussolini. O preparo da entrevista fora esmerado e atendera a todas as minúcias de rígido protocolo. Depois de aguardar alguns minutos na ante-sala, o visitante haveria de entrar sozinho no comprido salão, ao fundo do qual o Duce se encontraria sentado junto à sua mesa de trabalho. Deveria o embaixador brasileiro ir até ao hospedeiro e, somente então, este se levantaria. Nada disso funcionou, entretanto. Mal chegou, o delegado do Brasil foi convidado a ingressar no local do encontro. O chefe do Governo italiano saltou da cadeira e, quase vociferando, rumou para José Carlos, que, assustado, lhe recolheu forte aperto de mão. Sentaram-se os dois, conversaram longamente, ultrapassando o prazo estipulado, e em tal clima que Macedo Soares se aventurou a revelar ao ditador suas preocupações: apurara, nos meios católicos de Roma, sério mal-estar ante a iminência de uma reunião oficial, em cuja ementa figuravam três itens seguramente delicados para as relações do Quirinal com o Vaticano. Mussolini indagou quais os assuntos e, ao inteirar-se destes, bradou: Tutti cancellati. E, depois de cordial abraço, conduziu Macedo até à porta, que abriu, diante dos secretários da delegação brasileira, preocupadíssimos com o vozear que haviam percebido.

Sabedor do feliz resultado da intervenção de José Carlos, o Cardeal Eugênio Pacelli, então secretário do Estado Pontifício, visitou-o no hotel e pôs-lhe à disposição os arquivos secretos do Vaticano. Macedo aí fez copiar alguns dos importantes documentos que integraram seu precioso acervo destinado à redação dos 11 volumes que projetara sobre a História da Igreja Católica no Brasil.

O Ministério das Relações Exteriores e o Instituto Histórico recolheram boa parte da vida ilustre, e a Academia homenageia-lhe a figura, destinando-vos a Poltrona que ocupou.

Sr. Abgar Renault, pela altura de vossa mensagem literária, pelo caráter missionário de vosso papel de educador, pela nobreza de vossos sentimentos humanos, sois, como disse Carlos Drummond de Andrade, um brasileiro do mundo.

23/5/1969