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SESSÃO SAUDADE DE AFRÂNIO COUTINHO 10/08/2000
Quero consignar a presença de familiares de Afrânio Coutinho,
cujo longo percurso nesta Casa deixou marcas que são indeléveis,
o que será, evidentemente, objeto dos sucessivos pronunciamentos dos
senhores acadêmicos, o primeiro dos quais, o nosso decano, acadêmico
Josué Montello, a quem concedo a palavra.
Acadêmico JOSUÉ MONTELLO É para mim uma certa dificuldade, senhor presidente, falar sobre Afrânio
Coutinho. Não pela inexistência de motivos fundamentais para tratar
dele, e sim, pela carga emocional que o nome e a obra de Afrânio Coutinho
trazem neste momento à minha imaginação e às minhas
lembranças. De tal modo ele está amalgamado ao meu passado nesta
Casa, de tal modo ele está associado à minha melhor admiração,
que fico perplexo entre buscar um assunto em que me possa alongar, e ao mesmo
tempo, tentando suplantar as emoções, que neste momento me acodem,
por força do longo convívio com Afrânio Coutinho. Por ocasião de seu concurso, pelo fato de ser, ao tempo, hélas,
o mais novo de todos, coube-me a oportunidade de ir ao quadro negro e escrever
as notas finais, e quando coloquei - em primeiro lugar, por ter sido
o primeiro dos examinadores - aquele 100 correspondente, e ia repetindo,
ao mesmo tempo, aquela apreensão de Afrânio Coutinho ia desaparecendo
do seu espírito, para, no fim, ele pessoalmente participar das próprias
palmas que nós dávamos a ele, tal a explosão do seu entusiasmo
naquele momento.
Isso tudo, senhor presidente, diz bem daquilo que ele era, daquilo que ele
seria também nesta Casa, como uma das suas mais altas figuras. Mas quem
examina o passado de Afrânio Coutinho pode perfeitamente caracterizar
a evolução de uma transformação que se processa,
não apenas na arte de bem ensinar Literatura; também, sobretudo,
na arte de participar de uma transformação da crítica que,
ao tempo, se voltava mais para o texto, em vez de ser para a personalidade literária,
que fora vigente até aquele instante.
Ele faz essa transformação e consegue, pelos seus livros sucessivos,
aglutinar também outros trabalhos. Eu próprio tive oportunidade
de escrever dois longos estudos a seu pedido, para uma das publicações
que ele então dirigiu e coordenou, como plano geral de uma nova História
da Literatura Brasileira. Isto diz bem a Vossa Excelência, aos meus confrades,
sobre a carga emocional que tenho neste momento, ao me lembrar do querido amigo,
do grande companheiro, do mestre, podemos dar essa palavra, e dizer que, na
sucessão de Alceu Amoroso Lima, na sua grandeza, na sua polivalência,
ele conseguiu ser, realmente, uma figura que estava à altura daquela
que ele próprio sucedia.
Daí, senhor presidente, naturalmente, nós teremos mais adiante,
pelo resto da vida, de recordar sempre Afrânio Coutinho, que recebeu seu
nome pela presença de Afrânio Peixoto, cuja família se identificava
também com ele. Eu que tinha sido o grande amigo de Afrânio Peixoto
nesta Casa, que havia recolhido dele algumas das lições fundamentais
da minha vida, pude encontrar em Afrânio Coutinho, no seu momento próprio,
no momento em que entrou nesta Casa, não somente a oportunidade de lhe
dar o meu voto, mas de lhe dar, por toda a vida, o meu aplauso.
Vossa Excelência pode compreender a carga emocional, que faz com que
eu fique a um passo daquela emoção que se derrama no nosso rosto,
para dizer aos meus confrades e aos meus amigos que, pelo resto da vida, incorporarei
a mim próprio as saudades do companheiro.
Presidente TARCÍSIO PADILHA
Acadêmico EDUARDO PORTELLA Devo dizer que, em relação a Afrânio, experimento uma sensação
tríplice de perda: a perda do amigo, o amigo afetuoso e pontual, o militante
da amizade, porque Afrânio não é daqueles que nasceram para
ser amigos bissextos. Eles se dedicam realmente à causa da amizade. Ao
mestre que encontrou sendas abertas por ele, quando aqui chegou para trabalhar
no mesmo métier, e ao colega com quem aprendi, quotidianamente, lições
que foram alargando a minha compreensão dos homens e das coisas, das
suas formas e das suas Letras.
Afrânio significa um momento de transformação na crítica
brasileira. Quando ele regressa dos Estados Unidos, trazendo todo um conjunto
novo de referências teóricas, ele começa a escrever uma
coluna semanal, e essa coluna era precocemente uma cátedra. Ele ali ensinava,
ensinava uma Literatura que não era a Literatura mais ou menos vigente
até aquele momento. As referências do acervo crítico de
então se mostravam bastante limitadas, diante dessa presença avassaladora
de Afrânio, que vinha dos Estados Unidos com um repertório de idéias
rigorosamente novas e procurava com elas pensar a Literatura.
Há quem me identifique com Afrânio, nesse esforço de transformação.
É uma injustiça com Afrânio e um elogio excessivo para mim.
Quando eu cheguei à batalha campal que se travara entre o impressionismo
agonizante e uma modalidade de transformação da compreensão,
que se chamou, na época, de Nova Crítica, à maneira americana,
já encontrei praticamente o campo calmo. Afrânio havia ganhado
sozinho a batalha, fui apenas um beneficiário da sua capacidade de lutar.
Ele trazia o rigor quase científico da Nova Crítica; eu, apenas
uma maneira de olhar, que privilegiava as façanhas do estilo. De qualquer
maneira, se estabeleceu entre nós uma fraternidade muito grande, que
é um dos patrimônios pessoais que guardo com mais rigor, com mais
capacidade de valorização.
Deve-se destacar também em Afrânio o pesquisador. Ele foi o cuidadoso
pesquisador, o generoso pesquisador, aquele que sai de dentro de si para viver
a experiência do outro. Com isso, ele conseguiu reunir alguns volumes
da crítica, textos dispersos de Araripe Júnior, aquele terceiro
grande crítico da grande tríade de José Veríssimo,
Sílvio Romero e Araripe Júnior, provavelmente, o mais esteticista
ou o mais tocado pelos apelos estéticos.
Ele também reuniu, em alguns volumes, a crítica de Nestor Victor,
que é, sem dúvida, o crítico do Simbolismo brasileiro.
Amigo de Cruz e Sousa, teve acesso ao movimento, desde os seus dias iniciais,
e reuniu com muito critério e com muita vontade crítica. Posteriormente,
fez a mesma coisa com Raul Pompéia. Eu estava numa função
pública e pude ajudar esse empreendimento. E então, escrevendo
alguma coisa sobre ele, eu disse uma frase que Afrânio preferiu absorvê-la
no próprio volume. Eu disse: "Afrânio Coutinho transformou
Raul Pompéia, autor de um livro, no autor de uma obra". Pompéia
tinha apenas acessível O Ateneu; depois do Afrânio, passou a ter
doze volumes.
Em seguida, há um documento fundamental para quem quer debater a consciência
da nacionalidade, naqueles momentos complexos, às vezes patrióticos,
às vezes excessivos da nossa nacionalidade, que é a polêmica
Alencar/Nabuco. A essa outra pesquisa do Afrânio, nós devemos uma
revelação de como se pode fazer polêmica mantendo a civilidade,
porque tanto Alencar, como Nabuco, eram duas figuras realmente tocadas por essa
cultura da civilidade, essa cultura da polidez.
Em seguida, Afrânio nos chega com seu A Literatura no Brasil. É
uma maneira nova de ver a Literatura brasileira. Era a primeira História
literária desindividualizada, até então, as Histórias
tinham proprietários, um proprietário. A partir de Afrânio,
a História passou a ser o resultado de um olhar que liderava as peripécias
do literário, mas também de um acompanhamento, de uma parceria,
de uma cumplicidade extremamente enriquecedora. Aí Afrânio trouxe,
para a compreensão da Literatura brasileira, uma contribuição
crítica que se perdera no tempo, que é a idéia do barroco.
A Literatura brasileira, muito caudatária da tradição francesa,
supervalorizava o Neoclassicismo, e nessa supervalorização do
Neoclassicismo de base, sobretudo francês, não ficava espaço
para a compreensão daquela eclosão inusitada, e às vezes
insólita, que era o barroco. Foi Afrânio que nos chamou a atenção
e trouxe para nós, para o nosso convívio, daí por diante
definitivo, a noção de barroco.
Depois, vi Afrânio na cátedra, sucedendo Alceu Amoroso Lima, o
seu memorável concurso. Afrânio foi um professor exemplar, cuidadoso,
levava os livros para a aula, emprestava aos alunos, coisa que foi, cada vez
mais, se tornando rara.
Em seguida, pude vê-lo na gestão universitária, no momento
da dissolução da velha Universidade do Brasil. O Instituto de
Filosofia da Antônio Carlos era composto de uma série de unidades,
das mais diferentes procedências, Ciências Exatas, Ciências
Históricas. Afrânio proclamou o 7 de Setembro da Faculdade de Letras.
Fui ali um modesto colaborador desse 7 de Setembro. Com isso, ele abriu uma
frente de trabalho para os professores de Letras, que são, em geral,
muito discriminados pela voracidade do mercado de trabalho. Com ele, fundamos
o primeiro programa de pós-graduação em Letras em nível
de mestrado e doutorado, em todo o Brasil. E num posto que pude exercer por
algum tempo, tive a alegria de nomeá-lo para o Conselho Federal de Educação,
onde ele deu uma contribuição técnica, étnica, como
ele costumava dar.
E a minha presença aqui neste momento, o fato de poder falar sobre ele,
mesmo que emocionado, e porque emocionado, ainda mais agradecido, se deve a
que, um dia, voltava eu de uma das minhas viagens pelo Brasil, em função
de um cargo que exerci. Ele me telefonou e me disse: - Estou lhe procurando
por tudo quanto é canto. Você é candidato à Academia
e já tem vinte e um votos.- Eu disse: - Afrânio, com a sua fraternidade,
a sua velocidade, você já me fez candidato, e acho que não
posso ser candidato, desta vez.
Fiz uma série de avaliações com ele, e a última
resposta, ou a última tentativa de objeção, foi quando
eu disse que ia saber se José Paulo Moreira da Fonseca, que é
meu amigo, ia ser candidato. Se o José Paulo fosse, eu jamais seria.
Ele me lembrou que, já uma vez, na segunda vaga de Pontes de Miranda,
um grupo integrado por ele tentara me fazer candidato, e eu não aceitei.
Fui para casa, saí da casa dele de carro, com José Mauro Gonçalves,
jornalista e meu amigo, e minha mulher, e parei na casa do José Paulo,
na esquina da Delfim Moreira. José Paulo me disse que tinha dois votos
e que achava que eu tinha que ser candidato. Fui para ali com aquelas palavras
do Afrânio, enfático, como ele costumava ser: "Não
pense que a Academia espera por você, no dia que você quiser. Ou
é agora ou nunca".
Fui para casa, pensei, passei a noite, naturalmente, inquieto, nervoso, provavelmente;
e no dia seguinte de manhã, eu precisava viajar para Brasília
e telefonei para Afrânio, dizendo que sim, que concordaria em ser candidato.
Pouco depois, eu já sabia, pelos meus amigos, que todos tinham recebido
telegramas; foi ele próprio, Afrânio, quem dirigiu esses telegramas,
dizendo que eu era candidato. A essa altura, era uma candidatura que já
ultrapassara a faixa dos trinta votos.
De maneira que devo a Afrânio muito do que aprendi, devo a Afrânio
as lições de humanidade, de humanidade autêntica, nenhuma
máscara, nenhuma mise en scène, nenhuma pirueta especial, o exercício
categórico, e às vezes até contundente, da humanidade.
Devo a ele tudo isso. Por isso, a minha sensação de perda só
não é maior do que a sensação de perda da família,
que conheço e a quem quero tanto.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico SÉRGIO CORRÊA DA COSTA Quando se evoca a renovação de técnicas e métodos
de crítica literária em nosso país, não seria exagero
dizer que Afrânio foi um marco de primeira grandeza. Quem o conheceu saberá
do esforço e persistência com que se dedicou à montagem,
livro por livro, da estupenda biblioteca que se foi acumulando, deveria dizer
"entulhando" a sua casa, do piso ao teto, acervo esse, em boa hora,
preservado pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
E deveria acrescentar que foi com enorme sacrifício, pois os escassos
recursos, com que contou ao longo da vida, impuseram-lhe sempre uma renúncia
a outros bens, a outras necessidades correntes, a que atribuía prioridade
menor, face à atração irresistível de adquirir este
ou aquele livro. Combativo, vigoroso, intenso em tudo que empreendia, Afrânio Coutinho
deixa uma esteira luminosa por onde passou: em nossa História literária,
no ensino de Literatura, na crítica, na direção da Coletânea,
em seu empolgamento quase juvenil pela teoria literária.
Ter sido recebido por Afrânio Coutinho, nesta Casa, constituiu para mim
motivo de orgulho e profunda satisfação. Suas primeiras palavras,
no já remoto 14 de junho de 1984:
"A nossa Companhia é de paz, ou melhor, é também
de combate, mas um combate paradoxalmente pacífico, porque a sua dinâmica
atua exclusivamente no mundo do espírito. É uma ação
pela cultura, pela Literatura, pela língua. A dos filhos de Santo Inácio
também mobilizava, de outro modo, os instrumentos espirituais, mas para
a ação temporal. Tanto que dela nasceu uma nova fase histórica,
hoje designada como a era barroca do século XVII. Da sua atuação,
transformaram-se artes e letras, maneiras de pensar e sentir, de vestir e ajardinar,
de construir igrejas e outros monumentos arquitetônicos. Estava fadada
a criar no Brasil um tipo de civilização cristã-comunitária,
nos moldes da que vinham os jesuítas construindo nas Missões,
não fora impedida pelo ciúme e falsa visão de estadista
de um ferrenho marquês metido a iluminista".
Afrânio deixa em seus amigos, nos que o conheceram de perto, o sentimento
de perda de alguém que sempre foi ele mesmo, autêntico, direto,
franco e leal. Todos nós aqui presentes, mestre Afrânio, lhe somos
devedores.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico ARNALDO NISKIER É difícil, é realmente muito difícil, para quem
conviveu mais de trinta anos de perto com uma pessoa, para quem amealhou tantos
conselhos, para quem se enriqueceu nesse convívio, falar, e ainda mais
de improviso, no momento em que se recorda a trajetória de um homem da
estatura de Afrânio Coutinho. Nós tivemos, antes da Academia Brasileira
de Letras, e já a partir de 1984 com ela, um convívio muito estreito,
em diversas passagens das nossas vidas.
Afrânio, com aquele jeito persuasivo, persuasório, queria imprimir,
de qualquer maneira, um livro enorme sobre Os fundamentos da Literatura Brasileira,
e não havia gráfica. E ele não compreendia que a Manchete,
tão grande, tão bem apetrechada, não pudesse fazer o livro
dele; não apenas não compreendia, como não admitia, ao
jeito próprio de Afrânio Coutinho. De tanto falar e de tanto conversar,
é natural que o livro tenha sido feito. Demorou um ano, foi feito já
na despedida das linotipos de chumbo quente, mas foi feito e aí está,
é uma obra-prima do pensamento literário do nosso país. Vi Afrânio brilhar, e Portella disse muito bem, no Conselho Federal de
Educação, onde convivemos seis anos. Sabem? Passar uma semana
longe de casa, todo mês, tratando de Educação, tratando
dos grandes problemas, das normas que regem a Educação brasileira.
Afrânio era considerado classe A em matéria de conselheiro. A ele
eram dadas as tarefas mais espinhosas, mais difíceis e que exigiam maior
experiência, que ele tinha.
E lembro o seu longo sofrimento, quando fez um parecer inesquecível,
de trinta e três laudas, sobre Língua Brasileira, um parecer aprovado
por unanimidade no Conselho Federal de Educação, e não
homologado pelo então ministro. A dor com que ele acompanhou essa rejeição,
o protesto permanente, aquele inconformismo de tanto tempo. Ele jamais tirava
isso da cabeça, parece que pisava em Brasília e lembrava: - O
meu parecer antológico sobre a Língua Brasileira não foi
aprovado. Pois, em 1986, Afrânio Coutinho reuniu a sua família. Eu, às
vezes, falava com Graça, às vezes, falava com Eduardo, outras
vezes, mandava recado pelo Fred, e ele apresentou um trabalho, que só
ele poderia fazer neste país, de levantamento de 12 mil nomes de escritores,
com referências às suas obras, às suas biografias, seus
apelidos, gênero literário, estilo de época. Doze mil! Sabem
o que é isso? Doze mil escritores, um trabalho que viabilizou o que hoje
é o Centro de Memória, e que nasceu gloriosamente, sob a inspiração
- hoje, eu digo - de Afrânio Coutinho, com o nome de Banco de Dados da
Academia Brasileira de Letras, acolhido, desde o primeiro momento, pela lucidez
extraordinária de Austregésilo de Athayde.
Este Afrânio que nós pranteamos era o homem bom, o homem solidário,
o homem que soube construir uma família, que soube ser paciente com esse
flagelo nacional que é a falta de apoio a projetos culturais, que, às
vezes, me chamava para ver os seus 100 mil livros, colocados em lugares até
impensáveis, dentro da sua casa, do que havia restado de aspecto de casa,
daquilo que era a Oficina Literária Afrânio Coutinho. Cursos e
mais cursos. E ele me dizia: - Não sei onde estava com a cabeça,
que comprei 100 mil livros, em vez de doar aos meus filhos este prédio,
transformar isso aqui num edifício, vender os apartamentos e nós
todos viveríamos à tripa forra. Mas não, fiz isso, fiz
essa besteira, agora não sei o que fazer desse imenso material.
E já se disse aqui que, em boa hora - porque ainda há pessoas
que merecem o nosso respeito -, o Instituto de Letras da Universidade Federal
do Rio de Janeiro acolheu a biblioteca oriunda desse sonho realizado de Afrânio
Coutinho.
Não devo me estender, porque são muitos os oradores, mas tenho
certeza de que é impossível que haver uma emoção
maior do que aquela que experimento hoje, ao me despedir, nesta sessão
de saudade, da figura extraordinária e exemplar do brasileiro Afrânio
Coutinho.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico EVARISTO DE MORAES FILHO - Lida pelo acadêmico Alberto
Venancio Filho. Apesar de formado em Medicina, desde jovem, dedicou-se Afrânio às
Letras, ainda no início da década de 40. Foram-lhe de grande proveito
os estudos nos Estados Unidos, por cerca de cinco anos. Fez estudos universitários,
secretariou a revista Reader's Digest e nunca deixou de escrever. Entrevistou
Jacques Maritain e dessa entrevista resultou um profundo ensaio, digno de pensar
filosófico, sobre o maior dos neotomistas deste século.
Vindo para o Brasil, dedicou-se aos estudos de sua Literatura e a divulgar
o New Criticism entre nós. A crítica literária encontrou
em Afrânio Coutinho um nítido divisor de águas, antes e
depois. Encontrou muita resistência e fez da polêmica sua arma principal.
Firme, severo, nunca furta-cor, fez escola e acabou por conquistar seu lugar
definitivo na teoria literária nacional.
Chegado de volta ao Brasil em 1947, no mesmo ano, foi nomeado catedrático
interino de Literatura no Colégio Pedro II. No ano seguinte, foi contratado
pela Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e, em 1951, mediante concurso
público de títulos e provas, ei-lo catedrático do Colégio
Pedro II. Desde 1951, ainda no Instituto Lafayette, fundou a primeira disciplina
de Teoria e Técnica Literária entre nós.
Com a compulsória de Alceu Amoroso Lima em 1963, hei-lo nomeado catedrático
interino de Literatura Brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia, tornando-se
vitalício em 1965 mediante concurso de títulos e provas. Ao ser
criada a Faculdade de Letras em 1968, com o desdobramento da Nacional em várias
outras instituições, é nomeado diretor, permanecendo nesse
cargo por mais de dez anos.
A sua bibliografia é imensa. Criou a Oficina Literária Afrânio
Coutinho (Olac), reunindo, segundo costumava declarar, cerca de 100 mil volumes.
A Olac foi um foco de estudo, de pesquisa e de divulgação cultural,
criando um sem-número de discípulos, prestando inestimável
serviço às Letras brasileiras.
Ingressou nesta Casa, coincidentemente, na data de sua fundação,
a 20 de julho de 1962, já com uma bagagem respeitável, e admirado
como mestre pela comunidade literária. Recebeu numerosos prêmios
de toda ordem, não devendo ser esquecido o do Moinho Santista.
Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte, de uma só palavra,
corajoso, não se furtando à polêmica quando necessário.
Amigo leal, estava sempre pronto a servir, não escondendo os seus sentimentos
verdadeiros. A tudo que fazia, entregava-se por inteiro, sem meias medidas ou
reticências mentais.
Mestre no que ensinava, especializou-se no estudo do barroco, sendo, talvez,
o maior conhecedor do assunto entre nós. Já a sua primeira tese
para o Colégio Pedro II, em 1950, versava a Literatura barroca, culminando
no magistral Do Barroco, (Tempo Brasileiro, 1994).
Dificilmente encontrará esta Academia substituto à altura de
Afrânio Coutinho, como caráter, talento e fonte criadora. O luto
de sua família é também nosso, de toda a Academia e da
Literatura brasileira. Só ficou o vazio.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico LÊDO IVO Para mim, é muito difícil falar sobre Afrânio Coutinho,
porque o conheci desde, praticamente, o mês em que ele voltou dos Estados
Unidos. Antes, na província, eu já tinha lido o seu livro de estréia,
A filosofia de Machado de Assis, e esse livro trazia uma nota nova porque ele
falava de um Machado de Assis desconhecido: o Machado de Assis leitor da Bíblia
e leitor de Pascal; Machado de Assis, um escritor com uma visão do mundo.
Logo depois de sua chegada, ele empreendeu uma das mais belicosas jornadas
literárias que ocorreram na nossa cena intelectual deste século,
que foi a renovação das normas críticas. Nesse sentido,
foi não apenas um crítico literário, mas também
um pesquisador e um historiador literário. Entendo que crítico
literário é aquele que se ocupa das nossas Letras, estejam elas
na Prosopopéia de Bento Teixeira Pinto, ou num romance de Geraldo França
de Lima.
Portanto, jamais aceitei a reserva que se fez a Afrânio Coutinho, a de
que não era um crítico literário, pela razão de
que ele não se ocupava da Literatura imediata, dos vient-de-paraître.
Embora ele defendesse, com unhas e dentes, uma crítica estética,
uma abordagem intrínseca da obra, essa posição teórica
nem sempre, a meu ver, se ajustava à realidade dos fatos, e isso pela
razão principal de que ele foi, também, um pesquisador e um historiador
literário voltado para o que ele chamava "a nossa tradição
afortunada".
Nesse sentido, ele não foi um José Veríssimo, por exemplo,
nem talvez um Araripe Júnior, foi mais um Sílvio Romero. Considero
Afrânio Coutinho o Sílvio Romero brasileiro do século XX,
assim como o Sílvio Romero foi o Afrânio Coutinho do século
XIX.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico CARLOS NEJAR Ele conseguiu unir o lado do homem das idéias, do pesquisador, com o
fazedor, e a prova disso é que há toda uma obra que ele deixou,
e que continuará além dele, porque ele conseguia tornar vivas
as suas idéias e conseguia,também, fazer coletivos os seus sonhos.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmica NÉLIDA PIÑON - Lido pelo acadêmico João
Ubaldo Ribeiro Poucos homens associaram-se, de forma tão intransigente, com os seres
que elegera amar. Raros empenharam-se em servir tanto à cultura brasileira,
às causas inspiradoras do seu ideal.
Agora que ele partiu, já não podemos, como nos últimos
anos, emocionarmo-nos com sua presença, quando, em sua cadeira de rodas,
comparecia à Academia, a cada quinta-feira. Trazido por Sônia,
devotada companheira que jamais lhe faltou, ele vinha, destemido, pronto a lutar
pela vida, pelo diálogo com os amigos, fonte de prazer para ele.
Fiel servidor desta Casa, exibia inusitado fervor a cada nova candidatura.
Aliás, seu caráter apaixonado sempre postulou com firmeza pelas
instituições a que se vinculara, pela amada Oficina Literária,
pela sua magnífica biblioteca, verdadeiro legado nacional, pelos padrões
civilizatórios brasileiros, pela sua obra crítica, empenhada por
inteiro em interpretar que psique ancorava na alma do Brasil, em dizer quem
somos, de onde viemos.
Desde que o conheci, julguei-o um modelo de lealdade. Alguém entregue
ao exercício da amizade, que constituía para ele um bem superior
do espírito. Assim, portanto, tornava-se honroso alguém ser eleito
objeto de sua afeição. Eu, pessoalmente, tive-o como mestre e
amigo, em diversas oportunidades. Em 1966, diretor da revista Cadernos Brasileiros,
fui sua assistente literária. Mais tarde, em 1970, diretor ele da Faculdade
de Letras da UFRJ, graças à sua visão progressista, inaugurei
um curso de Criação Literária, até então
inexistente no Rio de Janeiro. E, finalmente, julgando-me merecedora da ABL,
apoiou com firmeza minha candidatura.
Comove-me muito a notícia de sua morte. Custa-me acreditar que este
grande brasileiro afinal despediu-se, embora deixando-nos o legado de sua obra
e de sua crença na vida.
Até sempre, querido mestre e amigo. (Barcelona, 08 de agosto de 2000)
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico GERALDO FRANÇA DE LIMA É também para mim difícil relembrá-lo nestas palavras,
porque há momentos em que, por mais que queiramos ser objetivos, não
conseguimos. Lembro-me e não posso me esquecer da vibração
que senti, ao vê-lo no Colégio Pedro II, defendendo a sua tese.
A alegria com que eu lia a sua colaboração no Diário de
Notícias, onde aprendi, aprendi muito, aprendi demais. Ali na Faculdade, vi que era um homem de expediente, porque não era
um diretor teórico, um diretor acomodatício. Era um diretor atuante,
que ouvia aulas, chamava o professor e dizia o que tinha pensado. Afrânio
era excepcionalmente bom, um coração grande. Acaso contundente,
certas vezes, mas essa contundência era um dos pilares em que se assentava
o seu caráter diamantino, a sua franqueza, a sua total impossibilidade
de mentir, era um homem franco, era um homem sincero.
Lembro-me que me pôs numa comissão, para julgar um concurso de
Canto na Faculdade de Letras, aqui na rua do Chile. Todas as noites, lá
estava ele, era o primeiro que chegava, era o último que saía.
Sempre cuidadoso, excepcionalmente cauteloso ao dirigir aquela escola. Ali não
batia o pistolão gasto e desmoralizado e com força, mas ali estava
o que Afrânio queria: a essência, o trabalho e o saber. Era um homem
de franqueza, franqueza que se espelhava em todas as suas atitudes.
E como coroamento de sua obra, da sua vida, o extraordinário trabalho
sobre o barroco. O barroco para ele era uma espécie de essência
total. Sobre certos aspectos, se eu punha a imagem de Nabuco de que a civilização
do Brasil pegou de galho, não, para Afrânio ela nasceu realmente
com o barroco.
Tenho dele intensa saudade. Lembro-me - perdoai-me que diga isso - que foi
ele quem trouxe meu nome a esta Casa. Lutou loucamente - está sua excelentíssima
senhora, Sônia, aqui presente, como testemunha - por meu nome na sucessão
de Menotti del Picchia.
Afrânio era um homem bom, um homem honrado. O Brasil deve a ele a Faculdade
de Letras. O Brasil deve à Faculdade de Letras uma renovação
total de nossas Letras, não no sentido objetivo, nem no sentido subjetivo,
mas no sentido da prática de escrever, de ensinar, pois, como ele dizia,
"ensinar é comunicar, escrever é comunicar".
Penso que, para Afrânio, cabem estas palavras de São Paulo: Pax
et gloria omni operante bono.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico CANDIDO MENDES DE ALMEIDA Totalizante, diria Eduardo Portella, naquilo em que nós, às vezes,
nos esquecemos - presidente -, de que se há um gênero na vida do
espírito brasileiro, que tem nesta Casa, sem restos, toda sua concertação
moderna, essa é a nossa crítica literária. O triângulo
exóceles, não, o triângulo absolutamente eqüilátero
entre Tristão de Athayde, Afrânio Coutinho e o vértice final,
Eduardo Portella, aqui presente. Afrânio, com muita felicidade, repete
a característica que Eduardo lhe deu de crítico totalizante, como
Alceu, ainda no começo dessa revolução a que se referiu
o próprio Eduardo Portella, era denominado ainda de crítico expressionista.
Todos contra o que estava na moela do Impressionismo, o "achismo" na visão
de um proceder de juízo sobre a obra, naquela perspectiva mais desligada
do que seja, na verdade, a apreensão do seu valor trocado pela noção
da conduta do autor, pelas suas qualidades, pela sua axiologia de intenções.
Mas por que Afrânio Coutinho merece esta visão da crítica
totalizadora? Porque - presidente - ele é um fundador da nossa modernidade,
enquanto ele chega a esta visão perfeita de que o nacionalismo é
a consciência do que representa o país em emergência. Daí,
imediatamente, a simetria entre o que representa a sua noção desta
tradição, e ao mesmo tempo, a da descolonização
literária do Brasil.
No fundo, Afrânio já pressentia a noção das estruturas
sociais totais e conseguia definir, numa monografia primorosa, o nacionalismo
como fator da consciência cívica brasileira. Era a perspectiva
da estrutura social total, dentro da qual o Brasil se racha entre o velho Impressionismo
e a noção do desenvolvimento e suas causações. Mas
o importante é fixar, e eu queria fazê-lo em três perspectivas,
onde é que está o merecedor da visão totalizante, a que
se referiu Eduardo.
Em primeiro lugar, pela noção do tempo longo, pela noção
de ter, no nosso tempo histórico, encontrado uma constante do nacionalismo,
que ele analisa como um vetor desta consciência, num largo painel histórico.
Ele vai de Gonçalves de Magalhães até os modernistas, e
para fazer como que a contraprova desta visão larga, ele vai a Machado
de Assis, para buscar, seguindo a visão goetheana, a noção
de que, exatamente, só se pode ser regional, local, circunscrito, referido,
se, na verdade, nós estamos possuídos pelo universalismo. Não
é sem razão, que é por isso que Afrânio fala na filosofia
de Machado de Assis.
Mas há, ao lado disso, a noção da totalidade - presidente
Tarcísio Padilha -, Afrânio chegou até a cunhar um neologismo
duvidoso, se assim pudesse dizer, "os estilólogos", por quê?
Porque, em toda a sua noção da Literatura brasileira, ele vai
à noção da totalidade plena, ele vai à visão
scheleriana e splengeriana do estilo como última afinitude desse mesmo
global. Quem introduz na visão, no objeto formal da Literatura brasileira,
a noção do estilo e não da época, da mesma maneira
com que Afrânio explode ou implode o conceito de fato literário,
para trocá-lo pelo sentido como representação de uma cultura? Presidente, o que me parece muito importante nisto é que ele poderia
chegar à frase que ele vai bascar em Araripe Júnior, e depois,
em Capistrano de Abreu, que são seus proto-mensageiros do recado, naquilo
em que ele fala na obnubilação brasílica. Afrânio
é também preso, no melhor sentido obnubilação brasílica.
Ele vê exatamente o contexto já do nosso barroco, como aquela divisão
de águas, como aquele começo, de fato, do que pudesse ser a nossa
especificidade com cultura. Mas, ao lado disso, o epistemólogo, ao lado
disso, quem pôde entrar a fundo na distinção entre teoria
e crítica, e nos deu aquela inseminação rica do pensamento
trazido dos Estados Unidos, de Ronald Grain, Wolfgang Kaiser, de Welleg e de
Warrant, professores todos que, na época, estavam à sua volta
em Colúmbia e em Princeton, e dentro disso, ele nos consegue trazer já
uma política.
Quem, como Afrânio, entendendo esses postulados, defendeu mais a idéia
de que professor de língua portuguesa não pode ser professor de
Literatura portuguesa? Evidente que não é possível se conciliar
os dois lóbulos da compreensão desse espírito, e aí
desta perspectiva devolvida da visão americana, ele pôde chegar,
de fato, à noção profunda do New Criticism, e sobretudo,
nos trazer a distinção entre o Criticism e o Review, e mais do
que isso, chegar a entender que, no Brasil, o Criticism não poderia estar
mais dentro dos jornais, dentro das colunas, e envolvia, de fato, uma recolhida
aos bastiões da especialização. Já denotava por
aí, pelo fato de nós morrermos dessa contradição
da quase desaparição da crítica literária do cotidiano,
triste cotidiano brasileiro dos anos 90.
É evidente que, neste particular, insistindo sobre o aspecto epistemológico
da fundação de Afrânio, eu queria mostrar esta parentela
profunda com uma família do espírito. A gente se esquece que o
primeiro livro de Afrânio foi sobre Berdiaeff, e dentro disso, a associação
a toda aquela espiritualidade católica trazida por Alceu. Afrânio
vai, naquele momento fecundo - tantos dos irmãos aqui e colegas
já salientaram isso - Afrânio vai ser discípulo de
Maritain em Princeton. Afrânio voltando a essas origens e dentro disso,
procurando mostrar o que era aquela profunda síntese criadora, na sucessão
que é Afrânio no lugar de Alceu, na Cadeira de Literatura da antiga
Faculdade Nacional de Filosofia.
Presidente, são setenta e um títulos de Afrânio, que só
aqui na nossa biblioteca temos. E dentro desses títulos, sabemos o que
é aquela militância continuada do homem apaixonado, do homem corajoso
das suas opções e ciente de quanto poderia levar à exposição
a sua lucidez. Afrânio do legado, Afrânio da partilha, dessa partilha
em vida, em que ele nos deu aqui esse exemplo quase que de um casal etrusco,
que ele repartia com Sônia, nesta presença e nesta ligação
extraordinária da vida, eu diria quase que boca-a-boca, naquilo em que
a sua presença se multiplicava no cenário da nossa Casa.
Afrânio do legado, Afrânio que tinha tanto prazer ao se referir
à obra, como o artefato daquela biblioteca que mereceria até uma
fábula kafkiana, onde colocar a biblioteca que explodia a casa, e que
se desenvolvia em torno de um quarteirão, quase onde colocá-la,
senão ao serviço das gerações em que, finalmente,
teve paz esta preocupação fundamental e fundadora de Afrânio.
Meu presidente, nós todos sabemos o quanto este exemplo nos ronda e
nos assedia. Queremos agradecer, sobretudo, neste legado e nesta doação,
o que foi para nós a sua presença afortunada.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Com a palavra, o acadêmico Alberto Venancio Filho.
Acadêmico ALBERTO VENANCIO FILHO Afrânio Coutinho podia ter feito, certamente, esse trabalho sozinho,
mas preferiu fazer uma obra de colaboração, chamando um grupo
excepcional de pessoas, entre as quais, muitos acadêmicos como Josué
Montello, Adonias filho e Peregrino Júnior. Mas quero acentuar que, nessa
obra, ele não ficou no aspecto puramente literário e procurou
dar um caráter interdisciplinar ao seu trabalho, chamando para contribuir,
nesta empreitada, nosso saudoso confrade Afonso Arinos de Melo Franco, que discorreu
sobre Literatura e Pensamento Jurídico; Américo Lacombe, sobre
Literatura e Jornalismo; Evaristo de Moraes Filho, sobre Literatura e Filosofia;
e Fernando de Azevedo, A Escola e a Literatura.
E da obra literária de Afrânio Coutinho relembrando o que disse
Eduardo Portella, eu mencionaria As obras completas, de Araripe Júnior
e de Raul Pompéia, e várias edições de Obras completas
que ele fez para a Editora Aguilar, inclusive o trabalho notável dos
dois volumes de Euclides da Cunha. Quero crer que esse trabalho precisa ser
continuado, e nenhuma tarefa será mais importante para a Academia Brasileira
de Letras do que retomar esse esforço em homenagem a Afrânio Coutinho,
em benefício da Literatura brasileira.
Eu diria também que posso trazer agora uma novidade, que é falar
do Afrânio Coutinho escritor. Era um escritor primoroso, que se pronunciava
da maneira mais completa e absoluta. Tenho dezenas e dezenas de trechos das
suas obras, que poderia aqui citar, mas lembraria apenas, no seu discurso de
posse, a lembrança que ele faz de Salvador e do Rio. Começa a
dizer: "Vim de muito longe" e continua num texto da mais alta qualidade
literária. Queria também mencionar que, nesse discurso, ele faz
a redescoberta de Domício da Gama, antecessor de sua Cadeira, que estava
quase inteiramente abandonado; ele reconstitui, em poucas palavras, a figura
deste grande escritor e nosso confrade.
De Afrânio Coutinho, com quem convivi muitas vezes, queria lembrar um
livro: Impertinências, de 1990, que tem essa dedicatória maravilhosa,
que diz assim: "Sou produto de amigos", cita três amigos, e
depois diz: "Amigos que acreditaram em mim e que me deram os empurrões
da vida". Que coisa maravilhosa! Oitenta e oito anos, um homem da sua grandeza,
do seu prestígio, da sua reputação, se curvar humildemente
em face daqueles que o ajudaram durante a vida.
Ele foi um homem de grandes admirações. Eu me permitiria aqui
falar da sua admiração por Anísio Teixeira, com quem ele
trabalhou, que já escreveu páginas muito adequadas a esse respeito.
Costumo dizer, fazendo um pouco o caráter pessoal, que tive dois eleitores
póstumos na Academia: o saudosíssimo e queridíssimo amigo
Marques Rebelo e o meu mestre Anísio Teixeira. Candidato à Academia,
quando fui visitá-lo na sua casa na rua Paul Redfern, conversamos duas
horas sobre Anísio Teixeira, e saí de lá com os votos que
ele me deu para a eleição.
Queria, então, falar de dois episódios que pude presenciar, testemunhando
a grandeza desse homem e dessa figura admirável. Em 1951, ainda universitário,
assisti um concurso de Literatura para o Colégio Pedro II, no qual concorreram
Afrânio Coutinho, Álvaro Lins e Celso Cunha. Afrânio Coutinho
apresentava a sua tese sobre o barroco, que era uma grande novidade no Brasil,
diante de uma banca de altas figuras, entre as quais relembro os nossos saudosos
acadêmicos e confrades Abgar Renault e Afonso Arinos de Melo Franco. Esses
dois examinadores foram muito severos, dentro de toda elegância, contestando
as teorias que Afrânio levantava na tese, mas ele se saiu galhardamente,
e com isso ganhou a cátedra, que ele tanto estimava, no Colégio
Pedro II.
O outro episódio que quero também relatar, e com o depoimento
que posso dar muito pessoal, é sua figura como perito na ação
judicial que o escritor Rubem Fonseca propôs contra a União Federal.
O seu livro Feliz Ano Novo tinha sido apreendido, por contrário à
moral e aos bons costumes, pelo ministro da Justiça Armando Falcão.
Nessa época, vários autores tinham tido os mesmos problemas e
a maioria deles preferiu entrar em juízo através do mandato de
segurança, onde só se discutia o direito líquido e certo
do autor, isto é, se a Portaria de apreensão estava de acordo
com a Constituição, com as exigentes.
Rubem Fonseca preferiu um outro caminho, preferiu uma ação ordinária,
para provar que a sua obra não era contrária aos bons costumes,
e o juiz da Vara Federal que presidiu o feito teve a felicidade de convocar
Afrânio Coutinho para dar o laudo a respeito. Esse laudo é uma
obra-prima, embora pouco conhecido, foi depois publicado sob o título
de O erotismo na Literatura, onde Afrânio Coutinho faz uma distinção
entre a pornografia, a obscenidade e a obra de arte, um estudo que realmente
muito contribuiu para a sentença favorável que Rubem Fonseca recebeu
do Tribunal Regional Federal.
De modo que entre as poucas palavras ainda muito emocionadas que puder falar
sobre Afrânio Coutinho, quero dizer que foi uma grande perda para o Brasil
e uma grande perda para a crítica literária. Vamos sentir muito
a falta da sua presença, dos seus pronunciamentos incisivos e contundentes.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico JOÃO DE SCANTIMBURGO - Lido pelo acadêmico Carlos
Nejar. Vindo para o Rio de Janeiro, não para praticar a Medicina, mas para
se dedicar às Letras, foi professor de Literatura Brasileira, de Teoria
Literária, de História da Literatura Brasileira, sempre defendendo
a tese, de acordo com a qual a Literatura nacional amanheceu com o Brasil, contrariando,
portanto, a posição de colegas que defendiam, e alguns defendem
ainda, posição contrária.
Para bem se desincumbir de sua missão, pois Afrânio se revestiu
da veste do missionário, passou a adquirir livros, fazendo-o com o conhecimento
de quem tinha verdadeiro amor pela palavra impressa, cuja defesa sempre fez,
por nele ver o mestre mudo de que fala o padre Vieira.
Chegou a acumular 100 mil volumes, numa casa especialmente comprada com suas
economias de professor, para nela instalar uma Oficina Literária, a Olac,
que estava aberta e acessível a todos quantos quisessem consultá-la
e trabalhar em Literatura. Foi um grande, um extraordinário servidor
das Letras. Lembro-me de seu nome me chamar a atenção, nos idos
de 40, não sei se escrevendo dos Estados Unidos ou do Brasil mesmo, para
o venerando e já desaparecido grande órgão da imprensa,
o Diário de Notícias.
As Correntes Cruzadas de Afrânio Coutinho introduziram no Brasil a Nova
Crítica, superando o Expressionismo até então vigente entre
os comentaristas, com uma ou outra exceção, que me dispenso de
citar. As Correntes Cruzadas colaboraram na difusão na crítica,
como deve ela ser entendida e compreendida, isto é, da análise
da obra e de sua representatividade entre as demais obras em edição
e circulação.
Com a morte de Afrânio Coutinho, perdemos um amigo, um companheiro, e
o Brasil, um superior servidor das Letras.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico MARCOS ALMIR MADEIRA Toda vez, senhor presidente, que tenho de fazer o louvor de alguém,
me lembro daquela imagem do mosaico, mosaico de virtudes, de que falava Charles
Morgan. Desta vez, não vou tentar o mosaico, vou fixar-me naquilo que
me parece a qualidade mestra de Afrânio Coutinho, com que ele serviu à
Literatura, particularmente à crítica e ao Brasil, que foi a sua
condição de combatente. Aliás, no dia do seu sepultamento,
ouvimos no discurso do nosso secretário-geral, poeta muito perfeito,
uma imagem que me impressionou: "Ele foi um guerreiro". Exatamente
é o que me ficou, principalmente do Afrânio com quem lidei, inclusive
na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, quando tínhamos uma vizinhança
incômoda do DOPS.
Certa vez, encontrei Afrânio na porta da sua sala de aula, que co-vizinhava
com a minha - eu era de outro curso, Ciências Sociais - e aproximou-se
dele um cidadão com toda a aparência, com todo o aspecto de um
"tira" do DOPS, e perguntou a Afrânio: - O chefe não
vai dar aula hoje?- Diz Afrânio: - Vou, dependendo do senhor.- Como de
mim?- Dependendo da sua saída. Só darei aula, se o senhor sair
daqui.- O rapaz ficou muito encalistrado, percebi que estava acessível
a uma retirada, e levei-o pelo corredor afora.
Afrânio era realmente um combatente desarmado, o guerreiro, como disse
Nejar. O sentido da crítica, por isso, talvez estivesse nele; ele foi
o que devia ser, abraçou a crítica, a crítica estava na
sua têmpera, no seu caráter, na sua formação e na
sua preferência. A obra dele é, sobretudo, a obra do crítico,
do crítico em si mesmo, do crítico organicamente fiel à
sua tarefa. E por falar em tarefa, me lembro de Gilberto Amado, que dizia que,
"em todos os ofícios, é preciso aderir à tarefa".
Ele não só aderiu, como se apaixonou pela sua tarefa, ele não
fazia nada que não fosse intensamente, tinha essa densidade de convicção
e o prazer da luta, às vezes, da luta interior, da luta consigo próprio,
como disse certa vez a ele, "com apoio dele próprio".
Ele trabalhava apaixonadamente, às vezes em assunto áridos, mas
ele punha a paixão em tudo aquilo. Em suma, era um homem vibrante, um
homem que se apaixonou pelo seu trabalho. Diz o grande bibliófilo, nosso
amigo e amigo desta Casa, Mindlin, que ele não sabe fazer nada sem alegria.
Eu diria que Afrânio não fazia nada, que não fosse apaixonadamente.
Assim ele foi no livro, na tribuna das conferências, nas salas de aula,
inclusive quando provocava os alunos à controvérsia, ao debate,
e aí seguindo um pouco a mestria do nosso Anísio Teixeira, ao
prazer do diálogo, da polêmica.
De toda maneira, ele honrou a crítica, sobretudo, porque teve também
o mérito da síntese; ele tinha um grande poder de síntese,
que revelou inclusive nas suas crônicas. Tudo que ele escrevia era no
estilo enxuto. Hoje, a palavra está maculada pela gíria, mas ele
era enxuto, quer dizer, o estilo sem enxúndia, sem excessos, sem a gordura
do adjetivo. Afrânio era, portanto, um harmonioso escrevendo e, aliás,
Geraldo França de Lima creio que salientou isso também, as qualidades
do escritor.
Senhor presidente, gostaria de ir muito além, mas acho que os colegas
já disseram o suficiente. Apenas brindo em Afrânio Coutinho, o
combatente desarmado e o homem que trabalhou até o fim, por paixão.
Era o que tinha a dizer.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico JOÃO UBALDO RIBEIRO Este homem, posteriormente, por iniciativa dele, já uma eminência
nacional, me procurou, eu, um humilde desconhecido, jovem provinciano, e passou,
à distância, de modo geral - porque vivia ele no Rio e vivia eu
na Bahia - a me estimular, como se me tivesse visto nascer, como se fosse meu
padrinho ou até meu tio. Aprendi a me afeiçoar a este homem e
aprendi, subseqüentemente, a dizer sem o menor medo de exagerar, sem o
menor medo de cometer alguma hipérbole, que ele foi um dos nomes mais
importantes da cultura brasileira em todos os tempos. Afrânio Coutinho
foi um dos pilares da intelligentsia nacional e dificilmente haverá uma
figura como ele.
Quero também lembrar, por um dever de gratidão, que, com aquele
jeitão desabusado, mas terno no fundo, foi Afrânio Coutinho - como
aconteceu com outros confrades meus aqui - que telefonou, inopinadamente, para
a minha casa à noite e disse: - João Ubaldo, é Afrânio
Coutinho. - Eu, com cerimônia, o chamava de mestre, e disse: - Mestre,
que surpresa!- Ele falou: - Tome nota aí.- Peguei o papel e comecei a
escrever o que ele falava. "Excelentíssimo Senhor Presidente da
Academia Brasileira de Letras. João Ubaldo Riveiro apresenta..."
- delimitou a carta de candidatura ao então presidente Austregésilo
de Athayde, para a Cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, hipótese
que jamais me tinha ocorrido em toda a minha existência.
No dia seguinte, telefonei para ele, depois de ter pensado e disse: - Mestre,
eu pensei bastante, não tenho vocação para a Academia,
não tenho perfil de acadêmico.- Disse que não ia aceitar
a idéia... e não posso, dada a solenidade do ambiente, reproduzir
as palavras com que Afrânio recebeu essa recusa minha. Apenas posso aludir
ao fato de que minha família não se saiu muito bem nessa história
toda, nem eu próprio. E isso deflagrou o processo do qual participaram
vários confrades meus, a maior parte dos quais aqui presentes, que deram
prosseguimento à iniciativa tomada por Afrânio, que acabou por
me trazer a esta honrosa convivência e a este posto que não mereço,
mas que desfruto com honra e alegria.
Não posso, não tenho a eloqüência, nem a ousadia de
dizer a saudade pessoal que sinto do mestre Afrânio Coutinho.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico SÁBATO MAGALDI - Lido pelo acadêmico Ivan Junqueira A leitura do ensaio Conceito de Literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Livraria
Acadêmica, 1960) foi fundamental no preparo de meu primeiro livro, Panorama
do Teatro Brasileiro, publicado dois anos mais tarde. Ali está escrito:
"A literatura brasileira não nasceu com a independência política.
A sua autonomia estética nada tem a ver com a autonomia política.
Ainda hoje, está em curso. Mas a sua existência própria
é dos primeiros instantes, do primeiro século. Sob forma artística,
já a encontramos em Anchieta, consolidada em Gregório de Matos
e Antônio Vieira". Embora haja outros trechos significativos, que
seria ocioso citar, fixo-me nesta síntese: "A literatura brasileira
'formou-se' com o barroco. Com o Arcadismo-Romantismo, tornou-se autônoma.
Com o Modernismo atingiu a maioridade".
Examinei o teatro brasileiro, assim, a partir dos autos de Anchieta, representados
na segunda metade do século XVI. Se eles descendem dos milagres medievais
dos séculos XIII e XIV e dos autos vicentinos, só poderiam passar-se
no nosso território e destinar-se ao nosso público, sem esquecer
o indígena. Ninguém que se interessa por teatro deixa de reconhecer
que o canarino foi o fundador da cena brasileira.
Afrânio colaborou na formação do pensamento crítico
nacional em diversos outros estudos expressivos, a exemplo de Aspectos da Literatura
Barroca; Por uma crítica estética; Correntes Cruzadas; e Da crítica
e da nova crítica. Não bastando esse verdadeiro apostolado, ele
organizou a obra completa de muitos autores fundamentais, como Araripe Júnior,
Jorge de Lima, Machado de Assis, Afrânio Peixoto (os romances completos)
e Carlos Drummond de Andrade. Dirigiu A Literatura no Brasil, em quatro tomos,
aparecidos, inicialmente, de 1955 a 1959, e reeditados, recentemente, por iniciativa
da escritora Edla van Steen, pela Global Editora de São Paulo, reunindo
trabalhos de cerca de cinqüenta críticos. Mas é a obra básica,
no seu gênero, da bibliografia brasileira. E não se pode esquecer,
também, o enorme benefício cultural proporcionado pela Oficina
Literária Afrânio Coutinho, enquanto funcionou.
Lamentando a perda de um intelectual primoroso, só nos resta augurar
que as novas gerações de críticos e teóricos se
espelhem no seu exemplo.
Presidente TARCÍSIO PADILHA A compreensão que ele tinha por força desse conúbio,
que em sua mente se estabeleceu entre a Literatura e a Filosofia. Quero crer
que esta vizinhança filosófica andou permeando o seu processo
de construção interior, por maneira que ele pudesse harmonizar
as exigências, vamos dizer, factuais da Literatura, o pinçar da
realidade literária, o seu sentir e o seu pulsar, com esta outra visão
capaz de iluminar os caminhos mais longínquos do horizonte e da compreensão
humana. Acredito que ele, como dizia São Paulo, combateu o bom combate
no caso literário, e isto é dizer muito de um homem.
Não posso estender-me, porque são tantos oradores, mas quero
significar aqui a consciência da perda, da perda enorme, a perda descomunal
de Afrânio Coutinho. É difícil preencher essa lacuna. Por
isso, a Casa hoje se associa à família neste pranto, que é
um pranto do coração e da mente, por conseguinte, da cultura.
Com a palavra, o acadêmico Antonio Olinto.
Acadêmico ANTONIO OLINTO Senhor presidente, agora falando por mim mesmo, é preciso que se diga,
antes de tudo, que a crítica literária foi um gênero posterior,
como tinha de ser, a todos os outros. Todos os outros gêneros, tendo começado
pela poesia, pela tragédia, pela comédia, pelo romance, não
tiveram, ao longo dos séculos, um corpo de críticos que se dedicasse
a esse assunto É claro que, durante a Idade Média, criticava-se
nas Universidades. O próprio São Tomás de Aquino, poderíamos
dizer que foi um crítico literário, criticando obras da época
ou falando sobre obras da época. Mas só mesmo no século
XIX é que a crítica se instalou com Sainte-Beuve, como seu profeta
maior na França, e se preocupou em ler, analisar, estudar e escrever
alguma coisa sobre poesia, sobre romance, sobre História, sobre qualquer
obra que haja utilizado a palavra.
No Brasil, podemos dizer que começamos, de fato, com Sílvio Romero
que, contendo aquela formação germânica nada francesa, nada
sainte-beuvista, analisou o Brasil através de suas Letras, de um ponto
de vista inclusive nacionalista. E ao lado dele, depois dele, contrapondo-se
a ele, José Veríssimo, fazendo as suas "zeverissimações",
como alguém disse na época, usou, de certa maneira, uma poesia
impressionista. Até que chegamos à Semana de Arte Moderna, quando
o grande Tristão de Athayde, o grande Alceu de Amoroso Lima começou
a escrever sobre livros. A sua série de estudos é uma obra monumental
dentro da nossa Literatura. Entramos nos anos 20 e 30. A Revolução de 30 de Getúlio
Vargas mudou tudo, mudou a Literatura, mudou a crítica. As ligações
entre o que é a política e a vida social, a comida que se come
e a luta que se tem, o emprego que se tem, as brigas que se tem, formam uma
Literatura. E ao longo dos anos 30, a Literatura pululou, cresceu, fermentou
e surgiu um grande crítico da nossa terra, que foi Álvaro Lins.
Ele começou escrevendo sobre livros do Nordeste, ainda na sua vida do
Recife, até vir para aqui montar a sua Cadeira de Crítica Literária
no Correio da Manhã.
Veio a guerra, que também mudou tudo ou mudou o que tinha que ser mudado.
E logo depois da guerra, é que surge Afrânio Coutinho. O ano decisivo
é o de 1948, quando ele começou a sua crítica em jornal.
Na mesma época, no mesmo ano, ele no Diário de Notícias,
hoje inexistente, e eu no Globo, com a minha Porta de Livraria, começamos
a ler os livros que vinham, então, num grande número, porque era
a época da euforia, não havia mais guerra, não havia mais
bombas sendo atiradas pelas grandes cidades européias. Não terminaram
os conflitos, mas aquela idéia de uma guerra mundial e da destruição
do mundo tinha se apaziguado, e nós podíamos de novo escrever
poesia, romance, embora continuando a lutar por um mundo melhor.
E foi aí que ele se destacou. Ele se destacou não só como
um crítico, mas como um analista minucioso da nossa cultura. Com ele,
tive seis meses de convivência na Universidade de Colúmbia, em
Nova York, por volta de 1965/1966. Eu era professor visitante, dando um curso
de Ensaística Brasileira, e ele dava um curso longo na Universidade,
muito freqüentado, inclusive por professores de outras matérias
que iam às aulas dele. Ele falava um inglês correto; diga-se que
os críticos anteriores eram mestres no francês, o que era natural,
a nossa cultura era francesa. Somente com a guerra e a predominância dos
Estados Unidos, como possível potência mundial, dessas coisas que
são transitórias, que sobem e caem, é que o inglês
se tornou normal.
Lembro de uma coisa espantosa, quando um dia Afrânio me disse - havia
um livro famoso na época, Seven types of ambiguity (Sete tipos de ambigüidade),
que ele queria muito trazer para o Brasil, para os seus alunos. Ele pegou o
livro - não tínhamos ainda o computador e mesmo as máquinas
de escrever não eram tão comuns - e traduziu à mão
o livro inteiro, só para usar em aula. Nem era para publicação.
Com aquele entusiasmo com que ele fazia tudo.
Quero inventar uma frase para ele, uma frase que ele diria ou poderia ter dito.
Se, para Fernando Pessoa, "minha pátria é a língua
portuguesa", para Afrânio Coutinho, ele podia dizer: "Minha
pátria é a Literatura Brasileira". Era o que o movia, o que
o entusiasmava, o que o levava para a frente. Não tinha outro assunto,
não tinha outra preocupação na vida, a não ser a
Literatura Brasileira. E é claro que tudo que vinha de fora podia ajudar
a Literatura Brasileira. As novas teses do New Criticism e uma crítica
nova podiam ajudar.
Este foi o homem que, ao longo de todo esse tempo, nos alimentou em matéria
de crítica. Quero, na presença de Sônia Coutinho, a mulher
dedicada que esteve com ele o tempo todo, dizer: foi um grande homem, Sônia,
que viveu ao teu lado - usando o tu. Foi um grande homem que acompanhaste e
amaste, um grande crítico, um grande escritor.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico CELSO FURTADO Não sou uma pessoa indicada para comentar a obra de um homem como Afrânio
Coutinho. Sou suficientemente lúcido para saber que ele era um grande
homem de Letras, que realizou uma obra invejável por todos que pensam
no Brasil, mas que exige um conhecimento, particularmente, no que diz respeito
aos métodos da crítica, que aqui só os acadêmicos
estão preparados para isso. Não sou um acadêmico homem de
Letras, estou aqui um pouco caído de pára-quedas, um pouco intruso. Portanto,
a minha opinião é a opinião do homem comum, dizendo como
o homem comum pensa; o homem comum, que sou eu, pensa através de suas
reações correntes, que são, muitas vezes, resultado do
acaso.
Fui professor nos Estados Unidos e lá fui contemporâneo de Afrânio
Coutinho. Em 1967, estávamos os dois na mesma Universidade, visitei muitas
outras Universidades americanas por essa época, e me recordo das conferências
que ele pronunciou na Colúmbia, porque a repercussão era considerável
entre os estudantes. Os estudantes, sabendo que eu era brasileiro, vinham me
felicitar por esse scholar de primeiro nível, esse homem tão completo
e tão lúcido que representava a cultura brasileira. Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico padre FERNANDO BASTOS DE ÁVILA Pela minha formação, fui muito ocupado, durante muito tempo,
pela cultura clássica greco-latina, de sorte que não tive o ensejo
de conhecer, oportunamente, a obra de Afrânio Coutinho, quando fui seqüestrado
por amigos para vir participar desta Academia.
Conheci Afrânio Coutinho já no meu ocaso, e eu o conheci no seu
ocaso, quando Sônia o introduzia por aquela porta, e o sentava direitinho
naquele canto, para ele participar de nossas sessões. Foram poucas as
vezes que tive oportunidade de um contato com ele. Infelizmente, estava de viagem
no sábado passado, estava fora do Rio de Janeiro, quando, no noticiário
da noite, ouvi a informação da morte dele e fiquei profundamente
consternado da minha ausência, porque, apesar de sermos imortais, já
acompanhei a morte de seis imortais. Queria estar aqui para a missa de corpo
, e não podendo, falei com Sônia ao chegar, apresentei-lhe, com
os meus pêsames, a explicação da minha ausência. Ela
compreendeu. Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico EVANDRO LINS E SILVA Era uma figura ímpar e de prestígio intelectual no país
inteiro. Estou na situação de Celso Furtado de um pouco intruso
nessas comemorações, mas o faço com a maior emoção,
por uma razão: porque verifico na vida de Afrânio que ele foi um
colecionador de livros, e no fim da vida, o filho dele escreveu sobre a constituição
da sua Oficina de Literatura.
Já falei em biblioteca, a paixão que a vida inteira perseguiu
este infatigável pesquisador, consumindo-lhe os recursos, e que parecia
com sua atividade intelectual. Passo agora a mencionar uma de suas obras mais
recentes, exemplo máximo de generosidade, desprendimento e expressão
do espírito idealista e grandioso que sempre norteou a vida deste homem:
a socialização de sua biblioteca particular de cerca de 100 mil
volumes, criteriosamente selecionados, através da criação
no ano de 1979, em sua casa residencial em Ipanema, da Oficina Literária
Afrânio Coutinho.
Realmente, ele não só foi um homem de cultura; deixou uma obra
em que ele se perpetuará, se imortalizará como um semeador de
cultura, porque deixou, depois de morto, a sua biblioteca à disposição
dos estudiosos, pesquisadores, para nela se abeberarem e conhecerem um grande
escritor, que representou um papel muito importante no país, e cuja morte
hoje todos lamentamos. Na realidade, pode-se dizer de Afrânio Coutinho
que ele foi um semeador de cultura.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico MURILO MELO FILHO Há quatro anos, quando fui visitar Herberto Sales na Clínica
São Vicente, ali já encontrei internado o nosso querido Afrânio
Coutinho, tendo ao lado sua família e sua mulher, Sônia, uma grande
heroína. Ao longo de todos esses meses, seu estado de saúde agravou-se
sempre, com intermitência de ligeiras melhoras, até chegar ao desenlace
desta semana.
Senhor presidente, Afrânio foi sempre o inexcedível mestre e renovador,
catedrático e dicionarista da Literatura Brasileira, autor, entre outras,
de muitas obras importantes sobre Tristão de Athayde, sobre o humanismo,
sobre a filosofia de Machado, sobre o Colégio Pedro II, sobre Clementino
Fraga e Jorge Amado. Foi também o editor da revista Ariel, o professor
visitante da Universidade de Colúmbia em Nova York, a que já se
referiu, há pouco, o nobre acadêmico Celso Furtado. E o conferencista
aplaudido das Universidades de Vanderbilt, Houston, Los Angeles, Buerkeley,
Stanford e Georgetown, nos Estados Unidos, e de Colônia, na Alemanha.
Pertenceu a esta Academia durante trinta e oito anos, elegendo-se para a Cadeira
nº 33, patrocinada por Raul Pompéia, fundada por Domício
da Gama, e ocupada, sucessivamente ,por Fernando Magalhães e Luís
Edmundo. Seu filho Eduardo Coutinho, aqui presente, quando entrou no nosso PEN
Club, foi saudado pelo próprio pai e transcreveu, no discurso de posse,
a frase de Alceu Amoroso Lima que definiu Afrânio como "o Copérnico
das Letras Brasileiras". Faltava pouco tempo para que, no próximo
mês de março, ele completasse os seus 90 anos de vida.
Afrânio, senhor presidente, foi um incomparável estóico
diante dos penosos males que o afligiam, como se fosse um discípulo dizer
não, na doutrina do pórtico. Teve espírito firme e panteísta
para enfrentar uma sofrida enfermidade. Seu panteísmo identificava o
mundo como uma grande realidade subordinada no processo de Deus, segundo a ética
de Baruch Spinoza. A moral de Afrânio obedecia à razão e
ao esforço diário para permanecer resistente à sua dor.
Enquanto o coração suportou o sofrimento de uma cruel doença,
ele batalhou até o último sopro de vida, como o excepcional combatente,
que nos legou admirável exemplo de muito amor e de muito apego pela existência
humana.
Descanse em paz, querido confrade e doutor Afrânio dos Santos Coutinho.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico AFFONSO ARINOS DE MELLO FRANCO Afrânio entregou-se totalmente à crítica e à História
literárias, bem como à organização de edições.
Seu amplo preparo cultural somava-se a uma orientação doutrinária
impessoal e objetiva. Lembro-me de Afonso Arinos, envolto em mil batalhas políticas,
mas aspirando sempre à paz dos livros, a dizer-me, como invejava o amigo,
que podia dar-se ao luxo de só ler os suplementos literários,
pondo de lado o restante dos jornais.
Já o educador fez do ofício, não só instrumento
de formação cultural, como também obra de criação.
A visão que tinha da crítica era a de "uma disciplina racional
próxima à Filosofia, e exercendo-se conforme as regras do raciocínio
lógico-formal". Gerações de alunos, colegiais e universitários,
ficaram a dever-lhe a própria vocação. Dirigiu ainda, por
longos anos, a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
onde se encontra, hoje, sua imensa biblioteca, antigo núcleo da Oficina
Literária Afrânio Coutinho, com que ele, generosamente, apoiou
tantos estudantes e professores. Congressos de Literatura, em várias
cidades brasileiras, foram também beneficiados por essa atividade incansável. Por outro lado, essas permanências prolongadas fora do país, para
aprender e lecionar, só viriam acentuar o seu nacionalismo. "Sejamos
brasileiros - escreveu -, vejamos e sintamos tudo como brasileiros (...). Aperfeiçoemos
a nossa expressão, o nosso caráter. Ao invés de imitar,
criemos. (...) Cumpre-nos a nós conhecer o nosso Brasil."
Ao tomar posse aqui, ele diria que "defronta-nos atualmente apenas um
dilema: ser brasileiros ou antibrasileiros. (...) O que nos interessa é
o Brasil, é dar solução brasileira aos nossos problemas,
(...) é pensar o Brasil, afirmá-lo, consolidar-lhe as forças
vitais, harmonizar-lhe a vida interior, favorecer uma existência feliz
e confortável, livre de sofrimentos e angústias, para o povo".
Mais adiante, afirmaria que "o Brasil está aí para que o
pensemos, brasileiramente. Cabe à crítica literária uma
função, que, sobre ser literária, isto é, exercer-se
no contexto literário, não é menos brasileira, porquanto
deve orientar-se para o Brasil, concorrendo para consolidar a sua cultura."
Lamentava, porém - e a advertência guarda toda a atualidade -,
"no atual estágio, (...) certa defasagem entre o progresso material
e intelectual e o das instituições políticas e administrativas".
Pioneiro dos estudos de teoria e técnica literária entre nós,
deixou vasta produção nos jornais e revistas. Autor de extensa
bibliografia, versou, com a mesma competência, do barroco à filosofia,
de Machado de Assis a Daniel Rops. E, ao estudar a obra deste historiador francês
da Igreja Católica, demarcou o terreno espiritual onde pisava, afirmando
que "o mundo e o homem perderam a alma, esquecendo-se de Deus".
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico CARLOS HEITOR CONY - Lido pelo acadêmico Arnaldo Niskier. "Não lembro a data, foi nos meados dos anos 70. Até então,
conhecia e admirava Afrânio Coutinho pela sua atividade crítica,
uma crítica conceitual, bem equipada por sólida cultura e apaixonada
fidelidade à Literatura.
Naquele ano, ele voltava de uma viagem à Itália, e me procurou
com dois artigos que escrevera e desejava ver publicados. Eram, os dois, sobre
o barroco italiano, ele que já era mestre no barroco brasileiro. Nem
precisei ler os artigos para compreender o que se passava dentro daquela sensibilidade,
que abandonava a crítica e se entregava, puramente, entusiasticamente,
ao fenômeno do Belo - o esplendor da verdade, segundo Platão.
Afrânio me descreveu suas visitas à Igreja onde se encontra, talvez,
a maior obra de Gian Lorenzo Bernini, o Êxtase de Santa Teresa. Numa cidade
de tão fundas camadas históricas, onde o genial escultor napolitano
deixou a monumentalidade de sua obra, Roma Bernini hà fatta - ele me
lembrou, na ocasião - Afrânio descreveu num estilo barroco, que
eu lhe desconhecia, o impacto que comparei ao que sentiu Sigmund Freud quando
viu, pela primeira vez, a colossal estátua do Moisés, de Michelangelo.
Então, não mais ali estavam o crítico consagrado e o autor
que hesitava entre o jornalismo e o romance. Os dois se tornaram irmãos
no culto àquele êxtase eternizado na pedra. Afrânio destacava
a mão de Santa Teresa apertando o ventre de mármore, tirava conclusões,
que eu prontamente aceitei e adotei para uso próprio.
Mais tarde, já no Conselho Estadual de Cultura, fomos colegas e tínhamos
como assunto preferencial o amor comum que nos uniu: Afrânio sempre falava
do barroco baiano, sem desdenhar o barroco mineiro. Apesar da idade, com a saúde
já em declínio, ele se renovava com entusiasmo, diante do esplendor
da verdade.
Seu último voto, elegendo um novo acadêmico, foi para mim. Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico IVAN JUNQUEIRA Esta é a segunda vez que me vejo na circunstância de ser o último
da fila e, conseqüentemente, já não há praticamente
mais nada a dizer a respeito do homenageado. Tudo de importante já foi
dito e repetido. Mas, como é bom repetir para que ninguém esqueça,
gostaria de tocar num ponto que tem muito de perto com a minha formação
literária.
Acho que não será exagero dizer-se que há uma crítica
literária antes e depois de Afrânio Coutinho neste país,
porque vínhamos de um Impressionismo e talvez até de um Expressionismo,
que datava do início do século, havíamos passado por uma
certa bagunça modernista, que nunca conseguiu definir com clareza quais
os fundamentos da crítica literária que chegou a praticar, se
é que chegou, e mais ou menos na metade do século, a nossa herança,
em termos de crítica, era algo de problemático e duvidoso.
O aparecimento de Afrânio Coutinho é assim fundamental para quem,
na segunda metade do século, haveria de se dedicar não só
à crítica literária, mas também à teoria
literária. E, nesse particular, Afrânio Coutinho foi tão
pioneiro quanto foi na outra. Quando Afrânio traz para o Brasil a Nova
Crítica, ou seja o New Criticism anglo-americano, ele traz para a nossa
prática cotidiana, uma nova visão de análise do texto literário,
porque ele instaura no Brasil o que, pouco depois, também haveria de
fazer Óton Moacir Garcia, o que os ingleses então definiam como
o grown reading, quer dizer, a leitura cerrada do texto. Não haveria
mais, a partir daquele momento, que se pensar que alguma coisa estivesse fora
do texto analisado.
E é essa a grande novidade que Afrânio Coutinho traz, pelo menos
para uma pessoa como eu, que, desde os primeiros momentos de produção
literária, se preocupou muito com o ensaísmo e com crítica.
Talvez exatamente porque a minha primeira condição fosse a de
poeta, e sendo a de poeta, não vejo como entender nem a própria
poesia que escrevo, e muito menos a poesia que os outros escrevem, senão
a respeito dessa atividade crítica, que passei a considerar como uma
espécie de atividade de criação paralela.
Então, creio que a Afrânio Coutinho devo basicamente essa lição,
uma lição que não é pequena, e que se cristaliza
entre 1940 e 1960, através da publicação de obras absolutamente
fundamentais, como é o caso da Filosofia de Machado de Assis, Aspectos
da Literatura Barroca, O ensino da Literatura, Correntes Cruzadas, Por uma crítica
estética, Da crítica e da nova crítica, A crítica,
Introdução à Literatura no Brasil, e do monumental conjunto,
em quatro alentados volumes, que é A Literatura no Brasil.
Creio que a Afrânio Coutinho, não apenas nós que fomos
seus confrades, mas, sobretudo, aqueles que se debruçam sobre a Literatura,
devemos esta lição. É exatamente essa lição
que quero louvar, lamentando - como todos nós aqui presentes -
essa perda que, usando um adjetivo já gasto, "é irreparável".
Presidente TARCÍSIO PADILHA Acadêmico OSCAR DIAS CORRÊA Sabe Vossa Excelência, senhor presidente, sabe a Casa, a dificuldade
com que me refiro ao companheiro morto. Pensei em não vir a esta sessão,
mas meu dever era estar aqui. Redigi por isso uma única frase, que nada
tem de original, mas que é apenas a idéia que a vida de Afrânio
Coutinho me inspira: "A História se lembrará de muitos, mas
a glória coroará a poucos com os louros da perenidade e da lembrança".
Entre eles, senhor presidente, não tenho dúvida de que estará
fulgindo Afrânio Coutinho, pela obra que realizou e que todas as gerações
hão de estudar para conhecer as próprias origens e tradições
e orgulhar-se delas.
Senhor presidente, esta é a minha palavra de saudade.
Presidente TARCÍSIO PADILHA Segundo, quero dizer que assumimos, de pronto, dois compromissos: um, o de
fazer chegar às mãos dos familiares de Afrânio Coutinho
o texto retirado da gravação de todos esses vinte e seis pronunciamentos;
e um outro, em que me adianto um pouco, porque sei que o plenário me
apoiará, que será a reedição da Enciclopédia
da Literatura, de Afrânio Coutinho.
Senhores acadêmicos, agora o aspecto protocolar formal. Declaro vaga
a Cadeira nº 33, que tem como patrono Raul Pompéia, teve como fundador
Domício da Gama, e sucessores: Fernando Magalhães, Luís
Edmundo e Afrânio Coutinho.
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