SESSÃO SAUDADE DE AFRÂNIO COUTINHO
10/08/2000






Presidente TARCÍSIO PADILHA
Senhores acadêmicos, hoje será nossa Sessão de Saudade em memória do acadêmico Afrânio Coutinho. Solicitaria dos senhores acadêmicos a dispensa da leitura da Ata da sessão anterior, para que nos voltemos inteiramente à memória do acadêmico desaparecido.

Quero consignar a presença de familiares de Afrânio Coutinho, cujo longo percurso nesta Casa deixou marcas que são indeléveis, o que será, evidentemente, objeto dos sucessivos pronunciamentos dos senhores acadêmicos, o primeiro dos quais, o nosso decano, acadêmico Josué Montello, a quem concedo a palavra.

Acadêmico JOSUÉ MONTELLO
Senhor presidente; meus companheiros.

É para mim uma certa dificuldade, senhor presidente, falar sobre Afrânio Coutinho. Não pela inexistência de motivos fundamentais para tratar dele, e sim, pela carga emocional que o nome e a obra de Afrânio Coutinho trazem neste momento à minha imaginação e às minhas lembranças. De tal modo ele está amalgamado ao meu passado nesta Casa, de tal modo ele está associado à minha melhor admiração, que fico perplexo entre buscar um assunto em que me possa alongar, e ao mesmo tempo, tentando suplantar as emoções, que neste momento me acodem, por força do longo convívio com Afrânio Coutinho.
Devo ser aqui nesta Casa o remanescente, a última figura do seu concurso, quando se incorporou ao ensino superior de Literatura aqui no Rio de Janeiro. Guardo comigo a lembrança de ter integrado uma comissão examinadora, em que figuravam alguns dos meus mais queridos amigos, como Thiers Martins Moreira e Celso Cunha. Estive presente neste exame de Afrânio Coutinho, de antemão, sabendo que o que eu iria dizer dele como recurso intelectual, como o resultado da apreciação da sua tese de concurso, daquilo que constituía a sua presença física como professor e de grande mestre, tudo aquilo se associava no meu espírito de tal modo, que o fato de que ele sucederia a Alceu Amoroso Lima naquela cátedra chegou no seu momento próprio, porque Afrânio Coutinho já trazia em si, pela realização da sua obra, notadamente pelos seus estudos sobre o barroco no plano literário, tudo isto fazia dele, associado naturalmente a uma certa combatividade perene, que era da sua constituição e do seu feitio, tudo isso se amalgamava no meu espírito, trazendo em mim a dificuldade natural, para dizer dele tudo aquilo que gostaria de exprimir naquele instante.

Por ocasião de seu concurso, pelo fato de ser, ao tempo, hélas, o mais novo de todos, coube-me a oportunidade de ir ao quadro negro e escrever as notas finais, e quando coloquei - em primeiro lugar, por ter sido o primeiro dos examinadores - aquele 100 correspondente, e ia repetindo, ao mesmo tempo, aquela apreensão de Afrânio Coutinho ia desaparecendo do seu espírito, para, no fim, ele pessoalmente participar das próprias palmas que nós dávamos a ele, tal a explosão do seu entusiasmo naquele momento.

Isso tudo, senhor presidente, diz bem daquilo que ele era, daquilo que ele seria também nesta Casa, como uma das suas mais altas figuras. Mas quem examina o passado de Afrânio Coutinho pode perfeitamente caracterizar a evolução de uma transformação que se processa, não apenas na arte de bem ensinar Literatura; também, sobretudo, na arte de participar de uma transformação da crítica que, ao tempo, se voltava mais para o texto, em vez de ser para a personalidade literária, que fora vigente até aquele instante.

Ele faz essa transformação e consegue, pelos seus livros sucessivos, aglutinar também outros trabalhos. Eu próprio tive oportunidade de escrever dois longos estudos a seu pedido, para uma das publicações que ele então dirigiu e coordenou, como plano geral de uma nova História da Literatura Brasileira. Isto diz bem a Vossa Excelência, aos meus confrades, sobre a carga emocional que tenho neste momento, ao me lembrar do querido amigo, do grande companheiro, do mestre, podemos dar essa palavra, e dizer que, na sucessão de Alceu Amoroso Lima, na sua grandeza, na sua polivalência, ele conseguiu ser, realmente, uma figura que estava à altura daquela que ele próprio sucedia.

Daí, senhor presidente, naturalmente, nós teremos mais adiante, pelo resto da vida, de recordar sempre Afrânio Coutinho, que recebeu seu nome pela presença de Afrânio Peixoto, cuja família se identificava também com ele. Eu que tinha sido o grande amigo de Afrânio Peixoto nesta Casa, que havia recolhido dele algumas das lições fundamentais da minha vida, pude encontrar em Afrânio Coutinho, no seu momento próprio, no momento em que entrou nesta Casa, não somente a oportunidade de lhe dar o meu voto, mas de lhe dar, por toda a vida, o meu aplauso.

Vossa Excelência pode compreender a carga emocional, que faz com que eu fique a um passo daquela emoção que se derrama no nosso rosto, para dizer aos meus confrades e aos meus amigos que, pelo resto da vida, incorporarei a mim próprio as saudades do companheiro.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Eduardo Portella.

Acadêmico EDUARDO PORTELLA
Senhor presidente; senhores acadêmicos; família de Afrânio Coutinho, tão bem representada aqui por Graça, por Eduardo, por Sônia, essa tão dedicada companheira, e também por Fred, o meu afilhado.

Devo dizer que, em relação a Afrânio, experimento uma sensação tríplice de perda: a perda do amigo, o amigo afetuoso e pontual, o militante da amizade, porque Afrânio não é daqueles que nasceram para ser amigos bissextos. Eles se dedicam realmente à causa da amizade. Ao mestre que encontrou sendas abertas por ele, quando aqui chegou para trabalhar no mesmo métier, e ao colega com quem aprendi, quotidianamente, lições que foram alargando a minha compreensão dos homens e das coisas, das suas formas e das suas Letras.

Afrânio significa um momento de transformação na crítica brasileira. Quando ele regressa dos Estados Unidos, trazendo todo um conjunto novo de referências teóricas, ele começa a escrever uma coluna semanal, e essa coluna era precocemente uma cátedra. Ele ali ensinava, ensinava uma Literatura que não era a Literatura mais ou menos vigente até aquele momento. As referências do acervo crítico de então se mostravam bastante limitadas, diante dessa presença avassaladora de Afrânio, que vinha dos Estados Unidos com um repertório de idéias rigorosamente novas e procurava com elas pensar a Literatura.

Há quem me identifique com Afrânio, nesse esforço de transformação. É uma injustiça com Afrânio e um elogio excessivo para mim. Quando eu cheguei à batalha campal que se travara entre o impressionismo agonizante e uma modalidade de transformação da compreensão, que se chamou, na época, de Nova Crítica, à maneira americana, já encontrei praticamente o campo calmo. Afrânio havia ganhado sozinho a batalha, fui apenas um beneficiário da sua capacidade de lutar. Ele trazia o rigor quase científico da Nova Crítica; eu, apenas uma maneira de olhar, que privilegiava as façanhas do estilo. De qualquer maneira, se estabeleceu entre nós uma fraternidade muito grande, que é um dos patrimônios pessoais que guardo com mais rigor, com mais capacidade de valorização.

Deve-se destacar também em Afrânio o pesquisador. Ele foi o cuidadoso pesquisador, o generoso pesquisador, aquele que sai de dentro de si para viver a experiência do outro. Com isso, ele conseguiu reunir alguns volumes da crítica, textos dispersos de Araripe Júnior, aquele terceiro grande crítico da grande tríade de José Veríssimo, Sílvio Romero e Araripe Júnior, provavelmente, o mais esteticista ou o mais tocado pelos apelos estéticos.

Ele também reuniu, em alguns volumes, a crítica de Nestor Victor, que é, sem dúvida, o crítico do Simbolismo brasileiro. Amigo de Cruz e Sousa, teve acesso ao movimento, desde os seus dias iniciais, e reuniu com muito critério e com muita vontade crítica. Posteriormente, fez a mesma coisa com Raul Pompéia. Eu estava numa função pública e pude ajudar esse empreendimento. E então, escrevendo alguma coisa sobre ele, eu disse uma frase que Afrânio preferiu absorvê-la no próprio volume. Eu disse: "Afrânio Coutinho transformou Raul Pompéia, autor de um livro, no autor de uma obra". Pompéia tinha apenas acessível O Ateneu; depois do Afrânio, passou a ter doze volumes.

Em seguida, há um documento fundamental para quem quer debater a consciência da nacionalidade, naqueles momentos complexos, às vezes patrióticos, às vezes excessivos da nossa nacionalidade, que é a polêmica Alencar/Nabuco. A essa outra pesquisa do Afrânio, nós devemos uma revelação de como se pode fazer polêmica mantendo a civilidade, porque tanto Alencar, como Nabuco, eram duas figuras realmente tocadas por essa cultura da civilidade, essa cultura da polidez.

Em seguida, Afrânio nos chega com seu A Literatura no Brasil. É uma maneira nova de ver a Literatura brasileira. Era a primeira História literária desindividualizada, até então, as Histórias tinham proprietários, um proprietário. A partir de Afrânio, a História passou a ser o resultado de um olhar que liderava as peripécias do literário, mas também de um acompanhamento, de uma parceria, de uma cumplicidade extremamente enriquecedora. Aí Afrânio trouxe, para a compreensão da Literatura brasileira, uma contribuição crítica que se perdera no tempo, que é a idéia do barroco. A Literatura brasileira, muito caudatária da tradição francesa, supervalorizava o Neoclassicismo, e nessa supervalorização do Neoclassicismo de base, sobretudo francês, não ficava espaço para a compreensão daquela eclosão inusitada, e às vezes insólita, que era o barroco. Foi Afrânio que nos chamou a atenção e trouxe para nós, para o nosso convívio, daí por diante definitivo, a noção de barroco.

Depois, vi Afrânio na cátedra, sucedendo Alceu Amoroso Lima, o seu memorável concurso. Afrânio foi um professor exemplar, cuidadoso, levava os livros para a aula, emprestava aos alunos, coisa que foi, cada vez mais, se tornando rara.

Em seguida, pude vê-lo na gestão universitária, no momento da dissolução da velha Universidade do Brasil. O Instituto de Filosofia da Antônio Carlos era composto de uma série de unidades, das mais diferentes procedências, Ciências Exatas, Ciências Históricas. Afrânio proclamou o 7 de Setembro da Faculdade de Letras. Fui ali um modesto colaborador desse 7 de Setembro. Com isso, ele abriu uma frente de trabalho para os professores de Letras, que são, em geral, muito discriminados pela voracidade do mercado de trabalho. Com ele, fundamos o primeiro programa de pós-graduação em Letras em nível de mestrado e doutorado, em todo o Brasil. E num posto que pude exercer por algum tempo, tive a alegria de nomeá-lo para o Conselho Federal de Educação, onde ele deu uma contribuição técnica, étnica, como ele costumava dar.

E a minha presença aqui neste momento, o fato de poder falar sobre ele, mesmo que emocionado, e porque emocionado, ainda mais agradecido, se deve a que, um dia, voltava eu de uma das minhas viagens pelo Brasil, em função de um cargo que exerci. Ele me telefonou e me disse: - Estou lhe procurando por tudo quanto é canto. Você é candidato à Academia e já tem vinte e um votos.- Eu disse: - Afrânio, com a sua fraternidade, a sua velocidade, você já me fez candidato, e acho que não posso ser candidato, desta vez.

Fiz uma série de avaliações com ele, e a última resposta, ou a última tentativa de objeção, foi quando eu disse que ia saber se José Paulo Moreira da Fonseca, que é meu amigo, ia ser candidato. Se o José Paulo fosse, eu jamais seria. Ele me lembrou que, já uma vez, na segunda vaga de Pontes de Miranda, um grupo integrado por ele tentara me fazer candidato, e eu não aceitei. Fui para casa, saí da casa dele de carro, com José Mauro Gonçalves, jornalista e meu amigo, e minha mulher, e parei na casa do José Paulo, na esquina da Delfim Moreira. José Paulo me disse que tinha dois votos e que achava que eu tinha que ser candidato. Fui para ali com aquelas palavras do Afrânio, enfático, como ele costumava ser: "Não pense que a Academia espera por você, no dia que você quiser. Ou é agora ou nunca".

Fui para casa, pensei, passei a noite, naturalmente, inquieto, nervoso, provavelmente; e no dia seguinte de manhã, eu precisava viajar para Brasília e telefonei para Afrânio, dizendo que sim, que concordaria em ser candidato. Pouco depois, eu já sabia, pelos meus amigos, que todos tinham recebido telegramas; foi ele próprio, Afrânio, quem dirigiu esses telegramas, dizendo que eu era candidato. A essa altura, era uma candidatura que já ultrapassara a faixa dos trinta votos.

De maneira que devo a Afrânio muito do que aprendi, devo a Afrânio as lições de humanidade, de humanidade autêntica, nenhuma máscara, nenhuma mise en scène, nenhuma pirueta especial, o exercício categórico, e às vezes até contundente, da humanidade. Devo a ele tudo isso. Por isso, a minha sensação de perda só não é maior do que a sensação de perda da família, que conheço e a quem quero tanto.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Sérgio Corrêa da Costa.

Acadêmico SÉRGIO CORRÊA DA COSTA
Senhor presidente; senhores acadêmicos; família de Afrânio Coutinho.

Quando se evoca a renovação de técnicas e métodos de crítica literária em nosso país, não seria exagero dizer que Afrânio foi um marco de primeira grandeza. Quem o conheceu saberá do esforço e persistência com que se dedicou à montagem, livro por livro, da estupenda biblioteca que se foi acumulando, deveria dizer "entulhando" a sua casa, do piso ao teto, acervo esse, em boa hora, preservado pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E deveria acrescentar que foi com enorme sacrifício, pois os escassos recursos, com que contou ao longo da vida, impuseram-lhe sempre uma renúncia a outros bens, a outras necessidades correntes, a que atribuía prioridade menor, face à atração irresistível de adquirir este ou aquele livro.
O teorizador literário de talento se revelara ao público brasileiro nas páginas do Diário de Notícias, desde 1947, ano em que também assumiria a cátedra de Literatura no Colégio Pedro II. "Esta cátedra tinha que ser minha e eu a conquistei porque quis", diria ele, no tom assertivo e inequívoco que sempre foi o seu, tom de pregador militante e persuasivo. A trincheira em que transformara a coluna Correntes Cruzadas seria por ele ocupada durante quatorze anos, esforço recompensado pela fundação, pioneira no Brasil, da disciplina de Teoria e Técnica Literária.

Combativo, vigoroso, intenso em tudo que empreendia, Afrânio Coutinho deixa uma esteira luminosa por onde passou: em nossa História literária, no ensino de Literatura, na crítica, na direção da Coletânea, em seu empolgamento quase juvenil pela teoria literária.

Ter sido recebido por Afrânio Coutinho, nesta Casa, constituiu para mim motivo de orgulho e profunda satisfação. Suas primeiras palavras, no já remoto 14 de junho de 1984:

"A nossa Companhia é de paz, ou melhor, é também de combate, mas um combate paradoxalmente pacífico, porque a sua dinâmica atua exclusivamente no mundo do espírito. É uma ação pela cultura, pela Literatura, pela língua. A dos filhos de Santo Inácio também mobilizava, de outro modo, os instrumentos espirituais, mas para a ação temporal. Tanto que dela nasceu uma nova fase histórica, hoje designada como a era barroca do século XVII. Da sua atuação, transformaram-se artes e letras, maneiras de pensar e sentir, de vestir e ajardinar, de construir igrejas e outros monumentos arquitetônicos. Estava fadada a criar no Brasil um tipo de civilização cristã-comunitária, nos moldes da que vinham os jesuítas construindo nas Missões, não fora impedida pelo ciúme e falsa visão de estadista de um ferrenho marquês metido a iluminista".

Afrânio deixa em seus amigos, nos que o conheceram de perto, o sentimento de perda de alguém que sempre foi ele mesmo, autêntico, direto, franco e leal. Todos nós aqui presentes, mestre Afrânio, lhe somos devedores.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Arnaldo Niskier.

Acadêmico ARNALDO NISKIER
Senhor presidente; senhores acadêmicos; familiares de Afrânio Coutinho, Sônia, Graça, Eduardo, Michaela, Jorgiana, Fred, meu companheiro de lides jornalísticas.

É difícil, é realmente muito difícil, para quem conviveu mais de trinta anos de perto com uma pessoa, para quem amealhou tantos conselhos, para quem se enriqueceu nesse convívio, falar, e ainda mais de improviso, no momento em que se recorda a trajetória de um homem da estatura de Afrânio Coutinho. Nós tivemos, antes da Academia Brasileira de Letras, e já a partir de 1984 com ela, um convívio muito estreito, em diversas passagens das nossas vidas.

Afrânio, com aquele jeito persuasivo, persuasório, queria imprimir, de qualquer maneira, um livro enorme sobre Os fundamentos da Literatura Brasileira, e não havia gráfica. E ele não compreendia que a Manchete, tão grande, tão bem apetrechada, não pudesse fazer o livro dele; não apenas não compreendia, como não admitia, ao jeito próprio de Afrânio Coutinho. De tanto falar e de tanto conversar, é natural que o livro tenha sido feito. Demorou um ano, foi feito já na despedida das linotipos de chumbo quente, mas foi feito e aí está, é uma obra-prima do pensamento literário do nosso país.
Como foi outra obra-prima, também saída do seu talento, da sua dedicação, a Enciclopédia da Literatura Brasileira, tão bem feita. Sua filha lembrava, ainda há pouco, que se encontrava esta Enciclopédia na Feira de Frankfurt, representando o Brasil. Eu tive o privilégio, que agora recordo porque não terei outra oportunidade para recordar, de poder dar a Afrânio aquele conselho fundamental, para que ele obtivesse os recursos para essa Enciclopédia, e tudo deu certo. E ele realizou mais um sonho, porque Afrânio foi, sobretudo, um homem de sonhos, e ele era inconformado que os sonhos - mas, rigorosamente, inconformado - não se realizassem, não se cristalizassem. Então, ele perseguia o sonho, envolvia todos os demais que estavam à sua volta no sonho, e o sonho dele passava a ser o nosso sonho.

Vi Afrânio brilhar, e Portella disse muito bem, no Conselho Federal de Educação, onde convivemos seis anos. Sabem? Passar uma semana longe de casa, todo mês, tratando de Educação, tratando dos grandes problemas, das normas que regem a Educação brasileira. Afrânio era considerado classe A em matéria de conselheiro. A ele eram dadas as tarefas mais espinhosas, mais difíceis e que exigiam maior experiência, que ele tinha.

E lembro o seu longo sofrimento, quando fez um parecer inesquecível, de trinta e três laudas, sobre Língua Brasileira, um parecer aprovado por unanimidade no Conselho Federal de Educação, e não homologado pelo então ministro. A dor com que ele acompanhou essa rejeição, o protesto permanente, aquele inconformismo de tanto tempo. Ele jamais tirava isso da cabeça, parece que pisava em Brasília e lembrava: - O meu parecer antológico sobre a Língua Brasileira não foi aprovado.
Afrânio era isso, era Brasil, o doutor das Letras, o médico formado, seis anos de estudos e nunca exerceu a Medicina; era incapaz de recomendar uma aspirina para quem tivesse dor de cabeça. O casamento dele, de qualquer natureza profissional, era com a língua brasileira, era com a Literatura brasileira. Estivemos juntos - talvez pouca gente lembre disso - aqui na Academia Brasileira de Letras, não apenas porque ele me deu o seu precioso voto, mas porque, com ele, se tornou viável criar o Banco de Dados da Academia em 1986, quando o computador era alguma coisa distante, longínqua, "parece que nos Estados Unidos estão falando muito nisso". Vejam bem, e todos sabem como isso evoluiu e com que velocidade.

Pois, em 1986, Afrânio Coutinho reuniu a sua família. Eu, às vezes, falava com Graça, às vezes, falava com Eduardo, outras vezes, mandava recado pelo Fred, e ele apresentou um trabalho, que só ele poderia fazer neste país, de levantamento de 12 mil nomes de escritores, com referências às suas obras, às suas biografias, seus apelidos, gênero literário, estilo de época. Doze mil! Sabem o que é isso? Doze mil escritores, um trabalho que viabilizou o que hoje é o Centro de Memória, e que nasceu gloriosamente, sob a inspiração - hoje, eu digo - de Afrânio Coutinho, com o nome de Banco de Dados da Academia Brasileira de Letras, acolhido, desde o primeiro momento, pela lucidez extraordinária de Austregésilo de Athayde.

Este Afrânio que nós pranteamos era o homem bom, o homem solidário, o homem que soube construir uma família, que soube ser paciente com esse flagelo nacional que é a falta de apoio a projetos culturais, que, às vezes, me chamava para ver os seus 100 mil livros, colocados em lugares até impensáveis, dentro da sua casa, do que havia restado de aspecto de casa, daquilo que era a Oficina Literária Afrânio Coutinho. Cursos e mais cursos. E ele me dizia: - Não sei onde estava com a cabeça, que comprei 100 mil livros, em vez de doar aos meus filhos este prédio, transformar isso aqui num edifício, vender os apartamentos e nós todos viveríamos à tripa forra. Mas não, fiz isso, fiz essa besteira, agora não sei o que fazer desse imenso material.

E já se disse aqui que, em boa hora - porque ainda há pessoas que merecem o nosso respeito -, o Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro acolheu a biblioteca oriunda desse sonho realizado de Afrânio Coutinho.

Não devo me estender, porque são muitos os oradores, mas tenho certeza de que é impossível que haver uma emoção maior do que aquela que experimento hoje, ao me despedir, nesta sessão de saudade, da figura extraordinária e exemplar do brasileiro Afrânio Coutinho.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Alberto Venancio Filho, que lerá a mensagem do acadêmico Evaristo de Moraes Filho.

Acadêmico EVARISTO DE MORAES FILHO - Lida pelo acadêmico Alberto Venancio Filho.
Senhor presidente; familiares de Afrânio Coutinho; minhas senhoras; meus senhores.

Apesar de formado em Medicina, desde jovem, dedicou-se Afrânio às Letras, ainda no início da década de 40. Foram-lhe de grande proveito os estudos nos Estados Unidos, por cerca de cinco anos. Fez estudos universitários, secretariou a revista Reader's Digest e nunca deixou de escrever. Entrevistou Jacques Maritain e dessa entrevista resultou um profundo ensaio, digno de pensar filosófico, sobre o maior dos neotomistas deste século.

Vindo para o Brasil, dedicou-se aos estudos de sua Literatura e a divulgar o New Criticism entre nós. A crítica literária encontrou em Afrânio Coutinho um nítido divisor de águas, antes e depois. Encontrou muita resistência e fez da polêmica sua arma principal. Firme, severo, nunca furta-cor, fez escola e acabou por conquistar seu lugar definitivo na teoria literária nacional.

Chegado de volta ao Brasil em 1947, no mesmo ano, foi nomeado catedrático interino de Literatura no Colégio Pedro II. No ano seguinte, foi contratado pela Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e, em 1951, mediante concurso público de títulos e provas, ei-lo catedrático do Colégio Pedro II. Desde 1951, ainda no Instituto Lafayette, fundou a primeira disciplina de Teoria e Técnica Literária entre nós.

Com a compulsória de Alceu Amoroso Lima em 1963, hei-lo nomeado catedrático interino de Literatura Brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia, tornando-se vitalício em 1965 mediante concurso de títulos e provas. Ao ser criada a Faculdade de Letras em 1968, com o desdobramento da Nacional em várias outras instituições, é nomeado diretor, permanecendo nesse cargo por mais de dez anos.

A sua bibliografia é imensa. Criou a Oficina Literária Afrânio Coutinho (Olac), reunindo, segundo costumava declarar, cerca de 100 mil volumes. A Olac foi um foco de estudo, de pesquisa e de divulgação cultural, criando um sem-número de discípulos, prestando inestimável serviço às Letras brasileiras.

Ingressou nesta Casa, coincidentemente, na data de sua fundação, a 20 de julho de 1962, já com uma bagagem respeitável, e admirado como mestre pela comunidade literária. Recebeu numerosos prêmios de toda ordem, não devendo ser esquecido o do Moinho Santista.

Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte, de uma só palavra, corajoso, não se furtando à polêmica quando necessário. Amigo leal, estava sempre pronto a servir, não escondendo os seus sentimentos verdadeiros. A tudo que fazia, entregava-se por inteiro, sem meias medidas ou reticências mentais.

Mestre no que ensinava, especializou-se no estudo do barroco, sendo, talvez, o maior conhecedor do assunto entre nós. Já a sua primeira tese para o Colégio Pedro II, em 1950, versava a Literatura barroca, culminando no magistral Do Barroco, (Tempo Brasileiro, 1994).

Dificilmente encontrará esta Academia substituto à altura de Afrânio Coutinho, como caráter, talento e fonte criadora. O luto de sua família é também nosso, de toda a Academia e da Literatura brasileira. Só ficou o vazio.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Lêdo Ivo.

Acadêmico LÊDO IVO
Senhor presidente; senhores acadêmicos; família de Afrânio Coutinho.

Para mim, é muito difícil falar sobre Afrânio Coutinho, porque o conheci desde, praticamente, o mês em que ele voltou dos Estados Unidos. Antes, na província, eu já tinha lido o seu livro de estréia, A filosofia de Machado de Assis, e esse livro trazia uma nota nova porque ele falava de um Machado de Assis desconhecido: o Machado de Assis leitor da Bíblia e leitor de Pascal; Machado de Assis, um escritor com uma visão do mundo.

Logo depois de sua chegada, ele empreendeu uma das mais belicosas jornadas literárias que ocorreram na nossa cena intelectual deste século, que foi a renovação das normas críticas. Nesse sentido, foi não apenas um crítico literário, mas também um pesquisador e um historiador literário. Entendo que crítico literário é aquele que se ocupa das nossas Letras, estejam elas na Prosopopéia de Bento Teixeira Pinto, ou num romance de Geraldo França de Lima.

Portanto, jamais aceitei a reserva que se fez a Afrânio Coutinho, a de que não era um crítico literário, pela razão de que ele não se ocupava da Literatura imediata, dos vient-de-paraître. Embora ele defendesse, com unhas e dentes, uma crítica estética, uma abordagem intrínseca da obra, essa posição teórica nem sempre, a meu ver, se ajustava à realidade dos fatos, e isso pela razão principal de que ele foi, também, um pesquisador e um historiador literário voltado para o que ele chamava "a nossa tradição afortunada".

Nesse sentido, ele não foi um José Veríssimo, por exemplo, nem talvez um Araripe Júnior, foi mais um Sílvio Romero. Considero Afrânio Coutinho o Sílvio Romero brasileiro do século XX, assim como o Sílvio Romero foi o Afrânio Coutinho do século XIX.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Carlos Nejar.

Acadêmico CARLOS NEJAR
Senhor presidente; eminentes acadêmicos; familiares de Afrânio Coutinho, Sônia, Eduardo, Graça e os demais parentes.
Eu já me manifestei, quando da cerimônia de sepultamento, exprimindo todo o meu sentimento e também o desta Casa, naquela oportunidade, mas não posso deixar de fazer apenas um acréscimo, no que tende ao lado de Afrânio Coutinho, não somente como o teórico da Literatura, o que foi aqui dito com grande segurança, trazendo uma nova perspectiva crítica, mas, também, porque foi alguém que pôs em prática as suas próprias teorias. De um lado, nos prefácios de vários autores que ele fez, entre eles Rubem Fonseca; de outro lado, na História da Literatura, onde ele colocou a sua direção, a sua visão crítica, junto com todos os outros participantes, e também na Enciclopédia da Literatura Brasileira.

Ele conseguiu unir o lado do homem das idéias, do pesquisador, com o fazedor, e a prova disso é que há toda uma obra que ele deixou, e que continuará além dele, porque ele conseguia tornar vivas as suas idéias e conseguia,também, fazer coletivos os seus sonhos.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico João Ubaldo Ribeiro, que lerá o texto enviado pela acadêmica Nélida Piñon.

Acadêmica NÉLIDA PIÑON - Lido pelo acadêmico João Ubaldo Ribeiro
Há muito, Afrânio Coutinho começara a despedir-se. Ia abandonando, devagar, tudo que fora a sua razão de viver. Como se lhe custasse deixar um cenário onde protagonizou, com talento e devoção, o papel de intelectual, mestre, esposo, pai, avô, amigo.

Poucos homens associaram-se, de forma tão intransigente, com os seres que elegera amar. Raros empenharam-se em servir tanto à cultura brasileira, às causas inspiradoras do seu ideal.

Agora que ele partiu, já não podemos, como nos últimos anos, emocionarmo-nos com sua presença, quando, em sua cadeira de rodas, comparecia à Academia, a cada quinta-feira. Trazido por Sônia, devotada companheira que jamais lhe faltou, ele vinha, destemido, pronto a lutar pela vida, pelo diálogo com os amigos, fonte de prazer para ele.

Fiel servidor desta Casa, exibia inusitado fervor a cada nova candidatura. Aliás, seu caráter apaixonado sempre postulou com firmeza pelas instituições a que se vinculara, pela amada Oficina Literária, pela sua magnífica biblioteca, verdadeiro legado nacional, pelos padrões civilizatórios brasileiros, pela sua obra crítica, empenhada por inteiro em interpretar que psique ancorava na alma do Brasil, em dizer quem somos, de onde viemos.

Desde que o conheci, julguei-o um modelo de lealdade. Alguém entregue ao exercício da amizade, que constituía para ele um bem superior do espírito. Assim, portanto, tornava-se honroso alguém ser eleito objeto de sua afeição. Eu, pessoalmente, tive-o como mestre e amigo, em diversas oportunidades. Em 1966, diretor da revista Cadernos Brasileiros, fui sua assistente literária. Mais tarde, em 1970, diretor ele da Faculdade de Letras da UFRJ, graças à sua visão progressista, inaugurei um curso de Criação Literária, até então inexistente no Rio de Janeiro. E, finalmente, julgando-me merecedora da ABL, apoiou com firmeza minha candidatura.

Comove-me muito a notícia de sua morte. Custa-me acreditar que este grande brasileiro afinal despediu-se, embora deixando-nos o legado de sua obra e de sua crença na vida.

Até sempre, querido mestre e amigo. (Barcelona, 08 de agosto de 2000)

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Geraldo França de Lima.

Acadêmico GERALDO FRANÇA DE LIMA
Senhor presidente; senhores acadêmicos; membros da família de Afrânio Coutinho.

É também para mim difícil relembrá-lo nestas palavras, porque há momentos em que, por mais que queiramos ser objetivos, não conseguimos. Lembro-me e não posso me esquecer da vibração que senti, ao vê-lo no Colégio Pedro II, defendendo a sua tese. A alegria com que eu lia a sua colaboração no Diário de Notícias, onde aprendi, aprendi muito, aprendi demais.
Certa vez, era de manhã, fui atender o telefone, era ele que me convidava para lecionar na Faculdade de Letras, onde tive a honra excelsa de ter como colegas nosso amigo Thiers, Eduardo Portella, Celso Cunha e tantos outros.

Ali na Faculdade, vi que era um homem de expediente, porque não era um diretor teórico, um diretor acomodatício. Era um diretor atuante, que ouvia aulas, chamava o professor e dizia o que tinha pensado. Afrânio era excepcionalmente bom, um coração grande. Acaso contundente, certas vezes, mas essa contundência era um dos pilares em que se assentava o seu caráter diamantino, a sua franqueza, a sua total impossibilidade de mentir, era um homem franco, era um homem sincero.

Lembro-me que me pôs numa comissão, para julgar um concurso de Canto na Faculdade de Letras, aqui na rua do Chile. Todas as noites, lá estava ele, era o primeiro que chegava, era o último que saía. Sempre cuidadoso, excepcionalmente cauteloso ao dirigir aquela escola. Ali não batia o pistolão gasto e desmoralizado e com força, mas ali estava o que Afrânio queria: a essência, o trabalho e o saber. Era um homem de franqueza, franqueza que se espelhava em todas as suas atitudes.

E como coroamento de sua obra, da sua vida, o extraordinário trabalho sobre o barroco. O barroco para ele era uma espécie de essência total. Sobre certos aspectos, se eu punha a imagem de Nabuco de que a civilização do Brasil pegou de galho, não, para Afrânio ela nasceu realmente com o barroco.

Tenho dele intensa saudade. Lembro-me - perdoai-me que diga isso - que foi ele quem trouxe meu nome a esta Casa. Lutou loucamente - está sua excelentíssima senhora, Sônia, aqui presente, como testemunha - por meu nome na sucessão de Menotti del Picchia.

Afrânio era um homem bom, um homem honrado. O Brasil deve a ele a Faculdade de Letras. O Brasil deve à Faculdade de Letras uma renovação total de nossas Letras, não no sentido objetivo, nem no sentido subjetivo, mas no sentido da prática de escrever, de ensinar, pois, como ele dizia, "ensinar é comunicar, escrever é comunicar".

Penso que, para Afrânio, cabem estas palavras de São Paulo: Pax et gloria omni operante bono.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Candido Mendes de Almeida.

Acadêmico CANDIDO MENDES DE ALMEIDA
Senhor presidente; meus queridos confrades; essa querida família de Afrânio Coutinho.
Quem, meu presidente, tem uma imagem na sua memória de Afrânio Coutinho, que não seja de uma militância, de uma paixão, de um combate, de uma ruminação de futuro, que também permite aquele momento da parada de quem tem a consciência do bom combate? E ela está na dedicatória do livro perfeito de Afrânio, A tradição afortunada. "Cheguei à plenitude a que pode aspirar um puro homem de Letras no Brasil", um puro homem de Letras no Brasil. A cátedra do Pedro II, a cátedra da então Faculdade Nacional de Filosofia, a ABL. Possuído pela vocação das Letras, ainda dentro da Faculdade de Medicina, e transigindo, no primeiro momento desta dominação da vocação tardia, pelo cargo de bibliotecário da Faculdade de Medicina.

Totalizante, diria Eduardo Portella, naquilo em que nós, às vezes, nos esquecemos - presidente -, de que se há um gênero na vida do espírito brasileiro, que tem nesta Casa, sem restos, toda sua concertação moderna, essa é a nossa crítica literária. O triângulo exóceles, não, o triângulo absolutamente eqüilátero entre Tristão de Athayde, Afrânio Coutinho e o vértice final, Eduardo Portella, aqui presente. Afrânio, com muita felicidade, repete a característica que Eduardo lhe deu de crítico totalizante, como Alceu, ainda no começo dessa revolução a que se referiu o próprio Eduardo Portella, era denominado ainda de crítico expressionista. Todos contra o que estava na moela do Impressionismo, o "achismo" na visão de um proceder de juízo sobre a obra, naquela perspectiva mais desligada do que seja, na verdade, a apreensão do seu valor trocado pela noção da conduta do autor, pelas suas qualidades, pela sua axiologia de intenções.

Mas por que Afrânio Coutinho merece esta visão da crítica totalizadora? Porque - presidente - ele é um fundador da nossa modernidade, enquanto ele chega a esta visão perfeita de que o nacionalismo é a consciência do que representa o país em emergência. Daí, imediatamente, a simetria entre o que representa a sua noção desta tradição, e ao mesmo tempo, a da descolonização literária do Brasil.

No fundo, Afrânio já pressentia a noção das estruturas sociais totais e conseguia definir, numa monografia primorosa, o nacionalismo como fator da consciência cívica brasileira. Era a perspectiva da estrutura social total, dentro da qual o Brasil se racha entre o velho Impressionismo e a noção do desenvolvimento e suas causações. Mas o importante é fixar, e eu queria fazê-lo em três perspectivas, onde é que está o merecedor da visão totalizante, a que se referiu Eduardo.

Em primeiro lugar, pela noção do tempo longo, pela noção de ter, no nosso tempo histórico, encontrado uma constante do nacionalismo, que ele analisa como um vetor desta consciência, num largo painel histórico. Ele vai de Gonçalves de Magalhães até os modernistas, e para fazer como que a contraprova desta visão larga, ele vai a Machado de Assis, para buscar, seguindo a visão goetheana, a noção de que, exatamente, só se pode ser regional, local, circunscrito, referido, se, na verdade, nós estamos possuídos pelo universalismo. Não é sem razão, que é por isso que Afrânio fala na filosofia de Machado de Assis.

Mas há, ao lado disso, a noção da totalidade - presidente Tarcísio Padilha -, Afrânio chegou até a cunhar um neologismo duvidoso, se assim pudesse dizer, "os estilólogos", por quê? Porque, em toda a sua noção da Literatura brasileira, ele vai à noção da totalidade plena, ele vai à visão scheleriana e splengeriana do estilo como última afinitude desse mesmo global. Quem introduz na visão, no objeto formal da Literatura brasileira, a noção do estilo e não da época, da mesma maneira com que Afrânio explode ou implode o conceito de fato literário, para trocá-lo pelo sentido como representação de uma cultura?
A noção do Culturalismo estava ali amplamente desenvolvida, e dentro disso, ele vai como dentro dos estilos, e Afrânio é o pioneiro da implantação entre nós da visão de Auerbach, como é a de Cursius. Ele vai chegar a esse barroco que, no começo, ele utiliza como um instrumento dialético, para se contrapor àquilo que era a gana dos seus confrontos, a cissiparidade entre a cultura brasileira e a cultura portuguesa, mostrando o quanto Portugal, desde praticamente o século XVII, iria ver, sob o termo mofino do Classicismo, aquilo que no Brasil - no Brasil de Vieira e de seus contemporâneos - explodia em todos os cursivos do nosso barroco.

Presidente, o que me parece muito importante nisto é que ele poderia chegar à frase que ele vai bascar em Araripe Júnior, e depois, em Capistrano de Abreu, que são seus proto-mensageiros do recado, naquilo em que ele fala na obnubilação brasílica. Afrânio é também preso, no melhor sentido obnubilação brasílica. Ele vê exatamente o contexto já do nosso barroco, como aquela divisão de águas, como aquele começo, de fato, do que pudesse ser a nossa especificidade com cultura. Mas, ao lado disso, o epistemólogo, ao lado disso, quem pôde entrar a fundo na distinção entre teoria e crítica, e nos deu aquela inseminação rica do pensamento trazido dos Estados Unidos, de Ronald Grain, Wolfgang Kaiser, de Welleg e de Warrant, professores todos que, na época, estavam à sua volta em Colúmbia e em Princeton, e dentro disso, ele nos consegue trazer já uma política.

Quem, como Afrânio, entendendo esses postulados, defendeu mais a idéia de que professor de língua portuguesa não pode ser professor de Literatura portuguesa? Evidente que não é possível se conciliar os dois lóbulos da compreensão desse espírito, e aí desta perspectiva devolvida da visão americana, ele pôde chegar, de fato, à noção profunda do New Criticism, e sobretudo, nos trazer a distinção entre o Criticism e o Review, e mais do que isso, chegar a entender que, no Brasil, o Criticism não poderia estar mais dentro dos jornais, dentro das colunas, e envolvia, de fato, uma recolhida aos bastiões da especialização. Já denotava por aí, pelo fato de nós morrermos dessa contradição da quase desaparição da crítica literária do cotidiano, triste cotidiano brasileiro dos anos 90.

É evidente que, neste particular, insistindo sobre o aspecto epistemológico da fundação de Afrânio, eu queria mostrar esta parentela profunda com uma família do espírito. A gente se esquece que o primeiro livro de Afrânio foi sobre Berdiaeff, e dentro disso, a associação a toda aquela espiritualidade católica trazida por Alceu. Afrânio vai, naquele momento fecundo - tantos dos irmãos aqui e colegas já salientaram isso - Afrânio vai ser discípulo de Maritain em Princeton. Afrânio voltando a essas origens e dentro disso, procurando mostrar o que era aquela profunda síntese criadora, na sucessão que é Afrânio no lugar de Alceu, na Cadeira de Literatura da antiga Faculdade Nacional de Filosofia.

Presidente, são setenta e um títulos de Afrânio, que só aqui na nossa biblioteca temos. E dentro desses títulos, sabemos o que é aquela militância continuada do homem apaixonado, do homem corajoso das suas opções e ciente de quanto poderia levar à exposição a sua lucidez. Afrânio do legado, Afrânio da partilha, dessa partilha em vida, em que ele nos deu aqui esse exemplo quase que de um casal etrusco, que ele repartia com Sônia, nesta presença e nesta ligação extraordinária da vida, eu diria quase que boca-a-boca, naquilo em que a sua presença se multiplicava no cenário da nossa Casa.

Afrânio do legado, Afrânio que tinha tanto prazer ao se referir à obra, como o artefato daquela biblioteca que mereceria até uma fábula kafkiana, onde colocar a biblioteca que explodia a casa, e que se desenvolvia em torno de um quarteirão, quase onde colocá-la, senão ao serviço das gerações em que, finalmente, teve paz esta preocupação fundamental e fundadora de Afrânio.

Meu presidente, nós todos sabemos o quanto este exemplo nos ronda e nos assedia. Queremos agradecer, sobretudo, neste legado e nesta doação, o que foi para nós a sua presença afortunada.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Antes de conceder a palavra ao acadêmico Alberto Venancio Filho, não posso deixar de registrar o regozijo pela volta de Candido Mendes, depois de uma operação delicada, com plena saúde e pleno vigor.

Com a palavra, o acadêmico Alberto Venancio Filho.

Acadêmico ALBERTO VENANCIO FILHO
Senhor presidente; meus caros confrades; familiares de Afrânio Coutinho.
Dentre os vários aspectos da figura múltipla de Afrânio Coutinho no papel da Literatura e da crítica literária, partindo deste título expressivo como Correntes Cruzadas, que gera um retrato da sua posição filosófica, queria salientar o trabalho fantástico que foi A Literatura no Brasil, publicado em 1955, que, depois de 1888 com Sílvio Romero, é o grande tratado da Literatura brasileira.

Afrânio Coutinho podia ter feito, certamente, esse trabalho sozinho, mas preferiu fazer uma obra de colaboração, chamando um grupo excepcional de pessoas, entre as quais, muitos acadêmicos como Josué Montello, Adonias filho e Peregrino Júnior. Mas quero acentuar que, nessa obra, ele não ficou no aspecto puramente literário e procurou dar um caráter interdisciplinar ao seu trabalho, chamando para contribuir, nesta empreitada, nosso saudoso confrade Afonso Arinos de Melo Franco, que discorreu sobre Literatura e Pensamento Jurídico; Américo Lacombe, sobre Literatura e Jornalismo; Evaristo de Moraes Filho, sobre Literatura e Filosofia; e Fernando de Azevedo, A Escola e a Literatura.

E da obra literária de Afrânio Coutinho relembrando o que disse Eduardo Portella, eu mencionaria As obras completas, de Araripe Júnior e de Raul Pompéia, e várias edições de Obras completas que ele fez para a Editora Aguilar, inclusive o trabalho notável dos dois volumes de Euclides da Cunha. Quero crer que esse trabalho precisa ser continuado, e nenhuma tarefa será mais importante para a Academia Brasileira de Letras do que retomar esse esforço em homenagem a Afrânio Coutinho, em benefício da Literatura brasileira.

Eu diria também que posso trazer agora uma novidade, que é falar do Afrânio Coutinho escritor. Era um escritor primoroso, que se pronunciava da maneira mais completa e absoluta. Tenho dezenas e dezenas de trechos das suas obras, que poderia aqui citar, mas lembraria apenas, no seu discurso de posse, a lembrança que ele faz de Salvador e do Rio. Começa a dizer: "Vim de muito longe" e continua num texto da mais alta qualidade literária. Queria também mencionar que, nesse discurso, ele faz a redescoberta de Domício da Gama, antecessor de sua Cadeira, que estava quase inteiramente abandonado; ele reconstitui, em poucas palavras, a figura deste grande escritor e nosso confrade.

De Afrânio Coutinho, com quem convivi muitas vezes, queria lembrar um livro: Impertinências, de 1990, que tem essa dedicatória maravilhosa, que diz assim: "Sou produto de amigos", cita três amigos, e depois diz: "Amigos que acreditaram em mim e que me deram os empurrões da vida". Que coisa maravilhosa! Oitenta e oito anos, um homem da sua grandeza, do seu prestígio, da sua reputação, se curvar humildemente em face daqueles que o ajudaram durante a vida.

Ele foi um homem de grandes admirações. Eu me permitiria aqui falar da sua admiração por Anísio Teixeira, com quem ele trabalhou, que já escreveu páginas muito adequadas a esse respeito. Costumo dizer, fazendo um pouco o caráter pessoal, que tive dois eleitores póstumos na Academia: o saudosíssimo e queridíssimo amigo Marques Rebelo e o meu mestre Anísio Teixeira. Candidato à Academia, quando fui visitá-lo na sua casa na rua Paul Redfern, conversamos duas horas sobre Anísio Teixeira, e saí de lá com os votos que ele me deu para a eleição.

Queria, então, falar de dois episódios que pude presenciar, testemunhando a grandeza desse homem e dessa figura admirável. Em 1951, ainda universitário, assisti um concurso de Literatura para o Colégio Pedro II, no qual concorreram Afrânio Coutinho, Álvaro Lins e Celso Cunha. Afrânio Coutinho apresentava a sua tese sobre o barroco, que era uma grande novidade no Brasil, diante de uma banca de altas figuras, entre as quais relembro os nossos saudosos acadêmicos e confrades Abgar Renault e Afonso Arinos de Melo Franco. Esses dois examinadores foram muito severos, dentro de toda elegância, contestando as teorias que Afrânio levantava na tese, mas ele se saiu galhardamente, e com isso ganhou a cátedra, que ele tanto estimava, no Colégio Pedro II.

O outro episódio que quero também relatar, e com o depoimento que posso dar muito pessoal, é sua figura como perito na ação judicial que o escritor Rubem Fonseca propôs contra a União Federal. O seu livro Feliz Ano Novo tinha sido apreendido, por contrário à moral e aos bons costumes, pelo ministro da Justiça Armando Falcão. Nessa época, vários autores tinham tido os mesmos problemas e a maioria deles preferiu entrar em juízo através do mandato de segurança, onde só se discutia o direito líquido e certo do autor, isto é, se a Portaria de apreensão estava de acordo com a Constituição, com as exigentes.

Rubem Fonseca preferiu um outro caminho, preferiu uma ação ordinária, para provar que a sua obra não era contrária aos bons costumes, e o juiz da Vara Federal que presidiu o feito teve a felicidade de convocar Afrânio Coutinho para dar o laudo a respeito. Esse laudo é uma obra-prima, embora pouco conhecido, foi depois publicado sob o título de O erotismo na Literatura, onde Afrânio Coutinho faz uma distinção entre a pornografia, a obscenidade e a obra de arte, um estudo que realmente muito contribuiu para a sentença favorável que Rubem Fonseca recebeu do Tribunal Regional Federal.

De modo que entre as poucas palavras ainda muito emocionadas que puder falar sobre Afrânio Coutinho, quero dizer que foi uma grande perda para o Brasil e uma grande perda para a crítica literária. Vamos sentir muito a falta da sua presença, dos seus pronunciamentos incisivos e contundentes.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Carlos Nejar, que lerá o texto enviado pelo acadêmico João de Scantimburgo.

Acadêmico JOÃO DE SCANTIMBURGO - Lido pelo acadêmico Carlos Nejar.
Perda para as Letras. A morte de Afrânio Coutinho, infelizmente, por motivo de saúde, há já algum tempo afastado das Letras, como militante, vem privar o Brasil de um dos mais eruditos autores da teoria literária. Amando a Literatura com devoção, deixou de ser médico praticante, depois de ter recebido o diploma da Faculdade de Medicina de Salvador, Bahia, seu Estado natal, para mourejar nas letras. Trocou o certo dos ganhos com a profissão, pelo incerto com as Letras. Ganhou o Brasil, embora tenha ele perdido, e não pouco, na sua longa e utilíssima vida.

Vindo para o Rio de Janeiro, não para praticar a Medicina, mas para se dedicar às Letras, foi professor de Literatura Brasileira, de Teoria Literária, de História da Literatura Brasileira, sempre defendendo a tese, de acordo com a qual a Literatura nacional amanheceu com o Brasil, contrariando, portanto, a posição de colegas que defendiam, e alguns defendem ainda, posição contrária.

Para bem se desincumbir de sua missão, pois Afrânio se revestiu da veste do missionário, passou a adquirir livros, fazendo-o com o conhecimento de quem tinha verdadeiro amor pela palavra impressa, cuja defesa sempre fez, por nele ver o mestre mudo de que fala o padre Vieira.

Chegou a acumular 100 mil volumes, numa casa especialmente comprada com suas economias de professor, para nela instalar uma Oficina Literária, a Olac, que estava aberta e acessível a todos quantos quisessem consultá-la e trabalhar em Literatura. Foi um grande, um extraordinário servidor das Letras. Lembro-me de seu nome me chamar a atenção, nos idos de 40, não sei se escrevendo dos Estados Unidos ou do Brasil mesmo, para o venerando e já desaparecido grande órgão da imprensa, o Diário de Notícias.

As Correntes Cruzadas de Afrânio Coutinho introduziram no Brasil a Nova Crítica, superando o Expressionismo até então vigente entre os comentaristas, com uma ou outra exceção, que me dispenso de citar. As Correntes Cruzadas colaboraram na difusão na crítica, como deve ela ser entendida e compreendida, isto é, da análise da obra e de sua representatividade entre as demais obras em edição e circulação.

Com a morte de Afrânio Coutinho, perdemos um amigo, um companheiro, e o Brasil, um superior servidor das Letras.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Marcos Almir Madeira.

Acadêmico MARCOS ALMIR MADEIRA
Senhor presidente; familiares de Afrânio Coutinho; senhores acadêmicos; minhas senhoras; meus senhores.

Toda vez, senhor presidente, que tenho de fazer o louvor de alguém, me lembro daquela imagem do mosaico, mosaico de virtudes, de que falava Charles Morgan. Desta vez, não vou tentar o mosaico, vou fixar-me naquilo que me parece a qualidade mestra de Afrânio Coutinho, com que ele serviu à Literatura, particularmente à crítica e ao Brasil, que foi a sua condição de combatente. Aliás, no dia do seu sepultamento, ouvimos no discurso do nosso secretário-geral, poeta muito perfeito, uma imagem que me impressionou: "Ele foi um guerreiro". Exatamente é o que me ficou, principalmente do Afrânio com quem lidei, inclusive na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, quando tínhamos uma vizinhança incômoda do DOPS.

Certa vez, encontrei Afrânio na porta da sua sala de aula, que co-vizinhava com a minha - eu era de outro curso, Ciências Sociais - e aproximou-se dele um cidadão com toda a aparência, com todo o aspecto de um "tira" do DOPS, e perguntou a Afrânio: - O chefe não vai dar aula hoje?- Diz Afrânio: - Vou, dependendo do senhor.- Como de mim?- Dependendo da sua saída. Só darei aula, se o senhor sair daqui.- O rapaz ficou muito encalistrado, percebi que estava acessível a uma retirada, e levei-o pelo corredor afora.

Afrânio era realmente um combatente desarmado, o guerreiro, como disse Nejar. O sentido da crítica, por isso, talvez estivesse nele; ele foi o que devia ser, abraçou a crítica, a crítica estava na sua têmpera, no seu caráter, na sua formação e na sua preferência. A obra dele é, sobretudo, a obra do crítico, do crítico em si mesmo, do crítico organicamente fiel à sua tarefa. E por falar em tarefa, me lembro de Gilberto Amado, que dizia que, "em todos os ofícios, é preciso aderir à tarefa". Ele não só aderiu, como se apaixonou pela sua tarefa, ele não fazia nada que não fosse intensamente, tinha essa densidade de convicção e o prazer da luta, às vezes, da luta interior, da luta consigo próprio, como disse certa vez a ele, "com apoio dele próprio".

Ele trabalhava apaixonadamente, às vezes em assunto áridos, mas ele punha a paixão em tudo aquilo. Em suma, era um homem vibrante, um homem que se apaixonou pelo seu trabalho. Diz o grande bibliófilo, nosso amigo e amigo desta Casa, Mindlin, que ele não sabe fazer nada sem alegria. Eu diria que Afrânio não fazia nada, que não fosse apaixonadamente. Assim ele foi no livro, na tribuna das conferências, nas salas de aula, inclusive quando provocava os alunos à controvérsia, ao debate, e aí seguindo um pouco a mestria do nosso Anísio Teixeira, ao prazer do diálogo, da polêmica.

De toda maneira, ele honrou a crítica, sobretudo, porque teve também o mérito da síntese; ele tinha um grande poder de síntese, que revelou inclusive nas suas crônicas. Tudo que ele escrevia era no estilo enxuto. Hoje, a palavra está maculada pela gíria, mas ele era enxuto, quer dizer, o estilo sem enxúndia, sem excessos, sem a gordura do adjetivo. Afrânio era, portanto, um harmonioso escrevendo e, aliás, Geraldo França de Lima creio que salientou isso também, as qualidades do escritor.

Senhor presidente, gostaria de ir muito além, mas acho que os colegas já disseram o suficiente. Apenas brindo em Afrânio Coutinho, o combatente desarmado e o homem que trabalhou até o fim, por paixão. Era o que tinha a dizer.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico João Ubaldo Ribeiro.

Acadêmico JOÃO UBALDO RIBEIRO
Tenho sido precedido por vários confrades, que falaram da dificuldade em se referirem a Afrânio Coutinho. Essa dificuldade para mim é talvez ainda maior, porque, paradoxalmente, existe tanto a dizer sobre Afrânio Coutinho, que só posso dizer muito pouca coisa. Afrânio Coutinho foi para mim, desde a minha adolescência, uma figura mitológica que me introduziu, de certa forma - e estou falando também sob o impacto de uma forte emoção -, que incutiu em mim, que abriu para mim uma nova visão do fazer literário, da essência da coisa literária.

Este homem, posteriormente, por iniciativa dele, já uma eminência nacional, me procurou, eu, um humilde desconhecido, jovem provinciano, e passou, à distância, de modo geral - porque vivia ele no Rio e vivia eu na Bahia - a me estimular, como se me tivesse visto nascer, como se fosse meu padrinho ou até meu tio. Aprendi a me afeiçoar a este homem e aprendi, subseqüentemente, a dizer sem o menor medo de exagerar, sem o menor medo de cometer alguma hipérbole, que ele foi um dos nomes mais importantes da cultura brasileira em todos os tempos. Afrânio Coutinho foi um dos pilares da intelligentsia nacional e dificilmente haverá uma figura como ele.

Quero também lembrar, por um dever de gratidão, que, com aquele jeitão desabusado, mas terno no fundo, foi Afrânio Coutinho - como aconteceu com outros confrades meus aqui - que telefonou, inopinadamente, para a minha casa à noite e disse: - João Ubaldo, é Afrânio Coutinho. - Eu, com cerimônia, o chamava de mestre, e disse: - Mestre, que surpresa!- Ele falou: - Tome nota aí.- Peguei o papel e comecei a escrever o que ele falava. "Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Brasileira de Letras. João Ubaldo Riveiro apresenta..." - delimitou a carta de candidatura ao então presidente Austregésilo de Athayde, para a Cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, hipótese que jamais me tinha ocorrido em toda a minha existência.

No dia seguinte, telefonei para ele, depois de ter pensado e disse: - Mestre, eu pensei bastante, não tenho vocação para a Academia, não tenho perfil de acadêmico.- Disse que não ia aceitar a idéia... e não posso, dada a solenidade do ambiente, reproduzir as palavras com que Afrânio recebeu essa recusa minha. Apenas posso aludir ao fato de que minha família não se saiu muito bem nessa história toda, nem eu próprio. E isso deflagrou o processo do qual participaram vários confrades meus, a maior parte dos quais aqui presentes, que deram prosseguimento à iniciativa tomada por Afrânio, que acabou por me trazer a esta honrosa convivência e a este posto que não mereço, mas que desfruto com honra e alegria.

Não posso, não tenho a eloqüência, nem a ousadia de dizer a saudade pessoal que sinto do mestre Afrânio Coutinho.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Ivan Junqueira, que lerá o texto enviado pelo acadêmico Sábato Magaldi.

Acadêmico SÁBATO MAGALDI - Lido pelo acadêmico Ivan Junqueira
Infelizmente, não convivi com Afrânio Coutinho, como gostaria. Há cinco anos, depois de eleito, ainda tive oportunidade de acompanhá-lo diversas vezes nas viagens para os encontros semanais da Academia, no automóvel posto à nossa disposição. Mas o convívio intelectual, por meio de sua vasta e importante obra, data de longos anos, desde que procurei iniciar-me na crítica, porque Afrânio Coutinho, teorizando a propósito dessa atividade, e divulgando na imprensa e em livros as novas doutrinas, combateu o "achismo" e valorizou a postura estética.

A leitura do ensaio Conceito de Literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 1960) foi fundamental no preparo de meu primeiro livro, Panorama do Teatro Brasileiro, publicado dois anos mais tarde. Ali está escrito: "A literatura brasileira não nasceu com a independência política. A sua autonomia estética nada tem a ver com a autonomia política. Ainda hoje, está em curso. Mas a sua existência própria é dos primeiros instantes, do primeiro século. Sob forma artística, já a encontramos em Anchieta, consolidada em Gregório de Matos e Antônio Vieira". Embora haja outros trechos significativos, que seria ocioso citar, fixo-me nesta síntese: "A literatura brasileira 'formou-se' com o barroco. Com o Arcadismo-Romantismo, tornou-se autônoma. Com o Modernismo atingiu a maioridade".

Examinei o teatro brasileiro, assim, a partir dos autos de Anchieta, representados na segunda metade do século XVI. Se eles descendem dos milagres medievais dos séculos XIII e XIV e dos autos vicentinos, só poderiam passar-se no nosso território e destinar-se ao nosso público, sem esquecer o indígena. Ninguém que se interessa por teatro deixa de reconhecer que o canarino foi o fundador da cena brasileira.

Afrânio colaborou na formação do pensamento crítico nacional em diversos outros estudos expressivos, a exemplo de Aspectos da Literatura Barroca; Por uma crítica estética; Correntes Cruzadas; e Da crítica e da nova crítica. Não bastando esse verdadeiro apostolado, ele organizou a obra completa de muitos autores fundamentais, como Araripe Júnior, Jorge de Lima, Machado de Assis, Afrânio Peixoto (os romances completos) e Carlos Drummond de Andrade. Dirigiu A Literatura no Brasil, em quatro tomos, aparecidos, inicialmente, de 1955 a 1959, e reeditados, recentemente, por iniciativa da escritora Edla van Steen, pela Global Editora de São Paulo, reunindo trabalhos de cerca de cinqüenta críticos. Mas é a obra básica, no seu gênero, da bibliografia brasileira. E não se pode esquecer, também, o enorme benefício cultural proporcionado pela Oficina Literária Afrânio Coutinho, enquanto funcionou.

Lamentando a perda de um intelectual primoroso, só nos resta augurar que as novas gerações de críticos e teóricos se espelhem no seu exemplo.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Senhores acadêmicos; familiares de Afrânio Coutinho. Cabe-me dizer algumas palavras, escusar-me por não ter podido acompanhar o sepultamento do eminente amigo. Foi dito aqui: "infelizmente, não conheci bem Afrânio Coutinho". Eu diria, felizmente, o conheci bem. Em três diferentes ocasiões, trabalhamos juntos - na UERJ, nos idos de 50; no Conselho Federal de Educação, nos idos de 70; e na Enciclopédia Brasileira. Em três momentos distintos e que se prolongaram no tempo, pude sentir a presença desse magma literário que ele foi.
A sua trepidação me fez rever um pouco uma idéia que trazia da mocidade, um filósofo havia afirmado: Nous jugeons toutes les polémiques inutiles. Consegui pinçar em Afrânio um polemista positivo, alguém que, efetivamente, levantava questões da forma trepidante, como dizia, com que as apresentava, mas, por outra parte, sempre iluminando o roteiro da sua crítica, crítica que fugia ao subjetivismo, e como frisou Candido Mendes, era um crítico totalizante. Mas essa totalidade não representava uma visão totalizante de uma parcialidade, e sim, uma visão parcial de uma totalidade.

A compreensão que ele tinha por força desse conúbio, que em sua mente se estabeleceu entre a Literatura e a Filosofia. Quero crer que esta vizinhança filosófica andou permeando o seu processo de construção interior, por maneira que ele pudesse harmonizar as exigências, vamos dizer, factuais da Literatura, o pinçar da realidade literária, o seu sentir e o seu pulsar, com esta outra visão capaz de iluminar os caminhos mais longínquos do horizonte e da compreensão humana. Acredito que ele, como dizia São Paulo, combateu o bom combate no caso literário, e isto é dizer muito de um homem.

Não posso estender-me, porque são tantos oradores, mas quero significar aqui a consciência da perda, da perda enorme, a perda descomunal de Afrânio Coutinho. É difícil preencher essa lacuna. Por isso, a Casa hoje se associa à família neste pranto, que é um pranto do coração e da mente, por conseguinte, da cultura.

Com a palavra, o acadêmico Antonio Olinto.

Acadêmico ANTONIO OLINTO
Em primeiro lugar, senhor presidente, para ler a mensagem de Marcos Vinicios Vilaça, de Brasília.
"Sem poder estar presente, quinta-feira, à Sessão de Saudade pelo nosso tão dileto e tão ilustre Afrânio Coutinho, peço inserir em Ata o lamento que, sendo meu, é também de toda a família Vilaça. Afrânio dedicou a nós, e nós a ele, uma intensa amizade. Minha filha Taciana Cecília teve no casal Afrânio Coutinho a honra de padrinhos de suas bodas. Marcos Vinícios Vilaça".

Senhor presidente, agora falando por mim mesmo, é preciso que se diga, antes de tudo, que a crítica literária foi um gênero posterior, como tinha de ser, a todos os outros. Todos os outros gêneros, tendo começado pela poesia, pela tragédia, pela comédia, pelo romance, não tiveram, ao longo dos séculos, um corpo de críticos que se dedicasse a esse assunto É claro que, durante a Idade Média, criticava-se nas Universidades. O próprio São Tomás de Aquino, poderíamos dizer que foi um crítico literário, criticando obras da época ou falando sobre obras da época. Mas só mesmo no século XIX é que a crítica se instalou com Sainte-Beuve, como seu profeta maior na França, e se preocupou em ler, analisar, estudar e escrever alguma coisa sobre poesia, sobre romance, sobre História, sobre qualquer obra que haja utilizado a palavra.

No Brasil, podemos dizer que começamos, de fato, com Sílvio Romero que, contendo aquela formação germânica nada francesa, nada sainte-beuvista, analisou o Brasil através de suas Letras, de um ponto de vista inclusive nacionalista. E ao lado dele, depois dele, contrapondo-se a ele, José Veríssimo, fazendo as suas "zeverissimações", como alguém disse na época, usou, de certa maneira, uma poesia impressionista. Até que chegamos à Semana de Arte Moderna, quando o grande Tristão de Athayde, o grande Alceu de Amoroso Lima começou a escrever sobre livros. A sua série de estudos é uma obra monumental dentro da nossa Literatura.
Na mesma época, dentro dessas oposições que são naturais na vida, a Semana de Arte Moderna achou que estava tudo errado. Era preciso refazer tudo. Contudo a crítica, por exemplo, de Mário de Andrade é uma crítica que levantou vários autores antes da Semana, consagrando-os - não só Manuel Antônio de Almeida, mas vários outros poetas, que tinham sido inclusive, o que era um pecado mortal para o Modernismo, poetas parnasianos.

Entramos nos anos 20 e 30. A Revolução de 30 de Getúlio Vargas mudou tudo, mudou a Literatura, mudou a crítica. As ligações entre o que é a política e a vida social, a comida que se come e a luta que se tem, o emprego que se tem, as brigas que se tem, formam uma Literatura. E ao longo dos anos 30, a Literatura pululou, cresceu, fermentou e surgiu um grande crítico da nossa terra, que foi Álvaro Lins. Ele começou escrevendo sobre livros do Nordeste, ainda na sua vida do Recife, até vir para aqui montar a sua Cadeira de Crítica Literária no Correio da Manhã.

Veio a guerra, que também mudou tudo ou mudou o que tinha que ser mudado. E logo depois da guerra, é que surge Afrânio Coutinho. O ano decisivo é o de 1948, quando ele começou a sua crítica em jornal. Na mesma época, no mesmo ano, ele no Diário de Notícias, hoje inexistente, e eu no Globo, com a minha Porta de Livraria, começamos a ler os livros que vinham, então, num grande número, porque era a época da euforia, não havia mais guerra, não havia mais bombas sendo atiradas pelas grandes cidades européias. Não terminaram os conflitos, mas aquela idéia de uma guerra mundial e da destruição do mundo tinha se apaziguado, e nós podíamos de novo escrever poesia, romance, embora continuando a lutar por um mundo melhor.

E foi aí que ele se destacou. Ele se destacou não só como um crítico, mas como um analista minucioso da nossa cultura. Com ele, tive seis meses de convivência na Universidade de Colúmbia, em Nova York, por volta de 1965/1966. Eu era professor visitante, dando um curso de Ensaística Brasileira, e ele dava um curso longo na Universidade, muito freqüentado, inclusive por professores de outras matérias que iam às aulas dele. Ele falava um inglês correto; diga-se que os críticos anteriores eram mestres no francês, o que era natural, a nossa cultura era francesa. Somente com a guerra e a predominância dos Estados Unidos, como possível potência mundial, dessas coisas que são transitórias, que sobem e caem, é que o inglês se tornou normal.

Lembro de uma coisa espantosa, quando um dia Afrânio me disse - havia um livro famoso na época, Seven types of ambiguity (Sete tipos de ambigüidade), que ele queria muito trazer para o Brasil, para os seus alunos. Ele pegou o livro - não tínhamos ainda o computador e mesmo as máquinas de escrever não eram tão comuns - e traduziu à mão o livro inteiro, só para usar em aula. Nem era para publicação. Com aquele entusiasmo com que ele fazia tudo.

Quero inventar uma frase para ele, uma frase que ele diria ou poderia ter dito. Se, para Fernando Pessoa, "minha pátria é a língua portuguesa", para Afrânio Coutinho, ele podia dizer: "Minha pátria é a Literatura Brasileira". Era o que o movia, o que o entusiasmava, o que o levava para a frente. Não tinha outro assunto, não tinha outra preocupação na vida, a não ser a Literatura Brasileira. E é claro que tudo que vinha de fora podia ajudar a Literatura Brasileira. As novas teses do New Criticism e uma crítica nova podiam ajudar.

Este foi o homem que, ao longo de todo esse tempo, nos alimentou em matéria de crítica. Quero, na presença de Sônia Coutinho, a mulher dedicada que esteve com ele o tempo todo, dizer: foi um grande homem, Sônia, que viveu ao teu lado - usando o tu. Foi um grande homem que acompanhaste e amaste, um grande crítico, um grande escritor.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Celso Furtado.

Acadêmico CELSO FURTADO
Senhor presidente; senhores acadêmicos; meus senhores; minhas senhoras; e em particular, minhas atenções para com a família de Afrânio Coutinho, e em particular ainda, para Sônia, a sua companheira dedicada.

Não sou uma pessoa indicada para comentar a obra de um homem como Afrânio Coutinho. Sou suficientemente lúcido para saber que ele era um grande homem de Letras, que realizou uma obra invejável por todos que pensam no Brasil, mas que exige um conhecimento, particularmente, no que diz respeito aos métodos da crítica, que aqui só os acadêmicos estão preparados para isso. Não sou um acadêmico homem de Letras, estou aqui um pouco caído de pára-quedas, um pouco intruso. Portanto, a minha opinião é a opinião do homem comum, dizendo como o homem comum pensa; o homem comum, que sou eu, pensa através de suas reações correntes, que são, muitas vezes, resultado do acaso.

Fui professor nos Estados Unidos e lá fui contemporâneo de Afrânio Coutinho. Em 1967, estávamos os dois na mesma Universidade, visitei muitas outras Universidades americanas por essa época, e me recordo das conferências que ele pronunciou na Colúmbia, porque a repercussão era considerável entre os estudantes. Os estudantes, sabendo que eu era brasileiro, vinham me felicitar por esse scholar de primeiro nível, esse homem tão completo e tão lúcido que representava a cultura brasileira.
Portanto, ele mudava a imagem de Brasil que se tinha correntemente no mundo da Universidade americana. Pude isso presenciar como testemunho externo, de fora. Assim como viajei a outras Universidades dos Estados Unidos - ele havia também passado por essas Universidades, porque visitou muitas Universidades também -, ele havia passado por todas elas, e havia sempre deixado uma impressão forte, e essa impressão forte se projetava na imagem do Brasil. E eu, como brasileirozinho, fiquei orgulhoso de Afrânio Coutinho. Era só isso que queria dizer, senhor presidente.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico padre Fernando Bastos de Ávila.

Acadêmico padre FERNANDO BASTOS DE ÁVILA
Senhor presidente; prezados colegas acadêmicos; querida família.

Pela minha formação, fui muito ocupado, durante muito tempo, pela cultura clássica greco-latina, de sorte que não tive o ensejo de conhecer, oportunamente, a obra de Afrânio Coutinho, quando fui seqüestrado por amigos para vir participar desta Academia.

Conheci Afrânio Coutinho já no meu ocaso, e eu o conheci no seu ocaso, quando Sônia o introduzia por aquela porta, e o sentava direitinho naquele canto, para ele participar de nossas sessões. Foram poucas as vezes que tive oportunidade de um contato com ele. Infelizmente, estava de viagem no sábado passado, estava fora do Rio de Janeiro, quando, no noticiário da noite, ouvi a informação da morte dele e fiquei profundamente consternado da minha ausência, porque, apesar de sermos imortais, já acompanhei a morte de seis imortais. Queria estar aqui para a missa de corpo , e não podendo, falei com Sônia ao chegar, apresentei-lhe, com os meus pêsames, a explicação da minha ausência. Ela compreendeu.
Quero reparar esta minha ausência com a celebração, amanhã, da missa de sétimo dia, às 19h30m, na Igreja de Nossa Senhora da Paz. Parece-me uma linda coincidência e um lindo símbolo, porque ele já se encontra na plenitude instantânea da paz eterna.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Evandro Lins e Silva.

Acadêmico EVANDRO LINS E SILVA
Senhor presidente; senhores acadêmicos; familiares de Afrânio Coutinho.
É muito difícil dizer mais alguma coisa sobre Afrânio Coutinho. Tudo foi dito pelos que conviveram com ele; não tive essa ventura, e sim, a de conhecê-lo, cerca de oito ou dez anos atrás, juntamente com Sônia, sua mulher, Jorge Amado e Zélia, em Lisboa. Evidentemente, tomei conhecimento da obra dele e verifiquei pelos Anais, pelo Anuário da Academia, que raramente um escritor, um acadêmico, tem tantos títulos publicados, tanta obra publicada, não apenas sobre a Crítica Literária, sobre Literatura. Em todos os setores da atividade intelectual, destacou-se Afrânio Coutinho, no reconhecimento de todos os seus colegas de Academia.

Era uma figura ímpar e de prestígio intelectual no país inteiro. Estou na situação de Celso Furtado de um pouco intruso nessas comemorações, mas o faço com a maior emoção, por uma razão: porque verifico na vida de Afrânio que ele foi um colecionador de livros, e no fim da vida, o filho dele escreveu sobre a constituição da sua Oficina de Literatura.

Já falei em biblioteca, a paixão que a vida inteira perseguiu este infatigável pesquisador, consumindo-lhe os recursos, e que parecia com sua atividade intelectual. Passo agora a mencionar uma de suas obras mais recentes, exemplo máximo de generosidade, desprendimento e expressão do espírito idealista e grandioso que sempre norteou a vida deste homem: a socialização de sua biblioteca particular de cerca de 100 mil volumes, criteriosamente selecionados, através da criação no ano de 1979, em sua casa residencial em Ipanema, da Oficina Literária Afrânio Coutinho.

Realmente, ele não só foi um homem de cultura; deixou uma obra em que ele se perpetuará, se imortalizará como um semeador de cultura, porque deixou, depois de morto, a sua biblioteca à disposição dos estudiosos, pesquisadores, para nela se abeberarem e conhecerem um grande escritor, que representou um papel muito importante no país, e cuja morte hoje todos lamentamos. Na realidade, pode-se dizer de Afrânio Coutinho que ele foi um semeador de cultura.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Murilo Melo Filho.

Acadêmico MURILO MELO FILHO
Senhor presidente; senhora Sônia Maria dos Santos Coutinho; Eduardo, Graça, Fred e demais familiares de Afrânio Coutinho; senhores acadêmicos.

Há quatro anos, quando fui visitar Herberto Sales na Clínica São Vicente, ali já encontrei internado o nosso querido Afrânio Coutinho, tendo ao lado sua família e sua mulher, Sônia, uma grande heroína. Ao longo de todos esses meses, seu estado de saúde agravou-se sempre, com intermitência de ligeiras melhoras, até chegar ao desenlace desta semana.

Senhor presidente, Afrânio foi sempre o inexcedível mestre e renovador, catedrático e dicionarista da Literatura Brasileira, autor, entre outras, de muitas obras importantes sobre Tristão de Athayde, sobre o humanismo, sobre a filosofia de Machado, sobre o Colégio Pedro II, sobre Clementino Fraga e Jorge Amado. Foi também o editor da revista Ariel, o professor visitante da Universidade de Colúmbia em Nova York, a que já se referiu, há pouco, o nobre acadêmico Celso Furtado. E o conferencista aplaudido das Universidades de Vanderbilt, Houston, Los Angeles, Buerkeley, Stanford e Georgetown, nos Estados Unidos, e de Colônia, na Alemanha.

Pertenceu a esta Academia durante trinta e oito anos, elegendo-se para a Cadeira nº 33, patrocinada por Raul Pompéia, fundada por Domício da Gama, e ocupada, sucessivamente ,por Fernando Magalhães e Luís Edmundo. Seu filho Eduardo Coutinho, aqui presente, quando entrou no nosso PEN Club, foi saudado pelo próprio pai e transcreveu, no discurso de posse, a frase de Alceu Amoroso Lima que definiu Afrânio como "o Copérnico das Letras Brasileiras". Faltava pouco tempo para que, no próximo mês de março, ele completasse os seus 90 anos de vida.

Afrânio, senhor presidente, foi um incomparável estóico diante dos penosos males que o afligiam, como se fosse um discípulo dizer não, na doutrina do pórtico. Teve espírito firme e panteísta para enfrentar uma sofrida enfermidade. Seu panteísmo identificava o mundo como uma grande realidade subordinada no processo de Deus, segundo a ética de Baruch Spinoza. A moral de Afrânio obedecia à razão e ao esforço diário para permanecer resistente à sua dor. Enquanto o coração suportou o sofrimento de uma cruel doença, ele batalhou até o último sopro de vida, como o excepcional combatente, que nos legou admirável exemplo de muito amor e de muito apego pela existência humana.

Descanse em paz, querido confrade e doutor Afrânio dos Santos Coutinho.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco.

Acadêmico AFFONSO ARINOS DE MELLO FRANCO
Senhor presidente; senhores acadêmicos; família de Afrânio Coutinho, Sônia.
Nesta Academia, muitos escritores se dedicaram ao estudo, ensino e divulgação da Literatura Brasileira. Porém, se alguns o igualaram, ninguém sobrepujou Afrânio Coutinho no duro mister da crítica, que o levou a definir-se como "um homem desagradável", "um afirmativo". O grande cidadão da nossa cultura preveniu-nos de que "ao me escolherdes para a vossa ilustre companhia, elegestes a própria controvérsia".

Afrânio entregou-se totalmente à crítica e à História literárias, bem como à organização de edições. Seu amplo preparo cultural somava-se a uma orientação doutrinária impessoal e objetiva. Lembro-me de Afonso Arinos, envolto em mil batalhas políticas, mas aspirando sempre à paz dos livros, a dizer-me, como invejava o amigo, que podia dar-se ao luxo de só ler os suplementos literários, pondo de lado o restante dos jornais.

Já o educador fez do ofício, não só instrumento de formação cultural, como também obra de criação. A visão que tinha da crítica era a de "uma disciplina racional próxima à Filosofia, e exercendo-se conforme as regras do raciocínio lógico-formal". Gerações de alunos, colegiais e universitários, ficaram a dever-lhe a própria vocação. Dirigiu ainda, por longos anos, a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se encontra, hoje, sua imensa biblioteca, antigo núcleo da Oficina Literária Afrânio Coutinho, com que ele, generosamente, apoiou tantos estudantes e professores. Congressos de Literatura, em várias cidades brasileiras, foram também beneficiados por essa atividade incansável.
Mas o seu espírito crítico assumiu conformação definitiva em longa estada profissional nos Estados Unidos, onde adotou a sistemática anglo-saxônica, pela qual "a crítica constituirá uma análise e uma avaliação da obra literária como obra de arte", sem sustentá-la em fatores externos, biográficos e sociais. No exterior, deu ainda aulas, conferências, e participou de conclaves variados. Mais de uma dezena de importantes universidades americanas usufruíram de suas palestras e seminários. Lecionou como professor visitante na França, convidado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Por outro lado, essas permanências prolongadas fora do país, para aprender e lecionar, só viriam acentuar o seu nacionalismo. "Sejamos brasileiros - escreveu -, vejamos e sintamos tudo como brasileiros (...). Aperfeiçoemos a nossa expressão, o nosso caráter. Ao invés de imitar, criemos. (...) Cumpre-nos a nós conhecer o nosso Brasil."

Ao tomar posse aqui, ele diria que "defronta-nos atualmente apenas um dilema: ser brasileiros ou antibrasileiros. (...) O que nos interessa é o Brasil, é dar solução brasileira aos nossos problemas, (...) é pensar o Brasil, afirmá-lo, consolidar-lhe as forças vitais, harmonizar-lhe a vida interior, favorecer uma existência feliz e confortável, livre de sofrimentos e angústias, para o povo". Mais adiante, afirmaria que "o Brasil está aí para que o pensemos, brasileiramente. Cabe à crítica literária uma função, que, sobre ser literária, isto é, exercer-se no contexto literário, não é menos brasileira, porquanto deve orientar-se para o Brasil, concorrendo para consolidar a sua cultura." Lamentava, porém - e a advertência guarda toda a atualidade -, "no atual estágio, (...) certa defasagem entre o progresso material e intelectual e o das instituições políticas e administrativas".

Pioneiro dos estudos de teoria e técnica literária entre nós, deixou vasta produção nos jornais e revistas. Autor de extensa bibliografia, versou, com a mesma competência, do barroco à filosofia, de Machado de Assis a Daniel Rops. E, ao estudar a obra deste historiador francês da Igreja Católica, demarcou o terreno espiritual onde pisava, afirmando que "o mundo e o homem perderam a alma, esquecendo-se de Deus".

Presidente TARCÍSIO PADILHA
O texto do acadêmico Carlos Heitor Cony será lido pelo acadêmico Arnaldo Niskier.

Acadêmico CARLOS HEITOR CONY - Lido pelo acadêmico Arnaldo Niskier.
Senhor presidente, o acadêmico Carlos Heitor Cony está num compromisso inadiável em Porto Alegre, e envia esta mensagem, mas pede que eu a dedique a toda a família de Afrânio Coutinho, e particularmente, à nossa querida professora Sônia. Foi a referência que ele fez.

"Não lembro a data, foi nos meados dos anos 70. Até então, conhecia e admirava Afrânio Coutinho pela sua atividade crítica, uma crítica conceitual, bem equipada por sólida cultura e apaixonada fidelidade à Literatura.

Naquele ano, ele voltava de uma viagem à Itália, e me procurou com dois artigos que escrevera e desejava ver publicados. Eram, os dois, sobre o barroco italiano, ele que já era mestre no barroco brasileiro. Nem precisei ler os artigos para compreender o que se passava dentro daquela sensibilidade, que abandonava a crítica e se entregava, puramente, entusiasticamente, ao fenômeno do Belo - o esplendor da verdade, segundo Platão.

Afrânio me descreveu suas visitas à Igreja onde se encontra, talvez, a maior obra de Gian Lorenzo Bernini, o Êxtase de Santa Teresa. Numa cidade de tão fundas camadas históricas, onde o genial escultor napolitano deixou a monumentalidade de sua obra, Roma Bernini hà fatta - ele me lembrou, na ocasião - Afrânio descreveu num estilo barroco, que eu lhe desconhecia, o impacto que comparei ao que sentiu Sigmund Freud quando viu, pela primeira vez, a colossal estátua do Moisés, de Michelangelo. Então, não mais ali estavam o crítico consagrado e o autor que hesitava entre o jornalismo e o romance. Os dois se tornaram irmãos no culto àquele êxtase eternizado na pedra. Afrânio destacava a mão de Santa Teresa apertando o ventre de mármore, tirava conclusões, que eu prontamente aceitei e adotei para uso próprio.

Mais tarde, já no Conselho Estadual de Cultura, fomos colegas e tínhamos como assunto preferencial o amor comum que nos uniu: Afrânio sempre falava do barroco baiano, sem desdenhar o barroco mineiro. Apesar da idade, com a saúde já em declínio, ele se renovava com entusiasmo, diante do esplendor da verdade.

Seu último voto, elegendo um novo acadêmico, foi para mim.
Nesta sessão de saudade, efêmera por ser uma sessão, é com emoção que registro a perenidade do seu exemplo, a apaixonada verdade da sua lição."

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Com a palavra, o acadêmico Ivan Junqueira.

Acadêmico IVAN JUNQUEIRA
Senhor presidente; senhores acadêmicos; familiares de Afrânio Coutinho aqui presentes, especialmente Sônia Coutinho.

Esta é a segunda vez que me vejo na circunstância de ser o último da fila e, conseqüentemente, já não há praticamente mais nada a dizer a respeito do homenageado. Tudo de importante já foi dito e repetido. Mas, como é bom repetir para que ninguém esqueça, gostaria de tocar num ponto que tem muito de perto com a minha formação literária.

Acho que não será exagero dizer-se que há uma crítica literária antes e depois de Afrânio Coutinho neste país, porque vínhamos de um Impressionismo e talvez até de um Expressionismo, que datava do início do século, havíamos passado por uma certa bagunça modernista, que nunca conseguiu definir com clareza quais os fundamentos da crítica literária que chegou a praticar, se é que chegou, e mais ou menos na metade do século, a nossa herança, em termos de crítica, era algo de problemático e duvidoso.

O aparecimento de Afrânio Coutinho é assim fundamental para quem, na segunda metade do século, haveria de se dedicar não só à crítica literária, mas também à teoria literária. E, nesse particular, Afrânio Coutinho foi tão pioneiro quanto foi na outra. Quando Afrânio traz para o Brasil a Nova Crítica, ou seja o New Criticism anglo-americano, ele traz para a nossa prática cotidiana, uma nova visão de análise do texto literário, porque ele instaura no Brasil o que, pouco depois, também haveria de fazer Óton Moacir Garcia, o que os ingleses então definiam como o grown reading, quer dizer, a leitura cerrada do texto. Não haveria mais, a partir daquele momento, que se pensar que alguma coisa estivesse fora do texto analisado.

E é essa a grande novidade que Afrânio Coutinho traz, pelo menos para uma pessoa como eu, que, desde os primeiros momentos de produção literária, se preocupou muito com o ensaísmo e com crítica. Talvez exatamente porque a minha primeira condição fosse a de poeta, e sendo a de poeta, não vejo como entender nem a própria poesia que escrevo, e muito menos a poesia que os outros escrevem, senão a respeito dessa atividade crítica, que passei a considerar como uma espécie de atividade de criação paralela.

Então, creio que a Afrânio Coutinho devo basicamente essa lição, uma lição que não é pequena, e que se cristaliza entre 1940 e 1960, através da publicação de obras absolutamente fundamentais, como é o caso da Filosofia de Machado de Assis, Aspectos da Literatura Barroca, O ensino da Literatura, Correntes Cruzadas, Por uma crítica estética, Da crítica e da nova crítica, A crítica, Introdução à Literatura no Brasil, e do monumental conjunto, em quatro alentados volumes, que é A Literatura no Brasil.

Creio que a Afrânio Coutinho, não apenas nós que fomos seus confrades, mas, sobretudo, aqueles que se debruçam sobre a Literatura, devemos esta lição. É exatamente essa lição que quero louvar, lamentando - como todos nós aqui presentes - essa perda que, usando um adjetivo já gasto, "é irreparável".

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Finalmente, com a palavra, o acadêmico Oscar Dias Corrêa.

Acadêmico OSCAR DIAS CORRÊA
Senhor presidente; eminentes confrades; família de Afrânio Coutinho.

Sabe Vossa Excelência, senhor presidente, sabe a Casa, a dificuldade com que me refiro ao companheiro morto. Pensei em não vir a esta sessão, mas meu dever era estar aqui. Redigi por isso uma única frase, que nada tem de original, mas que é apenas a idéia que a vida de Afrânio Coutinho me inspira: "A História se lembrará de muitos, mas a glória coroará a poucos com os louros da perenidade e da lembrança". Entre eles, senhor presidente, não tenho dúvida de que estará fulgindo Afrânio Coutinho, pela obra que realizou e que todas as gerações hão de estudar para conhecer as próprias origens e tradições e orgulhar-se delas.

Senhor presidente, esta é a minha palavra de saudade.

Presidente TARCÍSIO PADILHA
Primeiro, queria solicitar aos senhores acadêmicos que fizessem a gentileza de aguardar alguns momentos, enquanto a família de Afrânio Coutinho se ausentará.

Segundo, quero dizer que assumimos, de pronto, dois compromissos: um, o de fazer chegar às mãos dos familiares de Afrânio Coutinho o texto retirado da gravação de todos esses vinte e seis pronunciamentos; e um outro, em que me adianto um pouco, porque sei que o plenário me apoiará, que será a reedição da Enciclopédia da Literatura, de Afrânio Coutinho.

Senhores acadêmicos, agora o aspecto protocolar formal. Declaro vaga a Cadeira nº 33, que tem como patrono Raul Pompéia, teve como fundador Domício da Gama, e sucessores: Fernando Magalhães, Luís Edmundo e Afrânio Coutinho.




* * *







(voltar)